30 de julho de 2018

Capítulo 14

LIMEROS

Mais de uma semana havia se passado desde a conversa com o rei e Magnus ainda não sabia o que incomodava Lucia. Pensar naquilo era uma distração constante para ele.
Mas distração não era algo bem-vindo em suas aulas de esgrima. Ele recuou quando uma espada de madeira golpeou dolorosamente seu peito durante o treino.
— Qual é o problema, príncipe Magnus? — seu oponente perguntou com ironia. — Você me deixaria ganhar com tanta facilidade?
Magnus lançou-lhe um olhar seco.
— Eu nunca o deixaria ganhar.
Andreas Psellos era seu oposto em aparência, exceto pela estatura similar e pela silhueta esbelta, porém bem definida. Onde Magnus era escuro, Andreas era claro, com cabelos loiros e olhos azuis. Magnus nunca seria descrito como alguém simpático, enquanto Andreas era sociável e tinha sempre um sorriso em seu belo rosto, que quase nunca aparentava hostilidade…
A menos que estivesse falando com Magnus.
Eles haviam se afastado do resto da turma, que consistia de quatro duplas e um tutor que costumava sair no meio das sessões, deixando-os treinar sem supervisão.
— Você não mudou nada com o tempo — Andreas disse. — Ainda me lembro daquele jogo de blocos de madeira pelo qual brigamos quando tínhamos apenas cinco anos. Acho que você os jogou pela janela para eu não poder brincar com eles.
— Nunca gostei de dividir meus brinquedos.
— Só com a sua irmã.
— Ela é uma exceção.
— De fato é. Uma linda exceção. — Andreas olhou com desejo na direção do castelo negro que se estendia até o céu azul. — Acha que a princesa Lucia vai sair para nos ver treinar como da última vez?
— Acho improvável.
O mau humor de Magnus se intensificou. Andreas não apenas havia demonstrado interesse por Lucia, mas também era o rapaz que havia sido mencionado várias vezes pela rainha Althea como um possível pretendente. A família Psellos era rica, o pai de Andreas era um dos membros do conselho real e sua grande quinta, que ficava a poucos quilômetros do palácio, era a melhor da costa oeste de Limeros.
A ideia de que Lucia pudesse se comprometer com aquele garoto dourado de sorriso fácil fez Magnus sentir uma onda de veneno fluir por suas veias.
Andreas bufou.
— Então vamos lá. Não vou recuar se você não fizer o mesmo.
— É justo.
Quando suas espadas de madeira se chocaram, Magnus começou a prestar mais atenção na disputa, esforçando-se para não deixar a mente viajar outra vez.
Andreas apertou os lábios.
— Ouvi dizer que você botou Michol Trichas para correr quando ele demonstrou interesse por sua irmã.
— Ah, é? — Magnus replicou com indiferença. — Tomou as dores dele?
— Pelo contrário. Ele não era a pessoa certa para ela. É insípido e covarde, esconde-se atrás da saia da mãe quando qualquer adversidade se apresenta. Não é digno da companhia da princesa Lucia.
— Concordamos em alguma coisa, afinal. Que bom.
— Contudo, você vai ver que eu não desisto tão facilmente quanto ele. — As espadas se encontraram e pararam no ar, e o olhar de Andreas ficou gelado. Os músculos de Magnus queimavam no esforço de pontuar e não deixar o rival vencer. — Você não me intimida.
— E nem estou tentando.
— Você expulsa todos os pretendentes de Lucia como se ninguém em Limeros fosse digno da preciosa atenção da princesa.
Magnus encarou Andreas.
— E ninguém é.
— Tirando você, é claro. — Andreas apertou os olhos. — Acho que a atenção que dá à sua irmã comparada à que dá às outras garotas é… incomum.
Magnus gelou por dentro.
— Você está imaginando coisas.
— Talvez esteja. Mas saiba de uma coisa, príncipe Magnus, quando eu quero algo, eu consigo. Independente dos obstáculos que possam surgir.
Magnus olhou para o castelo.
— Parece que eu estava enganado. Lucia está vindo assistir ao treino, afinal.
Quando Andreas desviou a atenção de Magnus, ele o atingiu. Tirou a espada de madeira da mão de Andreas e jogou o garoto no chão, onde caiu de costas, aturdido.
Magnus encostou a ponta cega da espada na garganta do oponente com força o bastante para machucá-lo.
— Na verdade, Lucia está na aula de bordado neste exato momento e não poderá falar com você de novo até… bem, certamente por um bom tempo. Mas eu darei seus cumprimentos a ela.
Ele jogou a espada de lado e se virou de costas para o garoto, ainda esparramado no chão, a fim de regressar ao castelo.
