30 de julho de 2018

Capítulo 19


LIMEROS

Magnus estava na sacada de seus aposentos, olhando fixo para a escuridão. Ele havia passado a noite em seu quarto, e escolhera jantar ali em vez de tentar lidar com sua família no andar de baixo. Ainda achava que não poderia olhar nos olhos do pai depois da conversa particular que haviam tido no início da semana.
Alguém bateu na porta; com certeza seria Amia lhe fazendo uma visita. Ele não sabia se estava com cabeça para apreciar a companhia da criada, independente da empolgação dela.
Mas não era Amia.
— Magnus. — Sabina se inclinou na beirada da porta quando ele a abriu. — Boa noite.
— Boa noite — ele respondeu sem sentimento algum. Aquilo era uma surpresa. Sabina nunca havia batido em sua porta. Depois do que seu pai lhe contara sobre ela, ele a observava cautelosamente, mas com interesse.
Todos tinham segredos.
— Está tudo bem? — ela perguntou. — Fiquei preocupada por você não ter descido para jantar.
— Estou bem. Obrigado pela preocupação.
— Gostaria de saber se posso falar com você.
— Sobre o quê?
— Um assunto particular.
Ele ficou tenso. Sabina e o rei eram confidentes tão íntimos que ele estava preocupado com o que aquilo poderia acarretar. Contudo, ele não podia recusar. Tinha certeza de que ela não desistiria se ele tentasse ignorá-la.
— É claro. — Ele abriu mais a porta. — Por favor, entre.
Ela entrou, com o vestido de seda vermelho envolvendo o corpo. Era preciso ser cego para não notar sua beleza. Enquanto a rainha era uma mulher simples e mostrava a idade que tinha a cada ano que passava, Sabina tinha a mesma aparência de sempre. Alta, esguia, de cabelos longos e escuros e olhos cor de âmbar. Seus lábios estavam sempre para cima, formando um sorriso que nunca parecia de todo amigável.
— Feche a porta — ela ordenou.
Um pouco hesitante, ele fez o que ela disse.
Sabina caminhou na direção da janela, encostando a ponta dos dedos sobre cada peça de mobília pela qual passava, incluindo as colunas de madeira de sua cama, entalhadas na forma de uma serpente.
— Pela deusa, está frio aqui. Você deveria fechar a janela e pedir para alguém acender a lareira.
— Talvez mais tarde. Sobre o que quer falar? — Se Magnus pudesse apressar as coisas, ficaria satisfeito. Já que Amia não passaria por lá, ele preferia passar o resto da noite sozinho.
Sabina se virou lentamente e olhou para ele.
— O rei me contou sobre uma conversa que vocês dois tiveram.
Ele ficou sem ar até conseguir recolocar sua máscara de indiferença.
— É mesmo?
— Sim.
— Ele gosta muito de compartilhar.
— Sim, dependendo do humor dele. — Ela sorriu para o príncipe. — Então você sabe.
Magnus pesou as palavras antes de falar.
— Pode ser mais específica? Eu sei muitas coisas.
— Nem tantas. Apenas o suficiente para causar problemas. Mas acho que podemos confiar em você, não podemos?
— A respeito do quê?
— Não seja evasivo, Magnus. Não combina com você. A respeito do segredo de Lucia, é claro. Da profecia que diz que ela é uma feiticeira. Da magia que, por certo, ela já mostrou para seu adorado irmão.
Ele olhou para Sabina com firmeza.
— Está errada. Ela não me mostrou nada desse tipo.
Ela riu.
— Ah, Magnus, você me diverte. Às vezes acho difícil acreditar que seja filho de Gaius. A semelhança é excepcional, é claro, mas você tem um coração muito mais sensível. Especialmente quando se trata da sua irmã.
Magnus sabia que ela não considerava isso uma qualidade, mas um defeito.
— Não é tão sensível quanto você pensa.
— Não é? Mas talvez um coração precise de experiência e tempo para endurecer. Então você não recuará ao saber de certas verdades. Espero estar aqui quando isso acontecer. Acho que você tem potencial para a grandeza, mesmo não acreditando em si mesmo.
Ele nunca havia notado o quanto detestava aquela mulher.
