15 de julho de 2018

Capítulo 14

Como Maura havia dito, estar suspensa não significava estar de férias. Então Blue seguiu para seu turno no Nino’s, como de costume. Embora o sol estivesse exageradamente intenso, o restaurante estava estranhamente escuro, um truque das nuvens de chuva, que escureciam o céu do oeste. As sombras debaixo das mesas de pernas de metal pareciam cinzentas e difusas, e era difícil decidir se estava escuro o suficiente para acender as luzes sobre cada mesa ou não. A decisão poderia esperar; não havia ninguém no restaurante.
Com nada para ocupar a mente, exceto varrer o queijo parmesão nos cantos do salão, Blue se lembrou de Gansey a convidando para uma festa de toga naquela noite. Para sua surpresa, sua mãe havia insistido que ela fosse. Blue havia dito que uma festa de toga em Aglionby ia contra tudo o que ela acreditava, e Maura havia respondido:
— Garotos de uma escola particular? Usando pedaços de tecido como roupa? Parece que isso é exatamente o que você acredita hoje em dia.
Shuf, shuf. Blue varria o chão agressivamente. Ela se sentia lançada na direção de seu autoconhecimento, e não tinha certeza se gostava disso.
Na cozinha, o gerente do turno soltava uma risadinha. Uma música dissonante e de batidas fortes brigava com a guitarra elétrica que tocava acima; ele estava vendo vídeos no celular com os cozinheiros. Um ruído de sino alto soou quando a porta da rua se abriu. Para sua surpresa, Adam entrou no restaurante e avaliou com cuidado as mesas vazias. Seu uniforme estava estranhamente sujo: as calças amarrotadas e enlameadas, a camisa branca manchada e úmida em alguns pontos.
— O combinado não era que eu ligaria para você mais tarde? — perguntou Blue. Ela olhou para o seu uniforme. Normalmente ele estaria impecável. — Você está bem?
Adam escorregou para uma cadeira e tocou a pálpebra cuidadosamente.
— Lembrei que tinha pesos e descobertas depois da escola e não queria que a gente se desencontrasse. Hum, educação física e um método científico extracurricular.
Blue caminhou a vassoura até a mesa de Adam.
— Você não me respondeu se estava bem.
Ele bateu de leve com os dedos irritadamente contra um dos pontos úmidos em sua manga.
— Cabeswater. Está acontecendo algo com ela. Não sei. Tenho de trabalhar nisso. Acho que vou precisar de alguém que me acompanhe. O que você vai fazer hoje à noite?
— Minha mãe disse para eu ir a uma festa de toga. Você vai?
O desdém escorreu da voz de Adam.
— Não vou a uma festa na casa de Henry Cheng, não mesmo.
Henry Cheng. As coisas faziam marginalmente mais sentido. Em um diagrama de Venn onde um círculo trazia as palavras festa de toga e outro as palavras Henry Cheng, quem sabe Gansey poderia terminar onde os dois se encontravam. Os sentimentos contraditórios de Blue voltaram com tudo.
— Qual é a real entre você e Henry Cheng? E você quer uma pizza? Alguém fez um pedido errado e temos uma sobrando.
— Você já o viu. Não tenho tempo para isso. E sim, por favor.
Ela buscou a pizza e se sentou do outro lado da mesa enquanto ele a cheirava da maneira mais educada possível. A verdade era que, até Adam entrar porta adentro, Blue havia esquecido que eles tinham combinado de se ligarem para conversar sobre Gansey e Glendower. Ela estava se sentindo bastante desprovida de ideias após discutir a questão com suas familiares na banheira.
— Realmente eu não tenho nenhuma sugestão para dar sobre Gansey fora encontrar Glendower, e não sei o que fazer depois com isso.
— Eu também não tive muito tempo para pensar nisso hoje, por causa... — disse Adam, gesticulando para seu uniforme amarrotado novamente, embora Blue não soubesse dizer se ele se referia à Cabeswater ou à escola. — Então não faço ideia, apenas tenho uma pergunta. Você acha que Gansey poderia ordenar que Glendower aparecesse?
Algo a respeito dessa pergunta simplesmente revirou o estômago de Blue. A questão não era que ela não tivesse pensado no poder de comando de Gansey; era só que a voz incomumente autoritária de Gansey andava tão perto de sua voz mandona costumeira, que às vezes era difícil para Blue se convencer de que ela não a imaginara. E então, quando ela admitia que havia algo naquela voz — por exemplo, quando ele dissolvera de maneira mágica as falsas Blues durante sua última visita à Cabeswater —, ainda assim era de certa forma difícil pensar nela em um sentido mágico. No entanto, agora que ela pensava mais profundamente no fenômeno, atendo-se à sua inteireza, ela percebeu que ele era muito parecido com o aparecimento e o desaparecimento de Noah, ou com a lógica de sonho de Aurora aparecer de dentro das rochas. Sua mente estava bastante feliz em deixar que ela acreditasse que não havia nada de mágico a respeito dele; de imprecisamente reescrevê-lo como simplesmente Gansey sendo Gansey.
