30 de julho de 2018

Capítulo 20

O SANTUÁRIO

Ioannes retornou a seu corpo assim que voltou ao Santuário e abriu os olhos, mirando o constante céu azul que nunca virava noite.
— Eu estava certo — ele sussurrou.
Ele havia observado a princesa de cabelos escuros durante anos, esperando por um sinal. Nas últimas vezes havia se desesperado com a possibilidade de estar errado e ter seguido uma garota sem magia alguma dentro de si.
Mas não era isso.
Uma feiticeira finalmente havia nascido para devolver a glória que uma vez tiveram. A magia que ele havia testemunhado fluir daquela garota não tinha equivalentes no mundo mortal — nem no imortal.
— Estava certo sobre o quê? — alguém perguntou.
Ioannes ficou tenso e se sentou, percebendo que até os vigilantes eram vigiados. Era outro ancião, Danaus. Embora todos os vigilantes tivessem a mesma juventude eterna e o mesmo nível de beleza, Ioannes sempre sentira que havia algo um tanto obscuro e sinistro sobre Danaus.
Danaus nunca fizera nada que fosse contra as regras implícitas do Santuário. Mas havia alguma coisa. Alguma coisa em que Ioannes não confiava.
— Estava certo de que a primavera logo chegaria — ele respondeu. — Senti até mesmo na congelada Limeros.
— A primavera chega todo ano no mundo mortal.
— Sim, e é sempre um milagre.
Os lábios de Danaus se afinaram.
— Um verdadeiro milagre seria encontrar as respostas que procuramos há tantos séculos.
— Estamos impacientes, não é?
— Se eu ainda fosse capaz de voar ao mundo mortal, acho que já saberíamos onde está a Tétrade.
— Então é uma pena que não possa mais fazer isso. — Apenas os vigilantes mais jovens eram capazes de se transformar em falcões ou, muito raramente, visitar os sonhos dos mortais. Passada uma certa idade, eles perdiam essa capacidade para sempre. — Você ainda pode deixar este reino.
— E nunca mais voltar? — Danaus deu um sorriso fino. — Isso o deixaria contente, Ioannes?
— É claro que não. Mas estou dizendo que é uma opção caso se canse de esperar que os outros encontrem as respostas.
Danaus pegou uma folha que havia caído de um carvalho. A folha não estava verde e viva, mas marrom. Era um pequeno, porém perturbador, sinal de que o Santuário estava perecendo. Ali não havia outono, época em que as folhas morrem naturalmente. Apenas verão. Apenas luz do dia. Para sempre.
Pelo menos até a Tétrade ter sido perdida. O desvanecimento havia demorado muitos séculos para começar, mas iniciara, por fim.
— Você me diria se tivesse visto algo importante — Danaus afirmou. Não era uma pergunta. — Qualquer coisa que pudesse devolver a Tétrade a seu lugar de direito.
Era ridículo pensar algo sinistro sobre um ancião, mas Ioannes não era tão jovem e ingênuo. Ele se lembrava de quando duas de suas semelhantes viraram as costas para o Santuário, matando a última feiticeira e roubando o que era tão inestimável e essencial à existência deles. Elas cederam à ganância. Ao desejo de poder. No fim das contas, aquilo as havia destruído. E aquelas ações passadas poderiam destruir tudo.
E quem disse que elas eram as únicas em quem não se devia confiar?
— É claro, Danaus. — Ioannes assentiu. — Eu direi tudo o que descobrir, mesmo que pareça algo pequeno.
Não era da natureza de um vigilante mentir, mas ele sentiu que não tinha escolha. O que havia descoberto devia ser protegido. A qualquer custo.

2 comentários:

  1. Iiih. Já to vendo que vai ser treta pra todo lado

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  2. Se ele se lembra da história então quer dizer que ele é bem velho também, não? Coitada da Lucia, é cada pretendente... kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!