30 de julho de 2018

Capítulo 1

PAELSIA
Dezesseis anos depois

— Uma vida sem vinho e beleza não merece ser vivida. Não concorda, princesa?
Aron passou o braço pelos ombros de Cleo enquanto o grupo de quatro pessoas andava pelo caminho seco e rochoso.
Eles estavam em terra há menos de duas horas e ele já estava bêbado, fato nada surpreendente quando se tratava de Aron.
Os olhos de Cleo se fixaram no guarda do palácio que os acompanhava. O olhar dele parecia reprovar a proximidade entre Aron e a princesa de Auranos. Mas o guarda não precisava se preocupar. Apesar da sofisticada adaga cravada de joias que Aron sempre levava pendurada no cinto, ele era menos perigoso do que uma borboleta. Uma borboleta bêbada.
— Concordo plenamente — disse ela, mentindo um pouco.
— Já estamos chegando? — Mira perguntou. A bela menina com cabelos longos e avermelhados e uma pele perfeita era amiga de Cleo e dama de companhia da irmã mais velha da princesa. Quando Emilia decidiu ficar em casa por conta de uma dor de cabeça repentina, ela insistiu que Mira acompanhasse Cleo no passeio. Quando o navio chegara ao porto, alguns amigos decidiram permanecer no conforto da embarcação enquanto Cleo e Mira se juntaram a Aron naquela excursão a uma vila próxima para encontrar a garrafa de vinho “perfeita”. As adegas do palácio armazenavam milhares de garrafas de vinho de Auranos e Paelsia, mas Aron havia ouvido falar de uma vinícola específica que, supostamente, tinha um produto sem igual. A seu pedido, Cleo emprestou um dos navios do pai e convidou vários amigos para uma viagem a Paelsia apenas para procurar a tal garrafa ideal.
— Você devia perguntar a Aron. É ele que está conduzindo este passeio. — Cleo puxou o manto de veludo com bordas de pele para bloquear o frio. Embora o chão estivesse limpo, alguns leves flocos de neve flutuavam pelo caminho cheio de pedras. Paelsia ficava mais ao norte do que Auranos, mas a temperatura do lugar ainda assim a surpreendeu. Auranos tinha clima quente e temperado, mesmo nos meses mais gélidos de inverno. Tinha colinas verdes, oliveiras robustas e vários hectares de terras cultiváveis. Paelsia, por sua vez, parecia poeirenta e cinza até onde a vista alcançava.
— Já estamos chegando? — Aron repetiu. — Se estamos chegando? Mira, meu doce, coisas boas vêm àqueles que esperam. Lembre-se disso.
— Meu senhor, sou a pessoa mais paciente que conheço. Mas meus pés estão doendo. — Ela atenuou a reclamação com um sorriso.
— O dia está lindo e eu tenho a sorte de estar acompanhado de duas meninas lindas. Devemos agradecer à deusa por esse esplendor.
Olhando para o guarda, Cleo percebeu que ele revirou os olhos por um instante. Quando notou que ela o havia visto, ele não desviou o olhar de imediato, como faria qualquer outro guarda. Ele continuou olhando com uma obstinação que a intrigou. Ela se deu conta de que não havia visto — ou pelo menos notado — aquele guarda antes.
— Qual é o seu nome? — Ela se dirigiu a ele.
— Theon Ranus, vossa alteza.
— Bem, Theon, você tem algo a acrescentar à nossa discussão sobre o quanto caminhamos esta tarde?
Aron gargalhou e bebeu de seu cantil.
— Não, princesa.
— Estou surpresa, já que é o único que precisará carregar as caixas de vinho até o navio.
— É meu dever e honra servi-la.
Cleo o observou por um instante. Os cabelos dele eram cor de bronze escuro, a pele, morena e lisa. Ele parecia mais um de seus amigos ricos que esperavam no navio do que um guarda que o rei insistira que os acompanhasse na viagem.
