15 de julho de 2018

Capítulo 13

Adam achara que havia algo em seu olho. A sensação começara enquanto ele estava parado no teatro encalorado. Não era nem tanto uma irritação, mas uma fadiga, como se tivesse olhado para uma tela por tempo demais. Ele poderia tê-la suportado até o fim do dia na escola se o olho tivesse ficado daquele jeito, mas sua visão estava se tornando um pouco embaçada agora. Se fosse só isso não haveria tanto problema, mas o fato de ele poder sentir o olho, bem... ele precisava dar uma conferida no que estava acontecendo.
Em vez de voltar para um dos prédios acadêmicos, ele desceu rapidamente a escada até a porta lateral do teatro. Havia banheiros na área debaixo do palco, e foi para lá que ele se dirigiu, passando por animais de múltiplas pernas feitos de cadeiras velhas empilhadas, silhuetas estranhas de árvores cenográficas, e oceanos sem fundo de cortina negra pendurada sobre tudo. O corredor era escuro e estreito, as paredes, horrores de tinta verde lascada. Com uma mão cobrindo o olho, Adam se achou distorcido e enervante, e então se lembrou novamente da cena de sua mão movendo-se sozinha.
Ele precisava trabalhar com Cabeswater, pensou, e descobrir o que estava acontecendo com aquela floresta.
A luz do banheiro estava apagada. Isso não era problema — o interruptor ficava logo passando a porta —, mas, mesmo assim, Adam não estava muito entusiasmado em colocar a mão escuridão adentro para encontrá-lo. Ele ficou parado ali, o coração um pouco rápido demais, até que olhou para trás de si.
O corredor parecia fechado e escuro, impassível sob a luz fluorescente doentia. As sombras eram inseparáveis das cortinas de palco. Grandes faixas negras conectavam tudo.
Acenda a luz, pensou Adam.
Com a mão livre, a que não estava cobrindo o olho, ele adentrou o espaço do banheiro. Adam o fez rápido, os dedos avançando pelo frio, pelo escuro, tocando algo...
Não, era só uma videira de Cabeswater, apenas em sua cabeça. Ele investiu a mão impetuosamente ao largo dela e acendeu a luz.
O banheiro estava vazio.
É claro que estava vazio. É claro que estava vazio. É claro que estava vazio.
Dois cubículos de madeira compensada pintada de verde, nem de perto de acordo com as leis de acessibilidade, nem de perto de acordo com as leis de higiene. Um mictório. Uma pia com um anel amarelo em torno do dreno. Um espelho.
Adam parou na frente do vidro, a mão sobre o olho, e examinou o rosto emaciado. Sua sobrancelha quase sem cor estava cerrada de preocupação. Baixando a mão, ele se olhou novamente.
Não viu nenhum tom rosado em torno do olho esquerdo. Ele não parecia estar lacrimejando. Ele estava...
Semicerrou os olhos. Seria ele ligeiramente estrábico? Era assim que chamava uma pessoa com olhos que não apontavam na mesma direção, certo?
Adam piscou.
Não, estava tudo bem. Era apenas um truque daquela luz, verde e fria. Ele se inclinou mais para perto do espelho para ver se havia alguma vermelhidão no canto.
O olho era estrábico.
Adam piscou, e não era. Piscou, e era. Parecia um daqueles sonhos ruins que não são pesadelos, não realmente, que se tratava apenas de colocar um par de meias e descobrir que elas subitamente não servem em seu pé.
Enquanto ele observava, seu olho esquerdo lentamente caiu para olhar para o chão, liberto do olhar de seu olho direito.
A visão de Adam embaçou e então recuperou o foco quando o olho direito retomava as rédeas da situação. Adam respirava, ofegante. Ele já havia perdido a audição em um ouvido. Ele não poderia perder a visão em um olho, também. Seria por causa de seu pai? Seria um efeito retardado das batidas que levara na cabeça?
O olho balançou lentamente, como uma bola de gude escorregando em uma jarra d’água. Ele podia sentir o horror da situação em seu estômago.
