30 de julho de 2018

Capítulo 13

PAELSIA

Depois de mais de um mês de tentativas, finalmente foi concedida a Jonas uma audiência com o chefe Basilius.
— Estou impressionado — Brion disse baixinho quando andavam pelo caminho de terra que levava ao complexo fechado e protegido do chefe. — Você precisa me dar umas aulas na escola de carisma Jonas Agallon.
— É fácil.
— É o que você diz. — Brion olhou para a bela garota que abraçava Jonas. Aquela que havia prometido aos dois que poderiam falar com o chefe, também conhecido como seu pai.
Jonas havia percebido que o único jeito de se encontrar com o recluso líder paelsiano seria por meio de sua família. E Laelia Basilius estava mais do que disposta a ajudar Jonas quando ele se aproximara dela em uma taverna. Ela estava se apresentando lá. A filha do chefe era dançarina.
E que dançarina…
— Cobras! — Brion exclamou surpreso enquanto assistiam à apresentação dela na semana anterior. — Ela está dançando com cobras.
E estava mesmo.
— Nunca gostei de cobras — Jonas respondeu. — Mas dá para entender o apelo.
Laelia era uma garota deslumbrante — alguns anos mais velha do que ele. E dançava com duas cobras. Uma delas era uma píton branca e preta que se retorcia e deslizava por seu corpo atraente. Ele ficou hipnotizado ao vê-la, quadris balançando, cabelos pretos e longos — até os joelhos — que esvoaçavam com os movimentos de seu corpo bronzeado.
Mas ele não a estava vendo de verdade.
Só conseguia ver uma linda princesa com os olhos da cor do mar inclinada sobre o corpo morto de Tomas, junto ao corpo do assassino dele.
Mesmo tendo se desviado do plano original de entrar escondido no palácio auraniano e matar o lorde Aron e a princesa Cleo, Jonas continuou obcecado com a lembrança dela. Ele odiava a realeza e tudo o que representava, com todo o seu ser. Mas precisava de foco. Não tinha escolha. Tentou sorrir quando, junto com Brion, se aproximou da filha do chefe paelsiano.
Antes, quando Jonas e Tomas iam a tavernas e conversavam com meninas bonitas — dançarinas ou não — depois de um dia extenuante de trabalho nos vinhedos que lhes davam calos tanto nas mãos como no espírito, Tomas era o mais popular. Mais velho, talvez um pouco mais bonito. Era um paquerador nato. A Jonas não faltava companhia para abrilhantar as noites depois do trabalho, mas não tinha dúvida de que as garotas preferiam seu irmão.
Depois que Tomas se foi, isso mudou definitivamente. Quando conseguiu chamar a atenção de Laelia, ela o olhou com interesse. Depois que a música parou, ela enrolou um tecido simples e transparente sobre suas curvas e esperou, tímida, que Jonas se aproximasse.
— Belas cobras — ele disse, dando um sorriso malicioso.
Aquele sorriso sempre funcionava.
Ela era dele.
Laelia Basilius não tinha calos nas mãos nem o rosto queimado de sol como as garotas com quem costumava interagir. Quando sorria, mostrava pura diversão, e não uma ponta de cansaço por um dia de trabalho braçal. Ela gostava de Jonas. Muito. E uma semana depois quis apresentá-lo a seu pai.
— Aproximem-se — o chefe acenou assim que eles apareceram. Ele estava sentado diante de uma grande fogueira. Várias garotas com os seios descobertos dançavam para ele até que as dispensou com um aceno. Elas foram para o outro lado da fogueira.
As fagulhas dançavam no ar. Estrelas pontuavam o céu de veludo negro. Havia uma carcaça de cabra no espeto no alto da fogueira, assando para um jantar tardio. O cheiro de pele queimada pairava no ar frio da noite. Laelia puxou Jonas pela mão. Ele manteve a expressão neutra, mas se sentia intimidado. Nunca havia se encontrado com o chefe nem conhecera alguém que houvesse se encontrado com ele. Basilius estava em reclusão há anos, o que tornava aquela a maior honra que um paelsiano podia receber. Jonas se sentia profundamente honrado por estar ali, independente dos passos que tivesse precisado dar para tornar aquilo possível.