Aron devia estar pensando a mesma coisa.
— Você parece jovem para um guarda de palácio. — Suas palavras se aglomeravam ebriamente enquanto ele encarava Theon com os olhos semicerrados. — Você não deve ser muito mais velho do que eu.
— Tenho dezoito anos, meu senhor.
Aron bufou:
— Admito meu erro. Você é bem mais velho do que eu. Muito.
— Um ano — lembrou Cleo.
— Um ano pode ser uma bela eternidade. — Aron forçou um riso. — Pretendo me apegar à minha juventude e falta de responsabilidade pelo último ano que me resta.
Cleo ignorou Aron, pois o nome do guarda lhe fez lembrar uma coisa. Ela havia escutado, por acaso, seu pai falar algo sobre a família Ranus ao sair de uma reunião do conselho. O pai de Theon havia morrido há apenas uma semana, ao cair de um cavalo. Ele quebrou o pescoço na hora.
— Minhas condolências pela morte de seu pai — ela disse com sinceridade. — Simon Ranus era muito respeitado como guarda pessoal do rei.
Theon fez um gesto rígido de reconhecimento com a cabeça.
— Era um trabalho que ele exercia com muito orgulho. E um posto para o qual espero ter a honra de ser considerado quando o rei Corvin escolher um substituto. — Theon franziu a testa como se não esperasse que ela soubesse da morte de seu pai. Havia uma ponta de pesar em seus olhos escuros. — Obrigado pelas gentis palavras, vossa alteza.
Aron bufou alto e Cleo lhe lançou um olhar de reprovação.
— Ele era um bom pai? — ela perguntou.
— O melhor de todos. Ele me ensinou tudo o que sei desde o momento em que consegui empunhar uma espada.
Ela assentiu, esboçando compreensão.
— Então o conhecimento dele continuará vivo por meio de você.
Agora que a beleza morena do jovem guarda havia chamado sua atenção, era difícil voltar a olhar para Aron, cuja figura delgada e pele pálida denunciavam uma vida passada em ambiente fechado. Os ombros de Theon eram largos, seus braços e peito eram musculosos e ele preenchia o uniforme azul-escuro da guarda do palácio melhor do que ela jamais imaginou ser possível.
Sentindo-se culpada, Cleo se forçou a voltar a atenção a seus amigos.
— Aron, você tem mais meia hora até voltarmos para o navio. Estamos fazendo os outros esperar.
Auranianos adoravam uma boa festa, mas não eram conhecidos por sua paciência. E já que tinham sido levados às docas paelsianas pelo navio do rei, teriam que ficar esperando até que Cleo voltasse.
— O mercado é mais para a frente — Aron respondeu, apontando. Cleo e Mira viram um aglomerado de bancas de madeira e velhas barracas coloridas, talvez a uns dez minutos de caminhada. Era o primeiro sinal de gente desde que haviam passado por um bando de crianças esfarrapadas reunidas ao redor de uma fogueira, havia uma hora. — Você logo verá que a viagem valeu a pena.
Diziam que o vinho paelsiano era uma bebida digna da deusa. Além de ser delicioso, suave, impossível de encontrar em qualquer outra terra, seus efeitos não provocavam mal-estar ou dores de cabeça no dia seguinte, independente da quantidade consumida. Alguns diziam que havia uma mágica da terra muito forte no solo de Paelsia, e nas próprias uvas, para que fossem tão perfeitas em uma região com tantas imperfeições.
Cleo não pretendia provar. Ela não bebia mais vinho — não bebia há muitos meses. Antes disso, havia consumido muito vinho auraniano, cujo sabor não era muito melhor que o do vinagre. Mas as pessoas — pelo menos Cleo — não bebiam pelo sabor, e sim pelos resultados inebriantes, a sensação de não ter preocupação alguma. Aquela sensação, sem uma âncora para manter a pessoa próxima da margem, poderia deixá-la à deriva em território perigoso. E Cleo não pretendia bebericar nada mais forte do que água ou suco de pêssego.
