4 de julho de 2018

Capítulo 14

— Este aqui diz “cheddar orgânico de gado alimentado em pasto da Nova Zelândia” — disse Greenmantle, fechando a porta atrás de si. A entrada vazia imediatamente caiu no escuro sem a luz da rua. Segurando o pacote próximo do rosto, a fim de ver o rótulo, e falando alto para ser ouvido através da casa, ele continuou: — “Queijo cheddar suave feito de leite orgânico fresco de gado alimentado em pasto. Ingredientes: leite de vaca, sal, culturas”... tipo Dave Brubeck, Warhol, coisas desse tipo... “enzima coagulante”. Ah, isso é comercial demais.
Ele deixou cair o casaco sobre a cadeira junto à porta da frente e então, após um momento de consideração, as calças também. O desejo de Piper era como uma única armadilha de urso em meio à mata selvagem. Era praticamente impossível encontrá-lo se você estivesse procurando, mas era algo para o qual você gostaria de estar preparado caso pisasse nele por acidente.
— Espero que esse silêncio signifique que você está pegando as bolachas. — Greenmantle entrou na cozinha. A busca por bolachas não era, na realidade, a causa do silêncio de Piper. Ela estava parada na sala de jantar com uma expressão aborrecida no rosto, calças rosa de ioga nas pernas e uma arma apontada para a cabeça.
O ex-empregado de Greenmantle, o Homem Cinzento, era o portador da citada arma. Tanto ele quanto Piper formavam uma silhueta contra a janela que dava para o pasto. O Homem Cinzento parecia bem, saudável, bronzeado, como se Henrietta e um motim combinassem com ele. Piper parecia brava, não com o Homem Cinzento, mas com Greenmantle. O Homem Cinzento levara mais tempo para aparecer do que Greenmantle imaginara.
Bem, finalmente ele estava aqui.
— Bom, acho que vou eu mesmo pegar as bolachas — disse Greenmantle, largando o pedaço de queijo na ilha no centro da cozinha. — Desculpe não estar vestido para a visita.
— Não se mexa — disse o Homem Cinzento, indicando com o queixo a arma em sua mão. Era preta e tinha uma aparência assustadora, embora Greenmantle não fizesse ideia de que tipo era. Armas de tom prateado pareciam menos perigosas para ele, embora ele imaginasse que isso era uma falácia que poderia lhe causar problemas. — Não se mexa.
— Ah, pare — disse Greenmantle exasperado, virando-se para pegar a tábua de queijos do balcão. — Você não vai atirar na Piper.
— Tem certeza disso?
— Sim, acho que sim. — Greenmantle pegou as bolachas, um prato e uma faca do bloco de facas e os arrumou de maneira razoável. Semicerrou um olho e segurou um pedaço de queijo no alto. — Você acha que esse é o tamanho certo? Ou eu devia cortar mais fino? As bolachas que vão acompanhar são essas.
— Esse pedaço é do tamanho de um úbere inteiro — disse Piper.
— Desculpe, essa faca não é muito afiada. Sr. Cinzento, sério. A arma? Você não acha isso um pouco teatral demais?
O Homem Cinzento não baixou a arma. Ela continuava parecendo perigosa, assim como o Homem Cinzento. Ele era muito bom em parecer assustador, mas a descrição de seu trabalho era para ser o fator mais intimidador no aposento a qualquer momento.
— Por que você está aqui? — perguntou o sr. Cinzento.
Ah, e a dança começou.
— Por que eu estou aqui? — disse Greenmantle. — Eu queria saber por que você está aqui, tendo em vista que me disse que havia roubado as minhas coisas e fugido para West Palm Springs.
Que dia havia sido aquele, com Laumonier sendo Laumonier e aqueles malditos tapetes peruanos sendo parados na alfândega antes que ele tivesse tempo de vê-los, e então o Homem Cinzento estragando tudo.
— Eu lhe contei a verdade primeiro. E isso não foi o suficiente.
Greenmantle cortou um pedaço de queijo.
— Ah, certo, a... “verdade”. Qual era mesmo? É claro. A verdade era aquela que você me contou, que o artefato que se dizia que estava nesta região há mais de uma década, e que havia sido rastreado de maneira bastante conclusiva até aquele perdedor do Niall Lynch, não chegava nem a existir. Pelo que me lembro, eu rejeitei essa verdade. Estou tentando lembrar por que eu faria tal coisa. Você se lembra, tesouro, por que eu decidi que era mentira?
Piper estalou a língua.
— Porque você não é um idiota completo?
Greenmantle gesticulou com a faca na direção de sua mulher. Esposa. Parceira. Amante.
— Sim, era isso. Agora eu lembro.
— Eu lhe disse que não era um artefato, e continuo afirmando isso. Trata-se de um fenômeno, não de uma coisa.
