30 de julho de 2018

Capítulo 16

LIMEROS

O rei havia convocado Magnus à sala do trono.
Era inconcebível visitar os aposentos do filho. Não, em vez disso o príncipe tinha que ser convocado oficialmente como um criado.
Irrelevante.
Ele não se apressou para chegar. Obedeceria, é claro. Não tinha outra escolha, mas mesmo com a recém-descoberta apreciação do rei pelo filho, Magnus não faria nada correndo.
Ele havia passado dois dias treinando com Lucia, para ajudá-la a aprimorar o controle e a destreza. Muita coisa parecia depender das emoções oscilantes de sua irmã. Quando discutiam — em especial sobre os pretendentes que Magnus afugentava —, seu temperamento mais forte ajudava a evocar a magia. Quando sua confiança estremecia, ela falhava.
Dessa forma, Magnus fazia de tudo para eles discutirem com frequência. Não era preciso muito para que o rosto de Lucia ficasse vermelho.
Ainda levaria um bom tempo para que a princesa se abrisse completamente à sua magia. Mesmo não admitindo, ela tinha medo. E o que a pessoa teme não costuma ser recebido de braços abertos.
Magnus sentia algo parecido em relação ao pai.
— O senhor me chamou? — ele perguntou, seco, quando estava diante do rei na sala do trono.
O rei Gaius tirou os olhos dos papéis que analisava e se concentrou em Magnus como uma águia que avista uma presa interessante.
— Você demorou bastante para chegar aqui.
— Vim o mais rápido que pude.
A mentira escorria suavemente.
— O que anda fazendo, Magnus? Está passando muito tempo sozinho nos últimos dias. Perdeu uma oportunidade de sair para caçar comigo esta manhã.
— Estive lendo.
O rei abriu um sorriso, mas o calor dele não chegou a seus olhos.
— Acho difícil acreditar.
Magnus deu de ombros.
— O senhor só queria saber o que ando fazendo ou vamos discutir assuntos mais importantes?
O rei encostou-se no trono de ferro e couro preto e observou o filho.
— Você se parece tanto comigo quando tinha a sua idade. É impressionante.
Magnus não sabia se considerava aquilo um elogio ou um insulto.
— Como vão os planos com o chefe Basilius? — ele perguntou, querendo desviar o foco de si.
— Tudo está se ajeitando. Não se preocupe, meu filho, eu o manterei informado de cada passo importante. E pedirei sua assistência nas questões maiores muito em breve.
Já que o posto de valete do rei estava vago devido à morte inesperada de Tobias, Magnus tinha certeza de que o rei precisaria de um novo assistente pessoal para ocupar a vaga. Ao que tudo indicava, seria ele.
— O que o rei desejar, eu obedeço. — Era quase impossível dizer aquilo sem sarcasmo. Velhos hábitos são difíceis de abandonar.
— Eu o chamei aqui por um motivo específico. — O rei o analisou por um instante. — E Lucia? Você notou algo incomum nela?
Magnus sabia que ele perguntaria, então se preparou. Olhou para o brasão da família Damora, com as palavras Força, Fé e Sabedoria.
— Eu a estou observando, mas ela parece a mesma de sempre. Se o senhor acha que ela está um pouco distraída, talvez seja apenas uma queda por algum garoto sem graça.
— Não, não seria uma coisa tão sem importância.
— Bem, eu nem posso saber exatamente o que devo procurar, posso? O senhor se recusa a compartilhar os detalhes comigo.
E então ele não fazia mais parte dos importantes planos de seu pai para o reino. Talvez fossem apenas palavras. Pensar nisso era estranhamente decepcionante.
O rei se inclinou para frente em seu simples, porém intimidador, trono — o outro, de ouro trabalhado e joias, do qual governara o avô de Magnus, havia sido retirado anos antes. Ele juntou as pontas dos dedos.
— Acho que você pode estar pronto para saber a verdade.
Magnus ergueu uma sobrancelha, surpreso.
— Então me diga.
— Eu sempre esqueço que você não é mais um garotinho. É quase um homem e, como tal, deve ser incluído em tudo o que faço. Na verdade — o rei se levantou e circulou Magnus lentamente, percorrendo o filho com os olhos, com uma mistura estranha de crítica e aprovação —, é como olhar para o meu passado. Sabina mencionou isso outro dia.
— Sabina mencionou o quê?
— Como somos parecidos. Você sabe, quando eu a conheci não era muito mais velho do que você.
O estômago de Magnus se revirou.
— Que ótimo. Ela já era casada na época ou o senhor esperou a noite de núpcias dela para levá-la para a cama?
