4 de julho de 2018

Capítulo 13

No dia seguinte, depois da escola, Blue se sentou à mesa com uma colher em uma mão e Lisístrata, a peça que ela havia escolhido analisar para a aula de inglês, na outra. (A vida das mulheres não é fácil, sabe. Você vive zanzando em torno do marido; cutucando a empregada para ela acordar; pondo o filho para dormir, dando banho ou comida para o garoto.) Uma chuva fina e cinzenta batia contra as janelas da cozinha apinhada.
Blue não estava pensando em Lisístrata. Estava pensando em Gansey e no Homem Cinzento, em Maura e na caverna de corvos.
Subitamente, uma sombra exatamente do tamanho e da forma de sua prima Orla caiu sobre a mesa.
— Não é porque a Maura não está aqui que você precisa andar por aí como uma lesma social — disse Orla, como a cumprimentá-la. — Outra coisa: quando foi a última vez que você comeu algo que não fosse iogurte?
Às vezes Blue não suportava Orla. Essa era uma das vezes. Ela não ergueu o olhar.
— Não precisa ser grossa.
— A Charity me disse que o T.J. te convidou para sair hoje e você simplesmente encarou o garoto sem dizer nada.
— O quê?
— O T.J. te convidou para sair e você simplesmente ficou olhando para ele. Isso te lembra alguma coisa? — Fazia muito tempo que Orla havia se formado na Escola Mountain View, mas ainda era amiga ou ex-amiga de toda a turma, e o poder coletivo de todas aquelas irmãs mais novas servia para fornecer a Orla uma visão, de certa maneira incompleta, da vida de Blue no período escolar.
Blue ergueu o olhar (acima, acima) para sua prima alta.
— No almoço, o T.J. veio até a minha mesa e desenhou um pênis no unicórnio do meu fichário. É sobre isso que a Charity está falando?
— Não banque a Richard Gansey Terceira comigo — respondeu Orla.
— Porque, se é sobre isso que ela está falando, então, sim, eu só encarei o T.J. Não percebi que era uma conversa, por causa do pênis.
Orla respirou fundo, abrindo visivelmente as narinas.
— Escuta, às vezes as pessoas só querem ser amigáveis. Você não pode esperar que elas sejam profundas o tempo inteiro. Às vezes elas só querem bater um papo.
— Eu bato papo — argumentou Blue. O incidente com T.J. não a havia ofendido, embora ela preferisse seu unicórnio sem gênero definido. Ele apenas a fez se sentir cansativamente mais velha que todos na escola. — Dá licença? Estou tentando terminar isso antes que o Gansey chegue. — (Ó Zeus, que sofrimento palpitante!)
— Você pode simplesmente ser amiga das pessoas, sabia? — disse Orla. — Acho que é loucura você estar apaixonada por todos aqueles garotos corvos.
Orla não estava errada, é claro. Mas o que ela não tinha percebido a respeito de Blue e seus garotos era que todos estavam apaixonados uns pelos outros. Ela não estava menos obcecada por eles do que eles por ela, ou uns pelos outros, analisando cada conversa e gesto, tornando cada piada uma brincadeira interminável cada vez maior, passando cada momento juntos ou pensando em quando se encontrariam de novo. Blue sabia perfeitamente que era possível existir uma amizade que não tomasse tanto sua vida, que não a cegasse, que não a ensurdecesse, que não a enlouquecesse, que não a excitasse. A questão era que, agora que ela tinha uma desse tipo, não queria a outra.
Orla estalou os dedos entre Blue e o livro.
— Blue. Era disso que eu estava falando.
Blue segurou as páginas com o dedo para não se perder.
— Não pedi nenhum conselho.
— Não, mas deveria — disse Orla. — O que você acha que vai acontecer daqui a um ano? Todos os seus garotos vão para faculdades bacanas, e onde você vai estar? Aqui em Henrietta, com as pessoas com quem você não bateu papo.
