15 de julho de 2018

Capítulo 19

Adam acordou sobressaltado com o ruído de uma porta de carro se fechando.
Ele estava em seu carrinho terrível — e era para ele estar ali?
Persephone se ajeitou no assento do passageiro, sua nuvem de cabelo loiro caindo como uma cascata sobre o console e o assento do motorista. Ela colocou cuidadosamente a caixa de ferramentas que estivera no assento no chão, entre seus pés.
Adam estreitou os olhos contra o novo amanhecer incolor — era para ser dia? —, seus olhos ainda contraídos de exaustão. Parecia que tinham se passado apenas alguns minutos desde que ele emergira de seu turno noturno na fábrica. O trajeto até em casa parecera um empreendimento enorme demais sem alguns minutos de sono, e ele parecia mais viável agora.
Adam não conseguia compreender se Persephone estava realmente ali ou não. Devia estar; o cabelo dela fazia cócegas em seu braço nu.
— Pegue as cartas — ela ordenou em sua voz fina.
— O quê?
— Chegou a hora de aprender — disse Persephone suavemente.
O cérebro cansado de Adam escorregou por debaixo dele; algo a respeito de tudo isso lhe parecia inteiramente verdadeiro.
— Persephone... eu... estou cansado demais para pensar.
A luz fina da manhã iluminou o sorriso reservado de Persephone.
— É com isso que estou contando.
Quando Adam estendeu a mão para pegar as cartas, tateando o compartimento da porta onde ele costumava deixá-las, ele se deu conta:
— Você está morta.
Ela anuiu em concordância.
— Isso é uma lembrança — ele disse.
Ela anuiu novamente. Agora fazia sentido. Adam estava perambulando em uma memória de uma de suas primeiras lições com Persephone. As metas dessas sessões eram sempre as mesmas: escapar de sua mente consciente. Descobrir seu inconsciente. Expandir para o inconsciente coletivo. Buscar os fios que conectavam todas as coisas. E repetir. No começo, ele nunca passara das duas primeiras. Todas as sessões haviam sido usadas para atraí-lo para fora de seus próprios pensamentos concretos.
Os dedos de Adam rasparam o fundo vazio do compartimento da porta. A verdade de onde as cartas haviam estado em sua memória conflitava com o conhecimento de onde ele as havia guardado no presente. Aquela janela havia começado a vazar após a morte de Persephone, e ele passara a guardar as cartas no porta-luvas para evitar danificá-las.
— Por que você está aqui? Isso é um sonho? — ele perguntou, corrigindo-se. — Não. Estou fazendo uma divinação. Estou procurando algo.
E, de uma hora para outra, ele estava sozinho no carro.
Não só sozinho, como no assento do passageiro onde ela estivera, segurando uma única carta de tarô na mão. O desenho na carta era incompleto e rabiscado, e parecia um pouco com uma pilha de vespas. O que ele estava procurando? Era difícil navegar entre o consciente e o inconsciente. Foco demais, e ele perderia a meditação. Foco de menos, e ele perderia a finalidade.
Ele deixou a mente perambular ligeiramente para perto do seu momento presente.
Música eletrônica derramou-se sobre sua consciência, lembrando-lhe que seu corpo estava na realidade no carro de Ronan. Nesse outro lugar, era fácil dizer que a música era o som da alma de Ronan. Faminta e piedosa, ela sussurrava a respeito de lugares sombrios, lugares antigos, fogo e sexo.
Adam foi chamado à realidade pela batida pulsante e pela memória da proximidade de Ronan. O Diabo. Não, um demônio. O conhecimento não estava ali, e então estava.
Norte, ele disse.
Um anel branco incandescente cercava tudo. Era tão brilhante que cegava sua visão se o mirasse diretamente; Adam tinha de manter seu olhar focado à frente. Uma parte muito distante dele, uma parte que pulsava com a batida eletrônica, lembrou-se subitamente de que aquilo era a luz do carregador do seu celular. Essa era a parte do seu cérebro que ainda estava presente para sussurrar direções a Ronan.