Cleo observava Aron esvaziar seu cantil. Ele sempre bebia a parte dele e a dela e não se desculpava por nada que fazia sob a influência do álcool. Apesar dos defeitos, muitos na corte o consideravam o rapaz que o rei escolheria como o futuro marido de Cleo. A ideia a fazia estremecer, apesar de ela ainda mantê-lo próximo. Aron conhecia um segredo seu. Mesmo não o tendo mencionado há vários meses, Cleo tinha certeza de que ele não o havia esquecido. E nunca esqueceria.
A revelação desse segredo a destruiria.
Por isso Cleo o tolerava socialmente com um sorriso nos lábios. Ninguém imaginaria que ela o odiava.
— Chegamos — Aron anunciou ao adentrarem os portões do mercado da vila. Depois das bancas, à direita, Cleo viu umas pequenas casas e chalés. Embora de aparência bem menos próspera que as fazendas do interior auraniano, Cleo notou com surpresa que as pequenas estruturas de barro com telhado de palha e janelas diminutas pareciam alinhadas e bem cuidadas, destoando da impressão que ela tinha de Paelsia. Aquele era um território de camponeses governado não por um rei, mas por um líder, que, segundo boatos, era um feiticeiro poderoso. Apesar da proximidade entre Paelsia e Auranos, Cleo quase nunca parava para pensar em seus vizinhos do norte, exceto por um vago interesse em histórias divertidas sobre os paelsianos “selvagens”.
Aron parou diante de uma banca coberta de tecido roxo escuro que ia até o chão poeirento.
Mira suspirou aliviada:
— Finalmente.
Cleo se virou para a esquerda e foi cumprimentada por um par de brilhantes olhos negros e um rosto moreno e enrugado. Por instinto, deu um passo para trás e sentiu Theon firme e confortavelmente próximo, atrás dela. O homem parecia bruto, até mesmo perigoso, assim como outros que haviam cruzado o caminho deles desde que chegaram a Paelsia. O dente da frente do vendedor de vinho estava lascado, mas era branco à luz do sol forte. Ele usava roupas simples, feitas de linho e pele de carneiro gasta, e uma grossa túnica de lã para se aquecer. Constrangida, Cleo puxou o manto adornado com pele de zibelina para mais perto de seu vestido de seda azul-clara, bordado com ouro.
Aron olhou para o homem com interesse.
— Você é Silas Agallon?
— Sou.
— Ótimo. Hoje é seu dia de sorte, Silas. Ouvi dizer que seu vinho é o melhor de Paelsia.
— Ouviu bem.
Uma adorável moça de cabelos escuros surgiu dos fundos da banca.
— Meu pai é um vinicultor talentoso.
— Esta é Felicia, minha filha. — Silas apontou para a moça. — Uma filha que neste exato momento devia estar se arrumando para se casar.
Ela riu:
— E deixar o senhor carregando caixas de vinho o dia inteiro? Vim tentar convencê-lo a fechar a banca mais cedo.
— Talvez. — O brilho de satisfação nos olhos escuros do vendedor de vinho transformou-se em desdém quando olhou para as roupas finas de Aron. — E você deve ser…?
— Você e sua adorável filha têm o grande privilégio de serem apresentados à sua alteza real, princesa Cleiona Bellos de Auranos. — Aron apontou para ela e depois para Mira. — Esta é Lady Mira Cassian. E eu sou Aron Lagaris. Meu pai é senhor da Encosta dos Anciãos, no sul de Auranos.
A filha do vendedor de vinho olhou para Cleo, surpresa, e baixou a cabeça com respeito.
— É uma honra, vossa alteza.
— Sim, é uma honra — concordou Silas, e Cleo não detectou sarcasmo em sua voz. — A realeza de Auranos ou Limeros quase nunca visita nossa humilde vila. Não me lembro qual foi a última vez. Ficarei honrado em lhe dar uma amostra antes de discutirmos a compra, vossa alteza.
