30 de julho de 2018

Capítulo 17

PAELSIA

Encontrar uma vigilante exilada em Paelsia não estava sendo uma tarefa tão fácil quanto Cleo esperava. E viajar em um navio de transporte de vinhos não era tão glamoroso quanto estar a bordo da embarcação luxuosa de seu pai. Mas ela e Nic haviam conseguido chegar.
Cleo levava uma bolsa com artigos essenciais, entre eles uma muda de roupa e um pequeno saco com moedas de ouro e prata, genéricas, e não os reconhecíveis cêntimos auranianos com o rosto da deusa, o que poderia chamar atenção. Ela mantinha o capuz do manto sobre os cabelos queimados de sol a maior parte do tempo, mais para se proteger do vento frio do que para permanecer incógnita. Pouquíssimas pessoas naquela terra esquecida pela deusa deveriam saber quem ela era.
E eles andaram. E andaram.
E andaram um pouco mais.
A viagem para encontrar o vinho de Aron havia parecido uma andança sem fim. E não chegava aos pés desta.
Cada vila ficava, no mínimo, a meio dia de viagem da outra. Algumas vezes conseguiam pegar carona atrás de uma carroça, mas a maior parte do tempo viajavam a pé. Uma vila era igual à outra. Pequena, pobre, com um grupo de casinhas, uma taverna, uma hospedaria e um mercado que vendia artigos modestos, como frutas e legumes pequenos e feios. Esse tipo de alimento não crescia tão bem no solo frio quanto as uvas, apenas mais uma evidência de que os vinhedos e as uvas eram beneficiados pela magia da terra. Essa percepção manteve o otimismo de Cleo conforme os dias se arrastavam.
Logo depois da chegada eles vagaram pelos vinhedos, grandes extensões de vinhas verdes plantadas em fileiras, o solo congelado, as uvas verdes frias ao toque, mas grandes, roliças e doces.
Antes que alguém pudesse vê-los, eles juntaram o máximo possível de cachos de uva e saíram correndo. Não era uma refeição deliciosa servida por criados diante de uma lareira, mas encheria a barriga — especialmente depois que Nic se provara inútil ao tentar pegar um coelho ligeiro para o jantar. Eles se depararam com uma tartaruga estranha e lenta, mas nenhum dos dois teve coragem de matá-la. No momento, não estavam com fome o bastante para carne de tartaruga. Em vez disso, continuaram a comer suas frutas secas.
Depois da costa oeste, onde o porto envolvia a margem rochosa e os vinhedos cresciam, eles continuaram viajando para o leste, ao longo de estradas de terra, parando em cada vila para perguntar se alguém conhecia as lendas — e se havia algum rumor de uma vigilante exilada vivendo entre os camponeses.
Para todos que perguntavam, Cleo e Nic se apresentavam como irmãos do norte de Limeros que viajavam para pesquisar aquelas lendas. A ideia era hilária para Cleo e ela mal conseguia conter o riso quando Nic contava sua história — e cada vez ela aumentava mais. Logo eles eram o filho e a filha de um famoso poeta limeriano que lhes havia pedido no leito de morte que completassem o trabalho de sua vida: um livro sobre os vigilantes da Tétrade.
Nic tinha uma imaginação incrível e um jeito amigável que acalmava todo mundo. Paelsianos não eram abertos a visitantes de outros reinos, mas mudavam de ideia quando Nic começava a falar. Era difícil ele não conseguir botar um sorriso naqueles rostos abatidos. As crianças, em especial, adoravam Nic, reunindo-se em volta dele diante de uma fogueira sob as estrelas para ouvir suas histórias improvisadas. Quando partiam de algumas vilas, um grupo de crianças os seguia, implorando para Nic ficar mais um pouco e continuar a entretê-los.
Cleo esperava encontrar logo as respostas que buscava, mas já estavam lá havia quase uma semana e ela começava a se incomodar. Alguns dias eram melhores do que os outros. Eles tinham ouro que pagava por quartos em hospedarias, de modo que podiam ter uma noite de sono mais ou menos confortável em camas com forro de palha. As refeições servidas nas tavernas não chegavam aos pés daquelas do palácio auraniano, mas também não eram horríveis.
