15 de julho de 2018

Capítulo 12

A manhã seguinte estava exageradamente ensolarada e quente.
Gansey e Adam estavam junto às portas duplas do Teatro Memorial Gladys Francine Mollin Wright, as mãos unidas, solenemente. Eles haviam sido convocados para auxiliar na cerimônia — apenas Adam tinha sido realmente, mas Gansey se voluntariara para assumir o lugar de Brand como o outro auxiliar. Ronan não estava em parte alguma. A contrariedade fervia dentro de Gansey.
— O Dia do Corvo — disse o diretor Child — é mais do que um dia de orgulho da escola. Pois não temos orgulho da escola todos os dias?
Ele estava de pé no palco. Todos suavam de leve, mas ele não. O diretor Child era um caubói magro e durão na condução do gado que era a vida, a pele estriada como a face da parede de um cânion manchada pelo sol. Há muito que Gansey sustentava que Child era um desperdício ali. Colocar um sobrevivente desse naipe em um terno e uma gravata cinza-claros era desperdiçar a oportunidade de colocá-lo no lombo de um cavalo de rodeio e com um chapéu de vaqueiro.
Adam lançou um olhar cúmplice para Gansey. Ele fez com a boca ihhh-háá. Então os dois abriram um sorriso e tiveram de desviar o olhar um do outro. O olhar de Gansey pousou bem em Henry Cheng e na turma de Vancouver, todos sentados juntos, próximos do fundo. Como se sentisse sua atenção, Henry olhou sobre o ombro. Suas sobrancelhas ergueram-se imediatamente. Gansey se lembrou desconfortavelmente de como Henry tinha visto a Garota Órfã no banco de trás do Suburban. Ele exigiria, em algum momento, uma explicação, uma desconversa, ou uma mentira.
—... para este Dia do Corvo — insistiu Child.
Normalmente, Gansey ficava encantado com o Dia do Corvo. Nesse dia, tinha tudo que ele gostava: alunos reunidos elegantemente, vestindo camiseta branca e calça cáqui, feito figurantes de um documentário da Primeira Guerra Mundial; hasteamento de bandeiras; equipes se enfrentando com direito a todos os gritos de encorajamento; pompa, circunstância, piadas internas; corvos pintados por toda parte. Essa safra de alunos do segundo ano fizera corvos para todo o corpo discente, a fim de encenar um conflito simulado no refeitório, enquanto os fotógrafos da escola capturavam rostos radiantes para outro ano de materiais promocionais.
Agora tudo em Gansey clamava urgentemente que ele investisse seu tempo buscando. Sua busca era um lobo, e ele estava faminto.
— Hoje é o décimo aniversário do Dia do Corvo — disse Child. — Dez anos atrás, as festividades que celebramos hoje foram propostas por um aluno que frequentava Aglionby há anos. Infelizmente, Noah Czerny não pode estar aqui hoje para festejar, mas, antes que o façamos, temos a sorte de ter uma de suas irmãs mais jovens aqui, para nos contar um pouco mais a respeito de Noah e das origens dessa comemoração.
Gansey teria achado que ouvira mal, se Adam não tivesse olhado de relance para ele e pronunciado: Noah?
Sim, Noah, porque ali estava uma das irmãs Czerny, subindo ao palco. Mesmo se Gansey não a tivesse reconhecido do funeral, ele teria reconhecido a boca pequena de Noah, os olhos diminutos com bolsas escuras embaixo, as orelhas grandes escondidas debaixo do cabelo fino. Era esquisito ver os traços de Noah em uma mulher jovem. Era mais esquisito ainda vê-los em qualquer pessoa viva. Ela parecia velha demais para ser a irmã mais nova de Noah, mas isso era só porque Gansey havia esquecido que Noah existia em suspensão. Ele teria vinte e quatro agora, se tivesse sido salvo em vez de Gansey.
Um calouro disse algo que Gansey não pegou, o que lhe rendeu a expulsão do teatro. A irmã de Noah se inclinou na direção do microfone e disse algo também muito baixo para que ele pegasse, e então mais algo, que foi abafado por um ruído agudo enquanto o engenheiro de som tentava ajustar o volume. Finalmente, ela disse:
— Olá, meu nome é Adele Czerny. Não vou fazer um discurso realmente longo. Quer dizer, já passei por esses eventos quando tinha a idade de vocês, e eles são terrivelmente chatos. Só vou dizer algumas coisas sobre o Noah e o Dia do Corvo. Alguém aqui o conhecia?