Vire à direita.
Cabeswater murmurou em seu ouvido surdo. Ela sussurrou destruição, repúdio, violência, nada. Um passo atrás de incerteza, uma promessa mentirosa que o prejudicaria mais tarde, um conhecimento de que você se machucaria e provavelmente merecia. Demônio, demônio, demônio.
Vamos vamos vamos
Em algum lugar, um carro escuro corria por uma estrada noturna. Uma mão segurava a direção, pulseiras de couro davam voltas sobre os ossos do punho. O Greywaren. Ronan. Nesse lugar de sonho, todos os momentos eram o mesmo momento, e assim Adam teve um estranho e lúcido estalo de reviver o instante em que Ronan havia lhe oferecido a mão para erguê-lo do asfalto. Fora do contexto, as sensações explodiram: o choque surpreendente de calor daquele aperto pele com pele; o sussurro suave dos braceletes contra o punho de Adam; a mordida súbita da possibilidade...
Tudo em sua mente era envolto por uma luz branca abrasadora.
Quanto mais fundo Adam se movia através da música e da escuridão circundada de branco, mais próximo chegava de algum tipo de verdade escondida a respeito de Ronan. Ela estava escondida em coisas que Adam já sabia, meio vislumbradas por detrás de uma floresta feita de pensamentos. Por um breve momento, Adam achou que quase compreendia algo sobre Ronan e Cabeswater — sobre Ronan-e-Cabeswater —, mas a ideia lhe escapou. Adam se lançou atrás dela, cada vez mais fundo no que quer que fossem feitos os pensamentos de Cabeswater. Então Cabeswater jogou imagens em sua direção: uma hera estrangulando uma árvore, um tumor canceroso, uma putrefação rastejante.
Adam percebeu como um raio que o demônio estava ali dentro.
Ele podia sentir o demônio o observando.
Parrish.
Ele o estava vendo.
PARRISH.
Alguém roçou sua mão.
Ele piscou. Tudo era aquele círculo reluzente, e então ele piscou de novo, e o círculo se reduziu à íris brilhante do carregador do celular, conectado ao acendedor de cigarros.
O carro não estava se mexendo, embora só tivesse parado havia pouco. A poeira ainda redemoinhava junto aos faróis. Ronan estava absolutamente silencioso e parado. Uma mão em punho fechado repousava sobre o câmbio. A música havia sido desligada.
Quando Adam virou para ele, Ronan continuava olhando o para-brisa, premindo o maxilar cerrado.
A poeira baixou e Adam finalmente viu aonde ele os havia trazido.
Suspirou.
Porque a direção em montanha-russa através da noite fria e do subconsciente de Adam os havia trazido não para algum desastre em Cabeswater, não para alguma fenda nas rochas ao longo da linha ley, não para qualquer ameaça que fosse que Adam tinha visto nos faróis reluzentes do seu carro. Em vez disso, Adam — liberto da razão e deixado solto em sua própria mente, instigado a dedicar-se à tarefa de encontrar um demônio — os conduzira de volta ao parque de trailers, onde seus pais ainda viviam.
Nenhum deles disse uma palavra sequer. As luzes focavam o trailer, mas não havia silhuetas nas janelas. Ronan não havia desligado os faróis, então elas brilhavam diretamente na frente do trailer.
— Por que estamos aqui? — ele perguntou.
— Diabo errado — respondeu Adam em voz baixa.
Não fazia tanto tempo assim que o caso contra o seu pai havia sido julgado. Ele sabia que Ronan continuava furioso com o resultado: Robert Parrish, réu primário aos olhos do tribunal, havia voltado para casa com uma multa e em liberdade condicional. O que Ronan não percebera era que a vitória não havia sido na punição. Adam não precisava que o seu pai fosse para a cadeia. Ele só precisava que alguém de fora da situação olhasse para ela e confirmasse que sim, que um crime havia sido cometido. Adam não o inventara, não o incitara, não o merecera. Isso estava dito na papelada do tribunal. Robert Parrish, culpado. Adam Parrish, livre.