Cleo negou e sorriu.
— É Aron que está interessado em sua mercadoria. Eu só vim acompanhá-lo até aqui.
O vendedor de vinho pareceu decepcionado, até mesmo um pouco magoado.
— Ainda assim, seria uma grande honra se provasse meu vinho. Quem sabe para brindar ao casamento de minha filha?
Como poderia recusar um pedido como aquele? Ela concordou, tentando esconder sua relutância.
— É claro. Será um prazer.
Quanto antes ela bebesse, mais rápido poderiam ir embora do mercado. Ainda que fosse colorido e movimentado, o cheiro não era nada bom — como se o odor de uma fossa próxima estivesse no ar e não houvesse fragrâncias ou flores para encobrir o fedor. Apesar da empolgação de Felicia por seu casamento iminente, a pobreza daquela terra e daquelas pessoas era perturbadora. Talvez Cleo devesse ter ficado no navio enquanto Aron buscava vinho para seus amigos.
Tudo o que ela sabia sobre a pequena e pobre Paelsia é que tinha uma riqueza que nenhum dos reinos vizinhos poderia tomar. Em solo paelsiano, tão próximo do mar, cultivavam-se vinhedos sem igual. Muitos atribuíam o feito à magia da terra. Cleo havia ouvido histórias de videiras roubadas dali que secaram e morreram assim que cruzaram a fronteira.
— Vocês serão meus últimos fregueses — Silas afirmou. — Depois atenderei o pedido de minha filha e fecharei a banca para me preparar para o casamento, ao anoitecer.
— Minhas felicitações a ambos — Aron disse, sem interesse, enquanto passava os olhos pelas garrafas em exposição, com os lábios apertados. — Tem taças apropriadas para nossa degustação?
— É claro que sim. — Silas foi até a carroça e vasculhou uma frágil caixa de madeira. Ele pegou três taças que refletiam a luz do sol e depois tirou a rolha de uma garrafa de vinho. Um líquido claro, cor de âmbar, escorreu nas taças, e a primeira foi oferecida a Cleo. Theon chegou de repente ao lado de Cleo, arrancando a taça das mãos do vendedor de vinho antes que a garota a tocasse. O olhar obscuro no rosto do guarda fez Silas dar um passo trêmulo para trás e trocar olhares com sua filha.
Cleo perdeu o fôlego, surpresa.
— O que você está fazendo?
— Você provaria algo oferecido por um estranho sem pensar duas vezes? — perguntou Theon, bruscamente.
— Não está envenenado.
Ele olhou dentro da taça.
— E você tem certeza disso?
Ela olhou para ele, impaciente. Ele achava mesmo que alguém podia envenená-la? Por quê? A paz entre as terras já durava mais de um século. Não havia ameaça ali. Ter um guarda do palácio acompanhando-a naquela excursão era mais para agradar seu pai superprotetor do que por uma real necessidade.
— Está bem — ela acenou. — Fique à vontade para ser meu degustador. Prometo não beber nada se você cair morto.
— Ah, que ridículo — resmungou Aron. Ele inclinou sua taça e a esvaziou sem pensar duas vezes.
Cleo olhou para ele por um instante.
— E então? Está morrendo?
Ele estava com os olhos fechados, saboreando.
— Só se for de sede.
Ela voltou a atenção a Theon e sorriu, ridicularizando-o um pouco.
— Posso pegar minha taça de volta agora? Ou acha que o vendedor envenenou cada uma delas?
— É claro que não. Por favor, desfrute. — Ele estendeu a taça para que ela a pegasse. Os olhos escuros de Silas demonstravam mais constrangimento do que irritação pela cena que o guarda havia provocado.
Cleo tentou disfarçar quando percebeu que a limpeza da taça era questionável.
— Tenho certeza de que está delicioso.