— Agradeço sua opinião, Sabina. Agora, o que você queria mesmo falar comigo? Ou veio aqui apenas para repetir parte da conversa que tive com meu pai e que, na verdade, não é da sua conta?
— Pensei em fazer uma visita. É tão raro passarmos algum tempo juntos.
— Ah — ele disse suavemente. — E eu gosto tanto de sua companhia.
Ela olhou para ele de um jeito predatório, como ele já havia notado quando outras pessoas não estavam prestando atenção nela. Era a mulher mais intimidadora que ele conhecia. Seu falecido marido, por outro lado, havia sido o homem mais gentil que já passara pelo palácio.
Mas sempre tinha a expressão de quem esperava ser atingido por alguém. Talvez sua esposa.
Magnus esperava não demonstrar a mesma expressão. Aqueles que pareciam ser vítimas eram sempre os mais fáceis de hostilizar.
— Sabe, sem essa cicatriz você seria um rapaz belo e impecável. — Sabina lançou-lhe um olhar calculado. — Mesmo com ela, você é muito atraente.
Ele passou a ponta dos dedos sobre a cicatriz sem se dar conta.
— Agradeço o elogio — ele mentiu.
— Você não vai me elogiar também?
— Estou cansado de jogos, Sabina. Vá direto ao ponto ou saia. — Ele a olhou de um jeito penetrante. — A menos que queira fazer uma demonstração de magia. Meu pai me disse que é uma bruxa, mas nunca conheci uma de verdade. Devo dizer que estou curioso.
— Uma bruxa de verdade nunca usaria seus poderes abertamente diante de ninguém. Seria uma exposição perigosa.
— Suponho que tenha razão.
— É melhor dizer isso a Lucia.
Seu peito ficou apertado.
— Meu pai acredita que ela é uma feiticeira, mas não vi evidências de nada fora do comum.
— Tem certeza? — Sabina o olhou como se estivesse se divertindo. — Acho que está mentindo.
— Não estou. Mas uma certeza eu tenho: gostaria que você saísse de meus aposentos. — Ele forçou um sorriso. — Por gentileza.
— Estou causando algum desconforto?
— Nenhum. Mas estou cansado e gostaria de dormir.
Aquele irritante olhar de divertimento permanecia em seu rosto. Era como se nada que dissessem a ela fizesse efeito.
— Eu gosto de você, Magnus.
— Fico muito honrado — ele disse, seco.
Ela se aproximou dele, percorrendo-o com o olhar da cabeça aos pés e depois voltando a subir lentamente.
— Seu pai ficou obcecado com essa ideia de conquistar Auranos. Não tem tido muito tempo para mim, exceto para pedir orientação em certas decisões. Passou o dia todo organizando uma reunião em Auranos com o chefe Basilius e o rei Corvin para  discutir os problemas antes que eles se agravem.
— Ele é um homem ocupado.
— Eu me sinto solitária. — De novo, ela andava devagar ao redor dele. Seu olhar parecia pesado e desconfortável. — E sei que também está solitário. Ainda não escolheu sua futura noiva, mesmo estando a poucas semanas de completar dezoito anos. E passa tanto tempo sozinho. O que faz com seus dias e noites, Magnus?
— Nada que possa ser de seu interesse.
— Sei que aprecia a companhia de uma bela criada da cozinha, não é? Mas ela é a única, até onde eu sei. Não acredito que esteja interessado em uma garota como ela, a não ser como uma distração rápida e sem importância.
Ele odiava o fato de Sabina saber tanto sobre sua vida.
— Pode não ter importância, mas nem sempre é rápida.
Magnus ficou tenso quando sentiu as mãos dela em suas costas, passando por seus ombros enquanto ela andava ao redor dele.
— Você é quase um homem. E um belo homem. Ainda é um pouco inexperiente, mas creio que uma orientação adequada possa ajudá-lo a se aperfeiçoar. Pode se tornar uma boa arma, em muitos sentidos.
Magnus ficou olhando para ela, sem saber ao certo do que ela estava falando. Mas começava a entender.
— O que está sugerindo?
— O mesmo que sugeri ao seu pai quando ele não era muito mais velho do que você. Estou me oferecendo como amante.
— É mesmo?
As palavras dele eram medidas, calmas.
— Sim.
— Você tem idade para ser minha mãe.
Aquilo conseguiu desmanchar o sorriso dela.
