15 de julho de 2018

Capítulo 16

Calla também andara tendo um palpite persistentemente negativo aquele dia, mas, diferentemente de Maura, estivera presa em um gabinete da Academia Aglionby, trabalhando em uma papelada, e não tivera a liberdade de tentar descobrir qual era a fonte do mau pressentimento. Mesmo assim, a sensação apenas cresceu, enchendo-lhe a mente como uma dor de cabeça sombria, até que ela desistira e pedira para ir para casa uma hora mais cedo. Calla estava deitada de barriga para baixo no quarto do andar de cima, que dividia com Jimi, quando a porta da frente bateu.
A voz de Maura ressoou claramente da entrada da casa.
— Trouxe gente morta para casa. Desmarquem todas as consultas! Desliguem os telefones! Orla, se você tem um garoto aqui, ele precisa ir!
Calla extraiu-se do seu acolchoado e resgatou os chinelos antes de seguir pelo corredor. Jimi, criatura agitada e bondosa que era, bateu o largo quadril na mesa de costura em sua pressa para ver o que estava acontecendo.
Ambas pararam a meio caminho, descendo a escada.
Para seu crédito, Calla apenas pensou em largar os chinelos quando viu Noah Czerny, parado ao lado de Maura e do sr. Cinzento.
Noah Czerny era um nome humano demais para dar a algo que não parecia muito humano aos olhos de Calla. Ela tinha visto muitos seres humanos vivos em sua vida, e tinha visto muitos espíritos em sua vida, mas jamais vira algo assim. Uma alma tão decaída não deveria ser... bem, não deveria ser nada. Deveria ser um resquício de um fantasma, uma assombração repetitiva irracional. Uma fragrância de cem anos em um corredor. Um calafrio ao parar perto de determinada janela.
Mas, de alguma forma, ela estava olhando para a ruína de uma alma, e nela ainda havia um garoto morto.
— Ah, querido — disse Jimi, cheia de uma compaixão imediata. — Pobre coitado. Deixe-me pegar algo para você... — Jimi, a eterna herborista, geralmente tinha a sugestão de uma erva para qualquer doença mortal possível.
— Algo o quê? — incitou Calla.
Jimi premiu os lábios e balançou um pouco de um lado para o outro. Ela estava claramente perplexa, mas não podia ficar mal na frente dos outros. Ela tinha um coração tediosamente bom, e não havia dúvida de que a existência de Noah a perturbava.
— Mimosa — terminou Jimi, triunfante, e Calla suspirou, relutantemente apreciativa. Jimi meneou um dedo na direção de Noah. — Flores de mimosa ajudam os espíritos a aparecer, e isso vai fazer com que você se sinta mais forte!
Enquanto ela subia a escada a passos largos, Maura pediu ao sr. Cinzento que levasse Noah à sala de leitura, e então ela e Calla conferenciaram na parte de baixo da escada. Em vez de lhe dizer como eles haviam passado a ter a companhia de Noah, Maura só estendeu o braço e deixou que Calla pressionasse a palma da mão contra a sua pele. A psicometria de Calla — adivinhação através do toque — era muitas vezes pouco específica, mas, nesse caso, o evento era recente e vívido o suficiente para que ela o pegasse facilmente, além de um beijo que Maura compartilhara com o sr. Cinzento anteriormente.
— O sr. Cinzento é talentoso — observou Calla.
Maura pareceu irritada e disse:
— Eis a questão. Acho que estavam me mostrando aquele espelho com o nome da Piper escrito de propósito, mas não acho que tenha sido a intenção de Noah. Ele não lembra como chegou lá ou por que estava fazendo aquilo.
Calla manteve a voz baixa:
— Será que ele era um augúrio?
Augúrios — avisos sobrenaturais de marés ruins que estavam por vir — não eram particularmente interessantes para Calla, principalmente porque, de modo geral, eram imaginários. As pessoas tendiam a ver augúrios onde não havia nenhum: gatos pretos que traziam azar, corvos que prometiam tristeza. Mas um verdadeiro augúrio — uma insinuação sinistra de uma presença cósmica pouco compreendida — não era algo a ser ignorado.
A voz de Maura também foi sussurrada:
— Pode ser. Não consegui me livrar desse sentimento terrível o dia inteiro. A única coisa é que eu não achava que um ser senciente pudesse ser um augúrio.
— Ele é senciente?
— Parte dele, de qualquer maneira. Nós estávamos conversando no carro. Nunca vi nada parecido. Ele está bastante decaído para parecer um augúrio irracional, mas, ao mesmo tempo, ainda há um garoto ali. Quer dizer, nós o tínhamos dentro do carro.
