15 de julho de 2018

Capítulo 15

Muitos anos antes dessa tarde, uma médium havia contado a Maura Sargent que ela era uma “clarividente crítica demais, mas talentosa, e com um dom para tomar decisões erradas”. As duas estavam paradas no acostamento de uma rampa de acesso da I-64, uns trinta quilômetros saindo de Charleston, Virgínia. Ambas levavam sacos de viagem nas costas e expunham os polegares ao ar.
Maura viera de carona de lugares mais a oeste. A outra médium viera de carona de lugares ao sul. Elas não se conheciam. Ainda.
— Vou tomar isso como um elogio — disse Maura.
— Chocante — rosnou a outra médium, mas de um jeito que parecia outro elogio. Ela era uma arma mais contundente que Maura, mais impiedosa, já temperada pelo sangue. Maura gostou dela assim que a viu.
— Para onde você está indo? — perguntou Maura. Um carro se aproximou. Ambas estenderam o polegar. O carro desapareceu na interestadual; as duas baixaram o polegar. Elas não desistiriam; estava um dia verdejante e aprazível de verão, do tipo que tornava qualquer coisa possível.
— Para o leste, eu acho. E você?
— Também. Meus pés estão me caminhando até lá.
— Meus pés estão correndo — disse a outra médium fazendo uma careta.
— Até onde?
— Acho que vou saber quando chegar lá — disse Maura, pensativa.
— Nós poderíamos viajar juntas. Abrir um comércio quando chegarmos lá.
A outra médium ergueu uma sobrancelha esperta.
— Fazendo truques?
— Educação continuada.
As duas riram, e assim souberam que se dariam bem. Outro carro veio; elas estenderam o polegar; o carro passou.
A tarde continuou.
— O que é aquilo? — disse a outra médium.
Uma miragem havia aparecido no fim da rampa de acesso. Quando elas olharam um pouco melhor, viram que era uma pessoa real, comportando-se como uma pessoa irreal. Ela estava caminhando diretamente pelo meio do asfalto na direção delas, agarrando um saco cheio demais na forma de uma borboleta em uma mão. Ela calçava botas altas, antiquadas, atadas até bem em cima, além do fim do vestido peculiar. O cabelo era uma nuvem loira como algodão, e a pele, branca como giz. Exceto pelos olhos negros, tudo a seu respeito era tão pálido quanto a médium ao lado de Maura era escura.
Maura e a outra médium observaram essa terceira pessoa subir com esforço a rampa de acesso, aparentemente despreocupada com a possibilidade de veículos motorizados.
Bem quando a jovem pálida quase as alcançava, um Cadillac velho dobrou na rampa de acesso. A mulher tinha todo o tempo do mundo para saltar fora do caminho, mas não o fez. Em vez disso, parou e fechou o zíper do seu saco em forma de borboleta enquanto os freios do Cadillac guinchavam estrondosamente. O carro parou a centímetros de suas pernas.
Persephone espiou Maura e Calla.
— Acho que agora — ela disse às duas — essa dama vai nos dar uma carona.


Vinte anos haviam decorrido desde aquele encontro na Virgínia Ocidental, e Maura ainda era uma clarividente crítica demais, mas talentosa, e com um dom para tomar decisões erradas. Mas nos anos que se passaram, ela havia se acostumado a fazer parte de uma entidade de três cabeças inseparável que compartilhava a tomada de decisões igualmente. Elas haviam se deixado pensar que isso jamais terminaria.
Era muito mais difícil ver as coisas claramente sem Persephone.
— Pegou alguma coisa? — perguntou o sr. Cinzento.
— Dê a volta de novo — respondeu Maura. Eles tomaram o caminho de volta por Henrietta enquanto as luzes das lojas bruxuleavam coincidentemente com uma linha ley invisível. A chuva havia parado, mas a noite havia chegado, e o sr. Cinzento ligou os faróis antes de retrançar seus dedos aos dela. Ele atuava como motorista enquanto Maura tentava consolidar um pressentimento cada vez mais urgente, que começara essa manhã quando ela acordara, um sentimento sinistro como o que se tem após despertar de um sonho ruim. No entanto, em vez de desaparecer à medida que o dia passava, ele ficou mais agudo, concentrando-se em Blue e na Rua Fox, e em uma escuridão arrepiante que lembrava um desmaio.
Seu olho doía.