— Idade pode ser uma vantagem, Magnus. Com ela vem a experiência. Você é jovem e, tirando aquela criada e talvez um punhado de garotas sem importância, não tem experiência.
— Você não tem ideia de quanta experiência eu tenho.
— Nem chega perto de ser o bastante. Está claro em cada movimento que você faz. Quer se sentir querido. Necessário. Desejado. — Ela passou a ponta dos dedos sobre seu peito. — Eu posso fazer você sentir tudo isso.
Magnus não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
— E o que meu pai tem a dizer sobre essa sua oferta?
— Gaius não sabe, é claro. Nem precisa saber.
— Compartilhar uma amante com o meu pai não parece uma boa forma de ajudar a fortalecer nossos laços familiares.
— Como se você se importasse com qualquer laço de pai e filho.
Ele deu de ombros de maneira evasiva.
— Talvez agora eu me importe.
— Foi por isso que vim aqui hoje. Para lhe fazer essa oferta. Para me oferecer a você. Posso ficar esta noite, se quiser. Gaius não saberá onde estive. E prometo que posso fazer você esquecer qualquer problema.
Ela ficou na ponta do pés e pressionou os lábios contra os dele.
Sabina beijou Magnus até se dar conta de que ele não estava correspondendo ao beijo. Deu um passo para trás e olhou para ele, confusa.
— Algum problema?
O gosto dos lábios dela era mais venenoso do que agradável. O pensamento de que aquela mesma boca havia beijado seu pai o enchia de repulsa.
— Acho que você devia ir embora.
Seus olhos cor de âmbar se arregalaram um pouco.
— Está me rejeitando?
— Diria que é um bom palpite. Sinto muito, Sabina, mas não quero isso. Estou certo de que não terá dificuldade em encontrar outra pessoa para aquecer sua cama enquanto meu pai estiver ocupado. Mas não serei eu.
Algo obscuro passou pelo belo rosto dela.
— Não tome uma decisão apressada antes de parar para pensar.
— Está certo. — Ele inclinou a cabeça. — Pronto. Parei para pensar. Ainda não estou interessado.
A expressão de Sabina endureceu.
— Para alguém que cobiça a própria irmã, sua reação não me causa tanta surpresa.
As palavras foram como um tapa na cara de Magnus, e ele se contraiu. A confidente mais íntima de seu pai sabia todos os seus segredos. Ou talvez tivesse adivinhado sozinha.
O sorriso frio voltou aos lábios dela.
— Fico me perguntando há quanto tempo sente esse desejo anormal por Lucia. Um ano? Mais do que isso? Desde que ela era apenas uma criança?
— Cale a boca. — Ele disse entredentes, com os punhos fechados na lateral do corpo.
— É uma dor tão deliciosa a que vejo em seu rosto. — Ela agarrou o queixo de Magnus antes que ele pudesse se afastar. — Isso o atormenta, Magnus? Costuma andar tão chateado, tão frio e distante; como uma parede de gelo. Descobri sua verdadeira fraqueza.
— Não descobriu nada.
Ela riu.
— Não descobri? Ah, Magnus, sei muito mais do que você. Devo contar outro segredo que seu pai esconde de você sobre sua adorada irmã?
Uma onda de emoções passou por Magnus. Ele queria botar a mulher para fora de seu quarto e bater a porta na cara dela. Mas não podia. Se havia mais alguma coisa que ele precisava saber sobre Lucia…
— Conte — ele esbravejou.
— Peça com educação.
Ele tremia com o esforço que tinha que fazer para não apertar a garganta daquela mulher.
— Por favor, conte.
— Que educado — ela sussurrou. — Tão diferente de seu pai nesse sentido. Ele só diz o necessário, quando é necessário. Estou curiosa para saber por que ele não contou para você. Por que manteria segredo sabendo como se tortura por isso.
— E agora você quer me contar. Será sua vingança contra ele por não estar lhe dando atenção nos últimos dias. Ele merece. Então prossiga.
Ela ficou em silêncio por tanto tempo que ele achou que ela tinha mudado de ideia.
