5 de julho de 2018

Capítulo 20

Ronan levou Adam à Barns.
Desde a desastrosa festa do Dia da Independência, Ronan adquirira o hábito de frequentar regularmente a casa de sua família, voltando tarde sem nenhuma explicação. Adam jamais se intrometeria — segredos eram segredos —, mas era inegável que ele estava curioso. No entanto, parecia que agora ele estava perto de saber.
Ele sempre achara a Barns desconcertante. A propriedade da família Lynch talvez não tivesse a pátina de riqueza opulenta da casa dos Gansey, mas ela mais do que compensava por isso com um sentimento de história claustrofóbica. Os campos cravejados de celeiros eram uma ilha, intocados pelo resto do vale, semeados pela imaginação de Niall Lynch e pastoreados por seus sonhos. Era um mundo à parte.
Ronan navegou pelo acesso estreito, o cascalho cortando através de um aterro e um emaranhado de árvores retorcidas. Folhas avermelhadas de toxidendro e treliças vermelho-sangue de videiras de framboesa brilhavam entre os troncos. Todo o resto era verde ali: os dosséis das árvores densos o suficiente para bloquear o sol da tarde, a relva alta nas ribanceiras, o musgo se apegando úmido às superfícies.
E então eles tinham passado pela floresta e estavam nos vastos e protegidos campos. Ali o espaço estava ainda mais saturado: pastos verdes e dourados; celeiros vermelhos e brancos; rosas densas e misturadas de outono penduradas sobre arbustos cheios; montanhas púrpuras e sonolentas meio escondidas por trás da linha de árvores. Maçãs amarelas, reluzentes como manteiga, espiavam das árvores de um lado do acesso. Algum tipo de flor azul, improvável, sonhada, crescia descontroladamente pela relva do outro lado. Tudo era selvagem e bruto.
Mas assim eram os Lynch.
Ronan se exibiu com um cavalo de pau ao fim do acesso — Adam estendeu silenciosamente a mão para se segurar na alça no teto —, e o BMW escorregou relaxadamente até a área de estacionamento de cascalho na frente da sede branca da fazenda.
— Um dia você vai destruir uma parede — disse Adam enquanto saía do carro.
— Com certeza — concordou Ronan, descendo do carro e espiando os galhos das ameixeiras ao lado da área do estacionamento. Como sempre, Adam foi lembrado de como Ronan pertencia àquele lugar. Algo a respeito da maneira familiar como ele se portava enquanto buscava por uma fruta madura implicava que ele já havia feito isso antes muitas vezes. Era fácil compreender que Ronan havia crescido ali e ficaria velho ali. Fácil perceber como expulsá-lo de lá significava oprimir a sua alma.
Adam se permitiu um momento de meditação para imaginar um Adam Parrish criado naqueles campos em vez de num parque empoeirado na periferia de Henrietta — um Adam Parrish a quem fora autorizado desejar aquela casa só para si. Mas isso era tão impossível quanto tentar imaginar Ronan como um professor da Aglionby.
Ele não conseguia descobrir como Ronan havia aprendido a ser durão naquele lugar protegido.
Ronan encontrou duas ameixas roxo-escuras que ele gostava. Jogou uma para Adam e então inclinou o queixo para indicar ao amigo que ele devia segui-lo.
Por alguma razão, Adam colocara na cabeça que, todas as vezes em que Ronan desaparecera na Barns, estivera preparando a casa para si e Matthew. Era algo tão convincente que ele ficou surpreso quando Ronan o levou para um dos muitos celeiros que foram construídos na propriedade.
Era um celeiro longo e grande que provavelmente deveria conter cavalos e gado, mas, em vez disso, estava repleto de tralha. Uma inspeção mais atenta revelava que na realidade era uma tralha sonhada, sutilmente datada pelo pó e esmaecida.
Ronan se deslocava pelo espaço largo e escuro com naturalidade, pegando um relógio, uma lanterna, uma peça de um tecido estranho que de certa maneira doía ao olhar de Adam. Ronan encontrou uma espécie de luminária fantasmagórica em uma correia; ele a jogou sobre o ombro para levar consigo. Ele já havia cortado a sua ameixa.
Adam se deixou ficar no vão da porta, observando através dos grãos de poeira, saboreando a ameixa.
— É nisso que você andou trabalhando?
— Não, isso é do meu pai.
