15 de julho de 2018

Capítulo 20

A festa de toga não foi nem um pouco terrível.
Na realidade, foi maravilhosa.
Era isto: encontrar toda a turma de Vancouver recostando-se em móveis cobertos por lençóis, eles mesmos todos vestidos com lençóis, tudo preto e branco, cabelo preto, dentes brancos, sombras escuras, pele branca, chão negro, algodão branco. Eles eram garotos que Gansey conhecia: Henry, Cheng2, Ryang, Lee-ao-Quadrado, Koh, Rutherford, Steve Maluco. Mas aqui eram diferentes. Na escola, eles eram focados, quietos, invisíveis, estudantes-modelo, os onze-por-cento-do-nosso-corpo-discente-é-diverso-clique-no-link-para-saber-mais-sobre-o-programa-de-intercâmbio-internacional-da-Academia-Aglionby. Aqui, eles relaxavam. Eles não relaxariam na escola. Aqui, eram bravos. Eles não podiam se permitir ser bravos na escola. Aqui, eram barulhentos. Eles não confiavam em si mesmos para serem barulhentos na escola.
Era isto: Henry levando Gansey e Blue para um tour na Mansão Litchfield enquanto os outros garotos os seguiam em suas togas. Uma das coisas a respeito da Aglionby que sempre atraiu Gansey era o sentimento de uniformidade, de continuidade, de tradição, de imutabilidade. O tempo não existia ali... ou, se existia, era irrelevante. A escola havia sido povoada por alunos desde sempre, e sempre seria povoada por alunos; eles formavam uma parte de algo maior. Mas, na Mansão Litchfield, era o oposto. Era impossível não ver que cada um desses garotos tinha vindo de um lugar que não era Aglionby e seguiria para uma vida que também não era Aglionby. A mansão era uma bagunça de livros e revistas que não eram para a escola; laptops estavam abertos tanto em jogos quanto em sites de notícias. Ternos se penduravam como corpos nos vãos das portas, para um fácil acesso. Capacetes de motocicletas jogados contra bilhetes aéreos usados e caixas de revistas de agricultura. Os garotos da Mansão Litchfield já tinham vida. Tinham um passado e se lançavam além dele. Gansey se sentiu esquisito: parecia que olhava para um espelho de parque de diversões. Os detalhes errados, as cores, as mesmas.
Era isto: Blue, à beira da ofensa, falando: Não entendo por que você vive dizendo coisas terríveis sobre os coreanos. Sobre si mesmo. E Henry dizendo: Eu faço isso antes que alguém faça. É a única maneira de não ficar com raiva o tempo inteiro. E, subitamente, Blue era amiga dos garotos de Vancouver. Parecia impossível que eles a tivessem aceito tão facilmente e que ela tivesse deixado de lado sua verve irritadiça tão facilmente quanto, mas assim foi: Gansey viu o momento em que isso aconteceu. No papel, Blue não tinha nada a ver com eles. Na prática, ela tinha tudo a ver com eles. A turma de Vancouver não era como o resto do mundo, e era assim que eles queriam que fosse. Olhos famintos, sorrisos famintos, futuros famintos.
Era isto: Koh demonstrando como fazer uma toga de lençol e mandando Blue e Gansey para um quarto apinhado de coisas para se trocarem. Era Gansey educadamente virando as costas enquanto Blue se despia, e Blue virando as suas — talvez virando as suas. Era o seu ombro, e a sua clavícula, e as suas pernas, e a sua garganta, e a sua risada, a sua risada, a sua risada. Gansey não conseguia parar de olhar para ela, e ali isso não tinha importância, pois ali ninguém se importava que eles estivessem juntos. Ali ele podia brincar com seus dedos sobre os dedos dela enquanto eles paravam próximos, ela podia encostar o rosto no ombro nu de Gansey, ele podia enganchar o seu tornozelo divertidamente no tornozelo dela, ela podia se pegar com um braço em torno da cintura de Gansey.
Ali ele era incrivelmente ganancioso por aquela risada.
Era isto: pop coreano, e ópera, e hip-hop, e baladas cheias de energia dos anos 80, saindo a todo o volume de um alto-falante ao lado do computador de Henry. Era Cheng2 ficando impossivelmente chapado e falando sobre seu plano de melhorar a economia nos estados do sul. Era Henry ficando bêbado, mas não espalhafatoso, e deixando que Ryang o convencesse a jogar sinuca no chão, com tacos de lacrosse e bolas de golfe. Era Steve Maluco colocando filmes em um projetor com o volume desligado para permitir que pudessem dublá-los melhor.
Era isto: o futuro começando a pairar denso no ar, e Henry começando uma conversa ébria, tranquila, sobre se Blue gostaria ou não de viajar com ele. Blue respondendo suavemente que ela gostaria, que ela gostaria muito, e Gansey ouvindo o desejo na voz dela como se ele estivesse se desmanchando, como se os seus próprios sentimentos estivessem sendo insuportavelmente espelhados. Não posso ir junto?, perguntou Gansey. Sim, você pode se encontrar com a gente em um avião vistoso, disse Henry. Não se deixe enganar pelo penteado bacana dele, interrompeu Blue, Gansey viria de carona. E o calor encheu as cavernas vazias no coração de Gansey. Ele se sentiu conhecido.
Era isto: Gansey descendo a escada para a cozinha, Blue subindo, os dois se encontrando na metade do caminho. Era Gansey dando um passo para o lado para deixá-la passar, mas mudando de ideia. Ele pegou o braço dela, e então o resto. Ela estava quente, viva, vibrante por baixo do algodão fino; ele estava quente, vivo, vibrante por baixo do seu. Blue escorregou a mão sobre o ombro nu de Gansey, e então desceu até o peito, a palma da mão aberta sobre o esterno dele, os dedos pressionados curiosamente contra a sua pele.
Achei que você fosse mais peludo, ela sussurrou.
Desculpe te desapontar. As pernas têm um pouco mais de pelos.
As minhas também.
Era isto: rindo frouxamente contra a pele um do outro, brincando, até que abruptamente não era mais uma brincadeira, e Gansey se deteve com a sua boca perigosamente próxima à dela, e Blue se deteve com sua barriga bem junto à dele.
Era isto: Gansey dizendo, Gosto muito de você, Blue Sargent.
Era isto: o sorriso de Blue — curvo, retorcido, ridículo, aturdido. Havia muita felicidade escondida no canto daquele sorriso, e, embora seu rosto estivesse a centímetros do rosto de Gansey, um pouco dela se derramou e chegou até ele. Blue colocou o dedo no rosto dele, onde ele sabia que o seu próprio sorriso fazia uma covinha, e então eles deram as mãos e subiram de volta juntos.
Era isto: esse momento e nenhum outro, e pela primeira vez, até onde Gansey se lembrava, ele sabia como seria se sentir presente em sua própria vida.

4 comentários:

  1. Isso é meio bonito e triste, to bem confusa com meus sentimentos

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    1. essa coisa chamada seu comentário definiu meus sentimentos nesse momento.


      jo

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  2. Não sei como eles aguentam, é muito auto-controle.

    j.

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  3. Eu não vejo a hora deles podendo se beijar e um correndo pro outro e os dois se beijando muito

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Boa leitura, E SEM SPOILER!