— Não tente me enganar, sr. Cinzento — disse Greenmantle agradavelmente, colocando uma bolacha com queijo na boca e falando ao mesmo tempo. — Como você acha que eu sabia como ele era chamado? Niall Lynch me contou. Maldito fanfarrão. Ele achou que era invencível. Posso lhe servir um vinho? Trouxe um tinto fantástico comigo. É uma beleza.
O Homem Cinzento lhe lançou um olhar frio. Seu olhar de assassino. Greenmantle sempre gostara da ideia de ser um assassino misterioso, mas esse sonho profissional invariavelmente perdia em comparação ao seu prazer de sair pela cidade e ter a admiração das pessoas em virtude de sua reputação, assim como dirigir seu Audi com placa personalizada (GRNMNTL) e viajar atrás de queijos para países que colocavam pequenos chapéus sobre as vogais, como: ê.
— O que você quer de mim? — perguntou o sr. Cinzento.
— Se nós tivéssemos uma máquina do tempo, eu diria que você poderia voltar correndo e fazer o que eu lhe pedi da primeira vez, mas acho que esse barco já partiu para o mar do esquecimento. Você gostaria de abrir o vinho? Eu sempre deixo com a rolha. Não? Está bem, então. Imagino que você compreenda que terá de ser um exemplo — respondeu Greenmantle.
Ele atravessou a cozinha e colocou uma bolacha com queijo na língua de Piper. Ofereceu uma para o Homem Cinzento, que não aceitou e tampouco baixou a arma. Ele continuou:
— Quer dizer, o que os outros pensariam seu eu deixasse você sair livre dessa? Não seria bom. Então, embora eu tenha curtido nosso tempo juntos, acredito que isso significa que você provavelmente vai precisar ser destruído.
— Então atire em mim — disse o Homem Cinzento, sem medo.
Ele realmente era uma obra de arte, o Homem Cinzento. Um personagem de ação em forma de assassino. Tudo que sua nobreza conseguiu foi provar o que Greenmantle já sabia: havia coisas naquela cidade que o Homem Cinzento considerava mais importantes que sua própria vida.
— Ah, sr. Cinzento. Dean. Você é mais esperto que isso. Ninguém se lembra de um cadáver. Eu sei que você sabe como isso funciona. — Greenmantle cortou outro pedaço de queijo. — Primeiro eu vou ficar por aqui, apenas observando. Curtindo a paisagem. Descobrindo os melhores lugares para tomar café da manhã, vendo os pontos turísticos, observando você dormir, descobrindo tudo que é importante para você, encontrando aquela mulher por quem você se apaixonou, planejando a melhor maneira de fazer a destruição de tudo isso publicamente excruciante para você. Et cetera e por aí afora.
— Me dá mais uma, mas sem tanto queijo — disse Piper.
Ele o fez.
— Se você vai destruir a minha vida de qualquer jeito, não tenho por que simplesmente não matar você e a Piper agora mesmo — disse o Homem Cinzento.
— Me fale safadezas — disse Greenmantle. — Como nos velhos tempos. Na realidade, há outra opção, sr. Cinzento. Você me dá o Greywaren, como eu lhe pedi, e então filmamos um vídeo curto de você cortando o seu dedo do gatilho. Aí estaremos quites.
Ele ergueu as mãos como a deusa da Justiça, segurando o queijo em uma mão e a faca na outra.
— Ou isso, ou aquilo.
— E se não houver Greywaren?
— Então há a destruição pública de tudo o que você ama. Opção: o sonho americano.
O Homem Cinzento parecia estar considerando. Normalmente qualquer outra pessoa pareceria assustada a essa altura da conversa, mas era possível que o Homem Cinzento não tivesse emoções.
— Vou precisar pensar a respeito.
— Com certeza — disse Greenmantle. — Que tal uma semana? Não, nove dias. Nove é três mais três mais três. Vou continuar olhando por aí enquanto você decide. Obrigado por vir.
O Homem Cinzento se afastou de Piper, a arma ainda apontada para ela, e então desapareceu pela porta atrás de si. O aposento ficou em silêncio.
— Aquela porta não dá para um armário? — perguntou Greenmantle.
— É a porta da garagem, seu imbecil — disse Piper com seu carinho característico. — Agora eu perdi a ioga, e o que vou dizer a eles? Ah, eu tinha uma arma apontada para a minha cabeça. Outra coisa, eu disse para você jogar fora essas cuecas há meses. O elástico está todo solto.
— Fui eu — ele disse. — Eu o afrouxei. Entendeu?
A voz de Piper permaneceu, enquanto o resto de si deixava o aposento.
— Estou cansada dos seus passatempos. Essas são as piores férias que eu já tive.

2 comentários:

  1. Interessante e engraçado a relação de Piper e Greenmantle.

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  2. Morango do Nordeste26 de julho de 2018 16:21

    Piper ganhou o prêmio de mais estranha de toda a saga

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Boa leitura, E SEM SPOILER!