Ronan pegou um pequeno instrumento de cordas e o virou para que Adam pudesse ver que suas cordas eram de ouro puro.
— Olha isso.
Adam se juntou a ele. Embora ele tivesse tarefa de casa para fazer e Cabeswater para cuidar, era difícil se sentir apressado. A atmosfera no celeiro era sonolenta e atemporal, e não havia nada de incômodo em remexer aquelas maravilhas e bobagens. Algumas coisas ali eram máquinas que ainda funcionavam por meios misteriosos. Mas outras eram coisas que Niall Lynch havia sonhado e trazido à vida, pois agora elas dormiam. Eles encontraram pássaros e um gato dormindo em meio à bagunça, assim como um urso empalhado antigo que devia ter sido vivo um dia, também, pois seu peito subia e descia. Com seu criador morto, todos estavam além do despertar — a não ser, assim como a mãe de Ronan, que fossem devolvidos a Cabeswater.
Enquanto caminhavam pelo velho celeiro, Adam sentiu os olhos de Ronan o mirarem de relance e então se desviarem, com um desinteresse treinado, mas incompleto. Adam se perguntou se alguém mais notara aquilo. Parte dele gostaria que sim, e imediatamente ele se sentiu mal, pois era vaidade: Vejam, Adam Parrish é desejável, vale uma paixão, não da parte de qualquer pessoa, mas de uma pessoa como Ronan, que poderia querer Gansey ou qualquer outro, mas escolheu Adam para seus olhos famintos.
Talvez ele estivesse errado. Ele poderia estar errado.
Eu sou incognoscível, Ronan Lynch.
— Você quer ver no que eu andei trabalhando? — perguntou Ronan. Todo casual.
— Claro — respondeu Adam. Todo casual.
Pausando apenas para jogar a luz fantasmagórica sobre o poste de uma cerca a fim de buscá-la mais tarde, Ronan levou Adam através do campo úmido até um celeiro que eles já haviam visitado antes. Adam sabia o que encontraria antes de Ronan abrir a grande porta enferrujada, e dito e feito: lá dentro havia um vasto rebanho de gado de todas as cores. Como todas as outras coisas vivas naqueles celeiros, os animais dormiam. Esperavam.
Lá dentro, a luz era opaca e marrom, filtrada através de claraboias cobertas de sujeira no teto distante acima. O ambiente era quente, vivo, familiar, como pelo, bosta e umidade. Quem havia sonhado um rebanho de gado? Não era de espantar que Cabeswater fora incapaz de aparecer até que o pai de Ronan tivesse morrido. Mesmo o sonhar descuidado de Ronan e Kavinsky havia drenado a linha ley de energia o suficiente para fazer a floresta desaparecer. Eram bugigangas, drogas, carros. Não campos repletos de criaturas vivas. Não um vale inventado.
Essa era a razão por que Greenmantle não poderia ter nem um Greywaren forjado. A feroz Cabeswater também era estranhamente frágil.
Ronan chegou a uma porta dentro do celeiro; atrás dela havia um escritório andrajoso. Por toda parte havia um pó grosso o suficiente para ser terra. Registros veterinários e receitas de alimentação amarelavam sobre a escrivaninha. Uma lata de lixo continha latas de Coca-Cola antigas. Impressões sem molduras estavam presas com tachinhas nas paredes — um folheto de uma banda típica irlandesa tocando em Nova York; uma impressão antiga de algumas crianças correndo em um píer mais antigo e distante, em um país mais antigo e distante. Era algo tão diferente do que o pai de Adam prendera às paredes do seu local de trabalho que novamente Adam questionou a admiração de Ronan por ele. Alguém como ele tratar alguém como Adam como uma pessoa que valesse...
Ronan falou um palavrão ao tropeçar. Encontrou o interruptor de luz, e uma lâmpada fluorescente benevolente acendeu sobre suas cabeças.
Estava cheia de moscas mortas.
Na luz ligeiramente melhor, Adam viu trilhas limpas de pó seguindo da escrivaninha até uma cadeira de escritório junto à parede. Um cobertor — não empoeirado — repousava sobre a cadeira, e não era difícil imaginar a forma de um jovem dormindo nela. Havia algo inesperadamente solitário a respeito da imagem.
Ronan arrastou uma caixa de ferramentas de metal da parede e abriu a tampa com um barulho tremendo.
