5 de julho de 2018

Capítulo 16


— Digo isso da maneira mais gentil possível — disse Malory, reclinado na cadeira da escrivaninha de Gansey —, mas vocês não sabem fazer chá nem aqui nem na China.
A noite fora da parede de janelas estava negra e úmida; as luzes de Henrietta pareciam se mover enquanto as árvores escuras balançavam de um lado para o outro diante deles. Gansey estava sentado no chão, ao lado de sua maquete da cidade, trabalhando lentamente nela. Ele não tivera tempo para acrescentar nada novo; em vez disso, havia conseguido uns minutos aqui e outros ali para reparar os danos incorridos naquele verão. A sensação de restaurar era distintamente menos satisfatória do que fora construir.
— Não sei o que estou fazendo de errado — admitiu Gansey. — Parece um processo objetivo.
— Se eu não estivesse aterrorizado de utilizar o banheiro que vocês chamam de cozinha, eu o aconselharia — disse Malory. — Mas temo que um dia entrarei naquele aposento e nunca mais sairei.
Gansey arrumou uma escada minúscula de cartolina com um tubo de cola e ergueu o olhar para descobrir o Cão, que o observava atentamente. O Cão não estava errado; ele havia colocado as escadas um pouco tortas. Gansey as arrumou.
— Melhor? — ele perguntou.
— Não dê atenção — respondeu Malory. — Ele é alerta demais. Estou impressionado, Gansey, pela falta de consideração que você colocou na ação de mandar Glendower dormir por seiscentos anos.
— Eu considerei a questão — disse Gansey. — Bem, conjeturei. Não tenho como provar ou desaprovar teorias. E mesmo que seja interessante, em última análise, isso é altamente irrelevante.
— Do ponto de vista de um estudioso, eu discordo. Aliás, você também deveria discordar.
— Ah, deveria?
— Segunda a sua teoria, Glendower viajou até aqui por uma linha ley. Uma linha perfeitamente reta através do mar, não uma coisa fácil de conseguir. Uma confusão e tanto para esconder um príncipe. Por que não escondê-lo em uma linha galesa?
— Os ingleses não descansariam até encontrá-lo — disse Gansey. — O País de Gales é pequeno demais para um segredo desses.
— É mesmo? Você e eu andamos pelo País de Gales. Então me diga que não existem lugares naquelas montanhas que não se prestariam a esconder um rei.
Gansey não tinha como discordar.
— Então por que navegar cinco mil quilômetros em uma viagem sem volta para um novo mundo onde ninguém sabe fazer uma xícara de chá decente? — Malory rolou a cadeira até a mesa de sinuca com os mapas. Quando Gansey se juntou a ele, Malory correu um dedo sobre um mar transbordante, do País de Gales até a minúscula Henrietta. — Por que alguém levaria adiante a tarefa quase impossível de navegar uma linha perfeitamente reta através desse mar?
Gansey não disse nada. O mapa não estava marcado, mas ele não conseguia deixar de ver todos os lugares onde ele estivera. Na rua, o vento ficou mais intenso abruptamente, colando folhas mortas e úmidas contra as venezianas.
— As linhas ley, os caminhos dos corpos, as estradas da morte, Doodwegen, se você acreditar nos holandeses (mas quem acredita), era assim que costumávamos carregar nossos mortos — disse Malory. — Os carregadores de caixões viajavam ao longo de estradas de funerais a fim de manter as almas intactas. Tomar um caminho torto perturbava a alma e criava uma maldição, ou pior. Então, quando eles viajavam em uma linha reta com Glendower, era porque ele tinha de ser transportado como os mortos.
— Então ele já estava dormindo quando eles partiram — disse Gansey, embora agora dormindo soasse como uma palavra suave demais para isso.
Ele teve um flash de memória, embora não fosse uma memória de verdade; fora uma visão que ele tivera em Cabeswater. Glendower deitado de costas para cima em seu caixão, os braços dobrados sobre o peito, a espada em uma mão, o copo na outra. Gansey, a mão pairando sobre o capacete, temeroso e extasiado por finalmente olhar para o rosto desse rei após seiscentos anos. — Eles estavam mantendo a alma dele com o corpo.
— Precisamente. E agora que estou aqui, agora que eu vi a sua linha...acho que eles navegaram todo esse trajeto porque estavam procurando este lugar — Malory bateu de leve no mapa.
— Virgínia?
— Cabeswater.
A palavra pairou no ambiente.
— Se não Cabeswater em si, então um lugar como esse — continuou Malory. — Talvez tenham seguido leituras de energia até que pudessem encontrar um lugar com força suficiente para manter uma alma em estase por centenas de anos. Ou pelo menos por mais tempo do que as pessoas que cuidavam daquele corpo acreditavam que viveriam.
Gansey considerou todos os argumentos.
— As médiuns disseram que existem três adormecidos. Não apenas Glendower, mas outros dois. Suponho que o que você está dizendo explicaria por que pode haver outros aqui também. Não necessariamente porque ninguém tentou colocar nenhuma outra pessoa para dormir em qualquer outra parte, mas porque a tentativa fracassou em todos lugares, exceto aqui.
A hipótese inspirou um pensamento desagradável e de dar arrepios, de imaginar que você está sendo levado para dormir e, em vez disso, é enviado cheio de esperança para uma morte acidental.
Os dois encararam o mapa por vários minutos, então Malory disse:
— Vou para a cama. Vamos explorar amanhã, ou posso pegar o carro para ir até aquela outra Virgínia novamente e exercitar um pouco mais minha cartografia?
— Outra...? Ocidental. Virgínia Ocidental. Acho que podemos te acompanhar depois das aulas.
— Excelente.
Malory deixou sua xícara de chá de baixa qualidade sobre a mesa de sinuca e se retirou com o Cão.
Gansey permaneceu imóvel no depósito após a porta se fechar. Ele ficou parado por tanto tempo que se sentiu desorientado; talvez estivesse parado por um minuto, talvez estivesse parado por uma hora. Poderia ser naquele momento, poderia ser um ano atrás. Sua presença era tão forte naquele aposento quanto seu telescópio e suas pilhas de livros. Imutável. Incapaz de mudar.
Gansey não sabia se estava cansado ou cansado de esperar.
Ele se perguntou onde Ronan tinha ido.
Não ligou para Blue.
— Olha, achei isso.
Gansey deu um salto no mesmo instante em que reconheceu a voz de Noah. O garoto morto estava sentado de pernas cruzadas na ponta do colchão de Gansey, no meio do aposento. Gansey se sentiu aliviado ao ver que Noah parecia mais firmemente ele mesmo do que quando ele o vira da última vez. Nas mãos, Noah segurava uma massa de argila cinza-escura que ele havia moldado em uma imagem negativa, pequena, de um boneco de neve.
— Frosty, o homem de argila — disse Noah, divertindo-se consigo mesmo. — Peguei no quarto do Ronan. Olha, ele derrete.
Gansey o examinou mais de perto enquanto se ajeitava de pernas cruzadas, uma imagem espelhada de Noah.
— Ele tirou isso de um sonho?
— Acho que de um posto de gasolina. A argila tem flocos de metal ou algo assim — disse Noah. — Está vendo? Ele está de pé sobre um ímã. Ele desmorona e cobre o ímã depois de um tempo.
Eles observaram. Observaram bastante. O boneco se movia tão lentamente que Gansey levou um minuto inteiro para acreditar que talvez a massa metalizada engolfasse o ímã.
— Isso é para ser um brinquedo? — perguntou Gansey.
— Seis anos para cima.
— É o pior brinquedo que eu já vi na vida.
Noah abriu um largo sorriso.
— Vai ver se eu estou na esquina — ele disse.
Os dois caíram na risada diante das palavras de Ronan saindo da boca de Noah.
A parte de baixo da figura de argila havia conseguido esconder o ímã sem que Gansey notasse qualquer movimento.
— Como é aquele ditado para a paciência? — perguntou Noah. — A paciência, a paciência...
— ... é uma virtude — completou Gansey. — Noah, não vá embora. Vou te fazer uma pergunta, e não quero que você suma, como sempre.
O garoto morto ergueu a cabeça para cruzar o olhar com o de Gansey. Embora não fosse transparente nem tivesse uma aparência incorreta, ele era involuntariamente perturbador naquela luz. Algo a ver com seus olhos imóveis.
Poderia ter sido eu. Deveria ter sido eu.
— Você ouviu? Quando... quando você morreu? — Gansey se arrependeu imediatamente de ter feito a pergunta, mas seguiu em frente. — Você ouviu uma voz também?
Os dedos de Noah tocaram seu rosto manchado, embora ele não parecesse notar. Ele balançou a cabeça.
Se ambos, Gansey e Noah, estiveram morrendo na linha ley ao mesmo tempo, por que Gansey tinha sido escolhido para viver e Noah para morrer? De qualquer ângulo que se visse a situação, a morte de Noah fora a mais equivocada: ele havia sido assassinado sem nenhum motivo. Gansey havia sido picado por uma morte que estivera em seu encalço por mais de uma década.
— Eu acho... Cabeswater queria ser acordada — disse Noah. — Ela sabia que eu não faria o que era preciso, mas você faria.
— Ela não poderia saber disso.
Noah balançou a cabeça novamente.
— É fácil saber um monte de coisas quando o tempo anda em círculos em vez de em linha reta.
— Mas... — disse Gansey, sem saber contra o que protestar. Realmente era apenas o fato da morte lenta de Noah, e não parecia haver ninguém a quem dirigir aquele protesto. Ele tocou uma das orelhas; Gansey podia sentir fantasmas daqueles marimbondos rastejando sobre ela. — Quando encontrarmos Glendower, vou pedir para ele dar um jeito em você. Como o favor.
Gansey não gostava de dizer isso em voz alta; não porque não fosse sua intenção, mas porque eles ainda não tinham certeza de como o favor funcionava, ou se realmente funcionava, e não gostava de fazer falsas promessas.
Noah cutucou seu homem de argila. Não havia mais muito de um homem nele; apenas porque Gansey o vira antes, ele ainda conseguia ver a sugestão da figura no monte indistinto.
— Eu sei. É... É legal da sua parte.
— Mas...?
— Não tenha medo — disse Noah de repente, estendendo o braço e tirando a mão de Gansey da orelha. Gansey não havia se dado conta de que ainda a tocava de leve. Noah se inclinou para frente e soprou um hálito frio e cadavérico na orelha de Gansey. — Não tem nada aí. Você só está cansado.
Gansey estremeceu um pouco.
Porque era Noah e ninguém mais, Gansey podia admitir.
— Não sei o que vou fazer se o encontrar, Noah. Não sei o que serei se não estiver procurando por ele. Não faço ideia de como ser aquela pessoa novamente.
Noah colocou a argila nas mãos de Gansey.
— É exatamente assim que eu me sinto sobre a ideia de estar vivo novamente.

Um comentário:

  1. Realmente, depois de passar 7 anos morto eu duvido que ele lembre exatamente como era estar vivo, ou mesmo como SER vivo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!