Blue abriu a boca e fechou, e os olhos de Orla brilharam vitoriosos. Ela sabia que a havia atingido para valer.
Na rua, soou o ronco familiar de um velho Camaro, e Blue se levantou de um salto.
— Minha carona chegou.
— Carona temporária.
Blue explodiu, lançando o pote de iogurte no lixo reciclável.
— Que foi, Orla? Está com ciúme? Ou o quê? Você simplesmente não quer que eu goste deles tanto assim porque... está tentando me poupar de ser magoada? Sabe o que mais é temporário? A vida.
— Ah, por favor, você não acha que está levando isso um pouco...
— Então talvez eu devesse ter espalhado meu amor para outras mães também! — Blue pegou a jaqueta e saiu apressada pelo corredor na direção da porta. — Se eu não amasse tanto a minha mãe, não me sentiria tão mal quando ela sumisse! Eu poderia ter alguns pais de reserva, cada um com um pedacinho do meu afeto, para que, quando um deles fosse embora, eu mal notasse! Ou talvez seja melhor simplesmente não amar nada nem ninguém! Isso facilitaria as coisas, porque assim ninguém nunca ia me deixar na mão! Vou construir uma torre para o meu coração!
— Ah, calma aí — disse Orla, fazendo ruído com seus sapatos plataforma. — Não foi isso que eu quis dizer.
— Sabe o que eu acho, Orla? Acho que você adora fazer bullying. — Blue esbarrou em Gansey, que havia chegado ao hall de entrada. Por um momento ela sentiu o cheiro da hortelã, a solidez do peito dele, e então voltou para trás.
Gansey desenganchou seu relógio da jaqueta de crochê de Blue.
— Oi. Ah, Orla.
— Ah, Orla — ecoou Orla, de maneira pouco agradável. Não era com ele, mas Gansey não sabia disso; ele recuou.
Do andar de cima, Calla gritou:
— CALEM A BOCA!
— Você vai se lembrar dessa conversa mais tarde e me pedir desculpas — Orla disse para Blue. — Você esquece quem você é. — Ela se voltou com a maior elegância possível sobre as longas pernas e os enormes sapatos.
Gansey era educado demais para perguntar sobre a causa da discussão.
— Me tira daqui — disse Blue.


Na rua, estava um dia miserável, abafado e frio, um fim de outono que chegava cedo demais. Malory já estava instalado no assento da frente do Pig; Blue se sentia ao mesmo tempo desapontada e grata com a presença dele. Assim ele evitaria que ela fizesse algo estúpido.
Ela se sentou ao lado do Cão, olhando para fora pela janela do banco de trás, enquanto eles passavam pelo monte Mole a caminho da montanha Coopers, sentindo seu mau humor melhorar um pouquinho. Aquela era uma parte do mundo muito diferente de Henrietta. Rural, mas menos selvagem. Mais vacas, menos árvores. E muito pobre. As casas ao longo da rodovia eram menores que trailers comuns.
— Não tenho muita esperança quanto a isso — Gansey disse a Malory, dando um safanão no próprio ombro esquerdo; a chuva entrava por sua janela, embora ela estivesse fechada. Também pingava no painel debaixo do espelho retrovisor. Malory espanou a água do mapa em suas mãos. — Eu rastejei por essa montanha inteira um ano atrás e não vi nenhuma caverna. Se existe alguma, é segredo de outra pessoa.
Blue se inclinou para frente, da mesma forma que o Cão. Ela disse:
— Existe um jeito superinteligente que o pessoal do interior usa para descobrir o segredo das pessoas. A gente pergunta a elas.
Gansey cruzou o olhar com o dela, e então com o do Cão, no espelho retrovisor.
— O Adam mantém os segredos dele bem guardados.
— Ah, não estou me referindo ao tipo de gente do interior como o Adam.