O rei deu um pequeno sorriso.
— Sua língua é muito afiada. Mas tudo bem. Um futuro rei precisa de todas as armas que tiver à disposição. Acredite em mim, quando estiver no trono, poderá confiar em pouquíssimas pessoas.
— E o senhor confia em Sabina?
— Confio.
O único jeito de tirar alguma informação daquele homem insuportável era fazer perguntas diretas — e fingir não se importar muito com as respostas, claro. Se Magnus parecesse muito ávido, sabia que seu pai continuaria a esconder a verdade.
— Que profecia é essa relacionada a Lucia? O que o senhor está esperando encontrar nela?
O rei não disse nada por um bom tempo. Seus olhos se estreitaram.
— Você sabe o que eu penso de quem escuta minhas conversas privadas, Magnus.
Ele se contraiu por dentro. Às vezes até ele sabia que não devia falar tão diretamente, a menos que quisesse provocar um ataque de seu pai. Às vezes era difícil lembrar. Mas ele estava no limite e tinha dificuldade para se controlar. Sua máscara da indiferença costumava ser muito mais eficiente do que aquilo.
Saber que Lucia era uma bruxa, no entanto, havia desequilibrado seu mundo. Havia descoberto que a máscara na qual se apoiava mudara. Seria difícil usá-la de novo sem um grande esforço.
Magnus estava certo de que seu pai não responderia. Talvez o mandasse embora sem nenhuma informação. Seria ótimo, já que ele poderia voltar aos aposentos de Lucia e continuar com seus treinos.
O rei falou, por fim.
— Se eu admitir uma coisa dessas para você, Magnus, entraremos em um terreno muito perigoso.
— A verdade só é perigosa se puder ferir. — Ele fingiu estar mais interessado em uma bandeja de maçãs e queijos na mesa ao lado do que nas palavras proferidas pelo pai.
— Mentiras podem tornar verdades difíceis menos dolorosas. Mas eu acredito que a dor é essencial para o crescimento. — O rei tinha o olhar fixo. — Acha que está pronto para tamanha sinceridade?
Magnus olhou o rei bem nos olhos, que eram da mesma cor dos seus. Ao observar o rosto do pai, não conseguia deixar de ver frieza. Desde pequeno ele associara a imagem do rei à de uma serpente, igual à naja que adornava a insígnia da família. Uma cobra escorregadia, peçonhenta e de dentes afiados.
— Quero saber sobre Lucia — Magnus disse com firmeza. — E quero saber agora.
O rei se levantou do trono e andou até o outro lado da sala para olhar pela janela, de onde se via o penhasco coberto de gelo até o extenso mar.
— Há muitos anos, Sabina e a irmã dela estudaram as estrelas procurando o sinal de um nascimento especial. Uma criança que se tornaria alguém ligado às lendas e à magia.
— Magia? — A própria palavra era perigosa.
O rei confirmou lentamente.
— Sabina é uma bruxa.
Magnus empalideceu. Ele nunca havia se importado com Sabina, mas nunca vira nenhuma indicação de que o que o seu pai dizia era verdade.
— O senhor me levou para ver uma bruxa arder em chamas quando eu tinha doze anos. Era uma lição sobre o que aconteceria com quem tentasse invocar magia aqui em Limeros. E ainda assim me diz que sua amante é uma delas? Eu nem sabia que o senhor acreditava nessas coisas exceto para usá-las como exemplo para quem difundisse mentiras.
O rei abriu as mãos.
— Um rei precisa tomar decisões difíceis. Por um bom tempo, não acreditei. Mas é verdade, Magnus. A magia é real.
— O senhor seria capaz de condenar uma mulher à morte por bruxaria e ainda assim considerar Sabina sua conselheira mais íntima? Uma mulher que, ainda por cima, leva para a cama?
— Não espero que entenda, apenas que aceite que o que eu fiz, tudo o que sempre fiz, foi em benefício de meu reino. Sabina é uma rara exceção para mim.
A mente de Magnus girava.
— O que isso tem a ver com Lucia?
— Havia uma profecia sobre uma criança que nasceria e um dia teria os poderes não apenas de uma bruxa, mas de uma feiticeira.
Magnus ficou imóvel.
— E o senhor acredita que seja sua própria filha?
O rei agarrou os ombros de Magnus e o puxou para mais perto.
— Esperei muito tempo para saber se era verdade. Mas não há sinais de que Lucia seja tão extraordinária assim. Faz dezesseis anos, Magnus, que só me frustro.
Seu estômago ficou apertado.
— Não sei o que dizer.
— Não viu nada? Nada? Mesmo?
