4 de julho de 2018

Capítulo 15

Adam estava sozinho na oficina mecânica.
Na noite ainda chuvosa, ficou prematuramente escuro no interior da oficina, os cantos da garagem consumidos por uma escuridão que as luzes fluorescentes acima não conseguiam alcançar. No entanto, ele havia passado horas incontáveis trabalhando lá, e suas mãos sabiam onde encontrar coisas mesmo quando seus olhos não sabiam.
Agora Adam estava debruçado sobre o motor de um velho Pontiac, o rádio sujo nas prateleiras da oficina lhe fazendo companhia. Boyd havia lhe deixado a tarefa de trocar a junta do cabeçote e fechar a oficina. Jantar, ele disse, era para velhos como ele. A longa monotonia de juntas do cabeçote era para jovens como Adam.
Não era um trabalho difícil, o que era pior, de certa maneira, pois sua mente desocupada girava. Mesmo enquanto ele repassava mentalmente os detalhes dos acontecimentos mais importantes dos anos 20 na história dos Estados Unidos para uma prova, Adam tinha potência de sobra no cérebro para pensar como suas costas doíam de se esticar sobre o motor, a graxa que ele podia sentir em sua orelha, a frustração desse pino enferrujado, a proximidade do dia de sua audiência e a presença de outras pessoas na linha ley.
Ele se perguntou se Gansey e os outros haviam realmente saído na chuva para explorar a montanha Coopers. Parte dele tinha esperança de que eles não tivessem feito isso, embora ele fizesse o seu melhor para expulsar as emoções mesquinhas em relação aos amigos — se ele as deixasse correr soltas, teria ciúme de Ronan, ciúme de Blue, ciúme de Gansey com qualquer um dos outros dois. Qualquer combinação que não envolvesse Adam provocaria um grau de desconforto, se ele deixasse.
Mas ele não deixaria.
Não brigue com Gansey. Não brigue com Blue. Não brigue com Gansey. Não brigue com Blue.
Não fazia sentido dizer a si mesmo para não brigar com Ronan. Eles brigariam de novo, pois Ronan ainda respirava.
Do lado de fora da oficina, o vento soprava, salpicando a chuva contra as janelas pequenas e raiadas das portas da garagem. Folhas secas farfalhavam contra as paredes e corriam junto a elas para longe. Era aquela época do ano em que podia ser quente ou frio de um dia para o outro; não era nem verão nem outono. Um entre-estações, um tempo transitório. Uma fronteira.
Quando mudou de posição para alcançar melhor o bloco do motor, Adam sentiu uma brisa fria em volta dos tornozelos, passando bem junto à bainha das calças. Suas mãos doíam: estavam mais ressecadas ainda. Quando era garoto, Adam costumava lamber as costas das mãos, sem perceber que isso as deixava mais ressecadas ainda com o passar do tempo. Fora um costume difícil de abandonar. Mesmo agora, quando elas o incomodavam, ele resistia ao impulso de aliviar o desconforto por apenas um segundo.
Na rua, o vento soprava de novo, mais folhas sacudindo as janelas. Dentro, algo se mexia e estalava. Algo se acomodando na lata de lixo, talvez.
Adam esfregou o braço no rosto, e só então se deu conta de que seu braço tinha uma mancha de graxa. No entanto, não fazia sentido limpar o rosto até que tivesse terminado seu turno.
Houve mais um estalido dentro da oficina. Adam parou o trabalho, chave-inglesa pairando sobre o motor, o topo do crânio tocando o capô aberto. Algo parecia diferente, mas ele não conseguia descobrir o que era.
O rádio havia parado de tocar.
Adam olhou desconfiado para o velho rádio. Ele podia vê-lo, duas baias adiante, do outro lado do Pontiac, de uma picape e de um Toyota pequeno. A energia estava desligada; possivelmente a pilha havia finalmente acabado.
Mas, mesmo assim, Adam perguntou à garagem vazia:
— Noah?
Não era do feitio de Noah ser assustador de propósito, mas ele vinha sendo menos Noah do que de costume ultimamente. Menos Noah e mais morto.