Mas ela sabia que não tinha nada de errado com ele. Havia algo de errado com o olho de outra pessoa, em algum ponto no tempo, e Maura estava simplesmente sintonizada na estação. Isso a irritava, mas não era caso de agir. Era um pressentimento. O problema de ir ao encalço de sentimentos ruins estava na dificuldade de saber se se estava correndo na direção do problema para resolvê-lo, ou correndo para um problema para criá-lo. Teria sido mais fácil se ainda fossem elas três. Normalmente, Maura começava um projeto, Calla o tornava algo tangível, e Persephone o lançava em um voo espacial. Nada funcionava do mesmo jeito com apenas as duas.
— Dê mais uma volta, quem sabe — disse Maura ao sr. Cinzento. Ela podia senti-lo pensando enquanto dirigia. Poesia e heróis, romance e morte. Algum poema sobre uma fênix. Ele era a pior decisão que ela já havia tomado até aquele momento, mas ela não conseguia deixar de tomá-la sempre de novo.
— Você se importa se eu falar? — ele perguntou. — Isso vai arruinar tudo?
— Não estou com nenhuma sorte. Pode falar. Em que está pensando? Pássaros renascendo das cinzas?
Ele olhou de relance para Maura anuindo de maneira apreciativa, e ela lhe devolveu um sorriso sagaz. Era um truque de salão, uma das coisas mais simples que ela sabia fazer — puxar um pensamento do momento de uma mente desguardada e compreensiva —, mas era legal ser apreciada.
— Eu andei pensando muito sobre Adam Parrish e seu bando de homens alegres — admitiu o sr. Cinzento. — E esse mundo perigoso que eles trilham.
— Essa é uma maneira estranha de colocar a questão. Eu teria dito Richard Gansey e seu bando de homens alegres.
Ele inclinou a cabeça como se pudesse vislumbrar o ponto de vista dela também, embora não compartilhasse dele.
— Eu só estava pensando quanto perigo eles herdaram. Colin Greenmantle deixando Henrietta não a torna mais segura, mas mais perigosa.
— Porque ele mantinha os outros distantes.
— Exatamente.
— E agora você acha que outros vão vir aqui, embora ninguém esteja vendendo nada? Por que eles ainda estariam interessados?
O sr. Cinzento indicou um poste de luz que zunia quando eles passaram pelo tribunal da cidade. Três sombras passavam sobre ele, projetadas por nada que Maura pudesse ver.
— Henrietta é um daqueles lugares que parece sobrenatural mesmo de longe. Vai ser uma parada eterna para pessoas no negócio, xeretando por coisas que possam ser a causa ou o efeito disso.
— Que é perigoso para os homens alegres porque há realmente algo para eles encontrarem? Cabeswater?
O sr. Cinzento inclinou a cabeça novamente.
— Humm. E a propriedade Lynch. Não esqueça minha parte nisso também.
Tampouco Maura a esquecia.
— Você não pode desfazer aquilo.
— Não. Mas... — Sua pausa nesse ponto na conversa era prova de que o Homem Cinzento estava regenerando seu coração. Era uma pena que sua semeadura tinha de nascer na mesma terra crestada que o havia matado em primeiro lugar. Consequências, como dizia Calla muitas vezes, são uma merda.
— O que você vê para mim? Vou ficar aqui? — Quando Maura não respondeu, ele a pressionou. — Vou morrer?
Ela tirou sua mão da dele.
— Você realmente quer saber?
— Simle þreora sum þinga gehwylce, ær his tid aga, to tweon weorþeð; adl oþþe yldo oþþe ecghete fægum fromweardum feorh oðþringeð. — Ele suspirou, o que disse a Maura mais a respeito do seu estado mental do que sua poesia anglo-saxã não traduzida. — Era mais fácil discernir o herói do vilão quando só a vida e a morte estavam em jogo. Todo o resto entre as duas ficava mais difícil.
— Bem-vindo a como a outra metade vive — ela disse. Com súbita clareza, Maura desenhou um símbolo de um laço no ar. — Qual é a empresa com um logo assim?
— Disney.
— HAR.
— Trevon-Bass. Estamos perto.
— Tem uma fazenda produtora de leite perto dela?
— Sim — respondeu o sr. Cinzento. — Sim, lá está.
Ele fez um retorno seguro, mas proibido. Em poucos minutos, eles passaram o monólito de concreto esmaecido da fábrica Trevon-Bass, viraram em uma estrada secundária e finalmente passaram por um acesso limitado por uma cerca de tábuas. Uma sensação de exatidão perpassou Maura, como quando você busca uma memória agradável e a encontra precisamente onde você a deixou.
— Como você sabia que ela ficava aqui? — perguntou Maura.