— Andei tentando despertar os sonhos do meu pai.
— O quê?
— Eles não morreram. Estão dormindo. Se eu arrastasse todos até Cabeswater, eles se levantariam e sairiam andando. Então comecei a pensar... e se eu trouxesse Cabeswater até eles?
Adam não sabia ao certo o que esperava como revelação, mas não era aquilo.
— Até as vacas.
— Alguns de nós temos família, Parrish.
Aurora estava presa a Cabeswater. É claro que Ronan gostaria que ela pudesse ir e vir. Envergonhado, Adam respondeu:
— Desculpa. Entendi.
— Não é só isso. É o Matthew... — Ronan se interrompeu, absolutamente, e Adam compreendeu. Esse era outro segredo, um que Ronan não estava pronto para contar.
Após um momento remexendo na caixa, Ronan se virou com uma esfera de vidro límpido na mão. O ar dentro tremeluzia enevoado. Era bonita, algo que você penduraria em um jardim ou na cozinha de uma velha senhora. Chamou a atenção de Adam como algo seguro. Não combinava muito com Ronan.
Ronan a segurou contra a luz. O ar dentro rolava de um lado para o outro. Talvez não fosse nem ar. Talvez um líquido. Adam podia vê-lo refletido em seus olhos azuis. Ronan disse:
— Essa foi minha primeira tentativa.
— Você sonhou isso.
— É claro.
— Hum... E Cabeswater?
Ronan soou ofendido.
— Eu pedi.
Ele pediu. Tão fácil. Como se fosse uma coisa fácil para ele se comunicar com aquela entidade que só conseguia se manifestar para Adam através de gestos grandiosos e violentos.
— No sonho, ela tinha um pouco de Cabeswater dentro de si — continuou Ronan, e entoou: — Se funciona no sonho, funciona na vida real.
— Funciona mesmo? Então me mostra.
— Imbecil. Não. Não funciona. Na realidade, ela não faz merda nenhuma. — Ronan voltou a remexer na caixa de ferramentas e tirou várias outras tentativas fracassadas, todas elas confusas. Uma faixa bruxuleante, um tufo de relva ainda crescendo de um torrão de terra, um galho bifurcado. Ele deixou Adam segurar alguns deles; todos pareciam estranhos. Pesados demais, como se a gravidade os fizesse pesar mais do que deveriam. E cheiravam vagamente familiares, como Ronan, ou como Cabeswater.
Se Adam pensasse a respeito disso — ou melhor, se não pensasse a respeito disso —, podia sentir o pulso da linha ley em cada um.
— Eu tinha uma bolsa de areia, também — disse Ronan —, mas derrubei.
Horas de sonhos. Ele havia dirigido uma hora todos os dias para estacionar seu carro, se enrolar em sua cadeira e dormir sozinho.
— Por que aqui? Por que você vem aqui fazer isso?
Em um tom de voz impessoal, Ronan disse:
— Às vezes eu sonho com vespas.
Então Adam imaginou: Ronan despertando na Indústria Monmouth, um objeto de sonho agarrado em suas mãos, vespas caminhando em seus lençóis, Gansey sem saber no outro quarto.
Não, ele não podia sonhar livremente em Monmouth.
Solitário.
— Você não tem medo de se machucar aqui sozinho? — perguntou Adam.
Ronan desdenhou. Ele, temer por sua própria vida. Mas havia algo em seus olhos, ainda. Ronan estudou as próprias mãos e admitiu:
— Eu sonhei para ele uma caixa de seringas de adrenalina. Eu sonho curas para picadas o tempo inteiro. Eu carrego uma. Deixo algumas no Pig. Eu espalhei várias em Monmouth.
Adam sentiu uma esperança feroz e cruel.
— Elas funcionam?
— Não sei. E não tem como descobrir antes de acontecer. Não vai ter uma segunda chance. — Ronan pegou dois objetos da caixa de ferramentas e ficou de pé. — Aqui. Hora de pesquisa de campo. Vamos para o laboratório.
Com um braço, ele agarrou um cobertor de lã polar azul-claro contra o corpo. No outro, pousou uma leiva de musgo, como uma toalha de garçom.
— Quer que eu carregue alguma coisa? — perguntou Adam.
— Claro que não.
Adam segurou a porta para ele.