Blue descobrira que havia dois estereótipos distintos para a população rural de sua região na Virgínia: os vizinhos que emprestavam xícaras de açúcar uns para os outros e que sabiam tudo a respeito de todos, e os caipiras que ficavam em suas varandas com espingardas, gritando palavras racistas quando ficavam bêbados. Por ter crescido tão envolvida no primeiro grupo, Blue só acreditara na existência do segundo já em sua adolescência bem avançada. A escola lhe ensinara que os dois tipos quase nunca nasciam na mesma ninhada.
— Escutem — ela disse. — Quando chegarmos lá, vou mostrar para vocês as casas onde devemos parar.
A montanha Coopers acabou se revelando mais um pequeno monte do que uma montanha de verdade, chamando atenção mais por causa de sua súbita aparição no meio de campos esparsamente povoados. Havia um pequeno bairro de um lado. Casas de fazenda distantes umas das outras pontilhavam o resto da área circundante. Blue desviou Gansey do primeiro bairro em direção às casas de fazenda.
— As pessoas dos bairros só sabem sobre as pessoas dos bairros — ela disse. — Não tem cavernas nos bairros. Aqui, aqui, essa é boa! É melhor você esperar no carro com essa sua cara de bacana.
Gansey era absolutamente consciente de sua cara de bacana para protestar. Ele dirigiu o Camaro lentamente por um longo acesso de cascalho que terminava em uma casa de fazenda branca. Um cão desmazelado sem raça ou numa mistura de todas elas correu para latir enquanto Blue descia na chuva.
— Ei, você — Blue o cumprimentou, e o cão recuou imediatamente para baixo da varanda. Na porta, uma mulher mais velha segurando uma revista respondeu à sua batida. Ela parecia amigável. Pela experiência de Blue, todos que viviam em casas de fazenda remotas e decadentes geralmente pareciam amigáveis, até que não pareciam mais.
— Posso ajudar?
Blue exagerou seu sotaque, deixando-o o mais lento e local possível.
— Não estou vendendo nada, juro. Meu nome é Blue Sargent, moro em Henrietta e estou fazendo um trabalho de geologia. Ouvi dizer que tem uma caverna aqui perto. Você poderia me indicar o caminho?
Então sorriu, como se a mulher já a tivesse ajudado. Se havia uma coisa que Blue havia aprendido como garçonete, levando cães para passear e sendo a filha de Maura Sargent, era que as pessoas geralmente se tornavam o tipo de pessoa que você esperava que elas fossem.
A mulher pensou a respeito.
— Bem, isso parece familiar, mas não creio que... Você perguntou ao Wayne? Bauer? Ele conhece bem a região.
— Quem é ele, mesmo?
A mulher apontou na direção do outro lado da estrada. Blue ergueu o polegar, agradecendo. A mulher lhe desejou boa sorte.
No fim das contas, Wayne Bauer não estava em casa, mas sua esposa estava, e ela não sabia de nada sobre uma caverna, mas então eles perguntaram ao Jimmy mais adiante, porque ele estava sempre cavando valas, e você sabe que você encontra de tudo em valas. E Jimmy não sabia de nenhuma caverna, mas achava que Gloria Mitchell tinha dito algo a respeito de uma no ano passado. Eles descobriram que Gloria não estava em casa, mas sua irmã mais velha estava, e ela perguntou:
— O quê, você está falando da caverna de Jesse Dittley?
— Não precisa ficar convencida — Gansey disse para Blue enquanto ela colocava o cinto de segurança.
— Claro que preciso — respondeu Blue.
A fazenda Dittley ficava bem na base da montanha Coopers. A casa de estrutura de madeira inclinada estava cercada de carros aos pedaços, sofás inteiros e grama alta. Os pneus abandonados e os aparelhos de ar-condicionado em janelas quebradas inspiravam o mesmo sentimento em Blue que a cozinha-banheiro-lavanderia bagunçada na Monmouth: a vontade irresistível de arrumar e organizar as coisas.
