15 de julho de 2018

Capítulo 17

Embora Gansey gostasse de Henry Cheng, concordar em ir a uma festa dele parecia um estranho deslocamento de poder. Não que ele se sentisse ameaçado por Henry — tanto Henry quanto Gansey eram reis em seus respectivos territórios —, mas a carga era maior ao encontrar Henry em sua própria casa do que no terreno neutro da Academia Aglionby. Os quatro garotos de Vancouver viviam todos fora do campus, na Mansão Litchfield, e jamais se ouvia falar de festas por lá. Era um clube exclusivo. Inegavelmente de Henry. Jantar na terra da fantasia significava ser forçado a ficar por lá para sempre ou ansiar por ela assim que você a deixasse, e tudo o que isso envolvia.
Gansey não tinha certeza se estava em condições de fazer novos amigos.
A Mansão Litchfield era um antigo prédio vitoriano do outro lado do centro da cidade em relação à Monmouth. Na noite fria e úmida, ela se erguia em meio a rolos de névoa, torreões, telhas de madeira e varandas, todas as janelas iluminadas com pequenas velas elétricas. O acesso estava tomado por quatro carros de luxo estacionados em fila dupla. O Fisker prateado de Henry era um fantasma elegante junto ao meio-fio na frente, logo atrás de um velho sedã de aparência respeitosa.
Blue estava com um mau humor terrível. Algo havia claramente acontecido enquanto ela estava em seu turno de trabalho, e as tentativas de Gansey de arrancar essa informação dela só diziam que não era algo que tivesse a ver com a festa, tampouco com ele. Agora, era ela quem dirigia o Pig, o que trazia um triplo benefício. Para começo de conversa, Gansey não conseguia imaginar ninguém cujo humor não melhorasse terrivelmente ao dirigir um Camaro. Segundo, Blue dissera que nunca tivera chance de dirigir o carro coletivo da Rua Fox. E terceiro, e mais importante, Gansey ficava extraordinária e eternamente louco pela imagem de Blue atrás da direção do seu carro. Ronan e Adam não estavam com eles, então não havia ninguém para pegá-los no que parecia ser um ato incrivelmente indecente.
Ele precisava lhes contar.
Gansey não tinha certeza se estava em condições de se apaixonar, mas havia se apaixonado de qualquer maneira. Ele não compreendia bem a mecânica do sentimento. Ele compreendia sua amizade com Ronan e Adam — ambos representavam qualidades que ele não tinha e admirava, e eles gostavam das versões do próprio Gansey que ele também gostava. Isso também era verdade em relação a sua amizade com Blue, mas era mais do que isso. Quanto melhor ele a conhecia, mais a sensação se parecia com aqueles momentos em que ele nadava sozinho. A existência de versões dissonantes dele mesmo cessava, e havia apenas Gansey, agora, agora e agora.
Blue parou o Pig no pequeno sinal de pare, do lado oposto da esquina da Mansão Litchfield, e avaliou a situação do estacionamento.
— Argh — ela disse desagradavelmente, olhando para os carros finos.
— O que foi?
— Eu tinha esquecido como ele era Aglionby.
— Nós realmente não precisamos ir — disse Gansey. — Quer dizer, só preciso enfiar a cabeça na porta para agradecer, mas é só isso.
Ambos espiaram a casa do outro lado da rua. Gansey pensou em como era estranho que ele se sentisse desconfortável fazendo isso, uma visita sem sentido com uma turma que ele quase certamente conhecia em sua totalidade. Ele estava prestes a admitir isso em voz alta quando a porta da frente se abriu. O ato criou um quadrado de amarelo, como um portal para outra dimensão, e Júlio César saiu para a varanda toda enfeitada com fitas de papel. Júlio acenou para o Camaro e gritou:
— Ei, ei, Dick Gansey!
Porque não era Júlio César; era Henry em uma toga.
As sobrancelhas de Blue desapareceram por entre as mechas de cabelo em sua testa.
— Você vai usar uma daquelas?
Isso seria terrível.
— É claro que não — Gansey lhe disse. A toga parecia mais real do que ele teria gostado, agora que olhava diretamente para ela. — Não vamos ficar muito.
Blue deu a volta na quadra, evitando atropelar um gato branco, e fez uma manobra lenta, mas digna de crédito, ao estacionar em paralelo, mesmo com Gansey a observando proximamente, mesmo com a correia da direção hidráulica gemendo um protesto.
Embora Henry soubesse que eles não demorariam para chegar, ele havia retornado para dentro de casa, a fim de poder atender a porta de maneira grandiosa quando eles tocassem a campainha.
Então ele os fez entrar, fechando-os em um bolsão ligeiramente quente demais, cheirando a alho e rosas. Gansey esperara encontrar alunos se balançando de candelabros e esquiando em álcool, e, embora não tivesse necessariamente desejado isso, a discrepância era desconcertante. O interior estava exageradamente arrumado; um corredor escuro com espelhos entalhados e tomado de móveis antigos frágeis estendia-se obscuramente, invadindo as entranhas da casa. Não parecia nem remotamente um lugar onde se daria uma festa. Parecia um lugar onde senhoras idosas escolheriam para morrer, sem serem descobertas até os vizinhos notarem um cheiro estranho. Um lugar absolutamente contrário ao que Gansey esperaria de Henry.
Também era muito sossegado.
Gansey teve um pensamento súbito, terrível, de que era possível que a festa pudesse ser simplesmente Henry e os dois de toga em uma sala de estar elegante.