Em uníssono, Gansey e Adam começaram a levantar as mãos, mas rapidamente as baixaram. Sim, eles o conheciam. Não, eles não o tinham conhecido. Noah, vivo, estivera antes da temporada deles ali. Noah, morto, era um fenômeno, não um conhecido.
— Bem, vocês não sabem o que perderam — ela disse. — Minha mãe sempre dizia que ele era terrível, que sempre era multado por excesso de velocidade, que subia nas mesas nas reuniões de família, coisas desse tipo. Ele sempre tinha muitas ideias. E era muito hiperativo.
Adam e Gansey trocaram um olhar. Eles sempre tiveram a impressão que o Noah que conheciam não era o verdadeiro. Era simplesmente desconcertante ouvir quanta Noahcidade a morte havia tirado dele. Era impossível não conjecturar o que Noah teria feito de sua vida se tivesse continuado vivo.
— De qualquer forma, estou aqui porque fui a primeira pessoa a ouvir sobre a sua ideia do Dia do Corvo. Ele me chamou uma noite, acho que ele tinha uns catorze anos, e disse que tinha sonhado com corvos lutando. Falou ainda que eles tinham todas as cores, tamanhos e formas, e ele estava dentro deles, e estavam, tipo, girando em volta dele. — Ela girou em torno de si em um redemoinho; ela tinha as mãos de Noah, os cotovelos de Noah. — Ele me falou: “Acho que seria um projeto de arte superlegal”. E eu falei: “Aposto que, se todo mundo na escola fizesse um corvo, você teria corvos suficientes”.
Gansey sentiu os pelos dos braços se eriçarem.
— Então eles estão voando e fazendo manobras vertiginosas, e não há nada a não ser sonhos por toda parte — disse Adele. Gansey não tinha certeza se ela dissera realmente isso, ou se ele a ouvira errado e estava simplesmente se lembrando pela metade de algo que ela já havia dito. — De qualquer maneira, eu sei que ele gostaria de ver como este dia é celebrado agora. Então, hum, obrigada por lembrarem de um dos sonhos malucos dele.
Ela deixou o palco; Adam cobriu um dos olhos com uma mão; houve a palma dupla respeitosa dos alunos da Aglionby no lugar de um aplauso indisciplinado.
— Vamos, corvos! — disse Child.
Essa era a deixa para que Adam e Gansey abrissem as portas. Alunos verteram para fora. Umidade e calor verteram para dentro. O diretor Child se juntou a eles no vão da porta.
Ele apertou a mão de Gansey, então a de Adam.
— Obrigado por seus serviços, cavalheiros. Sr. Gansey, não achei que sua mãe conseguisse organizar o evento para arrecadar fundos e uma lista de convidados até esse fim de semana, mas estamos quase lá. Ela tem meu voto para governar o país.
Ele e Gansey trocaram um sorriso de camaradas, do tipo que surge após a assinatura de um contrato. Teria sido um bom momento se tivesse terminado ali, mas Child se deixou ficar, puxando um papo cortês com Gansey e Adam — seu melhor aluno e o mais brilhante, respectivamente. Por sete minutos torturantes, eles revisitaram o tempo, falaram dos planos para o feriado do Dia de Ação de Graças, das experiências comuns no Museu Colonial Williamsburg, e então, finalmente, exaustos, seguiram seus caminhos enquanto os alunos do segundo ano apareciam com seus guerreiros corvos.
— Meu Deus — disse Gansey, um pouco ofegante por causa do esforço.
— Achei que ele não iria embora nunca — disse Adam. Ele tocou a parte de baixo da pálpebra esquerda, apertando-a até fechá-la, antes de mirar além de Gansey. — Se... ah. Já volto. Acho que entrou alguma coisa no meu olho.
Ele deixou Gansey, e este se deixou relaxar no Dia do Corvo. Ele se viu ao pé da escada onde os alunos estavam recebendo corvos. O bando era composto de papel, folhas de alumínio, madeira, papel machê e latão. Alguns pássaros flutuavam com barrigas de balão de hélio. Alguns planavam. Outros oscilavam sobre múltiplos suportes, com hastes em separado para controlar asas que batiam. Noah tinha feito isso. Noah tinha sonhado isso.
— Já vou te dar um pássaro — disse um aluno do segundo ano, passando-lhe um corvo negro sem graça feito de jornal, preso a uma estrutura de madeira.
Gansey se misturou à turma de garotos. A turma de Noah. Em um mundo melhor, Noah estaria dando aquela apresentação de décimo ano.