O que mais o havia surpreendido no complexo fora a opulência. Enquanto o resto de Paelsia trabalhava sem parar nos vinhedos e lutava para encontrar restos de comida, parecia que do outro lado dos muros não havia dificuldade alguma. Parte dele acreditava que o chefe deveria ter um padrão diferente do paelsiano comum — tinha o direito de usar parte dos pesados impostos sobre o vinho para construir uma residência particular, já que era o líder. A outra parte sentia uma pontada na boca do estômago com a revelação.
Ele se ajoelhou ao lado de Brion e ambos abaixaram a cabeça em deferência ao chefe.
— Levantem-se. — O chefe sorriu. A pele bronzeada do canto de seus olhos cinzentos dobrava-se em dezenas de rugas. Ele tinha cabelos compridos, parte das mechas perto do rosto com finas tranças chamadas texos, estilo típico dos homens de Paelsia. Jonas havia cortado os cabelos ao completar treze anos. Cabelos curtos eram mais fáceis de manter. Os de Brion eram mais longos, mas não o bastante para trançar. Desde que a terra começara a definhar, muitas tradições sumiram com ela.
— Papai — sussurrou Laelia, passando a mão pelo peito de Jonas —, ele não é lindo? Posso ficar com ele?
O chefe curvou os lábios.
— Laelia, minha preciosidade. Nos dê uma chance para conversar. Quero conhecer melhor esse rapaz por quem está tão interessada.
Os ombros de Laelia caíram e ela fez bico. O chefe fez um sinal dispensando-a, e logo ela se retirou e se juntou às garotas do outro lado da fogueira.
Jonas e Brion trocaram um olhar preocupado. Estavam lá dentro. E agora?
— Chefe, é uma honra… — Jonas começou a falar.
— Está apaixonado pela minha filha? — o chefe perguntou. — Veio aqui pedir permissão para se comprometer com ela?
Alguém lhe trouxe um prato de comida: coxas de peru, carne de cervo e inhames assados, em uma pilha maior do que qualquer prato que Jonas já havia visto em toda a vida. Sua família passava fome com frequência e ele era obrigado a caçar ilegalmente em outra terra para manter seus parentes vivos, mas havia comida suficiente no complexo do chefe para alimentar sua vila durante meses.
Uma parte dele, bem lá no fundo, tornou-se fria e frágil ao perceber isso.
Brion cutucou Jonas com o cotovelo, pois ele não havia respondido de imediato.
— Se estou apaixonado por sua filha? — Jonas repetiu, sem saber direito como responder.
— Sim — Brion sussurrou baixinho. — Diga sim, seu idiota.
Mas seria mentira. Jonas não podia mentir sobre assuntos do coração. Já havia tentado e fracassado miseravelmente. Havia uma grande diferença entre desejo e amor.
— Laelia é uma bela garota — respondeu. — Tenho sorte de ela ter se interessado por mim.
O chefe o observou.
— Ela não traz muitos rapazes para me conhecer. Você é apenas o segundo.
— O que aconteceu com o primeiro? — Brion perguntou.
— Ele não sobreviveu — replicou o chefe.
Brion ficou de queixo caído.
O chefe riu alto.
— É brincadeira. Ele está bem. Minha filha se cansou dele, só isso. Com certeza ainda está vivo, em algum lugar.
“Ou talvez Laelia o tenha dado de comida para as cobras”, o pensamento mórbido passou pela cabeça de Jonas.
Mas não era por isso que eles estavam ali. Ele queria chegar ao ponto logo.
— Chefe Basilius, é uma grande honra encontrá-lo esta noite — Jonas começou. — Preciso falar com o senhor sobre uma coisa muito importante.
— Ah? — O chefe levantou uma das sobrancelhas grossas. — E escolheu o dia do meu banquete de comemoração para fazer isso?
— O que o senhor está comemorando?
— A união com um aliado. Uma parceria que ajudará a criar uma Paelsia muito mais próspera no futuro.
Aquilo foi totalmente inesperado, mas era algo excelente de se ouvir. O desconforto de Jonas ao testemunhar a opulência do chefe diminuiu um pouco.
— Fico feliz em saber. Porque é sobre isso que eu queria falar com o senhor.
Basilius assentiu, com os olhos brilhando de curiosidade.
— Por favor, diga o que veio dizer.
— Meu irmão foi morto há pouco tempo por um lorde auraniano. O nome dele era Tomas Agallon. — A garganta de Jonas ficou apertada. — Para mim, foi um sinal de que as coisas têm que mudar. De que as atuais dificuldades que Paelsia enfrenta não são aceitáveis. Acredito que Auranos seja uma terra maligna cheia de pessoas sorrateiras. Anos atrás, eles nos enganaram, levando-nos a plantar apenas uvas, de modo que hoje nos pagam uma ninharia pelo vinho enquanto cobram uma fortuna por seus vegetais. Além disso, eles têm tantos recursos e não nos permitem acesso a nenhum deles. Se dermos um passo do outro lado da fronteira, estaremos arriscando a vida. Não é aceitável. — Ele respirou fundo e soltou o ar devagar, reunindo coragem. — Estou aqui para propor uma rebelião contra eles, tomar o que é deles para nós. É preciso parar de esperar que as coisas se resolvam sozinhas.
