5 de julho de 2018

Capítulo 19

Gansey havia esquecido como a escola ocupava seu tempo. Talvez porque agora ele tinha mais o que fazer fora dela, ou talvez porque, agora, ele não conseguia parar de pensar na escola mesmo quando estava fora. Greenmantle.
— Dick! Gansey! Gansey, cara! Richard Campbell Gansey Terceiro.
O Gansey em questão seguia a passos largos pela colunata com Ronan e Adam após a escola, rumo à secretaria. Embora ouvisse perfeitamente os gritos, havia ruído demais em sua mente para que as palavras se registrassem. Parte disso era devido a Greenmantle, parte ao desaparecimento de Maura, parte à exploração de Malory da linha ley perpendicular, parte à caverna de corvos, parte ao conhecimento de que em sete horas Blue poderia ligar para ele. E uma parte final, ansiosa — uma parte cada dia maior —, estava ocupada com a cor do céu de outono, as folhas no chão, o sentimento de que o tempo estava passando, se acabando e se desenrolando até o fim.
Era um dia com uniforme liberado em homenagem à vitória da escola em uma gincana regional, e a falta de uniforme de certa maneira piorava a ansiedade de Gansey. Seus colegas se espalhavam pelo campus histórico com jaquetas sem manga, calças de lã xadrez e pulôveres de marca. Isso o fazia lembrar que ele existia naquele momento, e não em outra época. Os outros alunos se marcavam inequivocamente como habitantes deste século, desta década, deste ano, desta temporada, desta faixa de renda. Relógios humanos. Somente quando todos voltavam a seus blusões de gola V azuis idênticos a Aglionby deixava o tempo, e todos os momentos pareciam ser na realidade o mesmo momento.
Às vezes, Gansey sentia que passara os últimos sete anos de sua vida buscando lugares que o fizessem se sentir assim.
Greenmantle.
Todas as manhãs naquela semana haviam começado com Greenmantle parado à frente da sala de latim, eternamente sorrindo. Ronan parara de vir no primeiro período. Não havia como ele se formar se não passasse em latim, mas como Gansey poderia culpá-lo?
As paredes desmoronavam.
Adam perguntara por que Gansey precisava ir à secretaria. Gansey mentira. Ele estava cansado de brigar com Adam Parrish.
— Ganseeeeeeey!
Na noite anterior, o sr. Cinzento dissera a Ronan:
— Sonhe para mim um Greywaren para dar ao Greenmantle.
E Ronan respondera:
— Você quer que eu dê para aquele canalha as chaves para Cabeswater? É isso que você está pedindo?
Então eles estavam em um impasse.
— Gansey, cara! DICK!
Ronan deu um giro e caminhou de volta para encarar o gritão. Ele abriu bem os braços.
— Agora não, Cheng. O rei está um pouco ocupado.
— Eu não estava falando com você, Lynch. Preciso de alguém com alma.
A luz que brilhou do rosnar de Ronan chamou a atenção de Gansey, trazendo-o de volta ao momento presente. Ele deteve o passo e conferiu o relógio, antes de voltar atrás até Henry, que estava sentado em uma mesa de jogo situada entre colunas. Seu cabelo era escuro como piche.
Os dois garotos trocaram um cumprimento de mão camarada sobre a mesa. Eles tinham algumas coisas em comum: antes de abandoná-la no último outono, Gansey havia sido o capitão da equipe de remo, e Henry uma vez se inscrevera para a equipe no café da manhã, antes de apagar seu nome no jantar. Gansey havia estado no Equador; Henry uma vez havia feito um trabalho de modelo com um cavalo de corrida chamado Equador Apaixonado. Gansey havia sido morto uma vez por marimbondos; o negócio da família de Henry era uma empresa de tecnologia de ponta que projetava abelhas drones robóticas.
Os dois garotos tinham uma relação amigável, mas não eram amigos. Henry andava com a turma de Vancouver, e Gansey com reis galeses mortos.
— O que eu posso fazer por você, sr. Cheng? — perguntou Gansey agradavelmente.
Henry estendeu a mão para ele.
— Está vendo, Ronan? É assim que se fala com um homem. Que. Bom. Que. Perguntou, Gansey. Escuta, preciso da sua ajuda. Assine isso.
Gansey observou isso. O texto era bastante oficial, mas parecia uma petição para estabelecer um conselho de estudantes escolhido pelos estudantes.