Magnus escolheu as palavras com sabedoria.
— Não. Não tenho nada a dizer. Ela é como qualquer garota de dezesseis anos deve ser. Pensar que ela poderia ser uma feiticeira… — Sua garganta ficou seca. — É absurdo.
As mentiras amenizavam bastante a verdade dolorosa.
— Eu me recuso a acreditar — afirmou o rei entredentes. Havia um brilho de suor sobre a fronte dele. — Ela é a chave, Magnus. Ela é essencial para os meus planos. Preciso de toda a ajuda possível.
— O quê? Está falando de Auranos?
— É claro. Nada mais importa no momento.
— Certamente nosso exército, combinado com o de Basilius, de todo modo…
— O de Basilius? Rá. Jovens mal treinados e desnutridos que nunca seguraram uma espada. Auranos, com o seu estilo de vida indolente, tem um exército impressionante. Não, precisamos de uma garantia.
Um arrepio percorreu o corpo de Magnus.
— E quanto a Sabina? Se ela é uma bruxa, como o senhor diz, ela não pode usar magia para ajudar?
A expressão do rei azedou.
— O poder que ela pode ter tido quando jovem já desapareceu. Ela é inútil para mim nesse sentido. Não. Deve ser Lucia. Segundo a profecia, ela teria uma magia infinita, vinda de todos os quatro elementos.
Todos os quatro? Magnus só tinha visto indícios de dois até então: ar e fogo. Mas isso significava que os outros dois, terra e água, poderiam se manifestar depois.
— Com uma magia como essa eu poderia destruir o rei Corvin e todo o seu reino. — Os punhos do rei estavam cerrados. — Poderia exterminá-lo em um único dia e tomar Auranos.
Magnus engoliu em seco.
— Talvez Sabina esteja errada sobre Lucia.
O rei lhe lançou um olhar tão severo que a cicatriz de Magnus começou a arder.
— Eu me recuso a acreditar nisso.
— Então acho que terá que ser paciente.
A raiva desapareceu dos olhos de seu pai e ele voltou a observar o filho com cuidado.
— Você ama sua irmã, não ama?
Magnus cruzou os braços.
— É claro que sim.
— Ela é uma beleza. Um dia será uma excelente esposa para alguém.
Suas entranhas queimaram como lava com o ciúme.
— Com certeza.
A boca do rei se retorceu formando um sorriso sinistro.
— Acha mesmo que eu não percebo como olha para ela? Não sou cego, meu filho.
A bile subiu até a garganta de Magnus, amarga e inesperada.
— Não sei do que está falando.
— Banque o inocente se isso faz com que se sinta melhor, mas eu vejo. Sou um homem muito esperto, Magnus. Não basta ter coragem para ser rei, é necessário ter inteligência também. Eu observo para poder usar o que vejo a meu favor.
O maxilar de Magnus ficou tenso.
— Bom para o senhor.
— E vejo um irmão que se importa profundamente – muito profundamente – com sua bela irmãzinha.
Magnus olhou para a porta, querendo sair o mais rápido possível.
— O senhor me dá licença, pai? Ou deseja continuar fazendo joguinhos comigo?
— Não é jogo, Magnus. Eu reservo meus jogos para o campo de batalha ou o tabuleiro de xadrez. Acha que não sei por que você nunca demonstrou interesse em nenhuma outra garota a fim de um dia se casar?
Magnus sentiu repulsa com o rumo que a conversa tomava.
— Pai, por favor.
— Eu sei, Magnus. Vejo nos seus olhos toda vez que ela entra em uma sala. Vejo como você a olha.
Magnus sentiu uma necessidade repentina de sair correndo para bem longe. Um ímpeto desesperado de esconder seu rosto do mundo. Não havia compartilhado aquela verdade com ninguém, ela estava enterrada bem fundo, tão fundo que ele mesmo mal olhava para a irmã. O mero indício de que Andreas pudesse suspeitar de seu segredo mais sombrio já o havia consternado.
Mas agora o rei o exibia como um animal morto em uma caçada, ensanguentado e esfolado.
Como se não significasse nada.
— Eu preciso ir. — Magnus se voltou para a porta.
O pai apertou a mão sobre seu ombro.
— Fique sossegado. Não contarei a ninguém sobre isso. Seu segredo permanecerá seguro de hoje em diante. Mas se fizer tudo o que eu pedir, posso lhe prometer uma coisa. Nenhum homem a tocará. Pelo menos isso servirá de consolo para você.
Magnus não disse mais nada. Assim que seu pai o soltou, ele saiu da sala apressado. Correu pelos corredores na direção de seus aposentos e sentou-se bruscamente no chão, com as costas pressionadas contra a parede fria e cinzenta. Não suportaria encarar Lucia outra vez aquela noite.