— Não sei — disse Blue. — Se ele pudesse, será que já não teria tentado?
— Para dizer a verdade... — começou Adam, e então parou. Seu rosto mudou. — Você vai à festa hoje à noite?
— Acho que sim. — Tarde demais, Blue teve a sensação de que a pergunta queria dizer mais do que as palavras que ela tinha ouvido. — Como eu disse, minha mãe falou para eu ir, então...
— Com o Gansey.
— Acho que sim. E o Ronan, se ele for.
— O Ronan não iria à casa do Henry.
Cuidadosamente, Blue disse:
— Então acho que sim, com o Gansey.
Adam franziu o cenho na beira da mesa e olhou para baixo, para a própria mão. Ele estava ponderando algo, medindo as palavras, testando-as antes de dizê-las.
— Sabe, quando conheci o Gansey, eu não conseguia dizer por que ele era amigo de alguém como o Ronan. O Gansey estava sempre na aula, sempre cumprindo seus deveres, sempre o favorito do professor. E então o Ronan, um ataque cardíaco que não cessava nunca. Eu sabia que não podia reclamar, porque eu não tinha chegado primeiro. O Ronan tinha. Mas um dia, ele fez uma bobagem estúpida que agora eu não lembro, e eu simplesmente não aguentei aquilo. Então eu perguntei por que o Gansey era amigo dele, se o Ronan era aquele imbecil o tempo todo. E eu lembro que o Gansey me disse que o Ronan sempre dizia a verdade, e a verdade era a coisa mais importante.
Não era difícil imaginar Gansey dizendo algo dessa natureza.
Então Adam olhou para Blue e a prendeu com seu olhar. Na rua, o vento lançava folhas contra o vidro.
— É por isso que eu quero saber por que vocês não me contam a verdade sobre vocês dois.
Agora o estômago de Blue deu uma reviravolta. Vocês dois. Gansey e ela. Ela e Gansey. Blue tinha imaginado essa conversa dezenas de vezes. Permutações infindáveis de como ela a trouxera à tona, como Adam reagira, como ela terminara. Ela podia fazer isso. Ela estava pronta.
Não, ela não estava.
— Sobre nós? — ela disse de maneira pouco convincente.
A expressão de Adam, se é que era possível, se tornou mais desdenhosa do que havia sido em relação a Henry Cheng.
— Você sabe o que mais me machuca? O que isso quer dizer a respeito do que você pensa de mim. Você não chegou nem a me dar uma chance de reagir bem a isso. Você estava simplesmente muito certa de que eu ficaria morrendo de ciúmes. É assim que você me vê?
Ele não estava errado. Mas ele havia sido uma versão bem mais frágil de si mesmo quando Blue e Gansey tomaram a decisão de não lhe contar. Dizer isso em voz alta parecia um tanto rude, no entanto, então ela apenas fez uma tentativa.
— Você... as coisas... eram diferentes então.
— “Então”? Há quanto tempo isso está rolando?
— Rolando não é exatamente o que está acontecendo — disse Blue. Um relacionamento que era espremido em olhares de relance roubados e telefonemas secretos era algo tão drasticamente menor do que ela desejava, que Blue se recusava a considerar isso um namoro. — E não é exatamente como começar um emprego novo. “O primeiro dia foi x!”. Não sei precisar exatamente há quanto tempo está rolando.
— Você acabou de dizer “rolando” — disse Adam.
O estado mental de Blue surfava a crista de uma onda que dividia a empatia e a frustração.
— Não seja impossível. Desculpa. Não era para ser algo, e então foi, e então eu não sabia como dizer coisa alguma. Eu não queria arriscar estragar a nossa amizade.
— Então quer dizer que mesmo que eu fosse honesto a respeito disso, alguma parte de você achou que eu estaria competindo tão ridiculamente com o Gansey que você achou melhor simplesmente mentir?
— Eu não menti.
— Claro, Ronan. Mentir por omissão ainda é mentir — disse Adam. Ele exibia um meio sorriso no rosto, mas daquele jeito que as pessoas sorriam quando estavam incomodadas em vez de quando algo era engraçado.