Mas certa noite, quando saíram de uma taverna e começaram a se dirigir a uma hospedaria para alugar um quarto, foram encurralados por alguns garotos grandes e rudes que levaram seus sacos de moedas. Eles ficaram apenas com algumas moedas que estavam no fundo dos bolsos de Nic.
Cleo chorou pela primeira vez desde que chegaram. Era um sinal claro de que a viagem deles a Paelsia só tendia a piorar. A qualquer momento ela teria que voltar a Auranos, admitindo seu fracasso e aceitando a punição por ter fugido de casa atrás de mitos e magia.
Sem querer gastar o pouco dinheiro que restava, eles dormiram no leito seco e empoeirado de um rio. Os braços de Nic envolviam Cleo para impedir que ela tremesse. Seu manto grande e largo cobria os dois para aquecê-los.
— Não chore — ele sussurrou. — Amanhã será melhor.
— Você não sabe.
— Está certa, não sei. Mas posso ter esperança.
— Não encontramos nada. Ninguém acredita que exista um vigilante vivendo aqui. Talvez não houvesse.
Cleo soltou um longo e trêmulo suspiro e encostou o rosto no peito de Nic para ouvir as batidas de seu coração. As estrelas brilhavam no céu escuro e a lua era um pedaço de luz prateada. Ela nunca havia analisado o céu por tanto tempo. Olhava para cima apenas de vez em quando, meio distraída. Mas nunca havia visto aquilo, não daquele jeito. Tão claro e vasto e lindo mesmo em um momento tão desesperador.
— Por que um vigilante se exilaria de seu lar? — ela perguntou.
— Ouvi dizer que alguns se apaixonam por mortais e partem por vontade própria. Quando saem, não podem voltar mais.
— Fazer uma coisa dessas por amor. Deixar o paraíso. — Ela engoliu em seco. — Parece um desperdício.
— Depende por quem a pessoa se apaixona.
Era verdade.
Quando Cleo olhava para as estrelas, pensava em Theon e imaginava se ele também estaria olhando para o céu naquele mesmo momento. Ele devia estar furioso por saber que ela partira e mentira para ele. Ao mesmo tempo ela não estava preocupada com aquilo, pensando que logo regressaria, vitoriosa, e tudo seria perdoado.
“Sinto muito, Theon”, ela pensou. “Queria que você estivesse aqui comigo.”
Por mais que ela adorasse Nic, pensar em ter os braços de Theon em volta de seu corpo para mantê-la aquecida fez seu coração acelerar. Ela tinha fugido dele, de suas palavras severas, mas naquele momento sentia falta dele desesperadamente. Não havia nada em Theon que ela quisesse mudar, nem o fato de ele não ser nobre. Ela esperava que ele entendesse que não havia outra escolha a não ser viajar a Paelsia. Que ele um dia a perdoasse.
— Como são os vigilantes? — Cleo sussurrou. — Nunca prestei atenção nas lendas.
— Quase mais ninguém acredita nelas. Os vigilantes são jovens e belos. Sua pele dourada emite luz. Eles passam os dias em campos de um verde interminável, cercados de esplendor.
— Mas estão presos naquele paraíso?
— É o que diz a lenda. Desde que a Tétrade foi perdida, eles não têm magia suficiente para sair. Foi a punição por perderem o que deveriam guardar.
— Mas eles ainda podem nos observar pelos olhos dos pássaros?
— Certamente nem todos. Devem achar algumas pessoas muito chatas de observar. Aron, por exemplo. Tudo o que veriam seria ele tomando vinho o dia inteiro e se admirando no espelho. Que tédio.
Ela riu apesar de tudo.
— Talvez você tenha razão.
— Eu estava pensando…
— Hum. O que é? — Ela olhou para o rosto dele.
— Imagine o que Aron diria se nos visse assim. Dormindo abraçados. Ele ficaria com ciúmes?
Ela riu.
— Muito. Ainda mais do fato de estarmos sem dinheiro, morrendo de fome e quase morrendo congelados, sem nenhuma gota de vinho.
