15 de julho de 2018

Capítulo 18

Eram 6h21.
Não, eram 8h31. Ronan tinha lido errado o relógio do carro. O céu estava escuro, as árvores estavam escuras, a estrada estava escura. Ele estacionou junto ao meio-fio, na frente do prédio de Adam. Era em um apartamento que Adam vivia, no andar de cima do escritório da Igreja Católica de Santa Inês, uma combinação fortuita que concentrava a maioria dos objetos de adoração de Ronan, em uma quadra central. Como sempre, Ronan andara negligenciando seu celular e perdera uma ligação de Adam, de várias horas atrás. O correio de voz havia sido breve: “Se você não for ao Cheng com o Gansey hoje à noite, pode me ajudar com Cabeswater?”
Ronan não iria à casa de Henry Cheng sob hipótese alguma. Todo aquele sorriso e militância o deixavam com brotoejas.
Ele certamente iria até a casa de Adam.
Então desceu do BMW, cacarejando para Motosserra para que ela parasse de mexer em uma costura solta no assento do passageiro, e varreu com os olhos o estacionamento ao lado da igreja em busca do Hondayota tricolor. Ele o viu, os faróis ainda acesos, o motor desligado. Adam estava agachado na frente dele, olhando fixamente para o brilho dos faróis. Seus dedos estavam abertos sobre o asfalto, e os pés na posição de um corredor esperando pelo tiro da largada. Três cartas de tarô estavam abertas na sua frente. Ele havia pego um dos tapetes do assoalho do carro para se agachar, para evitar sujar as calças do uniforme. Se você combinasse essas duas coisas — o insondável e o prático —, você estava próximo de compreender Adam Parrish.
— Parrish — disse Ronan. Adam não respondeu. Suas pupilas eram câmeras com a abertura de um buraco de alfinete para outro mundo. — Parrish.
Uma das mãos de Adam se ergueu na direção da perna de Ronan. Seus dedos se contraíram como se dissessem não me incomode, com o menor movimento possível.
Ronan cruzou os braços para esperar, e apenas olhou. Para as maçãs do rosto delicadas de Adam, suas sobrancelhas claras franzidas, suas belas mãos, tudo banhado pela furiosa luz. Ele havia memorizado o formato das mãos de Adam em particular: a maneira como o polegar se projetava desajeitada e puerilmente; os caminhos das veias proeminentes; as articulações grandes que pontuavam seus dedos longos. Em sonhos, Ronan os colocava em sua boca.
Seus sentimentos por Adam eram um derramamento de petróleo; ele os deixara transbordar, e agora não havia um maldito lugar no oceano que não pegasse fogo se ele deixasse cair um fósforo.
Motosserra bateu asas até onde estavam dispostas as cartas de tarô, o bico entreaberto curiosamente, e, quando Ronan silenciosamente apontou para ela, Motosserra se amuou debaixo do carro. Ronan virou a cabeça de lado para ler as cartas. Algo com chamas, algo com uma espada. O Diabo. Mil imagens foram disparadas por aquela única palavra, diabo. A pele vermelha, os óculos escuros com aros brancos, os olhos aterrorizados de seu irmão Matthew no porta-malas de um carro. Pavor e vergonha juntos, espessos o suficiente para vomitá-los. Ronan se lembrou com apreensão de seus recentes pesadelos.
Os dedos de Adam se tensionaram, e ele se inclinou para trás. Ele piscou, e então piscou de novo, rapidamente, tocando o canto do olho apenas com a ponta do dedo anular. Isso não foi o suficiente, então ele esfregou a palma das mãos sobre os olhos, até que eles lacrimejaram. Finalmente, inclinou o queixo na direção de Ronan.
— Faróis? Isso é demais, Parrish. — Ronan estendeu a mão; Adam a pegou. Ronan o levantou, a mente toda concentrada naquela palma contra palma, naquele polegar cruzado sobre polegar, naqueles dedos pressionados contra ossos do punho — e então Adam o encarou, e ele soltou sua mão.
O oceano em chamas.
— Que merda está acontecendo com os seus olhos? — perguntou Ronan.
As pupilas de Adam ainda estavam minúsculas.
— Eu levo um tempo para voltar.
— Maldito horripilante. Qual é o esquema com o Diabo?
Adam olhou para cima, para o vidro escurecido da igreja. Ele ainda estava meio preso ao reino dos faróis.
— Não consigo entender o que ela está me dizendo. Parece que me mantém a um metro de distância. Preciso encontrar uma maneira de aprofundar minha vidência, mas não posso fazer isso sem alguém me cuidando, caso eu me afaste demais de mim mesmo.
Alguém nesse caso era Ronan.
— O que você está tentando descobrir?
Adam descreveu as circunstâncias cercando o olho e a mão com o mesmo tom uniforme que ele usaria para responder a uma pergunta na sala de aula. Ele deixou que Ronan se aproximasse para comparar os seus olhos — próximo o suficiente para Ronan sentir sua respiração no rosto — e deixou que Ronan estudasse a palma de sua mão. Essa ação não era estritamente necessária, e ambos o sabiam, mas Adam observou Ronan proximamente enquanto ele passava levemente o indicador sobre as suas linhas.
Isso era como caminhar sobre o limite entre o sonho e o sono. O equilíbrio distinto noturno de se estar dormindo o suficiente para sonhar e desperto o suficiente para se lembrar do que ele queria.