Na rua, um casal parou junto à porta para ler o cardápio que estava pendurado ali; tanto Blue quanto Adam esperaram em um silêncio irritado até eles seguirem em frente, deixando o restaurante vazio. Adam abriu as mãos como se esperasse que Blue deixasse a gorjeta de uma explicação satisfatória nelas.
A parte justa de Blue estava bem consciente de que ela estava errada, e assim era dela a responsabilidade de apaziguar a mágoa legítima de Adam, mas a sua parte orgulhosa ainda teria preferido salientar quão difícil havia sido essa explicação quando ela e Gansey perceberam pela primeira vez que sentiam algo um pelo outro. Com algum esforço, ela optou pelo caminho do meio.
— Não foi algo calculado, como você faz parecer.
Adam rejeitou o caminho do meio.
— Mas eu vi vocês tentando esconder isso. O maluco é que eu... tipo, eu estou bem aqui. Eu estou junto com vocês todos os dias. Você acha que eu não vi? Ele é meu melhor amigo. Você acha que eu não o conheço?
— Então por que você não está tendo essa conversa com ele? Ele é metade disso, você sabe.
Ele abriu os braços para o restaurante ainda vazio, como se ele também estivesse impressionado com o rumo que aquela conversa havia tomado.
— Porque eu estava aqui para conversar com você sobre como salvar o Gansey da morte. Daí eu descobri que vocês estavam indo a uma festa juntos, e não pude acreditar como você estava sendo irresponsável.
Agora Blue também abriu os braços. Foi um gesto bem menos elegante do que o de Adam, mais como um punho fechado ao contrário.
— Irresponsável? Não entendi.
— Ele sabe da sua maldição?
As faces de Blue esquentaram.
— Ah, não diga isso.
— Você não acha que é um pouco relevante que o cara que supostamente vai morrer no próximo ano esteja saindo com a garota que supostamente vai matar seu verdadeiro amor com um beijo?
Ela estava brava demais para fazer qualquer coisa, exceto balançar a cabeça. Ele simplesmente ergueu uma sobrancelha em resposta, uma ação que aqueceu o sangue de Blue em um grau.
— Eu consigo me controlar, obrigada — ela disparou.
— Em qualquer situação? Você não vai se apaixonar por ele, ou ser induzida a isso, ou a mágica vai dar errado em Cabeswater... Você tem como garantir isso? Não acho que possa.
Agora Blue definitivamente descera da crista da onda para uma ira em ebulição.
— Sabe de uma coisa, droga, eu vivo com isso há bem mais tempo que você, e não acho realmente que você possa vir aqui e me dizer como eu deva agir...
— Eu posso quando ele é meu melhor amigo.
— Ele é o meu também!
— Se ele realmente fosse isso, você não seria tão malditamente egoísta.
— Se ele realmente fosse o seu, você ficaria feliz que ele tivesse alguém.
— Como eu poderia me sentir feliz a respeito disso quando eu não deveria saber sobre vocês?
Blue se pôs de pé.
— Incrível, realmente, como isso parece dizer respeito a você e não a ele.
Adam se pôs de pé também.
— Engraçado, porque eu ia dizer a mesma coisa.
Os dois se encararam, furiosos. Blue podia sentir palavras repletas de veneno fervilhando em uma linha escura como a seiva daquela árvore. Ela não iria dizê-las. Não iria. A boca de Adam se comprimiu, como se ele estivesse prestes a retrucar algo, mas, no fim, ele apenas passou a mão nas chaves sobre a mesa e deixou o restaurante.
Na rua, um trovão rosnou. Não havia sinal do sol; o vento havia arrastado as nuvens por todo o céu. Seria uma noite tempestuosa.

4 comentários:

  1. As vezes o Adam simplesmente não consegue deixar de ser um babaca

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  2. Verdade!
    Caramba pra que ele quer saber?
    Uma relaçãoé a dois não a três, entãopq ele ta tão interssado no relacionamento dos outros? Ele se acha demais e sim querido ele fiivo primeiro a saber da maldição.

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    1. Eu não acho que o Adam está se metendo no relacionamemto deles. Eu só acho que ele está se preocupando com o Gansey em relação a morte dele e que ele esta com um pouco de ciumes, ele gostava da Blue. Mas tambem acho que ele deveria parar um pouco...

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  3. Quanta vontade de detestar o Adam... Até o Blue sabe que ele ta certo:
    "A parte justa de Blue estava bem consciente de que ela estava errada, e assim era dela a responsabilidade de apaziguar a mágoa legítima de Adam"

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!