Nic fechou os olhos, curvando os lábios de lado.
— Pela chance de morrer nos braços da princesa Cleiona, pode valer a pena.
Ele estava sempre fazendo comentários bobos como aquele. Cleo via aquilo como uma piada, mas às vezes pensava se sua irmã não estaria certa — se Nic não estaria mesmo apaixonado por ela.
A preocupação se foi quando ela pegou no sono e sonhou com Theon.
— É isso — Nic disse no dia seguinte quando retomaram a busca. — Se não encontrarmos nada hoje, voltamos para o porto e vamos para casa amanhã. Certo?
A decepção e o cansaço estavam em cada passo que Cleo dava.
— Certo.
Quase sem dinheiro ou pistas para lhes dar esperança, era hora da aventura terminar e de Cleo aceitar a derrota.
Ela fechou bem os olhos enquanto andavam e fez uma rara prece à deusa pedindo ajuda na busca.
Seu estômago resmungou, como se respondesse. Eles encontraram algumas frutas ressecadas em umas árvores também ressecadas, mas não foram o suficiente para satisfazê-la.
— Isso, excelente — brincou Nic. — Vamos seguir os roncos do seu estômago como se fossem uma bússola. Acho que vai ajudar.
Ela deu um tapa no braço dele e tentou não sorrir, já que era a última expressão que seu rosto tinha vontade de fazer.
— Não brinque. Sei que você também está faminto.
— Teremos que escolher entre uma taverna e uma hospedaria hoje à noite. O dinheiro não dará para os dois.
Era tão injusto. Logo quando Cleo estava começando a olhar para os paelsianos como um povo gentil e trabalhador, eles foram roubados, reafirmando a suposição anterior de que não passavam de selvagens desesperados.
“Eles são desesperados porque não têm nada. Enquanto eu tenho tudo.”
Era um pensamento assustador. Talvez Cleo também se tornasse selvagem se tivesse que viver naquela terra moribunda por mais de uma semana.
Eles entraram na vila seguinte, com suas típicas ruas empoeiradas e pequenas casas de pedra com telhado de palha. No mercado, parte mais movimentada da vila, pararam algumas pessoas e perguntaram sobre a vigilante.
Receberam as mesmas respostas de sempre.
— Vigilantes? Não sei nada sobre isso — respondeu uma mulher com os lábios ressecados e dentes quebrados. — Não acredito nessas lendas idiotas, meus caros. Se tivéssemos uma vigilante entre nós com magia na ponta dos dedos dourados, acha que teríamos que dormir sob telhados quebrados e comer vegetais queimados pelo gelo?
— Ela é uma vigilante exilada, então talvez seja diferente.
A mulher fez um gesto de indiferença.
— Já é ruim o suficiente termos que aturar o chefe Basilius, que usa nossos impostos em sua residência luxuosa e em sua suposta magia enquanto o povo morre de fome. Agora ele quer roubar nossos homens para suas missões idiotas. É repugnante.
— Quieta — sussurrou grosseiramente sua amiga grisalha, pegando no braço da mulher. — Não fale mal do chefe. Ele vai ouvir.
— Ele não ouve nada além de seus arrotos satisfeitos — a mulher replicou.
A amiga arrastou-a dali antes que ela dissesse mais alguma coisa.
— Telhados quebrados — Nic disse observando a aérea. — Ela está certa. Metade dos telhados por aqui tem buracos. Como essas pessoas conseguem sobreviver nos dias mais gélidos do inverno?
— Alguns não sobrevivem. — A voz veio de uma pequena banca que vendia cestos trançados. Cleo se virou para uma mulher baixa, de cabelos grisalhos e rosto enrugado, que a encarava com olhos pretos e brilhantes. Por um instante, Cleo se lembrou de Silas Agallon, o vendedor de vinho, pouco antes de seus filhos chegarem. O que acontecera logo depois escorregava por sua memória como algo apodrecido.
— Perdão, mas o que a senhora disse? — Cleo perguntou.
— O inverno é rigoroso aqui — respondeu a mulher. — Alguns não têm sorte o bastante para ver a primavera. As coisas são assim. Vocês não são daqui, são?