— Minha irmã mais nova, Jana, tinha o dom das visões, uma coisa rara entre as bruxas comuns. Em seu íntimo, ela tinha a capacidade de ler as histórias que as estrelas contam. Ela acreditava na profecia, passada de geração em geração, de que um dia nasceria uma criança que carregaria os elementia dentro de si, mais poderosa do que qualquer outra desde a feiticeira original, Eva – é a ela que os meus semelhantes adoram, do mesmo modo como vocês adoram sua deusa. — Sua expressão ficou sombria ao se lembrar do passado. — Há dezesseis anos, Jana viu o nascimento anunciado nas estrelas. O nascimento de Lucia. Juntas, minha irmã e eu combinamos nossa magia para multiplicar seu poder por dez e localizá-la, sabendo que precisaria de nossa orientação um dia, quando finalmente sua magia despertasse. Minha irmã morreu no caminho, mas eu trouxe Lucia aqui para Limeros, para ser criada como princesa… e como sua irmã.
Magnus manteve o olhar em Sabina. Ele mal podia respirar.
— Está falando bobagem.
Os olhos dela brilharam. Estava se deliciando com a confusão mental do rapaz.
— É claro que você nunca soube de nada sobre isso. Ninguém soube, por insistência de Gaius. Como não conseguia ter mais filhos depois de você, Althea também concordou em manter segredo. Tudo pela chance de chamar de filha aquela bela criança, ainda que o bebê tivesse sido entregue a ela por alguém que sempre odiara.
— O que está dizendo é impossível.
— Não é impossível. — Sabina agarrou a nuca dele e aproximou o rosto dos dois para que pudesse sussurrar. — Lucia não é sua irmã de sangue, Magnus. Essa revelação estimula sua paixão ou a ideia de que o desejo não é mais proibido deixa tudo menos excitante?
— Você está mentindo. — Ele agarrou a parte da frente do vestido dela. — Está tentando brincar comigo.
— Não estou mentindo. Ela não é sua irmã. — Ela apertou os olhos. — No entanto, foi criada como sua irmã e só o conhece como irmão. Não sente o mesmo que você sente por ela. Tão trágico.
Magnus soltou-a e olhou para ela chocado e confuso. Suas ideias estavam tumultuadas, girando em sua mente.
— Talvez eu tenha uma conversinha com Lucia. — Sabina sustentava um sorriso desagradável enquanto alisava o vinco que ele havia deixado na frente de seu vestido vermelho. — Gostaria que ela soubesse de seu segredinho obscuro para ver como reagiria? Eu ficaria feliz em contar.
— Segredo? — A porta se abriu e revelou Lucia parada sob o batente. Magnus ficou paralisado. — Que segredo?


Como Magnus não se juntara à família novamente para jantar, Lucia começou a ficar preocupada. Depois de estudar a maior parte da noite, estava pronta para praticar um pouco mais. Magnus era um excelente tutor. Naquela noite ela queria se concentrar na magia do fogo. Ela saiu de seu quarto e caminhou pelo corredor até chegar ao quarto de seu irmão. A porta estava quase fechada, mas ela ouvia vozes alteradas lá dentro.
E seu nome, e algo sobre um segredo.
Abriu a porta e ficou surpresa ao ver Sabina a menos de um metro de Magnus, ambos com o rosto corado. Os dois estavam irritados ao olhar para ela quando entrou.
Talvez devesse ter batido antes.
— O que aconteceu? — ela perguntou.
— Que garota doce — Sabina sussurrou. — Não é, Magnus? Tão doce é a sua irmã. Como mel derretendo na boca.
— Deixe-a em paz — ele vociferou. Lucia ficou surpresa ao ouvir o tom de sua voz.
— Eu a deixei em paz por dezesseis anos — Sabina disse sem delongas. — Tanto meu tempo como minha paciência se esgotaram.
— Ela é inocente em tudo isso.
— Ou talvez sob a superfície haja algo mais duro e menos frágil, assim como senti a seu respeito. — Sabina virou-se para Lucia com um sorriso que fez um arrepio descer pela espinha da garota. — Se não quer saber de minhas aulas particulares, Magnus, talvez ela queira. Seriam menos divertidas do que as sessões que planejei para você, é claro, mas ainda muito úteis.
— Magnus? — Lucia perguntou, franzindo a testa. O rosto dele estava mais tenso do que ela jamais havia visto.
— É melhor você ir — ele disse.
