30 de julho de 2018

Capítulo 18

PAELSIA

— Eu precisei escapar de lá — Sera disse mais tarde na taverna. Com pisos e janelas sujos, não era um lugar muito bom, nem grande o suficiente para acomodar mais do que vinte pessoas, mas servia a seu propósito. Era onde as pessoas cansadas podiam encontrar bebida barata e companhia depois de um dia de trabalho.
— Sério. O que foi?
Um sorriso surgiu nos lábios que metade dos rapazes em um raio de quinze quilômetros conhecia muito bem.
— Minha avó acolheu dois viajantes para passar a noite em casa. Eu tive que ouvir todas aquelas histórias de novo. Lembrei de você quando eles me foram apresentados. O nome da menina é Cleo, como o daquela princesa odiosa. Nunca conheci outra pessoa com esse nome.
Jonas olhava chocado para a garota sentada ao seu lado na pequena mesa de madeira em um canto escuro da taverna. Ele também nunca ouvira falar de outra pessoa com aquele nome.
— Como ela é?
— Parece uma princesa, em minha opinião. Olhos azuis. Cabelos claros. Mais ou menos da minha idade. Bonita, eu acho. — Sera torceu uma mecha de cabelos entre os dedos.
— Você disse que o nome dela é Cleo.
— Isso mesmo.
Loiras não eram tão comuns em Paelsia. Não eram comuns em lugar nenhum, na verdade, mas ainda existiam algumas no norte de Limeros. Jonas se lembrava dos cabelos de Cleo, brilhantes como o sol, longos e soltos sobre o corpo esguio. Ele havia sonhado em arrancar os cabelos dela, um pouco de cada vez, enquanto ela implorava por misericórdia.
Jonas olhou para o outro lado da taverna e viu Brion sentado perto do fogo, com os olhos já fechados. Haviam passado dias patrulhando e pararam para uma última dose antes de dormir na casa de Felicia e do marido, perto da vila. Os homens do chefe Basilius estavam na frente deles. Todos os aldeãos qualificados — homens e garotos — da costa oeste haviam sido recrutados para se juntar ao exército paelsiano. Em suas viagens, não encontraram nenhum sinal de agitadores ou espiões. A menos que Sera, essa garota que Jonas conhecia apenas de suas visitas a Felicia e Paulo, estivesse falando da própria princesa de Auranos.
— Talvez eu conte mais depois. — Sera empurrou a cadeira para a frente, para passar a mão pelo corpo de Jonas. Ele agarrou o pulso dela, que se contraiu.
— Conte agora.
— Você está me machucando.
— Não, não estou. Não exagere.
Ela mordeu o lábio inferior e olhou para ele bancando a tímida, esquecendo-se da tensão fingida.
— Talvez possamos ir a algum lugar mais tranquilo para discutir qualquer coisa que você quiser.
— Hoje não. — Ele não estava nem um pouco interessado em ir a um lugar privado com ela, nem naquela noite nem em qualquer outra. Por ora só deveria ter momentos de privacidade com Laelia, de quem já havia se cansado. Mas até que tudo se resolvesse entre o chefe e Jonas, esperançoso por uma rebelião bem-sucedida contra Auranos, ele achava melhor não romper com a dançarina. Ele e Brion poderiam se dar mal se ofendessem a filha de Basilius. Ser expulso do círculo de confiança do chefe seria a menor de suas preocupações se isso acontecesse.
— Você disse que essa tal de Cleo está na casa de sua avó? — Jonas perguntou de maneira calma e firme.
— Foi o que eu disse — Sera respondeu, mal-humorada. — Ela e um amigo estão passando a noite lá.
— É impossível. — Ele soltou o braço dela. — Ela não seria tão burra a ponto de dar as caras por aqui.
— Você não acha que seja mesmo a princesa, não é? Ela não se comportou muito como princesa.
Se a loira fosse Cleo — e a intuição de Jonas dizia que era ela —, então havia uma razão específica para estar ali. Mas o que poderia ser? Seria uma espiã de seu pai? Ele havia visto inteligência e audácia nos olhos dela aquele dia no mercado, uma malícia desagradável que não combinava com sua beleza externa. Ele não a subestimaria.
— Com quem ela está?
— Com um garoto chamado Nicolo. Ele pareceu inofensivo.
Jonas relaxou por um instante. Se Sera dissesse que Cleo estava com lorde Aron, ele não conseguiria controlar a raiva nem mais um segundo.
Os dentes de Jonas estavam tão cerrados que ficava difícil falar. Ele se afastou da mesa e se levantou.
— Obrigado por me contar isso, Sera.
— Já vai? Tão cedo? Só porque essa garota pode mesmo ser a princesa Cleo?
Jonas se contraiu como se a morte de seu irmão tivesse acontecido minutos atrás, e não há mais de dois meses. Seu sofrimento doía e sangrava como no primeiro dia. Vingança. Era o que ele queria. Mas com a associação recente com o chefe Basilius, não tinha mais certeza de qual seria o melhor procedimento. Ele precisava falar com o chefe e descobrir o próximo passo. A cavalo, o complexo do chefe ficava a apenas duas horas de distância.
Ele olhou para Brion. Sua caneca bem merecida de cerveja escura estava intocada enquanto ele dormia com o rosto iluminado pelo fogo.
Jonas o deixaria descansar. Falaria com o chefe sozinho. Só então decidiria o destino da princesa.

3 comentários:

  1. Eu gosto do Jonas mas tbm fico agoniada com ele querer matar a Cleo

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  2. É agora que o bicho vai pegar!! A Cleo bem que merece um susto pela morte do Tomas, sei que ela é uma boa pessoa, mas ainda a acho meio fútil às vezes...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!