— Nós somos de Limeros — Nic explicou. — Estamos viajando por esta terra fazendo pesquisas para um livro sobre a lenda dos vigilantes da Tétrade. A senhora sabe alguma coisa sobre eles?
— Conheço algumas histórias que minha família costumava contar. E conheço muitas lendas passadas adiante no decorrer dos séculos, algumas que, de outra forma, teriam se perdido.
O coração de Cleo acelerou.
— Já ouviu rumores de que uma mulher que mora aqui em Paelsia era uma vigilante? Ela foi exilada e agora mora em uma vila nesta terra.
— Uma vigilante exilada por aqui? — As sobrancelhas da mulher levantaram. — Que interessante. Mas não, nunca ouvi essa história. Sinto muito.
Os ombros de Cleo desabaram.
— Também sinto.
A mulher recolheu suas mercadorias e as enrolou em um pedaço grande de tecido, embalando como uma bolsa, que jogou sobre os ombros.
— Vocês deveriam procurar um abrigo. A tempestade está chegando.
— Tempestade? — Nic repetiu quando um raio cortou o céu que escurecia, seguido do estrondo de um trovão.
A mulher olhou para cima.
— As tempestades são raras em Paelsia, mas quando vêm, são repentinas e fortes. Nossa terra ainda é tocada pela magia, mesmo que esteja se esvaindo diante de nossos olhos.
Cleo ficou ofegante.
— A senhora acredita em magia?
— Às vezes, sim. Mas nos últimos tempos não tem sido suficiente. — Ela inclinou a cabeça. — Têm certeza de que são de Limeros? Vocês têm um leve sotaque que me faz lembrar de nossos vizinhos do sul.
— É claro que temos certeza — Nic disse sem hesitar. — Cleo e eu já viajamos muito pelo Reino Ocidental, assim como para o exterior, então ganhamos muitas coisas pelo caminho. Sotaques, hábitos, amigos. Esperamos poder contar a senhora entre os amigos. Meu nome é Nicolo, mas pode me chamar de Nic.
— Eirene. — Um sorriso desdobrou as rugas em volta dos olhos. — Prazer em conhecê-lo, meu jovem. E você — ela se virou para Cleo — tem um nome incomum. É apelido para Cleiona?
Ela olhou nos olhos de Nic. Sem pensar, ele havia usado o nome dela na conversa. Cleo obrigou-se a manter a calma.
— Culpo meu pai por meu nome. Ele tinha um interesse especial por mitologia. Não fazia distinção entre as deusas, como muitos limerianos. Ele considerava as duas iguais.
— Sábio homem. Agora reforço a sugestão de que encontrem um quarto para passar a noite.
Eles trocaram um olhar justo quando a chuva fria começou a cair. Cleo cobriu os cabelos com o capuz do manto, mas ele logo ficou ensopado.
— Precisamos encontrar abrigo, mas não podemos pagar uma hospedaria — explicou Nic. — Também precisamos de comida, e não temos moedas para as duas coisas.
Eirene os observou e fez um sinal positivo com a cabeça.
— Então venham comigo. Posso alimentá-los e oferecer um lugar seco para dormirem esta noite.
Cleo olhou para ela, chocada.
— Por que faria uma coisa dessas por dois desconhecidos?
— Porque esperaria que um desconhecido fizesse o mesmo por mim. Venham.
Eirene os levou para a casa dela, a cinco minutos do mercado. Quando chegaram estavam totalmente ensopados — e tudo o que havia na bolsa de Cleo estava molhado. Enquanto Nic ajudava Eirene a fazer uma fogueira no centro, onde uma chaminé de pedra ia até o telhado de palha, Cleo olhava em volta. O piso era de barro socado, quase tão duro como o mármore. O resto era bem limpo, mas escasso. Mesa e cadeiras de madeira, colchões de palha do outro lado do cômodo. Embora não fosse nada comparado até mesmo à vila mais modesta de Auranos, era habitável.
Receberam cobertores de lã surrados e uma muda limpa de roupa enquanto as suas secavam perto da fogueira. Nic trocou seus trajes feitos sob medida no palácio por uma camisa e uma calça simples, e Cleo usava um vestido liso de tecido sem nenhum bordado.