O vendedor de vinho parecia agradecido. Theon se afastou e ficou do lado direito da carroça, relaxado, porém atento. E Cleo achava que seu pai era superprotetor.
De canto de olho, ela viu Aron virar o copo e esvaziar a segunda amostra que a filha do vendedor lhe havia servido.
— Incrível. Extraordinário. Exatamente como me disseram.
Mira deu um gole mais contido e logo ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— É maravilhoso.
Certo. Sua vez. Hesitante, Cleo provou o líquido. Assim que tocou sua língua, ela ficou consternada. Não por estar estragado, mas por ser delicioso — doce, suave, incomparável a qualquer coisa que tivesse provado antes. Ela logo sentiu vontade de tomar mais. O coração começou a bater mais rápido. Mais alguns goles foram suficientes para esvaziar a taça, e ela olhou para os amigos. O mundo de repente parecia brilhar com halos dourados e seus companheiros pareciam mais belos do que já eram. Aron ficou um pouco menos odiável a seus olhos.
E Theon — apesar do comportamento autoritário — também estava incrivelmente bonito.
O vinho era perigoso, não restavam dúvidas. Valia qualquer dinheiro que o vendedor pedisse. E Cleo precisava ficar o mais longe possível dele, naquele momento e no futuro.
— Seu vinho é muito bom — ela disse em voz alta, tentando não parecer muito entusiasmada. Ela queria pedir mais uma taça, mas engoliu as palavras.
Silas ficou radiante.
— Fico feliz em ouvir isso.
Felicia assentiu.
— Como eu disse, meu pai é um gênio.
— Sim, acho que vale a pena comprar seu vinho — Aron resmungou. Ele havia bebido o caminho todo do cantil dourado que sempre carregava. Àquele ponto, era surpreendente que continuasse em pé sem ajuda. — Quero levar quatro caixas hoje e mandar entregar mais uma dúzia em minha vila.
Os olhos de Silas se acenderam.
— Podemos providenciar isso, com certeza.
— Eu lhe pagarei quinze cêntimos auranianos por caixa.
A pele morena do vendedor empalideceu.
— Mas cada caixa vale pelo menos quarenta. Já cheguei a receber até cinquenta.
Os lábios de Aron se afinaram.
— Quando? Há cinco anos? Não há compradores o suficiente nos dias de hoje para que você ganhe tanto dinheiro. Limeros não tem sido um bom freguês nos últimos anos, não é? Importar vinho caro está no fim da lista de prioridades, com todos os problemas econômicos. Então sobra Auranos, porque todos sabem que seus compatriotas abandonados pela deusa não têm nem um tostão furado. Quinze por caixa é minha última oferta. Considerando que quero dezesseis caixas — e talvez mais no futuro —, eu diria que foi um bom negócio. Esse dinheiro não seria um belo presente para dar à sua filha no dia do casamento? Hein, Felicia? Não seria melhor do que fechar a banca mais cedo e não ganhar nada?
Felicia mordeu o lábio inferior, juntando as sobrancelhas.
— É melhor do que nada. Sei que o casamento está custando muito, mas… eu não sei. Pai?
Silas estava prestes a dizer algo, mas hesitou. Cleo estava prestando pouca atenção, mais concentrada em tentar resistir ao ímpeto de beber da taça que Silas havia completado para ela.
Aron adorava negociar. Era um passatempo dele conseguir o melhor preço possível, independente do que estivesse comprando.
— Não quero desrespeitá-lo, de modo algum — Silas disse, apertando as mãos. — Estaria disposto a aumentar para vinte e cinco cêntimos por caixa?
— Não. Não estaria. — Aron verificava as unhas das mãos. — Por melhor que seja o seu vinho, sei que existem muitos outros vendedores nesse movimentado mercado, assim como no caminho de volta para o navio, que ficariam mais do que felizes em aceitar minha oferta. Posso fazer negócio com eles se preferir perder essa venda. É isso que você quer?