— Bem-vindos, bem-vindos — Henry lhes disse, como se não tivesse visto Gansey apenas um instante atrás. — Você acertou o gato?
Ele havia tomado um enorme cuidado com a aparência. Sua toga estava amarrada com mais cuidado do que qualquer gravata que Gansey já tivesse dado nó, e Gansey já tinha dado nó em muitas. Ele usava o relógio mais cromado que Gansey já vira, e ele já vira muitas coisas cromadas. Seu cabelo preto espigado se esforçava freneticamente para cima, e Gansey já tinha visto muitas coisas esforçando-se freneticamente para cima.
— Nós fomos para lá — disse Blue concisamente. — Ele foi para cá.
— A garota esperta veio! — exclamou Henry, como se só agora a tivesse visto. — Pesquisei na internet por togas para damas, caso você viesse. Belo trabalho com o gato. A sra. Woo nos envenenaria dormindo se você o tivesse esmagado. Como é mesmo o seu nome?
— Blue — disse Gansey. — Blue Sargent. Blue, você se lembra do Henry?
Eles se encararam. Em seu breve encontro anterior, Henry conseguira ofender Blue por completo, zoando casualmente de si mesmo. Gansey compreendia meio por alto que Henry tirava sarro de maneira ofensiva e revoltante de si mesmo porque a alternativa seria invadir uma sala de jogos e virar as mesas dos cambistas. Blue, no entanto, havia claramente pensado que ele não passava de um principezinho imaturo da Aglionby. E em seu humor atual...
— Lembro — disse Blue friamente.
— Não foi meu melhor momento — disse Henry. — Meu carro e eu fizemos as pazes desde então.
— Seu carro elétrico — colocou Gansey com sutileza, caso Blue tivesse perdido as ramificações ambientais.
Blue estreitou os olhos na direção de Gansey, e então chamou atenção para um ponto:
— Você poderia ir de bicicleta para Aglionby daqui.
Henry meneou um dedo.
— Verdade, verdade. Mas é importante praticar o ciclismo seguro, e eles ainda não fizeram um capacete para acomodar o meu cabelo. — Para Gansey, ele disse: — Você viu o Cheng Dois por aí?
Gansey não conhecia realmente o Cheng2 — Henry Broadway, na realidade, confusamente apelidado não por ser o segundo de dois Chengs em Aglionby, mas por ser o segundo de dois Henrys —, exceto o que todos sabiam: que ele participava de rachas em alta velocidade, com bebidas energéticas bombeando uma voltagem contínua às suas extremidades.
— Não, a não ser que ele tenha pego um carrinho japonês enquanto eu não estava olhando.
Isso fez Henry rir alegremente, como se Gansey tivesse tocado em alguma conversa anterior.
— Aquele carrinho é da sra. Woo. Nossa minúscula senhoria. Ela está por aqui em algum lugar. Confiram seus bolsos. Ela pode estar aí. Às vezes ela cai entre as fendas no assoalho... Esse é o problema dessas casas grandes antigas. Onde estão o Lynch e o Parrish?
— Infelizmente, ambos ocupados.
— Isso é incrível. Eu sabia que o presidente nem sempre tinha de agir de comum acordo com o Congresso e a Suprema Corte; só achei que jamais viveria para ver o dia.
— Quem mais vem? — perguntou Gansey.
— Apenas os suspeitos de sempre — disse Henry. — Ninguém quer ver um conhecido qualquer enrolado num lençol.
— Você não me conhece — salientou Blue. Era impossível dizer o que a expressão facial dela queria dizer. Nada de bom.
— Richard Gansey Terceiro dá testemunho a seu favor, então você é conhecida o suficiente.
Uma porta se abriu no fim do corredor e uma mulher asiática muito pequena de qualquer idade avançou, pisando firme com uma braçada de lençóis dobrados.
— Olá, titia — disse Henry docemente. Ela o encarou antes de seguir marchando por outra porta afora. — A sra. Woo foi expulsa da Coreia por seu gênio difícil, pobrezinha; rá, ela tem o charme de uma arma química.
Gansey havia suposto vagamente que algum tipo de figura de autoridade vivia na Mansão Litchfield, mas ele não pensara muito mais no assunto. A educação ditava que ele trouxesse flores ou comida, no caso de um encontro mais íntimo.
— Eu deveria ter trazido algo para ela?
— Quem?
— Sua tia.
— Não, ela é tia do Ryang — disse Henry. — Cheguem mais, vamos entrar. O Koh está no andar de cima, catalogando as bebidas. Você não precisa ficar bêbado, mas eu vou. Já me disseram que não fico muito gritão, mas às vezes posso me deixar levar por meu lado filantropo. Quem avisa amigo é.
Agora Blue assumira uma expressão completamente crítica, o que se situava a dois graus de sua expressão comum e a um grau da expressão de Ronan. Gansey estava começando a suspeitar que esses dois mundos não fossem combinar.
Um estrondo ressoou quando Cheng2 e Logan Rutherford apareceram por outra porta, com sacolas plásticas nas mãos. Rutherford tinha o bom senso que Deus havia lhe dado para manter a boca fechada, mas Cheng2 jamais aprendera essa habilidade.
— Caraca, temos garotas? — ele disse.
Ao lado de Gansey, Blue cresceu quatro vezes em altura; todo o ruído sugado do ambiente preparado para a explosão.
Aquilo seria terrível.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!