Bem, quase. Ele ainda olhava para o trailer, o pulso batendo submissamente em seu estômago.
— Por que estamos aqui? — repetiu Ronan.
Adam balançou a cabeça, com os olhos ainda no trailer. Ronan não havia desligado os faróis ainda, e Adam sabia que parte dele desejava que Robert Parrish viesse até a porta para ver quem era. Parte de Adam também, mas do jeito trêmulo da espera pelo dentista para simplesmente arrancar o seu dente e terminar com aquilo.
Ele sentiu os olhos de Ronan sobre si.
— Por que estamos neste maldito lugar? — disse Ronan uma terceira vez.
Mas Adam não respondeu, porque a porta se abriu.
Robert Parrish estava parado nos degraus da entrada, os detalhes mais precisos de sua expressão perdidos pelos faróis. Mas Adam não precisava ver o seu rosto, porque muito do que o seu pai sentia era transmitido pelo seu corpo. A força de seus ombros, a inclinação de seu pescoço, a curvatura de seus braços, até as armadilhas insensíveis de suas mãos. Então Adam sabia que seu pai reconhecera o carro, e ele sabia precisamente como ele se sentia a respeito disso. Adam sentiu uma emoção curiosa de medo, completamente distinto dos seus pensamentos conscientes. A ponta dos dedos havia ficado insensível com um choque de adrenalina doente que sua mente jamais ordenara que seu corpo produzisse. Espinhos trespassavam seu coração.
O pai de Adam ficou ali, observando. E eles continuaram ali, observando de volta. Ronan se segurava, fervilhando, uma mão pousada sobre a porta.
— Não — disse Adam.
Mas Ronan acionou o botão da janela. O vidro escurecido sibilou, baixando. Ronan enfiou o cotovelo na beira da porta e continuou olhando para fora da janela. Adam sabia que Ronan tinha plena consciência de quão malévolo ele podia parecer, e não suavizou sua aparência enquanto mirava fixamente através da grama escura desigual para Robert Parrish. O olhar de Ronan Lynch era a cobra na calçada onde você queria caminhar. Era o fósforo deixado sobre o seu travesseiro. Era premir os lábios e sentir o próprio sangue.
Adam olhou para o seu pai também, mas de maneira vazia. Adam estava ali, e ele estava em Cabeswater e dentro do trailer ao mesmo tempo. Ele observou com uma remota curiosidade que não processava a situação corretamente, mas mesmo enquanto percebia isso, continuava a existir em três telas diferentes.
Robert Parrish não se mexeu.
Ronan cuspiu na grama — um gesto indolente, sem prenúncio. Então ele desviou o queixo lentamente, o desprezo se derramando e transbordando do carro, e silenciosamente subiu a janela de novo.
O interior do BMW ficou inteiramente em silêncio. Estava tão silencioso que, quando uma brisa soprou, o som das folhas secas se juntando nos pneus era audível.
Adam tocou o pulso onde normalmente ficava seu relógio.
— Quero ver a Garota Órfã — ele disse.
Ronan finalmente olhou para ele. Adam esperava ver paus e pedras em seus olhos, mas ele exibia uma expressão que Adam não tinha certeza se já vira um dia em seu rosto: algo pensativo e agradecido, uma versão mais deliberada, sofisticada, de Ronan. Ronan mais maduro. Isso fez com que Adam se sentisse... ele não sabia. Ele não tinha informação suficiente para saber como ele se sentia.
O BMW deu ré, em um show de terra e ameaça. Ronan disse:
— Tudo bem.

Um comentário:

  1. ♪ dois pombinhos foram passear, além da floresta pra se pegar ♪

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Boa leitura, E SEM SPOILER!