No espelho, Adam teve a impressão de que a sombra de um dos cubículos havia mudado. Ele se virou para olhar: nada. Nada.
Cabeswater, você está comigo?
Ele se virou de volta para o espelho. Agora o olho esquerdo viajava lentamente em torno da órbita, perambulando para lá e para cá, para cima e para baixo.
Adam sentiu um aperto no peito.
O olho olhava para ele.
Adam se afastou tropegamente do espelho, a mão grudada sobre o olho. Sua omoplata se chocou contra a parede oposta, e ele ficou parado ali, buscando ar, assustado, assustado, assustado, afinal que tipo de ajuda ele precisava, e quem poderia ajudá-lo?
A sombra acima do cubículo estava mudando. Estava se transformando de um quadrado em um triângulo porque — ah, Deus — a porta de um cubículo estava se abrindo.
O longo caminho de volta para a rua parecia um corredor polonês de horror. A escuridão derramava-se para fora do cubículo.
— Cabeswater, preciso de você — disse Adam.
A escuridão espalhou-se pelo chão.
Adam só tinha um pensamento: ele não podia deixar que ela o tocasse. O pensamento dela em sua pele era pior do que a imagem de seu olho inútil.
— Cabeswater, me ajude. Cabeswater!
Houve um ruído como o de um tiro — Adam recuou — enquanto o espelho se dividia. Um sol vindo de algum lugar brilhava do outro lado dele. Folhas pressionavam-se contra o vidro, como se ele fosse uma janela. A floresta sussurrava e sibilava no ouvido surdo de Adam, instando-o a ajudá-la a encontrar um canal.
A gratidão o consumia, tão difícil de suportar quanto o medo. Se algo acontecesse a ele agora, pelo menos ele não estaria sozinho.
Água, instou Cabeswater. Águaáguaágua.
Adam caminhou aos tropeços até a pia e virou a torneira. A água jorrou com uma fragrância de chuva e pedras. Ele enfiou a mão na corrente para fechar o tampão com força. Como uma tinta preta, a escuridão sangrava em sua direção, a centímetros de seus sapatos.
Não deixe que ela te toque...
Adam subiu com dificuldade até a borda da pia enquanto a escuridão alcançava a parte de baixo da parede. Ela subiria, Adam sabia disso. Mas então, a água encheu a bacia tampada e fluiu sobre a beirada até o chão. Ela lavou a escuridão, silenciosa, descolorida, deslizando na direção do dreno e deixando para trás somente o concreto pálido, comum.
Mesmo após a escuridão ter ido embora, Adam deixou a pia derramar água no chão por um minuto inteiro, encharcando seus sapatos. Então se deixou escorregar da beirada da pia. Ele fez uma concha com as mãos para captar a água e jogou o líquido cheirando a terra sobre o rosto e o olho esquerdo. De novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, até não sentir mais cansaço no olho. Até não mais senti-lo completamente. Era apenas o seu olho novamente, quando ele espiou o espelho. Apenas seu rosto. Não havia nenhum sinal de outro sol ou uma íris preguiçosa. Gotas dos rios de Cabeswater apegavam-se úmidas aos cílios de Adam. Cabeswater murmurava e gemia. Videiras entremeavam-se por Adam, enquanto uma luz mosqueada brilhava por detrás dos seus olhos e pedras pressionavam por baixo da palma de suas mãos.
Cabeswater havia levado muito tempo para vir em sua ajuda. Apenas algumas semanas antes, uma pilha de telhas havia caído sobre ele, e Cabeswater interviera imediatamente para salvá-lo. Se isso acontecesse hoje, ele estaria morto.
A floresta sussurrou para Adam na própria língua, metade imagens, metade palavras, e o fez entender por que ela levara tanto tempo para vir socorrê-lo.
Algo havia atacado a ambos.

Um comentário:

  1. Será que está atacando Adam, Cabeswater e Ronan nos seus sonhos, foi a coisa que Piper despertou?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!