4 de julho de 2018

Capítulo 2

Adam Parrish era solitário.
Não existe uma boa palavra para o oposto de solitário. Você poderia ficar tentado a sugerir contente ou sociável, mas o fato de essas duas palavras trazerem definições que não se relacionam demonstra perfeitamente por que solitário não pode ser apropriadamente refletido. A palavra não significa solidão, tampouco sozinho nem , embora solitário possa conter todas essas palavras em si mesma.
Solitário significa um estado de estar à parte. De ser outro. Um tanto só.
Adam nem sempre estava sozinho, mas sempre estava solitário. Mesmo em grupo, aos poucos ele aperfeiçoava a capacidade de se manter em separado. Era mais fácil do que se poderia esperar; os outros permitiam que ele agisse assim. Ele sabia que estava diferente desde que se aproximara mais da linha ley naquele verão. Adam era ele mesmo, mas mais poderoso. Ele mesmo, mas menos humano.
Se Adam estivesse na pele deles, também se observaria silenciosamente se afastar.
Era melhor assim. Ele não brigava com ninguém havia já um bom tempo. E não ficava bravo fazia semanas.
Agora, no dia seguinte à excursão pela caverna dos corvos, Adam dirigiu seu carrinho pequeno e barato para longe de Henrietta, a fim de realizar o trabalho de Cabeswater. Através da sola dos sapatos, ele sentia o pulso lento da linha ley. Se ele não se concentrasse ativamente nela, seu batimento cardíaco entraria inconscientemente no mesmo ritmo da linha.
Havia algo confortador e angustiante a respeito da maneira como ela se enlaçava através dele agora; ele não conseguia mais dizer se era meramente um amigo poderoso ou se o poder na realidade era agora ele mesmo.
Desconfiado, Adam olhou para o marcador do tanque de gasolina. O carro conseguiria voltar, pensou, se ele não precisasse dirigir longe demais montanhas outonais adentro. Ele ainda não sabia ao certo o que deveria fazer para Cabeswater. Suas necessidades chegavam a Adam em noites agitadas e dias que pareciam ferroá-lo, lentamente se tornando visíveis como algo flutuando até a superfície de um lago. O sentimento atual, uma sensação incômoda de algo por fazer, não era realmente claro ainda, mas as aulas estavam prestes a começar, e Adam desejava que isso se resolvesse antes. Naquela manhã, ele forrara a pia do banheiro com papel laminado, enchera a cuba de água e tentara buscar uma resposta através da divinação.
Mas conseguira apenas uma visão rápida de uma vaga localização.
O resto vai vir até mim quando eu me aproximar. Provavelmente.
No entanto, em vez disso, à medida que Adam se aproximava, sua mente continuava derivando de volta para a voz de Gansey na caverna, no dia anterior. A nota trêmula que havia nela. O medo — um medo tão profundo que Gansey não conseguia sair do poço, embora não houvesse nenhum obstáculo físico que o impedisse de fazer isso.
Até então, ele nunca soubera que Richard Gansey III sabia ser um covarde.
Adam se lembrou de ter agachado no chão da cozinha do trailer de seus pais, dizendo a si mesmo para seguir o conselho seguidamente repetido por Gansey para partir. Só coloque o que você precisa no carro, Adam.
Mas ele havia ficado. Pairando no poço da fúria de seu pai. Um covarde também.
Adam sentia que precisava reconfigurar cada conversa que já tivera com Gansey à luz desse novo conhecimento.
Quando o acesso para a Skyline Drive apareceu diante dele, seus pensamentos mudaram abruptamente para Cabeswater. Adam não estivera no parque, mas tinha o conhecimento de uma vida inteira em Henrietta de que se tratava de um parque nacional que se estendia ao longo das montanhas Blue Ridge, seguindo a linha ley com uma precisão quase sinistra. Na frente dele, três pistas davam para três cabines marrons baixas. Uma fila curta de carros esperava.