Ele sabia que Adam havia descoberto como ele se sentia. Mas Ronan não sabia se podia deixar esse caminho tênue como o fio de uma navalha, sem destruir o que ele tinha.
Adam manteve o olhar de Ronan enquanto ele soltava sua mão.
— Estou tentando descobrir o que está atacando Cabeswater. Só posso presumir que é a mesma coisa que estava atacando aquela árvore escura.
— Está na minha cabeça também — admitiu Ronan. Seu dia na Barns havia sido marcado por sonhos que ele havia tentado apressadamente despertar para si mesmo.
— Está? É por isso que você está com essa cara terrível?
— Obrigado, Parrish. Gosto da sua cara também. — Ele descreveu brevemente como a degeneração da árvore de sonho parecia idêntica à degeneração dos seus sonhos, escondendo seu relativo incômodo com o conteúdo dos sonhos e o fato de que isso era prova de um segredo maior em meio a um excesso de palavrões. — Então, simplesmente nunca mais vou dormir.
Antes que Adam pudesse responder a isso, um movimento no alto chamou a atenção dos dois.
Algo leve e estranho batia asas entre as árvores escuras que alinhavam as ruas do bairro. Um monstro.
O monstro de Ronan.
Seu horror noturno albino raramente deixava os campos seguros da Barns, e, quando o fazia, era apenas para seguir Ronan. Não de uma maneira fiel, canina, mas de uma maneira descuidada, como enormes voltas de um gato. E agora ele voava pela rua, direta e intencionalmente. No espaço negro purpúreo, ele era tão visível quanto a fumaça, arrastando asas com as pontas esfarrapadas e a roupa do seu corpo. O som das suas asas era mais proeminente do que todo o resto: zum, zum, zum. Quando ele abria o par de bicos, eles tremiam com um guincho feroz, inaudível para os ouvidos humanos.
Ronan e Adam inclinaram a cabeça para trás. Ronan gritou:
— Ei! Aonde você está indo?
Mas ele planou sobre eles, sem sequer fazer uma pausa. Direto na direção das montanhas. Esse desgraçado feioso ainda levaria um tiro de algum fazendeiro aterrorizado.
Ronan não sabia dizer por que se importava. Provavelmente por ter salvo a sua vida aquela vez, ele achava.
— Maldito horripilante — disse Ronan de novo.
Adam franziu o cenho após ouvi-lo, e então perguntou:
— Que horas são?
— São 6h21 — respondeu Ronan, e Adam franziu o cenho. — Não, 8h40. Me enganei.
— Ainda tem tempo se não for longe, então.
Adam Parrish estava sempre pensando sobre seus recursos: dinheiro, tempo, sono. Em uma noite normal de escola, mesmo com ameaças sobrenaturais fungando em seu colarinho, Ronan sabia que Adam estaria preocupado com tudo isso; era assim que ele continuava vivo.
— Aonde estamos indo?
— Não sei. Quero descobrir onde está esse diabo... Estou pensando se consigo fazer minha divinação enquanto você dirige. Gostaria de poder dirigir e adivinhar ao mesmo tempo, mas isso é impossível. Realmente, tudo o que eu quero é mover meu corpo para onde minha mente diz para ele ir.
Lá no alto, um poste de luz zuniu e então se apagou. Não chovia havia várias horas, mas o ar ainda estava carregado como em uma tempestade. Ronan se perguntou para onde estava indo seu horror noturno. Ele disse:
— Tudo bem, mágico, se eu estiver dirigindo enquanto você está pirando, como vou saber para onde ir?
— Acho que vou tentar continuar presente o suficiente para te dizer aonde ir.
— Isso é possível?
Adam deu de ombros; as definições de possível impossível eram negociáveis ultimamente. Ele se abaixou para oferecer o braço a Motosserra. Ela saltou sobre ele, batendo as asas para se equilibrar, enquanto a manga de Adam se torcia sob o seu peso, e inclinou a cabeça enquanto Adam acariciava cuidadosamente as penas finas perto do bico. E disse:
— Nunca vamos saber se não tentarmos. Vamos?
Ronan chacoalhou as chaves do carro. Como se jamais estivesse com vontade de dirigir. Ele acenou com o queixo para o Hondayota.
— Você não vai trancar a sua lata-velha?
— Tanto faz. Vagabundos já entraram nela de qualquer jeito.
O vagabundo em questão sorriu timidamente.
Eles partiram.

7 comentários:

  1. será que 6:21 vai ser a hora que o Gansey morre? pq ta bem frequente esse horário (e confundir 8:40 por duas HORAS antes é quase impossível)

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  2. Gente! Como assim não há milhares de comentários sobre o Ronan e o Adam?

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    1. Eu surtaria de felicudfe se visse o Adam demonstrando algum sentimento pelo Ronan... Mas infelizmente só demonstra interesse pela Blue

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  3. Pq eu me iludo??? A Deus pq??? ������

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  4. Eu sonho em ver o momento em que o Adam vai demonstrar algum sentimento pelo Ronan...

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  5. Que capitulo maravilhoso ❤

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  6. Gente.. COMOASSIM o Ronan gosta do Adam? Como eu só percebo isso agora?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!