Enquanto descia do carro, Blue repassava o nome Jesse Dittley na cabeça. Algo a respeito dele lhe trazia uma lembrança, mas ela não sabia o que era. Um velho amigo da família? Um tarado de uma reportagem no jornal? Um personagem de história em quadrinhos?
Caso fosse a alternativa do meio, Blue se certificou de que trazia seu canivete rosa no bolso. Ela não acreditava realmente que teria de esfaquear ninguém, mas gostava de estar preparada.
Blue parou na varanda inclinada com catorze jarros de leite vazios e dez gatos e bateu na porta. Levou um bom tempo para a porta se abrir, e, uma vez aberta, uma baforada de cigarro saiu porta afora.
— MAS QUEM DIABOS VOCÊ É?
Blue espiou o homem para cima. Ele a espiou para baixo. Ele devia ter aproximadamente dois metros de altura e usava a maior regata branca que ela já vira na vida (e ela vira muitas). Seu rosto era suave, se um tanto surpreso; a voz alta, concluiu Blue, era por causa da caixa torácica, e não por maldade. Ele encarou a blusa dela, feita de faixas de tecido e linguetas de latas de refrigerante, e então o rosto.
— Muito contente por conhecê-lo, é quem eu sou.
Blue espiou para dentro da casa. Viu mais cadeiras reclináveis do que já vira na vida (e ela vira muitas). Nada indicava onde ela poderia ter ouvido o nome daquele homem antes.
— Você é Jesse Dittley?
— EU SOU JESSE DITTLEY. VOCÊ NUNCA COMEU FEIJÃO?
Era verdade que Blue mal tinha um metro e meio e também era verdade que não comia feijão, mas ela havia pesquisado e não acreditava que as duas coisas estivessem relacionadas. Ela disse:
— Eu saí perdendo no jogo de dados da genética.
— PODE ESTAR CERTA DISSO.
— Estou aqui porque disseram que você tem uma caverna.
Ele considerou a questão e coçou o peito. Por fim, olhou para onde o Camaro estava parado, encharcado no acesso escavado.
— QUEM SÃO ELES?
— Meus amigos — respondeu Blue —, que também estão interessados na caverna. Se ela existir.
— AH, ELA EXISTE. — Ele soltou um suspiro do tamanho de um furacão. — MELHOR FALAR PARA ELES SAÍREM DA CHUVA.
O Camaro já estava teoricamente fora da chuva — bem, talvez não o ombro esquerdo de Gansey —, mas Blue não discutiu a questão e gesticulou para que os outros se juntassem a ela.
Dentro da casa parecia muito com o lado de fora. Máquinas meio dissecadas, plantas mortas em vasos secos, colchas empoeiradas amontoadas nos cantos, gatos espiando de dentro de pias. Estava cinzento, descorado e escuro na chuva. Havia algo fora de centro a respeito da casa, como se os corredores fossem estreitos demais, ou um pouco inclinados, ou apenas ligeiramente equivocados de alguma maneira.
Jesse Dittley. A familiaridade do nome a estava deixando maluca.
Na sala de estar, Malory se sentou em um sofá reclinável sem piscar um olho. Gansey continuou de pé. Ele parecia um pouco tonto.
Blue se sentou em um pufe. Jesse Dittley se postou junto à mesa de cartas, coberta de copos vazios. Ele não lhes ofereceu uma bebida.
— O QUE VOCÊS QUEREM SABER SOBRE A CAVERNA? — Antes que eles pudessem responder, acrescentou sombriamente: — ELA É AMALDIÇOADA.
— Meu Deus — disse Malory.
— Não me importo muito com maldições — disse Gansey, seu sotaque de dinheiro antigo da Virgínia soando elegante e afetado junto ao de Jesse. — Ela fica aqui perto?
— BEM ALI — relatou Jesse.
— Ah! Você sabe o tamanho dela? — perguntou Gansey, ao mesmo tempo em que Blue perguntava de maneira amigável:
— Que tipo de maldição?