Ela se aproximou de Nic enquanto Eirene trabalhava na cozinha.
— Isso pinica.
— O meu também.
— Suponho que seja melhor do que ficarmos nus até nossas roupas secarem.
— Ah, claro que sim. — Ele deu um sorrisinho malicioso. — Como seria terrível.
Enquanto Eirene preparava o jantar, ela fazia perguntas sobre a viagem deles por Paelsia. Cleo ficou sentada e deixou Nic fazer sua mágica especial, tecendo a história sobre a pesquisa dos dois como se fosse um narrador profissional.
— Então estão procurando essa vigilante exilada para entrevistá-la? — ela perguntou.
— Em parte — respondeu Cleo, trocando olhares com Nic. — Mas eu – nós – também temos outra irmã. Uma irmã mais velha que está muito doente. Ouvimos dizer que essa vigilante pode ter meios de curá-la.
— Sementes de uva — Eirene confirmou. — Inoculadas com magia da terra. Certo?
Os olhos de Cleo se arregalaram.
— Então a senhora conhece essa lenda?
— Conheço. Mas sinto dizer que não passa disso. Precisava haver uma explicação para o sucesso dos vinhedos, então alguns acreditam que essa seja a razão. Contudo, muitos creem que o próprio chefe Basilius seja responsável pela magia que torna possível produzir nosso vinho, assim o povo pode usar a bebida em rituais em sua homenagem.
— E qual é a verdade?
Ela deu de ombros.
— Não cabe a mim dizer.
Cleo recostou na cadeira, franzindo a testa.
— Mas a senhora disse que acreditava em magia.
Eirene concordou.
— E acredito, mas nunca diria isso em Limeros. Embora eu não seja bruxa, não gostaria que uma luz tão perigosa brilhasse em minha direção por causa daquilo em que acredito.
— A senhora conhece alguma bruxa que more por aqui? — Embora aflita pela ideia de que a vigilante fosse apenas uma lenda, Cleo pensava que talvez pudesse encontrar uma bruxa. Qualquer conexão com magia era um caminho importante a seguir.
— Para uma limeriana perguntar sobre bruxas com interesse, você deve estar muito determinada a salvar sua irmã. É ela o verdadeiro motivo de vocês terem vindo a Paelsia, e não apenas o livro. Não é?
Os olhos de Cleo de repente se encheram de lágrimas.
— Minha irmã é a pessoa mais importante e preciosa para mim. Se ela morrer dessa terrível doença, não sei o que farei. Preciso ajudá-la.
A porta se abriu e uma bela menina de cabelos escuros entrou correndo, toda molhada da chuva fria que desabava do lado de fora. Seus olhos caíram imediatamente sobre Cleo e Nic.
— Quem são vocês? — ela perguntou.
Eirene fez cara feia.
— Sera, por favor. Seja educada. Eles são meus convidados. Ficarão conosco para jantar e passarão a noite aqui.
A expressão da menina não ficou mais amigável com a explicação.
— Por quê?
— Porque estou dizendo. Esta é minha neta, Sera. Sera, estes são Cleo e Nicolo. São visitantes de Limeros.
— Cleo — repetiu a menina, revirando o nome na língua.
O coração de Cleo acelerou com medo de que a menina pudesse saber quem ela era de verdade. Ela se esforçou para ficar calma.
— É um prazer conhecê-la, Sera.
Sera ficou olhando mais um pouco para ela, depois se virou para a avó.
— Devo arrumar a mesa?
— Por favor.
Eles se sentaram à mesa de madeira pequena e bamba para o jantar. Cleo estava com tanta fome que não deixou de apreciar cada bocado do forte cozido de cevada servido em uma tigela de madeira — ela teria torcido o nariz se estivesse no palácio, mas naquele momento estava muito grata pelo alimento. E, é claro, havia vinho. Se havia uma coisa na qual os paelsianos não economizavam, apesar da vida difícil e estafante que levavam, era o vinho.
