5 de julho de 2018

Capítulo 18

Gansey não estava dormindo.
Como Blue não tinha celular, não havia como ele desobedecer às regras e ligar para ela. Em vez disso, ele começara a se deitar na cama todas as noites, os olhos fechados, a mão pousada sobre o telefone, esperando para ver se ela ligaria para ele do Quarto do Telefone/Costura/Gato na casa dela.
Pare com isso, ele disse a si mesmo. Pare de querer isso...
O telefone vibrou.
Gansey o colocou no ouvido.
— Você ainda não está no Congresso, pelo visto.
Ele estava completamente desperto.
Olhando de relance na direção da porta do quarto fechada de Ronan, Gansey pegou seus óculos e seu diário e saiu da cama. Ele se trancou na cozinha-banheiro-lavanderia e se sentou na frente da geladeira.
— Gansey?
— Estou aqui — ele disse em voz baixa. — O que você sabe sobre o marreco-de-asa-azul?
Pausa.
— É isso que vocês discutem no Congresso a portas fechadas?
— Sim.
— É tipo um pato?
— Ding! Ponto para a Rua Fox. A audiência do feriado vai à loucura! Sabia que eles não conseguem voar por um mês durante o verão, quando mudam todas as penas de voo ao mesmo tempo?
— Isso não acontece com todos os patos? — perguntou Blue.
— Acontece?
— Esse é o problema com o Congresso.
— Não brinque comigo, Sargent — disse Gansey. — Jane. Sabia que o marreco-de-asa-azul tem que comer cem gramas de proteína para substituir os sessenta gramas de penas do corpo e da cauda trocados nessa época?
— Não sabia.
— Isso dá algo em torno de trinta e um mil invertebrados que eles precisam comer.
— Você está lendo anotações?
— Não. — Gansey fechou o diário.
— Bom, isso foi muito instrutivo.
— Sempre é.
— Tudo bem, então.
Outra pausa, e Gansey percebeu que ela havia desligado. Ele se recostou na geladeira, olhos fechados, culpado, consolado, empolgado, contido. Em vinte e quatro horas, ele estaria esperando por isso de novo.
Você não devia não devia não devia.
— Mas que diabos, cara? — disse Ronan.
Os olhos de Gansey se abriram imediatamente assim que Ronan acendeu as luzes. Ele estava parado no vão da porta, fones de ouvido enrolados em torno do pescoço, Motosserra se assomando como um vigia mafioso sobre seu ombro. Os olhos de Ronan encontraram o telefone junto à perna de Gansey, mas ele não perguntou e Gansey não disse nada.
Ronan perceberia a mentira em um segundo, e a verdade não era uma opção. Ciúmes haviam arruinado Ronan durante os primeiros meses em que Adam fora introduzido no grupo, e isso o machucaria mais do que aquilo.
— Não estava conseguindo dormir — disse Gansey com sinceridade. Então, após uma pausa: — Você não vai tentar matar o Greenmantle, vai?
O queixo de Ronan se ergueu. Seu sorriso era aguçado e sem humor.
— Não, pensei em uma opção melhor.
— Será que eu quero saber qual é? Será a aceitação da falta de sentido na vingança?
O sorriso se abriu e se aguçou mais ainda.
— Não é problema seu, Gansey.
Ele era tão mais perigoso quando não estava bravo.
E Gansey estava certo: ele não queria saber.
Ronan abriu a porta da geladeira, empurrando Gansey um bom meio metro sobre o assoalho. Pegou um refrigerante e passou para Motosserra uma salsicha fria. Então encarou Gansey novamente.
— Ei, descobri um som muito legal — ele disse. Gansey tentou não dar ouvidos ao ruído de um corvo devorando uma salsicha. — Quer ouvir?
Gansey e Ronan raramente concordavam sobre música, mas Gansey deu de ombros, anuindo.
Ronan tirou os fones do pescoço e os colocou nos ouvidos de Gansey — eles tinham um cheiro um pouco empoeirado e de pássaro, pela proximidade de Motosserra.
O som veio através dos fones de ouvido:
— Abóbora um, abóbora do...
Gansey os tirou com um safanão enquanto Ronan se acabava em um riso maníaco ecoado por Motosserra batendo as asas, ambos terríveis e entretidos.
— Seu imbecil — disse Gansey selvagemente. — Seu imbecil. Você traiu a minha confiança.
— Essa é a melhor música já inventada — Ronan lhe disse em meio a risadas ofegantes. Então se recuperou: — Vamos, pássaro, vamos dar ao homem alguma privacidade com sua comida. — Ao sair, ele apagou as luzes, retornando Gansey para o escuro. Gansey o ouviu assoviar o resto da canção de assassinato a caminho do quarto.
Em seguida se pôs de pé, recolheu o telefone e o diário e então voltou para a cama. A culpa e a preocupação já o haviam deixado quando sua cabeça pousou no travesseiro, e tudo o que restava era felicidade.

2 comentários:

  1. Essas ligações partem meu coração </3

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  2. Mas gente todo mundo tem ciume do Gansey,... eu tbm tenho kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!