— Você quer que eu vote pelo direito de votar?
— Você captou o ponto crucial da minha posição muito mais rápido que o resto dos seus pares. Agora eu entendo por que você está sempre no boletim informativo.
Henry lhe ofereceu uma caneta e, quando Gansey não a pegou imediatamente, uma canetinha, depois um lápis.
Em vez de aceitar uma ferramenta de escrita, Gansey ficou pensando se assinar a petição comprometeria alguma parcela de seu tempo.
Rex Corvus, parate Regis Corvi.
— Vamos lá, Gansey — disse Henry. — Eles vão dar ouvidos a você. O seu voto conta duas vezes, porque você é um caucasiano com um cabelo legal. Você é o garoto de ouro da Aglionby. A única maneira de você marcar mais pontos seria se a sua mãe fosse eleita.
Ronan abriu um sorriso irônico para Adam. Gansey passou um polegar sobre o lábio inferior, desagradavelmente consciente de que Henry não dissera nenhuma mentira. Ele jamais saberia quanto do lugar dele ali fora conquistado de maneira justa e quanto fora herdado por seu pedigree dourado. Isso costumava incomodá-lo um pouco.
Agora o incomodava muito.
— Eu vou assinar, mas quero ficar de fora de nomeações. — Gansey aceitou uma caneta. — Estou com a agenda cheia.
Henry esfregou as mãos.
— Pode crer, meu velho. Parrish?
Adam simplesmente balançou a cabeça. E o fez de maneira remota, fria, que não convidou Henry a perguntar novamente.
— Lynch? — disse Henry.
Ronan desviou rapidamente o olhar de Adam para Henry.
— Achei que você disse que eu não tinha alma.
Ele não parecia nem um pouco Aglionby ali naquele momento, com sua cabeça raspada, sua jaqueta de couro preta e seus jeans caros. De maneira geral, ele parecia bastante maduro. Era como se o tempo tivesse levado Ronan um pouco mais rápido que o resto da turma naquele verão, pensou Gansey.
Quem são esses dois?, Gansey se perguntou. O que estamos fazendo?
— A questão é que a política já acabou com os meus princípios — disse Henry.
Ronan escolheu um marcador de ponta grossa e se inclinou sobre a petição. Ele escreveu “ANARQUIA” em letras enormes e então lançou o instrumento de guerra no peito de Henry.
— Ei! — exclamou Henry enquanto o marcador rebatia nele. — Seu maloqueiro.
— A democracia é uma farsa — disse Ronan, e Adam sorriu ironicamente, um gesto pequeno, privado, inerentemente excludente. Uma expressão, na realidade, que ele poderia muito bem ter aprendido com Ronan.
Gansey poupou Henry de um olhar de pena.
— Desculpa, ele não se exercitou o suficiente hoje. Ou tem algo errado com a dieta dele. Vou levar ele embora agora.
— Quando eu for eleito presidente — disse Henry a Ronan —, vou declarar a sua cara ilegal.
Ronan abriu um sorriso ligeiro e sombrio.
— Disputas judiciais são uma farsa.
Enquanto seguiam pela colunata na sombra, Gansey perguntou:
— Você já considerou a possibilidade de que talvez você esteja se tornando um babaca?
Ronan chutou um cascalho, que passou rasante pelos tijolos à frente deles antes de desaparecer no pátio gramado.
— Dizem que o pai do Henry deu um Fisker para ele de aniversário e ele tem medo de dirigir. Quero ver, se ele tiver mesmo um Fisker. Dizem que ele veio de bicicleta para a escola.
— De Vancouver? — perguntou Adam.
Gansey franziu o cenho enquanto uma dupla de alunos do nono ano impossivelmente jovens corria pelo pátio. Será que um dia ele fora tão pequeno? Ele bateu na porta do diretor. Estou fazendo isso mesmo? Ele estava.
— Vocês vão esperar por mim aqui fora?
— Não — disse Ronan. — O Parrish e eu vamos dar uma volta de carro.
— Vamos? — perguntou Adam.
— Que bom — disse Gansey, aliviado com o fato de que eles estariam fazendo algo, sem pensar no diretor, sem se perguntar se Gansey estava, no fim das contas, se comportando como um Gansey. — A gente se vê mais tarde.
E, antes que eles pudessem dizer mais alguma coisa, Gansey entrou na sala do diretor e fechou a porta.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!