Cleo estava prestes a recusar um copo do garrafão de Eirene, mas segurou a língua. O vinho já a havia levado a arrependimentos e lembranças desagradáveis, mas um copo não faria mal.
Ela ainda estava no primeiro quando Nic já estava no terceiro. Aquilo o ajudava a soltar ainda mais sua já solta língua.
— A senhora parece conhecer muito sobre bruxas e vigilantes — ele disse a Eirene. — Há algo que esteja disposta a compartilhar e que possa ajudar em nossa pesquisa?
Ela se inclinou para trás até a cadeira ranger.
— Tenho histórias. Mas histórias não são fatos.
— Eu gosto de histórias. Amo, na verdade. Muitas vezes são melhores do que fatos.
— Que tal histórias sobre as deusas?
Sera resmungou.
— Ah, de novo não. Minha avó adora ser controversa e contar essa história. Mas ninguém acredita que as deusas eram vigilantes.
Cleo quase engasgou com um gole de vinho.
— Está falando de Cleiona e Valoria?
Eirene sorriu com malícia.
— Estão dispostos a ouvir sobre uma possibilidade assim tão escandalosa? Ou são muito devotos como a maioria dos limerianos?
Os limerianos acreditavam que Valoria era um ser etéreo que incorporava a magia da terra e da água. Cleiona incorporava o fogo e o ar. Eram iguais em força, mas sua violenta rivalidade fez com que destruíssem uma à outra, momento em que quase todos os elementia foram eliminados do mundo mortal. Eles acreditavam que Cleiona havia sido a instigadora da batalha final — que ela tentara roubar o poder de Valoria, levando ao fim de sua adorada deusa. Consideravam Cleiona má por isso, uma sombra à luz de Valoria.
Os auranianos, quando eram mais religiosos, acreditavam exatamente no contrário.
— Quero ouvir — Cleo disse, ansiosa para aprender algo sobre os vigilantes que pudesse ajudá-la. — Conte-nos suas histórias. Ficaremos gratos por tudo o que estiver disposta a compartilhar.
Sera tirou os pratos vazios da mesa.
— Conte a eles sobre Eva.
— Contarei. Tenha paciência, querida.
— Ela foi a última feiticeira — explicou Sera. — Podia controlar todos os quatro elementos sozinha. Ninguém e nada era tão poderoso, exceto a própria Tétrade.
Para alguém que parecia relutante em escutar as histórias da avó outra vez, ela mesma parecia ávida por contar. Cleo conteve um sorriso.
— Então uma feiticeira é uma bruxa muito poderosa?
— Mais do que isso — contestou Eirene. — Eva era uma vigilante, seres que vivem além deste mundo em um enclave protegido chamado Santuário. Os vigilantes, como devem ter ouvido nas lendas antigas, eram os protetores da Tétrade, quatro cristais que continham a essência mais verdadeira e mais pura dos elementia. Obsidiana para a terra, âmbar para o fogo, água-marinha para a água e selenita para o ar. A magia podia ser vista dentro dos cristais, rodopiando, se alguém olhasse bem de perto.
“As feiticeiras usavam um anel que lhes permitia tocar nos cristais sem serem corrompidas pela magia. Por mais belos que fossem, também eram muito perigosos. Os vigilantes os guardavam para manter a Tétrade protegida. Mas também para manter o mundo mortal protegido da Tétrade.
“Há um milênio, o Reino Ocidental, hoje dividido em três regiões, era um só, e todos viviam com prosperidade e harmonia. Naquela época, a existência da magia era aceita como a própria vida. A harmonia no Santuário se traduzia em harmonia aqui.”
Cleo se lembrou de ter lido em seus livros de história, quando seu tutor insistia para que prestasse atenção, que Limeros, Paelsia e Auranos costumavam ser uma grande região sem fronteiras. Era muito difícil para ela acreditar que os povos dos três reinos, tão diferentes entre si, já haviam sido um só.
— E o que aconteceu? — Nic perguntou. — Sei que dizem que a Tétrade foi perdida há mil anos.
— “Perdida” não é bem a palavra — explicou Eirene. — Foi roubada. Embora o Santuário parecesse harmonioso e os vigilantes, dedicados a guardar a Tétrade – que os presenteava com juventude eterna, beleza e magia – alguns deles queriam mais.