— MEU PAI MORREU DENTRO DELA. E O PAI DO MEU PAI. E O PAI DO PAI DO MEU PAI. — Jesse concluiu, talvez equivocadamente: — ELA PROVAVELMENTE NÃO TEM FIM. VOCÊ É UM DOS GAROTOS DA AGLIONBY, ESTOU CERTO?
— Sim — respondeu Gansey precisamente.
— ESSE CÃO QUER ÁGUA?
Todos olharam para o Cão. Ele parecia um pouco tonto.
— Ah, se não for muito incômodo — disse Malory.
Jesse foi buscar água, e Gansey trocou um olhar com Blue.
— Essa história de repente ficou sinistra.
— Vocês acreditam que existe uma maldição? — ela perguntou.
— É claro que sim — respondeu Malory. — Ela está na linha ley. Aparições e tempestades elétricas, feras negras e lapsos de tempo.
— Para a gente, é apenas a linha ley. Para todos os outros, é uma maldição — completou Gansey, abismado. — É claro.
Jesse voltou com uma tigela de vidro lascada cheia de água. O Cão bebeu ansiosamente. O Camaro tinha um vazamento no escapamento, o que provocava um efeito de desidratação em seus ocupantes.
— O QUE VOCÊS QUEREM NA CAVERNA? IMAGINO QUE EXISTA UM MONTE DE CAVERNAS SEM MALDIÇÃO POR AQUI.
— Estamos explorando outro sistema de cavernas e chegamos a uma parte que está bloqueada. Estamos tentando descobrir outra maneira de entrar nela, e acreditamos que a sua caverna possa ser a solução.
Como a verdade funcionava bem.
Jesse os levou pela porta dos fundos, passando por outra varanda protegida por telas e então para a garoa.
Na rua, ele era ainda maior do que Blue achava que ele era. Ou, possivelmente, agora era mais fácil comparar o tamanho dele com a casa e perceber que ela era insuficiente. Enquanto os guiava através de uma vasta pastagem para vacas, Jesse não baixou a cabeça contra a chuva. Essa falta de preocupação pareceu nobre para Blue, embora ela não conseguisse realmente seguir o exemplo dele à medida que a chuva pingava dos lóbulos de suas orelhas.
— Esse tempo me lembra a escalada terrível que fiz com um sujeito chamado Pelham — murmurou Malory, abrindo um guarda-chuva para si e compartilhando-o com Blue. — Catorze quilômetros na ida e catorze na volta, e tudo por uma rocha vertical que parecia um cachorro dependendo da luz. O homem só falava de futebol e da namorada... Que empreitada terrível.
A passos grandes e curvos, Jesse os levou até uma cerca de arame farpado. Do outro lado, uma estrutura de pedra em ruínas perdida no tempo se sobressaía da encosta pedregosa. Ela não tinha teto e tinha aproximadamente dois metros quadrados. Embora tivesse apenas um pavimento arruinado, algo a respeito dela passava a impressão de altura, como se um dia tivesse sido mais alta. Blue lutou para imaginar qual teria sido o seu propósito original. Algo a respeito do aspecto minúsculo das janelas parecia errado para uma residência. Se ela não estivesse na Virgínia, se ela estivesse em algum lugar mais antigo, Blue teria pensado que ela parecia com a ruína de uma torre de pedra.
— É AQUI.
Blue e Gansey trocaram um olhar. O olhar de Gansey dizia: Nós falamos “caverna”, certo? O olhar de Blue dizia: Definitivamente.
Jesse usou um pedaço de pau para empurrar para baixo o arame farpado, para que eles pudessem passar pela cerca — todos exceto o Cão, que ficou irritadamente para trás. Então, com os pés escorregando sobre folhas úmidas, eles escalaram a colina. Do lado de trás da construção, uma porta consideravelmente mais nova havia sido colocada no velho marco.
Um cadeado a mantinha fechada. Jesse tirou uma chave e passou para Blue.