— Já estive aqui antes — disse o sr. Cinzento com um tom vagamente sinistro.
— Espero que você não tenha matado alguém.
— Não. Mas segurei uma arma na cabeça de uma pessoa, em plena luz do dia. — Uma placa de uma fazenda quase indistinta lhes dava as boas-vindas à propriedade de descanso. O acesso terminava em um estacionamento de cascalho; os faróis iluminaram um celeiro que havia sido claramente convertido em um espaço de moradia com estilo.
— É aqui que os Greenmantle ficavam quando estavam na cidade. A fazenda fica bem do outro lado.
Maura já estava abrindo a porta do carro.
— Você acha que eu posso entrar?
— Só aconselho que seja breve.
A porta lateral estava destrancada. Tanto a clarividência quanto o coração de Maura podiam sentir o sr. Cinzento logo atrás dela enquanto eles adentravam a propriedade, tensos e atentos. Perto dali, algumas vacas mugiam e grunhiam, soando maiores do que deveriam realmente ser.
O interior do espaço para alugar era muito escuro, todo sombras, sem cantos. Maura fechou os olhos, deixando-os se ajustar à ideia da escuridão total. O medo era indigno da sua devoção; a exatidão, sim.
Maura tateou em busca dela agora.
Abriu os olhos e avançou em direção a uma massa informe, provavelmente um sofá. A certeza vibrou através dela mais fortemente quando encontrou uma escada e começou a subi-la. No topo havia uma cozinha de plano aberto, mal iluminada por uma luz cinza-arroxeada que passava por enormes janelas novas e outra azul-esverdeada do relógio de micro-ondas.
Era desagradável. Maura não sabia dizer se era algo a respeito do próprio aposento, ou se eram somente as memórias do sr. Cinzento que pressionavam suas próprias memórias. Seguiu em frente. Então deparou com um corredor escuro como o breu, sem janelas, sem luz alguma.
Estava mais do que escuro.
Enquanto Maura o adentrava cuidadosamente, a escuridão deixou de ser escuridão e se tornou ausência de luz. As duas condições são similares de muitas maneiras, mas nenhuma delas tinha importância quando se estava parada em uma em vez da outra.
Algo sussurrou Blue no ouvido de Maura.
Cada um dos seus sentidos estava absolutamente em estado de alerta; ela não sabia dizer se devia seguir em frente ou não.
O sr. Cinzento tocou as costas dela.
Só que não era ele. Maura só precisou virar a cabeça ligeiramente para a direita para se dar conta de que ele ainda estava no limiar do escuro líquido. Ela levou um instante para visualizar uma casca protetora em torno de si. Agora ela podia ver que o corredor terminava no vão de uma porta.
Embora houvesse outras portas fechadas de cada lado, a que estava situada no fim era obviamente a fonte.
Maura olhou de relance para trás para o interruptor de luz ao lado do sr. Cinzento. Ele o acionou.
As luzes eram como perder uma discussão com a resposta correta. Elas deveriam estar acesas. Elas estavam acesas. Quando Maura mirou as lâmpadas, podia afirmar que elas estavam ligadas. Mas o corredor ainda não estava iluminado.
Maura cruzou o olhar com os olhos estreitados do sr. Cinzento.
Eles avançaram até os metros finais, sem fazer ruído, empurrando a ausência de luz diante deles, e então Maura pairou a mão sobre a maçaneta. Ela parecia comum, que é como as coisas mais comuns parecem. Ela não lançava sombra alguma sobre a porta, pois nenhuma luz a alcançava.
Maura buscou a exatidão e encontrou o terror. Então buscou além dela e encontrou a resposta.
Virando a maçaneta, abriu a porta.
As luzes do corredor passaram sombriamente por ela, revelando um grande banheiro. Uma tigela de adivinhação encontrava-se ao lado da banheira. Três velas incolores haviam pingado por todo o fundo da pia. PIPER PIPER PIPER Estava escrito de trás para frente no espelho, em uma substância que parecia muito com um batom rosa.
Havia algo grande no chão que se movia e arranhava o piso.
Maura disse para sua mão encontrar o interruptor, e ela o encontrou.
A coisa no chão era um corpo — não. Era um ser humano. Ele se retorcia de um jeito que um ser humano não deveria, os ombros se revelando. Dedos se agarravam como garras no ladrilho. Pernas se debatiam, correndo. Um som desumano lhe escapou da boca, e então Maura compreendeu.
Aquela pessoa estava morrendo.
Maura esperou até ele terminar, e então disse:
— Você deve ser o Noah.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!