— Mais do que juventude eterna, beleza e magia? — duvidou Cleo. — O que falta?
— Poder. Ele sempre foi um forte motivador para alguns. A busca pelo poder, pelo poder supremo, é a razão por trás da maioria dos males que o mundo testemunhou. Mas estou me adiantando na história.
— Eu gosto da parte sobre Eva e o caçador — disse Sera. — É a minha favorita.
— Minha neta é romântica. — Eirene riu e se levantou para servir mais vinho a eles. — Eva era uma feiticeira poderosa que os outros vigilantes respeitavam como líder, mas ela também era bem jovem comparada aos anciãos. Alguns diziam que ela era ingênua. Costumava se aventurar além do véu do Santuário, no mundo mortal. Antes não era bloqueado como agora. No Santuário não há vida selvagem, então o que ela mais gostava de fazer era observar os pássaros. Um dia, ela encontrou um caçador que havia sido mortalmente ferido por um leão da montanha. Ele tinha avançado demais nas Montanhas Proibidas e se perdido. Quando estava deitado para morrer, ela apareceu para ele.
“Alguns dizem que foi amor à primeira vista. Ela então fez uma coisa proibida — usou sua poderosa magia da terra para curar os ferimentos do caçador e salvar sua vida. Nas semanas seguintes, ela deixou o Santuário para se encontrar com ele várias vezes. O amor dos dois se fortaleceu ainda mais. O caçador implorou a ela que saísse do Santuário e ficasse com ele no mundo dos mortais, mas ela sabia que não podia deixar suas responsabilidades para trás. No entanto, um dia ela descobriu que estava grávida e começou a se perguntar se poderia fazer diferente. Se poderia viver duas vidas ou se teria que sacrificar uma delas — ou o mortal que amava ou os outros imortais com quem compartilhava sua magia.
“Eva tinha duas irmãs mais velhas, que sabiam de seu segredo, e aquilo lhes dava mais motivos para terem inveja dela. Embora as duas, como vigilantes, também fossem poderosas, era pouco em comparação à magia da irmã mais nova.
“Quando ela deu à luz a filha do caçador, suas irmãs saíram do Santuário e raptaram a criança. Ameaçaram a vida do bebê se Eva não lhes entregasse a Tétrade no mundo mortal. Lembrem-se de que dentro do Santuário apenas Eva tinha o poder de tocar a Tétrade.
“Foi quando Eva fez sua escolha. A ideia de perder seu bebê era demais para suportar. Ela tirou a Tétrade dos quatro cantos do Santuário e levou-a para as irmãs no mundo mortal. Cada uma delas pegou dois cristais, e assim que tocaram nas pedras, foram corrompidas pela magia. Aquilo as mudou para sempre.”
— Elas foram transformadas em deusas — exclamou Cleo, quase sem respirar. — As irmãs eram Valoria e Cleiona.
Eirene confirmou, séria.
— A Tétrade foi absorvida pela pele das irmãs. Elas se tornaram fogo e ar, terra e água. Mas depois que a Tétrade foi retirada do Santuário, as duas não conseguiram voltar: estavam presas no mundo mortal. Embora tivessem o poder de deusas, seu corpo tornou-se perecível.
“Eva sabia disso, mas não as alertou. A fúria das duas irmãs foi suficiente para destruí-la. A criança se perdeu. Alguns dizem que morreu, outros dizem que foi deixada na porta de um camponês como último ato de bondade das deusas pela irmã morta.
“O caçador encontrou o corpo de seu amor na floresta, mas sem sinal do paradeiro da filha. Ele pegou o anel do dedo de Eva para lembrar-se dela… e para esperar o momento certo.
“As deusas ficaram separadas até a batalha final, quando quiseram tirar o poder uma da outra — percebendo, depois de muitos anos, que a posse dos quatro elementos da Tétrade lhes daria o poder supremo e a imortalidade mesmo no mundo mortal. Uma destruiu a outra.