Ao nível dos olhos, a paisagem estava tomada por varetas, braços e camisetas brancas, mecanismos e engrenagens. Mas se você semicerrasse os olhos em direção ao céu muito brilhante, as varetas e os alunos desapareceriam, e a vastidão se revelava cheia de corvos. Eles davam rasantes e atacavam, desciam e subiam, batiam asas e giravam.
Estava muito quente.
Gansey sentiu o tempo escapar. Só um pouco. A questão era que essa visão era muito estranhamente parecida com algo de sua outra vida, sua vida real; esses pássaros eram objetos de sonho de Ronan. Parecia injusto que Noah devesse ter morrido, e Gansey não. Noah estava vivendo quando foi assassinado. Gansey, marcando passo.
— Quais são as regras dessa batalha mesmo? — ele perguntou sobre o ombro.
— Nenhuma regra na guerra, fora permanecer vivo.
Gansey se virou; asas passaram batendo por seu rosto. Ele estava espremido por ombros e costas, sem saber dizer quem havia falado, sem um rosto para olhar, se é que alguém havia realmente falado.
O tempo dava puxões em sua alma.
A orquestra da Aglionby começou a tocar. O primeiríssimo compasso era uma passagem harmoniosa executada por vários instrumentos, mas um dos instrumentos de sopro errou feio a primeira nota da frase seguinte. No mesmo instante, um inseto passou zumbindo pelo rosto de Gansey, tão próximo que ele pôde senti-lo. Subitamente, tudo ficou inclinado de lado. O sol acima queimava branco. Corvos batiam as asas em torno de Gansey enquanto ele se virava, procurando por Adam, Child, ou qualquer coisa que não fosse só uma camiseta branca, uma mão, um pássaro batendo asas. Seus olhos prenderam-se no próprio punho. Seu relógio dizia 6h21.
Estivera quente quando ele morrera.
Ele estava em uma floresta de varetas de madeira, de pássaros. Os instrumentos de sopro murmuravam; as flautas gritavam. Asas zumbiam, sopravam e tremiam à sua volta. Ele podia sentir as vespas em seus ouvidos.
Elas não estão aqui.
Mas aquele grande inseto farfalhava à sua volta novamente, em círculos.
Fazia anos desde que Malory fora forçado a parar no meio do caminho de uma escalada para esperar enquanto Gansey caía de joelhos, as mãos cobrindo os ouvidos, tremendo, morrendo.
Ele havia trabalhado duro para se afastar daquilo.
Elas não estão aqui. Você está no Dia do Corvo. Você vai comer sanduíches depois disso. Você vai fazer uma ligação direta no Camaro no estacionamento depois da escola. Você vai dirigir até a Rua Fox, 300. Você vai contar à Blue sobre o seu dia você vai...
Os insetos provocavam coceira em suas narinas e movimentavam seu cabelo suavemente, coletivamente agitados. O suor corria direto pela espinha. A música tremeluzia. Os alunos haviam se tornado espíritos, passando por ele e à sua volta sem lhe dar atenção. Seus joelhos estavam prestes a ceder; Gansey os deixaria.
Ele não podia recriar sua morte aqui. Não agora, não quando tudo estaria fresco na memória de todos no evento para arrecadar fundos — Gansey Terceiro pirou no Dia do Corvo, você ficou sabendo?; Sra. Gansey, poderíamos ter uma palavra sobre o seu filho? — ele não seria o assunto do evento.
Mas o tempo escorria; Gansey escorria. Seu coração pulsava com sangue escuro, escuro.
— Gansey, cara.
Gansey não conseguia se concentrar bem nas palavras. Henry Cheng estava parado à sua frente, todo cabelo e sorrisos, os olhos intensos. Ele tirou o corvo de Gansey e em seu lugar pressionou algo frio na mão dele. Frio, cada vez mais frio.
— Uma vez você me deu café — disse Henry. — Quando eu estava pirando. Considere retribuído o favor.
Gansey estava segurando um copo plástico de água com gelo, o que não deveria ter lhe provocado nada, mas algo funcionou: a diferença de temperatura chocante, o som ordinário dos cubos de gelo batendo uns contra os outros, o contato do olhar. Os alunos ainda davam voltas em torno deles, mas eram mais uma vez alunos. A música era mais uma vez só uma orquestra de escola, tocando uma nova composição em um dia incrivelmente quente.
— Aqui está ele — disse Henry. — Festa de toga hoje à noite, Richard, na Mansão Litchfield. Traga seus garotos e sua noivinha.
Então ele não estava mais ali, deixando corvos batendo asas onde estivera.

4 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!