— Por quê? — Sabina indagou. — Esta é uma excelente oportunidade para nós três nos conhecermos melhor. Lucia, querida, como está?
Lucia apertou os lábios. Ela não confiava naquela mulher.
— Bem, obrigada.
— Verdade? Não está se sentindo estranha ultimamente?
A princesa a observou com cuidado.
— Não sei do que está falando.
— Magnus me contou como sua magia é poderosa.
Foi como se ela tivesse tomado um soco no estômago. Foi difícil não cair para trás com o golpe.
— O quê?
— Eu não disse nada. — Magnus rangeu os dentes.
— Talvez não. — Sabina sorriu para os dois. — Mas agora sei tudo o que eu precisava saber. É verdade. Seus poderes despertaram.
Um medo frio tomou conta de Lucia ao pensar que aquela mulher sabia algo a seu respeito. Aquela era a continuação da última conversa confusa sobre segredos perigosos que tiveram no corredor. Ela sabia.
— Não se preocupe — Magnus disse, calmo. A raiva havia abandonado sua voz e sua expressão, mas ainda queimava em seus olhos. — Seu segredo está seguro com Sabina, pois eu sei um segredo sobre ela: Sabina é uma bruxa.
Lucia ficou boquiaberta com a revelação.
— Agora que todos abrimos o jogo — disse Sabina, olhando para Lucia com curiosidade —, talvez possa me dizer o que consegue fazer.
Lucia demorou uns instantes para encontrar a voz. Ergueu o queixo e olhou direto nos olhos de Sabina.
— Não muita coisa.
Um olhar de frustração cruzou o rosto da mulher.
— Pode ser mais específica?
— Não, ela não pode. — Magnus ficou ao lado de Lucia e passou o braço em volta de seu ombro. A proximidade do irmão a confortou imediatamente. — Está tarde. Não deveríamos estar conversando sobre isso agora.
— Foi por isso que veio ao quarto de Magnus? — Lucia perguntou. — Para questioná-lo sobre mim?
— Foi um dos motivos — Sabina respondeu com um sorriso retorcido. — Devo contar a ela sobre os outros?
Lucia lançou um olhar sombrio à mulher. Que segredos ele tinha a ponto de escolher Sabina como confidente, e não ela?
— Você sabe o tamanho de seu poder, Lucia? — Sabina perguntou.
— Eu não entendo nada disso.
— Seu pai não ficaria feliz se eu revelasse tudo sem a presença dele. Acredite, já falei demais para garantir que ele fique furioso. Mas saiba de uma coisa… Seu nascimento foi prenunciado. Sua capacidade de acessar elementia como nenhuma outra pessoa conseguiu em mil anos foi prenunciada. Você não é uma bruxa, Lucia, querida. Você é uma feiticeira.
A ansiedade dela ficou à flor da pele.
— Você está enganada. Posso ser capaz de alguma magia, mas não é nada assim tão forte.
— Talvez ainda seja um pouco superficial, mas se já começou a despertar, significa que é sua – uma fonte de magia esperando que você mergulhe nela totalmente. Todos os quatro elementos para controlar à vontade.
— Ainda pode estar errada — Magnus disse com firmeza.
— Não estou errada! — Sabina gritou como se tivesse ultrapassado o limite de sua paciência. — Estou certa, como estive desde o início. Eu nunca teria sacrificado tudo o que tenho se restasse alguma dúvida. Sei que se desenvolver suas habilidades o máximo que puder, vai despertar o resto.
Lucia sentiu uma vontade avassaladora de fugir daquele quarto e daquela mulher — daquela bruxa — que sempre a havia intimidado e assustado. Ela olhou para Magnus, mas ele não disse nada. Sua testa estava franzida.
— Magnus, está tudo bem? — ela perguntou. A expressão dele não era impassível, como sempre, mas atormentada.
— Eu não queria isso — ele lamentou. — Nada disso. Queria que você ficasse em segurança.
— Ah, Magnus — Sabina disse lentamente. — Pare de bancar o santo com sua irmãzinha. Você não me engana. É igualzinho ao seu pai, mas continua negando.
Magnus virou seu olhar furioso para ela.
— Não sou nada igual ao meu pai. Eu o odeio e odeio tudo o que ele representa.