Algo deu um estouro.
Adam levou um segundo para perceber que era a luz de trabalho portátil pendurada na ponta do capô. Ela havia ficado escura.
— Noah, é você?
Adam subitamente teve o sentimento terrível e avultante de que algo estava atrás dele, observando-o por trás. Algo próximo o suficiente para soprar uma aragem fria em torno de seus tornozelos de novo. Algo grande o suficiente para bloquear parte da luz da lâmpada incandescente junto à porta lateral.
Não era Noah.
Na rua, um raio caiu subitamente. Adam não aguentou e saiu apressadamente de debaixo do capô, virando-se com as costas pressionadas contra o carro.
Não havia nada lá a não ser blocos de concreto, calendários, ferramentas na parede, pôsteres. Mas uma das chaves-inglesas na parede de ferramentas estava balançando. O outro lado da garagem estava escuro de uma maneira que Adam não se lembrava de ter visto.
Vá embora, vá embora...
Algo tocou sua nuca.
Ele fechou os olhos.
Subitamente, Adam compreendeu. Era Cabeswater, tentando se fazer compreender. Persephone estivera trabalhando com ele para melhorar sua comunicação: normalmente, Adam lhe perguntava todas as manhãs o que ela precisava, enquanto abria cartas de tarô ou fazia uma divinação na pia do banheiro. Mas Adam não havia perguntado desde que a escola começara.
Então agora Cabeswater o forçava a ouvi-la.
Cabeswater, dissera Persephone um dia, calma e severa, não manda em você.
Algo retiniu sobre a mesa junto à parede oposta.
— Espera! — disse Adam.
Ele mergulhou em busca de sua bolsa a tiracolo enquanto o aposento ficava mais escuro. Seus dedos encontraram cadernos, livros didáticos, envelopes, canetas, o doce esquecido. Algo mais caiu no chão, bem próximo. Por um minuto angustiante ele achou que havia deixado as cartas de tarô no apartamento.
Ela não vai me machucar. Vai ser assustador, mas não vai me machucar...
Mas o medo machuca, também.
Só porque ela tem acessos de fúria, acrescentou Persephone, isso não a torna mais certa do que você.
As cartas. Adam se agachou ao lado da bolsa, pegou o saco de veludo e despejou o baralho nas mãos. Persephone andara lhe ensinando todos os tipos de meditação, mas não haveria meditação agora. Tremendo, ele embaralhou as cartas enquanto o óleo na panela debaixo do Pontiac começou a transbordar, um oceano furioso.
Adam abriu três cartas no chão de concreto. A Morte, a Imperatriz, o Diabo.
Pense, Adam, pense, entre nela...
A luz fluorescente mais próxima zuniu estridentemente, subitamente brilhante demais, então subitamente muito apagada.
O subconsciente de Adam se esvaiu através da consciência de Cabeswater, ambos emaranhados naquela estranha barganha que ele havia feito.
A Morte, a Imperatriz, o Diabo. Três adormecidos, sim, sim, ele sabia disso, mas só precisava de um, e, de qualquer maneira, que importância Cabeswater dava para quem estava dormindo sobre a linha ley, o que ela precisava que Adam fizesse?
Sua mente se concentrou em um pensamento ramificado, viajou ao longo de um galho, até um tronco, descendo para as raízes, em seguida chão adentro. Naquela escuridão e terra e pedra, ele viu a linha ley. Finalmente viu a conexão, onde ela havia sido interrompida, e compreendeu o que Cabeswater estava pedindo para ele reparar. O alívio tomou conta de Adam.
— Entendi — ele disse em voz alta, deitando-se e recuperando as forças sobre o concreto frio. — Vou fazer esta semana.
A oficina imediatamente voltou ao normal. O rádio recomeçara a tocar, e Adam não percebera o momento em que isso acontecera. Embora os meios de comunicação de Cabeswater pudessem ser aterrorizantes — aparições, cães negros, ventos uivantes, rostos em espelhos —, a questão nunca era intimidar. Ele sabia disso. Mas era difícil se lembrar disso enquanto as paredes se mexiam, a água formava gotículas do lado de dentro de janelas e mulheres imaginárias soluçavam em seu ouvido.