Algumas vitórias não eram tão doces como deveriam.
A ideia de que alguém, em especial alguém como Andreas, pudesse imaginar que Magnus tinha sentimentos proibidos pela irmã deixou-o enojado. Ele decidiu passar mais tempo na companhia de outras garotas para ajudar a dissipar quaisquer rumores.
E não garotas como a que se aproximava dele no corredor com um sorriso no rosto rosado.
— Meu príncipe — Amia o cumprimentou com alegria.
Ele olhou em volta para ver se não havia ninguém observando. Falar em público com uma criada — especialmente uma de nível tão baixo — não era algo bem-visto por seu pai.
Imaginar a reação do rei Gaius ao ver seu filho fazendo mais do que falar com Amia era quase tão engraçado quanto sinistro.
— O que foi? — ele perguntou sem delongas.
— Não pediu para eu ficar de olho em sua irmã?
Com isso, ele agarrou-a pelo braço e entrou em uma alcova escura.
— Fale.
Amia torceu uma mecha de cabelos castanhos no dedo. Suas sobrancelhas se uniram.
— É uma coisa muito estranha. Me mandaram levar uma bandeja de comida no quarto dela agora há pouco. A porta estava entreaberta. Eu devia ter batido, mas minhas mãos estavam ocupadas, então não bati. E juro que vi…
— O quê? O que você viu?
— Sua irmã estava diante de três velas e eu vi quando cada uma delas foi acesa.
Magnus ficou olhando para a garota.
— É só isso? Você viu minha irmã acender umas velas e achou que valesse a pena me contar? Não há nada de estranho nisso.
— Não, meu príncipe. É que… eu juro, eu… — Ela sacudiu a cabeça, muito confusa. — Juro que a princesa Lucia não as acendeu. As velas se acenderam sozinhas quando ela olhou para elas, uma de cada vez. Fiquei surpresa, mas tossi de leve para que ela soubesse que eu estava ali. A princesa pareceu perturbada pela possibilidade de eu estar observando, mas não dei nenhuma pista disso. Ter a capacidade de evocar o fogo poderia significar que ela é uma… — Suas palavras foram interrompidas pelo olhar severo de Magnus. Ela mordeu o lábio inferior.
Magnus apertou o queixo da garota e olhou nos olhos dela.
— Obrigado, Amia. Quero que continue me contando tudo, mesmo que pareça insignificante. Mas saiba de uma coisa: minha irmã não é bruxa. Isso foi apenas coisa da sua imaginação.
— Sim, meu príncipe — ela sussurrou assim que ele começou a andar na direção dos aposentos de Lucia, no terceiro andar do castelo, sem dizer mais nada.
Acender velas parecia uma prática comum, mas não tão comum se os pavios pegassem fogo sozinhos. Ao chegar à porta de Lucia, ele respirou fundo e girou a maçaneta. Não estava trancada. Ele abriu a porta devagar.
Lucia estava sentada no divã de veludo, com as pernas sob o corpo, segurando uma margarida na palma da mão. O presente havia sido mandado no dia anterior por mais um garoto limeriano interessado nela. Sua concentração na flor era tão completa que não ouviu o barulho da porta.
De repente, a flor cor-de-rosa elevou-se de sua mão e flutuou no ar como se estivesse suspensa por fios invisíveis.
Magnus arfou alto.
A flor caiu no chão e o olhar surpreso de Lucia foi parar na porta, onde ele estava.
— Magnus. — Ela se levantou, alisando a frente da saia. Sua expressão era tensa. Ela fez um sinal para ele. — Por favor, entre.
Hesitando mais um pouco, ele abriu totalmente a porta e entrou no quarto.
— Feche — ela o instruiu. Ele obedeceu.
Lucia respirou fundo e soltou o ar aos poucos.
— Viu o que acabei de fazer?
Ele fez que sim com a cabeça, com a garganta apertada.
Agitada, a princesa andou até a janela exatamente quando um falcão voou da ponta do terraço, batendo as asas douradas em contraste com o céu azul. Magnus continuou a esperar, com medo de dar voz aos pensamentos que passavam por sua mente.
Então era isso que ele ouvira seu pai e Sabina comentando na noite do banquete de aniversário — sobre profecias, elementia e sinais dados pelas próprias estrelas. Era isso que o pai pedira para ele observar na irmã.
— Lucia está com dezesseis anos — Sabina havia dito. — Está chegando o momento de seu despertar, sei que está.
O despertar de sua magia.
Não podia ser verdade.
Então Lucia virou-se para ele, com o olhar firme como quando o confrontou sobre o que havia dito a Michol. Bastante confuso, Magnus abriu a boca para pedir respostas, mas ela foi até ele e o abraçou.