— Não, eu… — Silas engoliu, com a testa enrugada. — Eu quero vender meu vinho. É por isso que estou aqui. Mas por quinze cêntimos…
— Tenho uma ideia melhor. Por que não mudamos para catorze cêntimos por caixa? — Uma ponta de malícia apareceu nos olhos verdes de Aron. — E você tem dez segundos para aceitar, ou minha oferta cai mais um cêntimo.
Mira desviou os olhos do debate, constrangida. Cleo abriu a boca — então, lembrando-se do que Aron poderia fazer com seu segredo se falasse algo, fechou-a. Ele estava determinado a comprar o vinho pelo menor preço que pudesse. E não por não poder pagar mais, já que Cleo sabia que ele carregava dinheiro mais do que suficiente para comprar muitas caixas, até mesmo pelo preço mais alto.
— Está bem — Silas disse entredentes, embora aquilo parecesse feri-lo. Ele olhou rapidamente para Felicia antes de voltar sua atenção a Aron. — Dezesseis caixas a catorze cada. Darei à minha filha o casamento que ela merece.
— Excelente. Como nós auranianos sempre afirmamos… — Com um sorrisinho de vitória, Aron enfiou a mão no bolso e tirou um bolo de notas, contando-as na mão estendida do homem. Ficou mais do que óbvio que a soma total era apenas uma pequena porcentagem do que Aron levava consigo. Pelo olhar de ultraje nos olhos de Silas, o insulto não passou despercebido. — … Uvas — continuou Aron — nunca faltarão para alimentar sua nação.
Dois indivíduos se aproximaram da banca pela esquerda de Cleo.
— Felicia? — perguntou uma voz grave. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar se arrumando com suas amigas?
— Já vou, Tomas — ela sussurrou. — Já estamos terminando aqui.
Cleo olhou para a esquerda. Os dois rapazes que haviam se aproximado da banca tinham cabelos escuros, quase pretos. Sobrancelhas inclinadas sobre olhos cor de cobre. Eram altos, tinham ombros largos e eram muito bronzeados. Tomas, o mais velho dos dois, com vinte e poucos anos, observava o pai e a irmã.
— Aconteceu alguma coisa errada?
— Errada? — perguntou Silas por entre os dentes cerrados. — É claro que não. Estou fazendo uma transação. Só isso.
— O senhor está mentindo. Está aflito, dá pra ver.
— Não estou.
O outro rapaz lançou um olhar obscuro sobre Aron e depois sobre Cleo e Mira.
— Essas pessoas estão tentando enganar o senhor, pai?
— Jonas — Silas disse, cansado —, isso não é da sua conta.
— É da minha conta, pai. Quanto esse homem… — Jonas passou os olhos por Aron com uma antipatia nada disfarçada — concordou em lhe pagar?
— Catorze a caixa — Aron respondeu com indiferença. — Um preço justo que seu pai estava mais do que feliz em aceitar.
— Catorze? — esbravejou Jonas. — Como ousa insultá-lo dessa forma?
Tomas agarrou a camisa de Jonas e o puxou para trás.
— Acalme-se.
Os olhos escuros de Jonas queimaram.
— Quando um bastardo vestindo roupas ridículas de seda está tirando vantagem de nosso pai, eu me ofendo.
— Bastardo? — A voz de Aron virou gelo. — Quem está me chamando de bastardo, camponês?
Tomas se virou lentamente, com os olhos cheios de raiva.
— Meu irmão estava chamando você de bastardo. Bastardo.
E aquilo, Cleo pensou, apreensiva, era a pior coisa que alguém poderia dizer a Aron. Não era de conhecimento geral, mas ele era bastardo. Nascido de uma linda criada loira com quem o pai dele havia se engraçado. Como a esposa de Sebastien Lagaris era estéril, ela pegou o bebê como se fosse seu desde o nascimento. A criada, mãe verdadeira de Aron, morrera logo depois, sob circunstâncias misteriosas que ninguém ousou questionar nem naquela época, nem agora. Mas ainda se falava. E foram esses rumores que chegaram aos ouvidos de Aron quando teve idade suficiente para entender o que aquilo tudo significava.