Cabeswater sempre parava tão logo Adam a compreendia. Ela só queria que ele compreendesse.
Adam suspirou fundo junto às cartas de tarô. Hora de voltar ao trabalho.
Mas.
Ele ouviu algo. Não deveria haver mais nada, não mais.
Mas algo estava arranhando a porta da oficina. Era um ruído seco, fino, como um papel sendo rasgado. Uma garra. Uma unha.
Mas ele havia compreendido. Ele havia prometido fazer o trabalho.
Adam queria dizer a si mesmo que era apenas uma folha ou um graveto. Algo comum.
Mas Henrietta não era mais um lugar comum. Ele não era mais uma pessoa comum.
— Eu disse que compreendi — falou Adam. — Saquei. Esta semana. Precisa ser antes?
Não houve resposta do lado de dentro da garagem, mas, do lado de fora, algo leve e inquieto passou por uma das janelas, alto, longe do chão. Havia apenas luz suficiente para ver suas escamas.
Escamas.
O pulso de Adam se acelerou, o coração batendo tão rápido que doía. Certamente Cabeswater acreditava nele; Adam nunca a deixara na mão antes. Não havia regras, mas havia confiança.
Um ruído veio bem junto à porta do lado de fora: tck-tck-tck-tck.
A porta da garagem se escancarou. Soou como um trem de carga enquanto rugia ao longo dos trilhos até o teto.
Na noite sombria, na chuva de um profundo azul-escuro, um monstro pálido se ergueu. Ele tinha unhas como garras e bicos selvagens, asas esfarrapadas e escamas gordurosas. Era tão contrário a tudo o que era real que se tornava difícil vê-lo verdadeiramente.
O terror tomou conta de Adam. O velho terror, aquele que era tanta confusão e traição quanto o próprio medo.
Ele havia feito tudo certo. Por que aquilo ainda estava acontecendo se ele havia feito tudo certo?
O horror de animal deu um passo, arranhando e resvalando sobre o chão na direção de Adam.
— Xô, seu canalha feioso — disse Ronan Lynch.
Ele saiu da chuva e entrou na oficina; estivera escondido no escuro em sua jaqueta e seus jeans escuros. Motosserra se agarrava em seu ombro. Ronan ergueu uma mão para a besta branca como se estivesse lançando um barco ao mar. A criatura recuou a cabeça, bicos de lado a lado abertos.
— Vá — disse Ronan, sem medo.
Ela levantou voo.
Porque não era apenas um monstro qualquer; era o monstro de Ronan Lynch. Um horror noturno trazido para uma vida corrompida. Ela flutuou no escuro, estranhamente graciosa, uma vez que seu rosto estava fora de vista.
— Droga, Ronan, que merda — disse Adam ofegante, baixando a cabeça. — Meu Deus do céu, você quase me matou de susto.
Ronan sorriu, irônico. Ele não compreendia que o coração de Adam ia realmente explodir. Adam segurou a nuca com as mãos, encolhendo-se como uma bola sobre o concreto, esperando sentir que não ia morrer. Então ouviu o estrépito da porta da garagem ser fechada novamente. A temperatura subiu imediatamente quando o vento foi bloqueado.
Uma bota cutucou o joelho de Adam.
— Levanta.
— Seu babaca — murmurou Adam, ainda sem erguer a cabeça.
— Levanta. Ela não ia te machucar. Não sei por que você está se mijando de medo.
Adam se desenrolou. Ele estava lentamente se recuperando, se sentindo mais incomodado que temeroso. Então se pôs de pé.
— Tem mais coisas acontecendo no mundo do que apenas você, Lynch.
Ronan virou a cabeça de lado para ler as cartas.
— O que é isso?
— Cabeswater.
— Que merda aconteceu com o seu rosto?
Adam não respondeu.
— Por que ela estava com você?
— Eu estava na Barns. Ela seguiu o carro. — Ronan rondou o Pontiac, espiando o processo dentro com uma falta de compreensão desinteressada. Motosserra bateu asas para pousar sobre o bloco do motor, a cabeça recolhida. — Não — avisou Ronan. — Isso é tóxico.