No ambiente maior do celeiro, Ronan se demorou caminhando entre as vacas, parando para olhar suas caras ou inclinando a cabeça para observar suas marcas. Finalmente, parou perto de uma marrom-chocolate, com uma listra que descia por seu rosto amigável. Ele empurrou sua paleta imóvel com a ponta da bota e explicou:
— Funciona melhor quando elas parecem mais... não sei. Peculiares. Quando parecem com alguma coisa que eu poderia ter sonhado.
Ela parecia uma vaca para Adam.
— Então, e essa aí?
— Parece malditamente amigável. Bovina, a sábia garota. — Ele colocou o cobertor azul sobre o chão. Cuidadosamente. Então ordenou: — Sinta o pulso dela. Não fique só olhando. Pulso. No rosto dela. Ali. Ali, Parrish, meu Deus. Ali.
Adam tateou cuidadosamente o pelo facial curto da vaca, até sentir o pulso lento do animal.
Ronan ergueu a leiva de musgo e a colocou sobre a cernelha da vaca.
— E agora?
Adam não tinha certeza do que deveria ver. Ele não sentiu nada, nada, nada — ah, lá estava. O pulso da vaca havia se acelerado um pouquinho. Novamente, ele imaginou Ronan ali, sozinho, tão esperançoso por uma mudança que teria notado uma diferença muito sutil. Aquilo representava uma dedicação muito maior do que ele achara que Ronan Lynch fosse capaz de ter.
Solitário.
— Isso é o mais próximo que você chegou? — ele perguntou.
Ronan desdenhou.
— Você acha que eu me daria o trabalho de te mostrar só isso? Tem mais uma coisa. Você precisa mijar primeiro?
— Ha, ha.
— Não, sério.
— Estou bem.
Ronan se virou para o outro objeto que ele havia trazido. Não era o cobertor azul, como Adam havia esperado, mas algo enrolado dentro do cobertor. O que quer que estivesse dentro não podia ser maior que uma caixa de sapato ou um livro grande. Não parecia muito pesado.
E, se os olhos de Adam não o estavam enganando, Ronan Lynch estava com medo do objeto.
Ronan respirou fundo.
— Tudo bem, Parrish.
Ele o desenrolou.
Adam olhou.
Então desviou o olhar.
Então olhou de novo.
Era um livro, ele achou. E depois ele não sabia por que achara que era um livro; era um pássaro. Não, um planeta. Um espelho.
Não era nada disso. Era uma palavra. Uma palavra fechada na palma da mão de Ronan, que ele queria dizer em voz alta, mas não queria, mas na realidade queria...
Então Adam desviou o olhar novamente, porque não conseguia mais manter os olhos sobre o objeto. Ele estava ficando maluco tentando dar um nome para aquilo.
— O que é isso? — perguntou.
Ronan olhou para ele, de lado, com o queixo virado para longe. Ele parecia mais jovem que de costume, seu rosto suavizado pela incerteza e pela precaução. Às vezes Gansey contava histórias do Ronan que ele havia conhecido antes de Niall morrer; agora, olhando para esse Ronan falível, Adam achou que poderia acreditar nelas.
— Um pedaço de Cabeswater. Um pedaço de um sonho. É o que eu pedi. E é... é como eu acho que esse pedaço de sonho devia parecer, provavelmente... — disse Ronan.
Adam sentiu a verdade do que ele estava dizendo. Aquele objeto terrível e impossível e adorável era o que um sonho era quando não tinha um lugar para habitar. Quem era essa pessoa que conseguia sonhar um sonho com uma forma concreta? Não era de espantar que a Aglionby entediasse Ronan.
Adam olhou para o pedaço de sonho e desviou o olhar.
— Funciona? — perguntou.
A expressão de Ronan se endureceu. Ele segurou o objeto de sonho ao lado do rosto da vaca. Luz, ou algo como luz, se refletiu no queixo e nas faces de Ronan, deixando-o resoluto e belo e aterrorizante e outra pessoa.
Então ele o assoprou. Sua respiração passou pela palavra, pelo espelho, pela linha não escrita.
Adam ouviu um sussurro no ouvido. Alguma coisa se moveu e se mexeu dentro dele. Os cílios de Ronan vibraram sombriamente.
O que estamos fazendo...
A vaca se moveu.
Não muito. Mas sua cabeça se inclinou; uma orelha se mexeu rapidamente. Como se ela estivesse espantando sonolentamente uma mosca. Um músculo tremeu perto do lombo.