— Não consegui contar esse segredo para ninguém por medo do que poderia significar. Há tempos queria contar para você, mas nunca havia oportunidade.
— Não sei bem o que vi. — Ele pressionou as mãos nas costas dela para segurá-la bem perto enquanto seu coração acelerava no peito. Uma necessidade forte e repentina de protegê-la a qualquer custo veio à tona, o que o ajudou a afastar suas próprias incertezas. — Pode me revelar seu segredo, Lucia. Prometo não contar a ninguém.
Ela soltou um suspiro longo e trêmulo e se afastou dos braços dele para olhar para o seu rosto.
— Começou pouco depois do meu aniversário. Descobri que podia fazer coisas. Coisas estranhas.
— Magia — ele completou. A palavra parecia esquisita em sua língua.
Ela olhou para o irmão, mudando a expressão de exaltada e cautelosa para triste. Depois fez que sim com a cabeça.
— Elementia — ele esclareceu.
— Creio que sim. — Lucia respirou fundo. — Não sei por quê. Nem como. Mas eu posso fazer essas coisas. E sinto que isso esteve dentro de mim a vida toda, esperando a hora certa para aparecer. Posso fazer o que fiz com a flor. Posso movimentar coisas sem tocá-las. Posso acender velas… sem fogo.
Magnus tentou organizar em sua mente tudo o que havia ouvido.
— Você é uma bruxa.
Ele se arrependeu do que disse assim que as palavras deixaram sua boca. Lucia parecia devastada com a possibilidade. Bruxas eram perseguidas em Limeros, mesmo se fossem apenas suspeitas de bruxaria. Era uma coisa perigosa até para se sugerir a respeito de alguém. Em Limeros a bruxaria era associada à deusa Cleiona — um ato perverso cometido em nome de uma deusa perversa.
— Magnus — ela sussurrou. — O que eu vou fazer?
O rei deveria saber sobre aquilo. Ele queria que Magnus ficasse de olho em Lucia e relatasse qualquer coisa fora do comum.
Aquilo com certeza era algo fora do comum.
Ele andou pelo quarto, pensando e repensando no que havia visto. Se Lucia fosse outra pessoa, ele não hesitaria em dizer a verdade a seu pai. O que aconteceria depois não seria de sua conta.
— Mostre-me de novo — ele pediu com calma.
Depois de hesitar um pouco, Lucia pegou a flor e pousou-a de novo na palma da mão. Ela olhou para o irmão, que fez um gesto positivo, tentando tranquilizar a mente dela.
— Está tudo bem — ele confortou-a. — Não tenha medo.
— Não estou com medo — ela disse com tanta firmeza que o fez sorrir. Apesar de seus lindos vestidos e dos bons modos de uma princesa, sua irmã tinha um coração de aço. O próprio coração de Magnus batia mais forte.
Lucia voltou a atenção para a flor. Com uma pequena ruga entre as sobrancelhas, ela se concentrou na planta. Lentamente, ela se elevou de sua mão enquanto Magnus observava em um silêncio perplexo. A flor girou no ar.
— Incrível — ele sussurrou.
— O que isso significa? — Lucia lançou-lhe um olhar perturbado e, pela primeira vez, ele notou o brilho de seus olhos. Ela podia dizer que não estava com medo, mas estava. E tinha razão de estar.
— Eu não sei. — Ele analisou o rosto da irmã, lutando contra o forte ímpeto de pegá-la novamente e abraçá-la com força. Passou os olhos por suas feições: o nariz pequeno e reto, as maçãs do rosto salientes, os lábios grossos e vermelhos. Os olhos de sua mãe eram de um azul acinzentado; os do pai, castanho-escuros, como os dele. Mas os olhos de Lucia se destacavam como safiras, como pedras preciosas.
A incrível beleza de Lucia lhe tirava o fôlego.
— O que foi? — ela perguntou. — Está vendo algo em meu rosto que mostre que sou tocada por esse mal?
O rei levara Magnus ao extremo norte alguns anos antes para testemunhar a execução de uma pessoa acusada de bruxaria. A mulher havia matado vários animais e usado o sangue para evocar magia negra. O rei falou com ela em particular e logo fez um julgamento final sobre seu destino. Magnus teve que assistir à execução e aprender com ela. Ele ainda se lembrava dos gritos de dor e medo da bruxa penetrando no ar frio quando a incendiaram.
Seu pai pôs a mão nos ombros trêmulos do garoto.
— Lembre-se disso, Magnus. Um dia você também terá que decidir o futuro daqueles acusados desse tipo de ocultismo.
