5 de julho de 2018

Capítulo 17

— Me conte o meu futuro — disse Blue aquela noite, jogando-se na frente de Calla, que havia coberto a mesa da sala de leitura com recibos. Toda a Rua Fox, 300 estava terrivelmente barulhenta; Orla tinha mais um grupo por lá, assim como a mãe de Orla, Jimi. Além disso, Trinity — a irmã de Jimi, ou prima, ou amiga — havia trazido para casa mil priminhos ou algo assim para fazer sabonete. A sala de leitura era o lugar mais silencioso. — Me conte se eu vou ficar órfã.
— Vá embora — disse Calla, apertando botões em uma calculadora. De modo geral, ela e Maura cuidavam das finanças da casa, Calla operando a calculadora como uma adulta e Maura sentada de pernas cruzadas no meio da mesa próxima. Mas agora não havia Maura. — Estou ocupada.
— Acho que na verdade você não sabe — disse Blue. — Acho que é isso. Você e a Persephone estão fingindo ser todas sábias a respeito disso, “Ah, ela precisa encontrar o próprio caminho no mundo” e blá-blá-blá, mas na verdade vocês só dizem isso porque não fazem a menor ideia.
— Estou fazendo trabalho administrativo — disse Calla. — E você é uma peste. Vá embora.
Blue pegou um punhado de recibos e jogou no rosto de Calla.
Calla olhou para ela através das folhas esvoaçantes sem se mexer. Os papéis pousaram sobre a mesa. Blue e Calla se encararam.
— Desculpa — disse Blue, se encolhendo. — Desculpa mesmo.
Ela começou a pegar um dos recibos, e Calla agarrou seu punho.
— Não — disse.
Os ombros de Blue se curvaram mais ainda.
Calla disse:
— Escuta. Não é fácil para nenhuma de nós. Você está certa. Nós jamais conseguimos ver Cabeswater, e está mais difícil ver todo o resto agora, quando somos só duas. É mais difícil concordar quando não há uma terceira opinião, especialmente quando a questão é sobre a terceira opinião... — Seu rosto mudou. — Vou lhe dizer uma coisa: há três adormecidos.
— Você já me disse isso. Todos já me disseram isso.
— Bem, acho que o seu trabalho é despertar um deles, e que o trabalho da Maura é não despertar o outro.
— Isso totaliza dois trabalhos, e são três adormecidos.
— Persephone e eu discordamos um pouco sobre a existência de um terceiro trabalho ou não.
— Aliás, de que tipo de trabalho estamos falando aqui? Tipo, um trabalho onde tiramos um salário e no fim temos nosso rosto colado na parede de uma floresta mágica como Funcionário do Mês? — perguntou Blue.
— Um trabalho do tipo em que, no fim, tudo entra em equilíbrio e todos nós vivemos felizes até o fim dos malditos tempos.
— Bom, isso parece bacana, exceto que a) o que fazer com aquele outro adormecido, e b) não dá para realmente terminar um trabalho negativo, isto é, como a minha mãe vai saber que teve sucesso em não acordar alguém, e 3) isso ainda envolve o Gansey morrer? Porque f) essa não é a minha ideia de um final feliz.
— Lamento que estejamos tendo esta conversa — disse Calla, e começou a empilhar recibos.
— E também g) eu não quero mais ir para a escola.
— Bom, você não vai largar a escola, então sinto muito.
— Eu não disse que ia largar a escola. Eu só tenho um nível de satisfação muito baixo no momento. A moral está baixa. As tropas não querem ir para uma faculdade comunitária.
Calla apertou outro botão na calculadora. Sua boca assumiu um formato muito pouco impressionado.
— Então as tropas não deveriam reclamar com alguém que trabalhou tão duro para conseguir frequentar uma faculdade comunitária.
— Essa é uma daquelas conversas do tipo “olha-como-eu-me-esforcei-para-conseguir-estudar”? Porque se for...