— O ódio é uma emoção forte. Muito mais poderosa do que a indiferença. Mas aqueles que queimam de ódio são capazes de amar na mesma intensidade. Não são? — Ela sorriu para ele como se fossem cúmplices. — Quando você odeia – ou ama – age com todo o coração, tanto que sente que poderia morrer com isso.
— Cale a boca — ele resmungou.
— Eu dei uma chance, mas você não a aproveitou. Poderia ter ajudado de tantas maneiras.
— Você não ajuda ninguém além de si mesma. Sempre foi assim. Não sei como nunca imaginei que você fosse uma bruxa má, que deveria queimar em uma estaca com as outras que meu pai condenou à morte.
Sabina bateu forte com as costas da mão na cicatriz de Magnus.
— Cuidado com o que fala, garoto.
— Ou o quê? — Ele tocou o canto da boca e voltou com sangue na ponta dos dedos. Ele lançou um olhar tenebroso para ela.
— Não ouse tocar nele! — Lucia disse entredentes. Ver Magnus atingido por aquela mulher asquerosa evocou uma onda de raiva dentro dela, uma raiva diferente de tudo o que já havia sentido.
Não, na verdade ela já havia sentido. Uma vez, três anos antes, quando estava escondida em um canto enquanto Magnus era repreendido pelo pai por responder para ele em público. Magnus havia tentado se levantar e revidar o golpe no pai, mas fora derrubado. O príncipe correu direto para seus aposentos. Lucia o seguiu e encontrou o irmão encolhido em um canto, com o rosto ensanguentado e uma expressão paralisada de dor que ia muito além da dor física.
Ela se sentou perto dele e encostou a cabeça em seu ombro. Não disse uma palavra, apenas ficou com ele escutando seu choro baixo até cessar.
Ela havia desejado que Magnus matasse seu pai por feri-lo.
Não, nada disso. Ela havia desejado matar o pai com as próprias mãos.
— Eu ouso — Sabina respondeu. — Com total permissão de seu pai, o rei. Posso bater no seu irmão sempre que quiser. Posso fazer tudo o que eu quiser. Veja só, garotinha.
Ela avançou e atingiu Magnus outra vez. Ele rangeu os dentes para ela; seus punhos estavam tão cerrados que Lucia teve certeza de que ele revidaria. Se Sabina não fosse mulher, ela tinha certeza de que ele não teria hesitado.
Lucia não tinha esses problemas de valentia. Ela ergueu a mão no ar e fez um movimento rápido. A cabeça de Sabina se moveu como se tivesse sido estapeada, mesmo estando a seis passos de distância. A bruxa levou a palma da mão ao rosto, com os olhos arregalados, porém brilhando de empolgação.
— Minha querida menina — ela exclamou. — Muito bem! Sim, isso mesmo. Então é a raiva que ajuda você a direcionar sua magia, não é? Talvez a raiva possa despertá-la totalmente.
— Pare com isso — Magnus protestou. — Não quero isso.
— Ninguém pediu sua opinião. — Sabina deu um sorriso, mesmo com um filete de sangue escorrendo do canto da boca. Ela tirou uma adaga de debaixo das saias, de uma bainha de couro amarrada na coxa. Depois fez um movimento tão rápido que Lucia mal conseguiu acompanhar.
De repente, Sabina estava atrás de Magnus, enterrando a ponta da adaga sob o queixo do príncipe com tanta força que escorria sangue de sua garganta.
— Magnus! — Lucia gritou.
— Eu… não consigo… me mexer — Magnus disse com esforço.
— Os elementia que uma bruxa comum como eu pode evocar exigem muito empenho ou sacrifício — Sabina disse com calma. Escorria sangue de seu nariz. — Mas eu posso me esforçar um pouco quando necessário. Ar pode apertar. Ar pode sufocar.
— Não o machuque! — O estômago de Lucia ficou apertado. Ela estava ao mesmo tempo furiosa e muito assustada.
— Quero testar sua magia da terra esta noite — afirmou Sabina. — Quando eu abrir a garganta de seu irmão, você terá tempo suficiente para evocar a magia e curá-lo. Aprofundar-se assim em seus poderes ajudará a despertar todos eles. Gaius entenderá que eu precisei fazer uso de medidas extremas. Estou lhe poupando um tempo precioso.