“O caçador as estava espionando esse tempo todo. Quando as deusas foram destruídas, a Tétrade reapareceu na forma de cristais. Ele estava com o anel de Eva, então podia tocar os cristais sem se corromper. Ele os escondeu em um lugar onde ninguém pudesse encontrá-los. E depois, tendo completado a última tarefa de sua vida, ele morreu.”
— Que bom. Uma história com final feliz — exclamou Nic, aturdido.
— Depende de como você a vê, na verdade. — Eirene sorriu. — Mais vinho?
Nic empurrou o copo para a frente.
— Por favor.
— Então a Tétrade nunca foi encontrada — Cleo concluiu.
— Até hoje, não. Embora muita gente acredite que não passa de um mito. Que os vigilantes não são nada mais que uma lenda – as histórias são repassadas ano a ano sem nenhum fato em que se basear.
— A senhora disse que acreditava em magia. Mas acredita nessas histórias? — ela perguntou.
Eirene serviu mais vinho para Nic e para si própria.
— De todo o coração.
A cabeça de Cleo estava cheia com tudo o que havia ouvido.
— Os vigilantes procuram pela Tétrade. Não dizem que eles veem pelos olhos dos pássaros?
— Falcões, para ser mais precisa — Eirene corrigiu. — Eles podem assumir a forma de falcões. Pretendem encontrar a Tétrade e devolvê-la ao Santuário. Se saírem de lá sem tomar a forma do pássaro, nessas jornadas do espírito, não podem retornar. O Santuário está fechado para o resto do mundo. Existe em um plano diferente do nosso. Sobrou apenas um vestígio de magia com eles – mas dizem que está se esvaindo. Quanto mais tempo passam sem a Tétrade, mais seu mundo desaparece. Assim como o nosso.
— A senhora acha que há alguma relação? — Nic perguntou.
A expressão de Eirene estava séria.
— Certamente.
— Eu só gosto da parte da história de amor — afirmou Sera. — É meio difícil de acreditar no resto. Vó, eu prometi a uns amigos que os encontraria na taverna. Se importa se eu sair?
— Não, pode ir.
Depois de se despedir deles, Sera pegou um manto e saiu da casa, deixando os três sozinhos.
— Devo admitir que estou surpresa por não se indignarem com a sugestão de que sua amada deusa Valoria era uma vigilante corrompida — Eirene disse.
Cleo e Nic trocaram olhares.
— Temos a mente aberta — respondeu Nic. — Mas para mim é uma surpresa que ela pudesse ser tão malvada como a senhora contou.
— Eu nunca disse que ela era má. Nem que era boa. Até mesmo na pessoa mais sombria e cruel ainda há uma ponta de bondade. E dentro do virtuoso mais perfeito também existem trevas. A questão é: a pessoa cederá às trevas ou à luz? É algo que decidimos com cada escolha que fazemos, todos os dias de nossa existência. O que pode não ser maldade para você, pode ser para outro. Saber disso nos torna poderosos mesmo sem magia.
— Outros vigilantes deixam o Santuário. — Cleo passou o dedo indicador na borda do copo vazio. — Eles nunca podem regressar. Mas já aconteceu.
— É o que dizem.
— Eles continuam com sua magia? Uma vigilante que possui sementes inoculadas com magia da terra poderia realmente existir?
— Você tem tanta esperança que eu odiaria dizer não. — Eirene sorriu e estendeu o braço sobre a mesa para apertar a mão de Cleo. — Deve continuar a acreditar de todo o coração. Às vezes basta a crença para que algo se torne verdade.
— Eu acredito que gostaria de dormir logo — disse Nic.
Ela abriu um sorriso.
— Excelente sugestão, meu jovem.
Com o fim da história e da refeição, Eirene preparou camas no chão perto do fogo para Nic e Cleo. Ela apagou as velas, puxou a lona que cobria as janelas para ter mais privacidade e desejou boa-noite aos dois.
Cleo se acomodou sobre o fino colchão de palha e olhou para o céu escuro. Seus pensamentos primeiro se voltaram espontaneamente para Theon e o que ele poderia estar fazendo, mas quando ela adormeceu, sonhou com feitiçaria, deusas e sementes mágicas.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!