Uma onda de medo e repulsa passou por ele. Ele se afastou de Lucia e foi até a porta para ver se alguém espreitava do lado de fora. Depois ele a fechou e trancou.
— São elementia — ela explicou com a voz alterada. — Especificamente, magia do ar, eu acho, a capacidade de mover coisas. E fogo também. Cleiona era a deusa do fogo e do ar. E ela era má!
Magnus ficou um minuto inteiro em silêncio, olhando para o chão de mármore, e levantou os olhos para a irmã.
— Consegue levantar algo mais pesado do que uma flor?
— Eu não sei. Por favor, Magnus, me diga o que fazer. Não me odeie por manter segredo por tanto tempo. Não pode virar as costas para mim agora.
Ele franziu a testa.
— Acha que eu faria isso?
— Se essa magia for do mal…
— Não é — ele disse com firmeza.
Ela olhou feio para o irmão.
— Bruxas foram torturadas e executadas por fazerem o mesmo que eu.
— Se uma bruxa pudesse mesmo fazer o que você faz, ela nunca se deixaria executar. — Ao dizer aquilo, as palavras lhe pareciam cada vez mais verdadeiras. — Se as pessoas que foram incendiadas ou decapitadas possuíssem mesmo o dom da magia, conseguiriam usá-lo para se salvar.
— Você não acha que as bruxas são más? — Os olhos azuis de Lucia carregavam uma profunda incerteza – e esperança. Estava atormentada pelo segredo que guardava consigo há tanto tempo sem ninguém para ajudá-la.
Magnus se aproximou dela e acomodou seu rosto nas mãos.
— Só sei que você não é má. É maravilhosa em todos os sentidos. E nunca acredite em nada diferente disso, ou ficarei muito bravo com você.
Ela tocou na mão dele, chegando mais perto. Uma ponta de alívio passou por seus olhos azuis.
— Está falando sério?
— De todo o coração. — Ele ergueu uma sobrancelha. — Eu daria um coelho felpudo para alguém que eu considerasse má?
Ela soltou uma risada suave, e o som tirou o peso do coração dele.
— É fêmea. Dei o nome de Hana.
— É um nome adorável. Para uma coelhinha felpuda.
— O que devo fazer, Magnus?
Ele se afastou dela e chegou perto da pilha de livros. Pegou alguns, depositando-os sobre a mesa, perto do vaso de flores.
— Levante esses livros.
Os olhos de Lucia se arregalaram quando olhou para a pilha.
— Nunca tentei mover nada mais pesado que uma flor.
Ele cerrou os dentes.
— Você precisa fortalecer suas habilidades. Quanto mais forte ficar, menos terei que me preocupar com você. Se dominar o que é capaz de fazer, estará segura independente do que acontecer. E eu vou ajudá-la a praticar.
Ele prendeu a respiração esperando pela resposta dela. Se Lucia era, de fato, uma bruxa, com os elementia recém-despertados, não havia alternativa. Ela tinha que praticar. Tinha que fortalecer suas habilidades. Porque se alguém descobrisse o seu segredo, principalmente o rei, sua vida estaria em perigo.
Magnus nunca deixaria sua irmã ser executada por aquilo. Lucia não era má. Podia ser difícil acreditar na religião imposta aos limerianos, mas não era difícil acreditar em Lucia.
Ela uniu as sobrancelhas.
— Não sei se consigo.
— Então não faça por você. Faça por mim.
Ela olhou nos olhos dele.
— Se eu concordar com isso, você fará algo por mim?
— O quê?
— Diga-me por que nosso pai juntaria forças com o chefe Basilius para conquistar Auranos. Haverá uma guerra?
Ele havia visto Lucia na escadaria quando o rei recebeu a mensagem do líder paelsiano. Era uma informação perigosa para uma garota de dezesseis anos, mas logo mais ela ficaria sabendo de qualquer forma. Parecia que Amia não era a única garota do castelo com o dom de bisbilhotar.
— Se haverá guerra? — Magnus repetiu. — É o que nosso pai quer. Teremos que esperar para ver até onde vão levar todos os planos e tramoias dele com o chefe Basilius. Mas você não precisa se preocupar com isso. — Ele acariciou uma mecha do cabelo longo e sedoso que estava no rosto da princesa. — Mas agora vamos praticar a sua magia. Você deve dominá-la, e assim saberei que você estará segura.
— Obrigada, irmão. — Lucia ficou na ponta dos pés e encostou os lábios de leve nos dele antes de lhe dar outro abraço forte. — O que eu faria sem você?
Os lábios de Magnus queimaram com o beijo e o coração parecia em chamas — assim como havia acontecido com a bruxa.
— Espero que nunca tenhamos que descobrir.

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