Adam queria perguntar o que Ronan andara fazendo na Barns todos aqueles últimos dias e noites, mas não o pressionou. A Barns era uma questão de família, e família era um assunto particular.
— Vi a merda do seu carro no estacionamento no caminho de volta — disse Ronan. — E pensei, qualquer coisa para evitar o Malory por alguns minutos a mais.
— Comovente.
— O que você acha da ideia de pesquisar a teia de aranha do Greenmantle? Possível? Não possível?
— Qualquer coisa é possível.
— Faça, então, por mim — disse Ronan.
Adam riu, descrente.
— Fazer por você! Alguns de nós temos tarefas de casa para fazer, sabia?
— Tarefas de casa! Qual o sentido disso?
— Passar de ano? Se formar?
Ronan praguejou, mostrando um desinteresse maior ainda.
— Você está simplesmente tentando me deixar bravo? — perguntou Adam.
Ronan pegou uma chave na bancada do outro lado do Pontiac. Ele a estudou de um jeito que sugeria que contemplava seu mérito como arma.
— A Aglionby não faz muito sentido para gente como nós.
— O que é “gente como nós”?
— Eu não vou usar a escola — disse Ronan — para conseguir um trabalho de terno e gravata... — Ele fez como se estivesse sendo enforcado, a cabeça de lado. — E você pode encontrar uma maneira de fazer a linha ley trabalhar para você, uma vez que já barganhou com ela.
— O que você acha que eu estou fazendo agora? Onde estamos mesmo?
— Terrivelmente próximo daquele Toyota é onde eu estou.
— Estou trabalhando. Daqui a duas horas, vou para o meu próximo trabalho, por mais quatro horas. Se você está tentando me convencer de que eu não preciso da Aglionby depois de eu ter me matado para estudar lá por um ano, está desperdiçando seu fôlego. Se quiser ser um perdedor, que seja, mas não me ponha no meio disso para se sentir melhor.
A expressão de Ronan era fria sobre o teto do Pontiac.
— Bom — ele disse —, vá se foder, Parrish.
Adam apenas olhou para ele, fulminante.
— Faça a sua tarefa de casa.
— Tanto faz. Estou caindo fora.
Quando Adam se abaixou para pegar um trapo para tirar a graxa do ouvido, o outro garoto havia desaparecido. Foi como se ele tivesse levado todo o barulho da garagem consigo; o vento morrera, as folhas pararam de farfalhar e a sintonia do rádio mudara, de modo que a transmissão só chiava um pouquinho. O ambiente parecia mais seguro, mas também mais solitário.
Mais tarde, Adam saiu caminhando pela noite fria e úmida até seu carrinho velho. Quando se deixou afundar no assento do motorista, encontrou algo que já estava ali em cima.
Ele retirou o objeto e o segurou sob a fraca luz interior. Era um pote de plástico, branco e pequeno. Adam girou a tampa e o abriu. Dentro havia uma loção incolor que cheirava a nevoeiro e musgo. Com o cenho franzido, recolocou a tampa e virou o pote, procurando algum traço a mais que o identificasse. No fundo, a caligrafia de Ronan o rotulava meramente: manibus.
Para suas mãos.

6 comentários:

  1. "— Vi a merda do seu carro no estacionamento no caminho de volta — disse Ronan. — E pensei, qualquer coisa para evitar o Malory por alguns minutos a mais."

    Tsundere
    O Ronan é um amor <3

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  2. Sendo gentil de novo o Ronan; deixando um creme para as mãos ressecadas de Adam.

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  3. Respostas
    1. KKKKK
      EU QUERIA QUE O RONAN FICASSE COM A CARLA OU A ORLA
      SERIA ENGRAÇADO
      ass:jANIELLI

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  4. Gente por favor me diga que esses dois vão ficar! Que amorzinhos aaahhh

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  5. Ronan gosta do Adaaaam <3

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!