30 de julho de 2018

Capítulo 15

AURANOS

Theon Ranus havia experimentado raiva, sofrimento, tristeza e desejo muitas vezes. Mas não medo.
Não até aquele momento.
— A princesa não está no quarto. Não está em lugar nenhum! — O grito da criada apressou os passos dele enquanto percorria o corredor. A criada que deveria estar de guarda no quarto de Cleo durante as horas de sono de Theon havia dormido e não conseguiu vigiá-la.
O pavor tomou conta dele.
Ele soube de imediato para onde ela havia ido. Fez exatamente o que ameaçara fazer. Fugira do palácio para sair em uma viagem a Paelsia. Mesmo depois de ele ter se recusado a acompanhá-la, ela havia ido mesmo assim.
Garota idiota. Garota idiota e determinada.
Parecia que o coração dele havia sido arrancado do peito. Logo depois, junto ao temor por sua segurança, veio uma raiva fervente por ela ter feito aquilo, ignorando todos os seus avisos.
O rei precisava saber. E Theon sabia que era ele quem deveria dar a notícia de que Cleo e Nic haviam desaparecido do palácio.
Foi quando ele começou a sentir outro tipo de medo. Dessa vez por si mesmo.
— Como pôde deixar isso acontecer? — o rei esbravejou, com o rosto vermelho de raiva.
Theon não tinha nenhuma boa resposta. Sabia que Cleo queria fazer aquilo. Sabia que ela era teimosa e obstinada no que se referia à saúde da irmã. Ele deveria ter imaginado.
— Eu mesmo vou a Paelsia procurar por ela.
— Ah, mas você vai mesmo. — Havia sombras escuras embaixo dos olhos do rei, como se não tivesse dormido bem. Naquele momento ele parecia ter muito mais do que seus quarenta e poucos anos. — Não bastassem todas as preocupações que já tenho, isso só serve para me perturbar ainda mais. Você deveria mantê-la em segurança. Você me decepcionou.
Theon não tinha como argumentar que não era possível ficar ao lado de Cleo todas as horas do dia a menos que dormisse na cama da princesa, junto com ela, mas segurou a língua e ficou olhando obedientemente para o chão. O rei Corvin não era cruel, mas aplicava pequenas punições quando necessário. Não conseguir manter a princesa em segurança era algo que não passaria impune.
Por que ela faria uma coisa tão imprudente como aquela?
Até mesmo ele não tinha muito o que pensar sobre o assunto. Ela estava convencida de que poderia salvar a vida da irmã indo atrás da lenda de uma vigilante exilada. Quebrar todas as regras para salvar a princesa Emilia era ao mesmo tempo uma coisa idiota e… corajosa. Generosa e destemida.
“Só Cleo poderia fazer uma coisa dessas”, Theon pensou.
— Partirei agora mesmo — ele afirmou, ainda com os olhos baixos. — Peço permissão para levar mais alguns homens.
— Não mais do que dois. Não queremos chamar atenção para essa situação constrangedora.
— Sim, vossa majestade.
O rei não disse mais nada, então Theon levantou a cabeça e viu que o rosto dele agora estava mais pálido e assombrado do que furioso.
— Às vezes tenho a sensação de que sou amaldiçoado — o rei lamentou em voz baixa. — Uma maldição lenta e ávida que me acompanhou a vida toda, tirando de mim tudo o que amo. — Ele fez uma pausa, franzindo a fronte. — Conheci uma bruxa uma vez… em minha juventude. Ela era muito bela.
Theon ficou surpreso com a aparente falta de lógica.
— Uma bruxa? De verdade?
O rei confirmou com um vigoroso aceno de cabeça.
— Eu não acreditava em magia até conhecê-la. Ela pretendia se tornar minha rainha, mas eu… bem, eu conheci Elena, e soube que ficaria com ela. A bruxa não passou de um flerte de um jovem que apreciava a companhia de moças bonitas antes de se casar com a mulher que seria o amor de sua vida. — Ele soltou um suspiro. — Quando rompi com a bruxa, ela ficou furiosa. Acho que ela me enfeitiçou. Perdi minha amada Elena momentos depois de dar à luz minha filha mais nova. Agora Emilia está tão doente. Temo que Cleo estivesse certa quando disse que ela está morrendo. E a própria Cleo… — Sua voz falhou. — Ela tem suas próprias ideias, e isso vai deixá-la em apuros. Mais do que ela consegue imaginar. Você precisa encontrá-la.
— Farei isso, vossa majestade. Juro que sim.
— Estou vendo que sim. — O rei lançou um olhar sombrio para Theon e ele sentiu um arrepio na espinha. — Fracasse novamente e pagará com a vida. Eu mesmo o mato com minhas próprias mãos. Está entendendo?
Theon assentiu. Não esperava menos do que aquilo. Ele saiu da sala de reuniões dando passos rápidos, com o coração batendo forte.
Ele devia ter dito que iria com a princesa. Ela foi teimosa o suficiente para ir sozinha, apenas com Nicolo Cassian para protegê-la. Mas ele não passava do escudeiro do rei, sem treinamento, sem força, sem instintos de sobrevivência afiados. Não chegava perto de ser o suficiente. Era Theon quem deveria estar ao lado da princesa Cleo, independente do que acontecesse. Naquele momento e sempre.
O rei o mataria se ele fracassasse. E se algo acontecesse a Cleo… ele desejaria morrer. Só de pensar em seus olhos brilhantes apagados, o riso alegre silenciado… ele começou a suar frio e encostou a testa na parede de mármore do corredor.
“Estou me apaixonando por ela”, pensou.
A percepção o atingiu como uma espada enfiada no peito.
Não haveria futuro para eles. Ele não era nobre, nem mesmo cavaleiro. E ela já estava prometida a outro.
Mas ele havia visto algo nos olhos dela quando discutiram, uma vivacidade alegre. Uma respiração. Um rubor em seu rosto. Ele estava começando a gostar da companhia dela mais do que jamais teria acreditado ou estaria disposto a admitir, até para si próprio. Ele queria estar ao lado dela, não apenas como guarda pessoal.
Ele a queria.
Mas não podia ceder àqueles sentimentos. Até mesmo admitir para si mesmo era perigoso. Por ora, a única certeza de Theon era que a encontraria e a traria de volta em segurança para Auranos. O futuro era incerto, mas aquilo estava claro. Ele não fracassaria.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!