— É uma daquelas conversas do tipo “você-acha-que-o-mundo-te-deve-alguma-coisa-Blue-Sargent”.
Blue se pôs de pé, envergonhada e amuada.
— Tanto faz. Onde está a lista da vigília da igreja?
— Isso não vai tornar o Gansey menos morto.
— Calla.
— Está na caixa em cima da geladeira, eu acho.
Profundamente insatisfeita, Blue saiu correndo da sala, arrastando uma cadeira até a geladeira, através de hordas de crianças que faziam sabonete.
De fato, ela encontrou os blocos de anotação da vigília da igreja na caixa no topo. Pegou a coleção inteira, abriu caminho em meio às crianças atarefadas e então saiu pela porta de correr para o quintal escuro.
O ambiente ficou instantaneamente mais silencioso. O jardim estava vazio, exceto por alguns crisântemos esperando para serem plantados, a enorme faia com seu grande dossel amarelo e o Homem Cinzento. Ele estava sentado tão silencioso em uma das cadeiras no gramado que Blue não o percebeu até se virar para se sentar na outra.
— Ah! Desculpa. Você quer ficar sozinho? Eu posso voltar para dentro.
Sua expressão era pensativa. Ele inclinou sua cerveja ainda bastante cheia na direção da outra cadeira.
— Não, eu sou o intruso aqui. Eu que devia perguntar se você quer o espaço só para você.
Blue acenou uma mão acanhada para ele enquanto se sentava. A noite cheirava a mofo e umidade, toda chuva e montes de folhas queimadas. Por um momento eles ficaram em silêncio, enquanto Blue folheava os papéis e o Homem Cinzento bebia sua cerveja lentamente, de maneira contemplativa. A brisa era fria, e o Homem Cinzento tirou a jaqueta e a passou sem nenhuma cerimônia para Blue.
Enquanto ela a colocava sobre os ombros, ele perguntou:
— Então, o que você tem aí? Sonetos, espero.
Blue tamborilou os dedos sobre as páginas, pensando em como resumir a questão.
— Todo mês de abril, nós fazemos uma vigília e vemos os espíritos das pessoas que vão morrer dentro de um ano. Perguntamos o nome delas e, se são clientes, deixamos que saibam que vimos seus espíritos para que elas possam colocar suas coisas em ordem. Essa é a lista dos nomes.
— Você está bem?
— Ah, sim, é só um... cílio no meu olho ou alguma coisa parecida — disse Blue, passando a mão no olho direito. — Por que essa cara?
— O fascínio das ramificações éticas e espirituais.
— Não é? — Blue ergueu a lista mais recente sobre a cabeça para que a luz da cozinha iluminasse sua escrita. — Vixe.
— O quê?
Ela acabara de encontrar o que estava procurando: “JESSIE DITTLEY”. Escrito errado, mas ali, de qualquer forma.
Blue se recostou.
— O Gansey e eu encontramos alguém, e eu achei que conhecia o nome.
— E ele está na lista.
— Sim. A questão é que eu não sei se ele vai morrer porque nós estamos na vida dele ou porque não estamos, ou se ele vai morrer de qualquer maneira.
O Homem Cinzento repousou o pescoço sobre o encosto da cadeira e mirou as nuvens baixas refletindo a luz de Henrietta.
— Destino versus um mero prognóstico? Imagino que você saiba mais sobre como esse negócio mediúnico funciona.
Blue se encolheu ainda mais na jaqueta dele enquanto a brisa farfalhava as folhas da faia.
— Eu só sei o que me contaram.
— E o que te contaram?
Ela gostava da maneira como ele perguntava. Era menos porque precisava da informação e mais porque estava gostando da companhia dela. Parecia estranho que ela se sentisse menos solitária e inquieta sentada ali com o Homem Cinzento, em vez de com Calla ou Persephone.
Blue sentiu mais cílios pinicando seu olho.