12 comentários:

  1. Oh My God!! .Sério ? Ai cara,ai cara , se eu tivesse um pai desses estrangularia ele . pode ser praticamente o inicio mas ja quero matar o pai do magnus aaaahhhhh!!!!..... Coitado do Magnus ele gosta da luce mas não pode ficar com ela (pelo menos por agora, acho eu )..

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  2. Coitado do Magnus? Palhaçada isso né? Ele é nojento por imaginar coisas com a PROPRIA IRMÃ, e o pai dele é mais nojento ainda por achar isso normal e ainda tentar usar isso pra manipular ele

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    1. Magnus ❤️ Sim eu tbm acho estranho esse "amor" que ele sente pela Lúcia, mas... Falar nada pq é Spoiller.

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    2. Hahahahahahahaha vc precisa conhecer a família Targaryen

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    3. Mas os 2 nem irmãos são... Apenas foram criados juntos...Além do mais casamentos entre a própria família de sangue é normal nesses mundos de reinos, reis etc...Pois assim apenas a familia deles permanece no trono

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    4. AAAA GENTE MESMO ASSIM FORAM CRIADOS JUNTOS SAO IRMAOS
      CONCORDO COM A LETICIA
      JÁ PENSOU MINHA MAE ADOTA UMA CRIANÇA RECEM NASCIDA CRIA NOS DOIS JUNTOS NOS SERIAMOS IRMAOS
      MAS AI O CARA VAI LÁ E QUER A MULHER COMO ESPOSA
      REALMENTE PALHAÇADA
      ASS:JANIELLI

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    5. Affs,para né gente! Eles não são irmãos e pronto. O resto não importa. E quantos casais não se uniram após serem criados como irmãos desde a infância? Querendo ou não, vocês terão que aceitar ou a história ficara chata e a vontade de ler vai diminuir ate acabar por completo ����

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  3. Coitado do Magnus(SIM!)só os homens sabem oque é ter o instinto atravessado dessa maneira;e toda a sua discrição jogada na sua cara como se fosse nada, pesado,quando ele descobrir(se descobrir, esse livro é uma loucura!)vai se sentir aliviado de ter confiado em si mesmo desde o início.

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  4. Mas o 2 não são irmãos, a Luce é filha de outros pais, ela foi sequestrada quando bebe pela Sabina.

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  5. Mas os 2 não são irmãos, a Luce foi sequestrada pela Sabina quando criança.

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  6. Tipo, tenho consciência que eles não são irmãos. Porem, ele cresceu, conviveu e se desenvolveu com ela como irmãos um cuidando do outro, por esse exato motivo não consigo gostar de ambos juntos me sinto um pouco enojada.Porém quem sou eu para contradizer algo i

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  7. Mesmo eles tendo sido criados como irmãos eles não tem os laços fraternais que o sangue de irmãos cria. Não tem nada de nojento nisso,simplesmente não existe apelo fraterno porque eles não compartilham o mesmo sangue. O Magnus me lembra o Jace.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!