Curar? Magia da terra? Lucia nunca havia tentado fazer nada daquilo.
Sabina não estava blefando. A bruxa estava pronta para cortar a garganta de Magnus. O sangue já escorria por sua pele. Desesperada, Lucia viu a ponta da faca penetrar mais fundamente na pele do irmão. Seu rosto estava tomado pela dor.
A fúria explodiu dentro dela.
Lucia não pensou. Apenas agiu, cega pela raiva e pelo medo.
Ela gritou e apontou as duas mãos na direção de Sabina, forçando a magia que estava adormecida dentro dela a se manifestar.
Sabina voou para trás e bateu contra a parede de pedra dos aposentos de Magnus. Ouviu-se um estalo repugnante quando a parte de trás de seu crânio estilhaçou-se na superfície dura.
Lucia manteve os braços posicionados. Era o suficiente para segurar a mulher no lugar. Os pés de Sabina agora estavam pendurados no ar. O sangue jorrava da boca da bruxa e ela produzia um borbulhar nauseante.
— Que bom — ela conseguiu dizer. — Sua… magia do ar… é ainda mais forte do que eu pensava. Mas destreinada. Você pode me curar. Você… precisa de mim.
— Eu não preciso de você! Eu odeio você! — A fúria de Lucia ardia ainda mais. Como se correspondessem às suas emoções desenfreadas, chamas crepitavam do peito de Sabina. A bruxa olhou para o próprio corpo. O pânico começou a se mostrar no olhar desesperado e aflito.
— Basta! Não… Lucia, já chega! Você já provou que…
Mas antes que ela pudesse proferir outra palavra, um imenso inferno iluminou o quarto todo, consumindo Sabina completamente. Os cabelos longos e soltos de Lucia esvoaçavam com a força da onda de calor. O grito de agonia de Sabina foi interrompido quando seu cadáver carbonizado caiu no chão e as chamas desapareceram.
Quando a bruxa caiu no chão, Lucia estremecia dos pés à cabeça, com os olhos arregalados de terror pelo que havia feito. Ela odiava Sabina o suficiente para querer que ela queimasse.
E ela queimou.
Magnus estava ao lado de Lucia no instante seguinte. Ele caiu de joelhos e puxou-a para perto do peito, abraçando-a com força para que parasse de tremer.
— Está tudo bem. — Magnus a acalmou.
— Ela ia matar você. — As palavras dela vinham em pequenos soluços.
— E você salvou minha vida. Obrigado. — Ele secou as lágrimas dela com os polegares.
— Não me odeia pelo que fiz?
— Eu nunca poderia odiá-la, Lucia. Nunca. Está me ouvindo?
Ela apertou o rosto junto ao peito dele, confortando-se com a força do irmão.
— O que nosso pai fará comigo quando souber?
Magnus ficou tenso quando ela se afastou dele para olhar em seu rosto. A atenção de seu irmão estava na porta, agora totalmente aberta. Parado ali estava seu pai.
Ele olhava para os restos carbonizados de Sabina Mallius. Seu olhar foi chegando aos poucos até os filhos.
— Você fez isso, não fez, filha? — A voz dele estava calma, mas nunca havia soado tão perigosa.
— Não. Fui eu — assumiu Magnus, elevando o queixo. — Eu a matei.
— Mentiroso. Foi Lucia. — O rei pegou Lucia pelo braço, levantando-a e afastando-a de Magnus. — Você matou Sabina, não matou? Responda!
Ela abriu a boca, mas nada saiu por um instante. Sua garganta estava fechada demais para falar.
— Sinto muito.
Magnus caiu aos pés dele.
— Sabina ia me matar.
— E você o salvou com sua magia. — O rei chacoalhou Lucia. — Não foi?
Lucia confirmou, voltando os olhos para o chão, com lágrimas quentes escorrendo pelo rosto.
O rei agarrou o queixo dela e a obrigou a olhar em seus olhos. Sua expressão severa agora estava misturada a outra coisa.
Vitória.
Um falcão levantou voo da sacada enquanto o rei dizia:
— Eu nunca estive tão orgulhoso de você, filha.

Um comentário:

  1. Minha nossaaaaa que livro é esse. É uma sensação péssima comentar sozinha, mas tudo bem...
    Amando mto o livro, não consigo parar de ler!!!

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!