— Minha mãe diz que é como uma memória — disse Blue. — Em vez de olhar para trás, você olha para frente. Lembra o futuro. Porque o tempo não é assim — ela traçou uma linha. — É assim — e traçou um círculo. — Então imagino que, se você pensa a respeito dele dessa maneira, não é que a gente não possa mudar o futuro. A questão é que, se você vê o futuro, ele já reflete as mudanças que você poderia ter feito com base no que viu nesse futuro. Não sei. Não sei! Porque a minha mãe sempre diz para as pessoas que as leituras dela são uma promessa, não uma garantia. E uma promessa você pode quebrar.
— Algumas garantias também — observou o Homem Cinzento, com a voz esquisita. Então, subitamente: — A Maura está na lista?
Blue balançou a cabeça.
— Ela nasceu na Virgínia Ocidental. A vigília da igreja mostra somente pessoas que nasceram na região.
Ou, no caso de Richard Gansey III: renasceram.
— Posso ver? — perguntou o sr. Cinzento.
Ela lhe entregou a lista e observou as folhas se movendo lentamente sobre sua cabeça enquanto o Homem Cinzento ia passando os nomes.
Como ela adorava aquela faia. Tantas vezes, quando garotinha, ela saíra para pousar as mãos contra a casca suave e fria da árvore, ou sentar sobre suas raízes retorcidas e expostas. Blue havia escrito uma carta para ela, uma vez, ela se lembrava, e a colocara em um estojo de lápis que enfiara nas raízes. Com o tempo, elas cresceram em torno da caixa, escondendo-a completamente. Agora, Blue gostaria de ler a carta novamente, pois se lembrava somente de sua existência, não do conteúdo.
O sr. Cinzento parara de se mexer. Com a voz cuidadosa, ele disse:
— Gansey?
O último de todos os nomes, na última página.
Blue apenas mordeu o lábio inferior.
— Ele sabe?
Ela balançou a cabeça, só um pouco.
— Você sabe quanto tempo?
Ela balançou a cabeça novamente.
Os olhos do Homem Cinzento repousavam pesados sobre ela, e então ele apenas suspirou e anuiu, a solidariedade de ser aquele deixado para trás, aquele que não estava na lista.
Finalmente, ele disse:
— Muitas promessas não são cumpridas, Blue.
E deu um golinho em sua cerveja. Blue dobrou o pedaço de papel para esconder “JESSIE DITTLEY” e então revelá-lo novamente. No escuro, ela perguntou:
— Você ama a minha mãe?
Ele olhou de relance para cima, através dos emaranhados mais escuros das folhas. Então anuiu.
— Eu também.
O Homem Cinzento flexionou o dedo indicador. Com um franzido de cenho, disse:
— Não era minha intenção colocar sua família em perigo.
— Eu sei que não era. Não acredito que ninguém pense isso.
— Eu tenho uma decisão a tomar — ele disse. — Ou um plano a traçar. Acho que o levarei adiante até domingo.
— O que tem de mágico a respeito de domingo?
— É uma data que costumava ser muito importante para mim — disse o Homem Cinzento. — E parece adequado torná-lo o dia em que vou começar a ser a pessoa que a sua mãe pensa que eu posso ser.
— Espero que a pessoa que a minha mãe pensou que você pode ser seja uma pessoa que encontra mães — respondeu Blue.
Ele se levantou e se espreguiçou.
— Helm sceal cenum, ond a þæs heanan hyge hord unginnost.
— Isso significa “Eu vou ser um herói”?
Ele sorriu e disse:
— O coração de um covarde não é um prêmio, mas o homem de valor merece o seu capacete reluzente.
— Então, foi o que eu disse — ela respondeu.
— Basicamente.

2 comentários:

  1. Acho incrível a relação da Blue com o Homem Cinzento <3 pq n é exatamente pai/filha e nem amizade, mas eles conversam muito bem

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  2. Legal a relação de Blue e o Homem Cinzento.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!