Os olhos de Ronan estavam abertos; fogos queimavam neles. Ele respirou novamente, e novamente a vaca deu um safanão com a orelha, e os lábios dela ficaram tensos.
Mas ela não despertou nem se levantou.
Ronan deu um passo para trás, escondendo o sonho da visão enlouquecida de Adam.
— Ainda está faltando alguma coisa — disse Ronan. — Me diz o que está faltando.
— Talvez seja simplesmente impossível despertar o sonho de outra pessoa.
Ronan balançou a cabeça. Ele não se importava se aquilo era impossível. Ele o faria de qualquer jeito.
Adam cedeu.
— Energia. É necessária muita energia. O que eu mais faço quando reparo a linha ley é criar conexões melhores para que a energia possa fluir de maneira mais eficiente. Talvez você possa encontrar um jeito de direcionar uma ponta da linha para cá.
— Já pensei nisso. Não estou interessado. Não quero fazer uma gaiola maior. Eu quero abrir a porta.
Eles olharam um para o outro. Adam, claro e cuidadoso; Ronan, escuro e incendiário. Aquele era Ronan em seu momento mais verdadeiro.
— Por quê? Me conta a verdadeira razão — Adam pediu.
— O Matthew... — Ronan começou de novo e parou de novo.
Adam esperou.
— O Matthew é meu. Ele é um dos meus.
Adam não compreendeu.
— Eu sonhei o Matthew, Adam! — Ronan estava bravo. Cada uma de suas emoções que não era felicidade era raiva. — Isso significa que quando... se algo acontecer comigo, ele vai ficar que nem eles. Que nem a minha mãe.
Todas as memórias que Adam possuía de Ronan e de seu irmão mais novo assumiram uma moldura renovada. A devoção incansável de Ronan. A semelhança de Matthew com Aurora, ela mesma uma criatura de sonhos. A eterna posição de Declan como um estranho, nem um sonhador, nem um sonho.
Apenas metade da família sobrevivente de Ronan era real.
— O Declan me contou — disse Ronan. — Alguns domingos atrás.
Declan saíra de casa para fazer faculdade em Washington, mas ainda dirigia quatro horas todos os domingos para ir à igreja com os irmãos, um gesto tão extravagante que até Ronan parecia forçado a admitir que era gentil.
— Você não sabia?
— Eu tinha três anos. O que eu ia saber?
Ronan se virou, cílios baixos sobre os olhos, expressão escondida, oprimido por ter nascido e não sido feito.
Solitário.
Adam suspirou e sentou ao lado da vaca, recostando-se contra seu corpo quente, deixando que sua respiração lenta o erguesse. Após um momento, Ronan escorregou ao lado dele e os dois miraram os adormecidos. Adam sentiu Ronan olhar para ele de relance e então desviar o olhar. Seus ombros estavam próximos. No alto, a chuva começou a bater no telhado novamente, mais uma tempestade súbita. Possivelmente culpa deles. Possivelmente não.
— Greenmantle — disse Ronan abruptamente. — A teia dele. Eu quero enrolar em volta do pescoço dele.
— Mas o sr. Cinzento está certo. Você não pode matar o Greenmantle.
— Eu não quero matar o cara. Quero fazer com ele o que ele está ameaçando fazer com o sr. Cinzento. Mostrar que eu posso tornar a vida dele um inferno. Se eu posso sonhar isso — Ronan inclinou o queixo na direção do cobertor que continha seu objeto de sonho —, certamente posso sonhar algo para chantageá-lo.
Adam considerou essa opção. Que dificuldade existiria em tramar algo para alguém, se você pudesse criar qualquer tipo de prova de que precisasse? Algo que Greenmantle não pudesse desfazer e vir atrás deles duas vezes mais perigoso.
— Você é mais inteligente do que eu — disse Ronan. — Descubra você.
Adam fez um ruído de descrença.
— Você não acabou de me pedir para investigar o Greenmantle no meu tempo livre?
— Sim, e agora estou dizendo por que te pedi isso.
— Por que eu?
Ronan riu subitamente. Aquele som, tão tortuoso, alegre e terrível quanto o sonho em sua mão, deveria ter despertado aquele gado se nada mais despertasse.
— Ouvi dizer que, se você quer que magia seja feita — ele disse —, deve pedir para um mágico fazer.

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