— Eu? — ela perguntou.
— EU NÃO VOU ENTRAR.
— Que galante — observou Blue. Ela não estava exatamente nervosa, a questão era que simplesmente não levantara naquela manhã com a intenção de cutucar uma maldição.
— MATA APENAS DITTLEYS — Jesse a acalmou. — A NÃO SER QUE VOCÊ TENHA SANGUE DITTLEY?
— Acho que não — disse Blue.
Ela encaixou a chave no cadeado e abriu a porta.
Dentro havia mudas de árvores, rochas desmoronadas e então, em meio ao entulho, um buraco. Não parecia nem um pouco com a abertura de caverna convidativa que Cabeswater havia lhes proporcionado. Era menor, mais escuro, mais irregular e mais íngreme desde a entrada. Parecia um lugar para segredos.
— Olhe essa caverna, Gansey — disse Malory. — Eu me pergunto quem disse que havia uma caverna aqui.
— Deixe a presunção para a Jane — disse Gansey.
— Não entre aqui — Blue avisou, abrindo caminho em meio aos fragmentos de pedras. — Caso tenha marimbondos ou algo assim.
— PARECE PIOR QUANDO VOCÊ OLHA PARA DENTRO — disse Jesse enquanto Blue espiava no buraco. Era absolutamente negro lá dentro, mais escuro ainda por causa da ausência do sol. — MAS NÃO É ÍNGREME. APENAS AMALDIÇOADO.
— Como você sabe que não é íngreme? — ela perguntou.
— JÁ ESTIVE AÍ ANTES, EM BUSCA DOS OSSOS DO MEU PAI. A MALDIÇÃO NÃO TE LEVA ANTES DA HORA.
Era difícil de argumentar com esse tipo de lógica.
— Você acha que podemos entrar? — perguntou Gansey. — Não agora, mas voltando com o equipamento certo?
Jesse o espiou, e então Malory, e por fim Blue.
— EU FUI COM A CARA DE VOCÊS, ENTÃO... — Ele balançou a cabeça. — NÃO.
— Como? Você disse não? — perguntou Gansey.
— POR UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA, EU NÃO POSSO DEIXAR. VAMOS TRANCAR A PORTA DE NOVO.
Ele aceitou a chave dos dedos chocados de Blue.
— Mas nós tomaríamos o máximo de cuidado — ela lhe disse.
Jesse trancou novamente a porta, como se não tivesse ouvido nada.
— E poderíamos pagar as despesas — Gansey sugeriu cuidadosamente, e Blue chutou sua perna com tanta força que deixou uma marca de lama em suas calças. — Meu Deus, Jane!
— NÃO DIGAM O NOME DO SENHOR EM VÃO — disse Jesse. — AGORA DIVIRTAM-SE EXPLORANDO OUTRO LUGAR.
— Ah, mas...
— O ATALHO É PELO CAMPO. TENHAM UM BOM DIA.
Eles haviam sido dispensados. Por incrível que pareça, eles haviam sido dispensados.
— Melhor assim — disse Malory enquanto caminhavam de volta através do campo úmido, os ombros miseravelmente curvados. — Cavernas são lugares terríveis para se morrer.
— E agora? — perguntou Blue.
— Pelo visto precisamos nos apressar. Rápido, rápido — disse Gansey. — Para achar um jeito de fazer o homem mudar de ideia. Ou então invadimos a propriedade dele.
Após ele entrar no carro, Blue percebeu que Gansey estava usando o uniforme da Aglionby, com os ombros salpicados de chuva, como estivera seu espírito quando ela o vira sobre a linha ley. Ele poderia ter morrido naquele campo, e ela teria sido avisada. Mas Blue só pensara nisso depois.
Viver a vida de trás para frente era algo tão impossível.

2 comentários:

  1. Será que Gansey vai morrer nesse livro?

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  2. Mas se mata apenas Dittleys não tem problema eles entrarem, né?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!