— Princesa? — perguntou Theon, como se esperasse seu comando para interferir. Ela pôs a mão sobre o braço dele para impedi-lo. Aquilo não precisava se transformar em uma cena maior do que já era.
— Vamos, Aron. — Ela trocou um olhar preocupado com Mira, que, nervosa, largou sua segunda taça de vinho.
Os olhos de Aron não saíram de Tomas.
— Como ousa me insultar?
— Você deveria obedecer sua namoradinha e ir embora — aconselhou Tomas. — Quanto antes, melhor.
— Assim que seu pai pegar as caixas de vinho para mim, ficarei feliz em fazer isso mesmo.
— Esqueça o vinho. Vá embora e se considere sortudo por eu não arrumar confusão pelo insulto que fez ao meu pai. Ele é um homem crédulo e disposto a se vender por pouco. Eu não.
Aron ficou furioso. Sua calma anterior era jogada de lado pela ofensa e pela embriaguez, tornando-o muito mais corajoso do que deveria diante de dois paelsianos altos e musculosos.
— Tem ideia de quem eu sou?
— E nós nos importamos? — Jonas e o irmão trocaram olhares.
— Sou Aron Lagaris, filho de Sebastien Lagaris, senhor da Encosta dos Anciãos. Estou aqui em seu mercado acompanhado de ninguém menos que a princesa Cleiona Bellos de Auranos. Demonstrem algum respeito por nós.
— Isso é ridículo, Aron — Cleo soltou um pequeno assobio por entre os dentes. Ela não queria que ele tivesse falado daquele jeito. Mira entrelaçou o braço no de Cleo e apertou sua mão. “Vamos”, ela parecia estar sinalizando.
— Ah, vossa alteza. — O sarcasmo escorria das palavras de Jonas enquanto ele fazia uma reverência jocosa. — Ambas as altezas. É uma verdadeira honra estar diante de presenças tão iluminadas.
— Eu poderia mandar decapitá-los por tamanho desrespeito — vociferou Aron. — Vocês e seu pai. E sua irmã também.
— Deixe minha irmã fora disso — rosnou Tomas.
— Deixe-me adivinhar. Se é o dia do casamento, imagino que ela já esteja esperando uma criança, não é? Ouvi dizer que as garotas paelsianas não esperam se casar para abrir as pernas para qualquer um que tenha dinheiro para pagar. — Aron olhou para Felicia, que parecia humilhada e indignada. — Eu tenho dinheiro. Talvez você possa me dar meia hora de sua atenção antes do anoitecer.
— Aron! — Cleo o repreendeu, horrorizada.
A princesa foi totalmente ignorada por Aron. Jonas direcionou seu olhar furioso a ela — tão quente que Cleo se sentiu queimada por ele.
Tomas, que parecia um pouco menos esquentado do que o irmão, lançou sobre Aron o olhar mais sombrio, mais venenoso que ela já havia visto na vida.
— Eu poderia matar você por falar isso da minha irmã.
Aron deu um sorrisinho para ele.
— Tente.
Cleo olhou para trás, para um Theon de expressão frustrada, a quem ela tinha dado ordens para não interferir. Para ela, já havia ficado claro que não tinha controle sobre a situação. Ela só queria voltar para o navio e deixar todo aquele aborrecimento para trás. Mas era tarde demais.
Impulsionado pelo insulto à irmã, Tomas voou sobre Aron com punhos cerrados. Mira ficou sem ar e cobriu os olhos com as mãos. Não havia dúvida de que Tomas ganharia facilmente uma briga entre os dois e transformaria o magrelo Aron em um mingau de sangue. Mas Aron tinha uma arma — a elegante adaga cravada de joias que levava na cintura.
E agora ela estava em sua mão.