Seu olhar encontrou a placa com o valor das entradas. Ele não havia se dado conta de que precisava pagar para entrar. Quinze dólares.
Embora Adam não tivesse sido capaz de apontar uma localização precisa para a empreitada de Cabeswater, tinha certeza de que ela se encontrava do outro lado daquelas cabines. Não havia outra maneira de entrar ali.
Mas ele também tinha conhecimento do conteúdo de seus bolsos, e não eram quinze dólares.
Eu posso voltar outro dia.
Ele estava tão cansado de fazer as coisas outro dia, de outro jeito, de um jeito mais barato, num dia em que Gansey pudesse aparar as arestas.
Aquilo era algo que ele devia fazer sozinho, com seu poder como o mago, tirado da linha ley.
Mas a linha ley não conseguia fazê-lo passar pelo guichê de pagamento.
Se Gansey estivesse ali, teria jogado as notas como quem não quer nada pela janela do Camaro. Ele não teria nem pensado a respeito.
Um dia, Adam pensou. Um dia.
Enquanto esperava na fila, Adam tirou a carteira e então, quando ela fracassou em produzir dinheiro suficiente, começou a vasculhar debaixo dos assentos procurando algum trocado. Era um momento que teria sido ao mesmo tempo mais fácil e pior se ele estivesse com Gansey, Ronan e Blue. Porque então se criaria uma dívida, e aqueles que tinham assegurariam que não era necessário serem pagos de volta, enquanto aqueles que não tinham insistiriam que era.
Mas, tendo em vista que se tratava apenas de Adam — Adam, o solitário —, ele só encarou silenciosamente a soma escassa que havia conseguido reunir.
Doze dólares e trinta e oito centavos.
Ele não imploraria na cabine. Adam tinha muito pouco de qualquer coisa, exceto sua maldita dignidade, e não conseguia reunir coragem para passar aquilo pela janela do motorista.
Teria de ser outro dia.
Ele não ficou bravo. Não havia ninguém com quem ficar bravo. Apenas se permitiu um breve momento para recostar a têmpora contra a janela lateral do motorista, e então saiu da fila e deu ré na direção do acostamento para fazer o retorno.
Quando o fez, sua atenção foi atraída para os veículos ainda na fila.
Dois dos carros eram exatamente o que Adam imaginava: uma minivan com uma jovem família e um sedã com um casal em idade universitária rindo. Mas havia algo de errado no terceiro carro. Era um carro de aluguel — ele podia ver o adesivo com o código de barras colado no canto do para-brisa.
Talvez isso não fosse estranho; um turista poderia vir de avião e visitar o parque. Mas no painel havia um equipamento com que Adam estava muito familiarizado: um leitor de frequência eletromagnética. Outro equipamento estava ao lado, embora ele não tivesse certeza do que era. Um geofone, talvez. O tipo de ferramenta que Gansey e os outros tinham usado em sua caçada pela linha ley. O tipo que eles tinham usado para encontrar Cabeswater.
Então ele piscou, e o painel do carro estava vazio. Sempre estivera vazio. Era apenas um carro de aluguel com uma família entediada dentro. Um mês atrás, Adam não teria compreendido por que estava vendo coisas que não eram reais. Mas agora ele conhecia Cabeswater melhor e compreendia que o que acabara de ver era real — apenas real em um lugar diferente, ou em uma época diferente.
Alguém mais tinha vindo para Henrietta procurar a linha ley.

2 comentários:

  1. Af, meu Deus, todo livro vai ser alguém diferente competindo com eles pela energia das linhas ley, meu Lorde Merlin? Pelo Anjo...

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  2. Sempre que tem um desses momentos com o Adam, só me vem na cabeça a música "essa é pra você" da clarice falcão, só que em vez de "meu amor" é "adam" e em vez de "namoro" é "respeito"
    pra quem quiser ouvir
    https://www.youtube.com/watch?v=4WryP4KxHaU
    Melhore Adam, você é insuportável

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Boa leitura, E SEM SPOILER!