As duas mulheres refletiram sobre isso, e Calla disse:
— Ele é o que morreu na linha ley? Talvez Cabeswater o tenha feito forte o suficiente para continuar consciente durante tudo isso, além do ponto que ele deveria estar. Se ele é covarde demais para seguir em frente, aquela floresta maluca pode estar dando energia suficiente para ele seguir até aqui.
Maura lançou outro olhar irritado para Calla.
— Isso se chama assustado, Calla Lily Johnson, e ele é apenas um garoto. Meu Deus. Não esqueça que ele foi assassinado. E que é um dos melhores amigos de Blue.
— Então qual é o plano? Você quer que eu faça contato com ele e descubra as coisas? Ou vamos deixar que ele siga o seu caminho?
Sem jeito, Maura disse:
— Não esqueça dos sapos.
Alguns anos atrás, Blue havia pego dois sapinhos enquanto resolvia alguns assuntos no bairro. Ela havia armado triunfantemente um terrário improvisado para eles em uma das maiores jarras de chá gelado de Jimi. Tão logo ela fora para a escola, Maura havia imediatamente adivinhado — através de canais comuns, não mediúnicos — que aqueles sapinhos estavam destinados a uma morte lenta se cuidados por uma jovem Blue Sargent. Ela os havia soltado no quintal e desse modo começara uma das maiores discussões que ela e sua filha já haviam tido ou tiveram desde então.
— Tudo bem — sibilou Calla. — Não vamos soltar nenhum fantasma enquanto ela estiver na festa.
— Eu não quero ir.
Maura e Calla deram um salto.
É claro que Noah estava parado ao lado delas. Os ombros estavam caídos e as sobrancelhas apontavam para cima. Por baixo de tudo, havia traços e escuridão, poeira e ausência. Suas palavras eram suaves e arrastadas.
— Ainda não.
— Você não tem muito tempo, garoto — Calla disse a ele.
— Ainda não — repetiu Noah. — Por favor.
— Ninguém vai te obrigar a fazer nada que você não queira — disse Maura.
Noah balançou a cabeça tristemente.
— Eles... já fizeram. Eles... vão fazer de novo. Mas isso... eu quero fazer por mim.
Ele estendeu a mão para Calla, a palma para cima, como se fosse um mendigo. Era um gesto que lembrava a Calla uma outra pessoa morta em sua vida, uma pessoa que ainda pendurava a tristeza e a culpa em torno do seu pescoço, mesmo após duas décadas. Na realidade, agora que ela considerava a questão, o gesto era perfeitamente preciso demais, o punho molemente similar demais, os dedos delicada e intencionalmente abertos demais, um eco das memórias de Calla...
— Eu sou um espelho — disse Noah friamente, respondendo aos pensamentos dela. Ele olhou fixamente para os próprios pés. — Desculpe.
Então começou a baixar a mão, mas Calla finalmente se deixou levar por um sentimento de compaixão genuíno, mas relutante. Ela pegou seus dedos gelados.
Imediatamente um golpe acertou o rosto dela.
Ela deveria ter esperado, mas, mesmo assim, Calla mal teve tempo de se recuperar quando o golpe seguinte veio. O medo jorrou de dentro dela, então a dor, e então mais um golpe, que Calla agilmente bloqueou. Ela não precisava reviver todo o assassinato de Noah. Ela andou em torno dele e encontrou... nada. Normalmente, sua psicometria funcionava excepcionalmente bem no passado, cavoucando através dos eventos recentes até quaisquer eventos distantes marcantes. Mas Noah estava tão decaído que o seu passado havia praticamente desaparecido. Tudo que restava eram teias finas de memórias. Havia mais beijos — como foi que o dia de Calla terminou envolvendo viver através de tantas Sargent, com tantas línguas na boca? Havia Ronan, parecendo bem mais legal por meio das memórias de Noah. Havia Gansey, corajoso e firme, como Noah claramente invejava. E Adam — Noah o temia, ou temia por ele. Um temor que se emaranhava através de imagens dele em fios cada vez mais sombrios. Então havia o futuro, estendendo-se em imagens mais tênues, e mais tênues, e...
Calla afastou a mão de Noah e o encarou. Por um momento, ela não tinha nada inteligente a dizer.
— Tudo bem, garoto — ela disse por fim. — Bem-vindo a casa. Pode ficar aqui quanto tempo quiser.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!