O chefe o analisou por um longo e silencioso momento.
— Concordo plenamente com você.
Jonas piscou.
— Concorda?
— E sinto muito pelo que aconteceu com seu irmão. Foi uma tragédia perder um dos nossos de maneira tão estúpida. Até agora, eu não sabia que você tinha parentesco com o garoto assassinado, e fico feliz que tenha vindo aqui esta noite. Está certo. Auranos deve pagar por sua ignorância e narcisismo; pelo que aconteceu com seu irmão e pela total falta de consideração de seus cidadãos por minha terra e meu povo.
Jonas não conseguia acreditar que havia sido tão fácil.
— O senhor concorda que devemos nos rebelar contra eles?
— Muito mais do que isso, Jonas. Haverá uma guerra.
Jonas gelou de repente.
— Guerra?
— Sim. — O chefe se inclinou para a frente, observando o rosto de Jonas, o rosto de Brion. — Vocês dois são valiosos para mim. Conseguem enxergar o que os outros não veem. Quero que me ajudem com o que está por vir.
— O senhor fala como se não estivéssemos sugerindo algo absurdo — Brion disse, confuso. — Espere. O banquete de comemoração… essa guerra é algo que o senhor já estava planejando, não é? Mesmo antes de dizermos qualquer coisa?
O chefe confirmou.
— Eu me juntei ao rei de Limeros com o objetivo comum de tomar Auranos para nós. Paelsia e Limeros vão prosperar muito quando Auranos cair.
Jonas olhava para o chefe em silêncio, aturdido. Aquilo ia muito além do que ele sonhava ser possível.
— O que aconteceu no mercado no dia em que seu irmão foi assassinado desencadeou tudo isso — o chefe continuou. — O sacrifício de sua família, a perda de seu irmão, foi uma tragédia. Mas isso trará mudanças reais.
— Então o senhor vai mesmo tentar conquistar Auranos? — questionou Jonas, em choque.
— Tentar não. Conseguir. E quero que vocês dois se juntem às minhas forças. Neste exato momento meus homens estão em Paelsia reunindo indivíduos qualificados para se juntar ao exército de Limeros. O rei Gaius é um homem muito esperto. Muito esperto. O rei Corvin, no entanto, não sabe de nada. Nenhuma guerra em cem anos. Com todo esse tempo de paz, ele ficou gordo e preguiçoso. A vitória, sem dúvida, será nossa. E o povo de Paelsia poderá esperar um futuro melhor.
Era bom demais para ser verdade. Só podia ser um sonho.
— Preciso que vocês lutem ao meu lado para garantir um futuro melhor para nossos semelhantes paelsianos. Vocês dois.
Jonas e Brion olharam um para o outro.
— É claro — Jonas assentiu, com firmeza. — Qualquer coisa que o senhor precisar, chefe Basilius. Qualquer coisa mesmo.
O chefe ficou olhando para os dois por um momento.
— Enquanto isso, quero que viajem pelas vilas. Fiquem de olho em qualquer coisa estranha. Se o rei Corvin ficar sabendo de nossos planos, pode enviar seus próprios espiões até aqui para descobrir mais.
Jonas concordou.
— Sim, chefe.
O chefe fez um gesto positivo e sorriu.
— Agora, por favor, sintam-se à vontade. Participem de meu banquete e comemorem comigo. E, Jonas, lembre-se de uma coisa mais importante do que qualquer outra… mais do que a guerra, mais do que a própria morte.
— O quê, senhor?
O chefe manteve o sorriso.
— Tenha cuidado com minha filha. Ela não lida muito bem com decepções.

2 comentários:

  1. GENTE TÔ COM MEDO
    NAO QUERO QUE ACONTEÇA NADA COM AURANOS
    TABOM QUE O QUE AQUELE ARON FEZ FOI MUITO RUIM
    MAS TA NA CARA QUE ELES SÒ ESTAVAM ESPERANDO UM PRETEXTO PARA ATACAR AURANOS
    É MEIO INJUSTO QUE UM REINO INTEIRO PAGUE POR COVARDE INFELIZ
    ASS:JANIELLI

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  2. Mas também os Auranos aumentaram o preço dos legumes para a Paelsia e deixam eles passarem fome por isso eu acho que eles deveiam ter atacado a muito tempo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!