Tomas não viu a adaga. Quando chegou mais perto e agarrou a camisa de Aron, o lorde enfiou a lâmina na garganta dele. As mãos de Tomas foram direto a seu pescoço enquanto o sangue começava a jorrar. Seus olhos estavam arregalados pela surpresa e pela dor. Um instante depois, o rapaz caiu de joelhos e sucumbiu no chão. As mãos agarradas na garganta, a adaga ainda entranhada ali. O sangue logo formou uma poça escarlate em volta da cabeça de Tomas.
Tudo acontecera tão rápido.
Cleo segurou a mão sobre a boca para não gritar. Outra pessoa gritou — Felicia soltou um lamento penetrante de horror que gelou o sangue de Cleo. E de repente todo o mercado percebeu o que havia acontecido.
Berros cortaram o mercado. Houve uma movimentação repentina de corpos em volta de Cleo, empurrando e apertando. Ela gritou. Theon passou o braço em volta da cintura dela e a puxou para trás. Jonas estava indo na direção dela e de Aron, com dor e fúria gravadas no rosto. Theon empurrou Mira na frente dele e puxou Cleo para baixo de seu braço. Aron estava atrás. Eles fugiram do mercado com as palavras coléricas de Jonas os perseguindo.
— Vocês estão mortos! Vou matar vocês por isso! Os dois!
— Ele mereceu — resmungou Aron. — Ele ia tentar me matar. Eu estava me defendendo.
— Continue andando, vossa senhoria — resmungou Theon, parecendo enojado. Eles abriram caminho na multidão, cambaleando até a estrada que levava ao navio.
Tomas não viveria para ver sua irmã se casar. Felicia nunca mais veria o irmão — e pior, ela havia testemunhado seu assassinato no dia do casamento. O vinho que Cleo havia tomado balançava e lhe causava acidez no estômago. Ela se livrou do braço de Theon e vomitou no caminho.
Ela poderia ter feito com que Theon impedisse aquilo antes que tudo saísse do controle.
Mas não fez.
Não parecia haver ninguém os perseguindo, e depois de um tempo ficou claro que os paelsianos haviam ficado para trás. Diminuíram o passo para uma caminhada rápida. Cleo manteve a cabeça baixa, apoiando-se em Mira. Os quatro andaram pela paisagem empoeirada em silêncio absoluto.
Cleo pensou que nunca mais tiraria da mente a imagem dos olhos de Tomas, repletos de dor.

11 comentários:

  1. Mal comecei a ler e já tomei ranço da cara do Aron... -_-
    Tadinha da Felicia... ,_, No dia do casamento dela, ser obrigada a ouvir aquelas coisas horrorosas que o Aron falou pra ela e ainda vê-lo assassinar o irmão... Não consigo nem imaginar a dor.

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    1. Acredite o ranço do Aron só vai crescer ele é o tipo bufão. Só tem papo.

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  2. Aron : prefixo para embuste, ranco, miserável, covarde e idiota.


    Que dó da Felicia,logo no dia que seria o melhor da vida dela, perder o irmão.


    Eu já amo o theon é acho ele um amorzinbo.
    Ainda não tenho opinião fotmadf sobre a cleo,mas ela deve ser gente boa ( e esse segredo que tá me deixando maluca kkkkkkkkkkkk)

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  3. Respostas
    1. Eu tbm kkkkk Já li até o terceiro livro e vi que no blog tem a continuação, mas já faz tempo então tô relendo desde o início *-* Mesmo lendo pela segunda vez ainda sinto nojo do Aron por essas atitudes.

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    2. Eu tbm kkkkk Já li até o terceiro livro e vi que no blog tem a continuação, mas já faz tempo então tô relendo desde o início *-* Mesmo lendo pela segunda vez ainda sinto nojo do Aron por essas atitudes.

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  4. a mesma coisa que eu disse antes 'que filho d...mae'

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Boa leitura, E SEM SPOILER!