4 de julho de 2018

Capítulo 12

Naquela noite, não muito tempo após ele ter voltado do trabalho, Adam ouviu uma batida na porta do seu apartamento na igreja. Quando a abriu, em um primeiro momento ficou surpreso que a pessoa do outro lado fosse real, e então surpreso que essa pessoa fosse Gansey, e não Ronan.
— Ah — ele disse. — É tarde.
— Eu sei. — Gansey estava de sobretudo e óculos; era óbvio que tinha tentado dormir e fracassara. — Desculpe. Você já fez os exercícios de cálculo? Não consigo entender o número quatro.
Ele não disse a palavra Greenmantle. Não havia mais nada a dizer até que ouvisse mais do sr. Cinzento.
— Já. Pode dar uma olhada.
Adam abriu a porta para Gansey, empurrando a carta — a carta — para trás da pequena prateleira junto à porta enquanto o deixava entrar.
Diferentemente de Ronan, Gansey parecia deslocado dentro do apartamento. O teto oblíquo fazia com que ele se sentisse mais oprimido; as rachaduras no reboco estavam desenhadas mais claramente; as caixas de plástico utilitárias contendo as coisas de Adam pareciam mais destituídas de charme estético. Gansey pertencia às coisas velhas, e aquele lugar não era somente velho, mas também barato.
A carta estava escondida, sim? Estava. Adam podia sentir o contorno dela brilhando por detrás da prateleira. Gansey teria pena dele e contrataria um advogado e Adam se sentiria um imbecil e eles brigariam...
Nós não vamos brigar.
Gansey tirou o sobretudo — por baixo, estava de camiseta e calça de pijama, o que era possivelmente a vestimenta mais metafórica que Adam poderia imaginar para seu amigo, a não ser que ele conseguisse usar outro sobretudo por baixo da camiseta, e outro conjunto de pijama por baixo desse segundo sobretudo, e assim por diante, uma série interminável de matrioskas de Ganseys — e se largou na ponta da cama.
— Minha mãe ligou — disse Gansey. — Queria saber se eu gostaria de me encontrar com o governador no fim de semana depois do próximo, porque seria ótimo se eu fosse, e se eu queria levar meus amigos. Não, mãe, na realidade eu não gostaria de fazer isso. A Helen vai estar lá! Sim, mãe, achei que ela estaria mesmo, mas não chego a considerar isso uma vantagem, pois estou preocupado que ela dê um jeito de raptar o Adam. Está bem, está bem, você não precisa ir, eu sei que está ocupado, mas, ah... etc. etc. etc. Ah, esqueci, eu trouxe um pagamento pela minha intromissão.
Ele puxou o casaco mais para perto pela manga e retirou dois doces do bolso. Jogou um no colo de Adam e abriu o outro para si.
Adam estava louco para abrir o seu, mas guardou para comer durante sua folga no trabalho na noite seguinte.
— Vai me manter acordado.
Ele gostava da ideia de que a elegante irmã mais velha de Gansey o achava bonito. A impossibilidade dela lhe proporcionava meramente um afago no ego.
— Você vai?
— Não sei. Se eu for, você vai comigo?
Adam sentiu uma sensação instintiva de angústia. Memória muscular, da última vez em que ele havia viajado para um evento político dos Gansey.
— Melhor convidar a Blue também. Ela me cobrou por não ter sido convidada da última vez.
Gansey piscou, sobressaltado por trás dos óculos.
— Porque eu não a convidei?
— Não, eu. Mas ela vai querer ir. Confie em mim. Ela chegou a dar medo.
— Eu acredito. Meu Deus, fico imaginando a Blue encontrando o governador. Tenho uma apresentação de slides das perguntas dela passando na minha cabeça.
Adam abriu um largo sorriso.
— Ele merece todas elas.
Gansey passou um lápis sobre sua tarefa de casa, conferindo-a com a de Adam, embora Adam pudesse ver que ele havia feito a de número quatro de maneira bastante adequada. Adam olhou para o doce e esfregou as costas das mãos. No inverno elas ficavam terrivelmente ásperas, apesar de seus melhores esforços, e já haviam começado a ressecar. Ele percebeu que as ligeiras batidas com o lápis haviam cessado, e, quando olhou para frente, viu Gansey franzindo o cenho para o espaço.
— Todo mundo diz: Apenas encontre Glendower — disse Gansey subitamente —, mas ao meu redor as paredes da caverna estão desabando.
Não eram as paredes da caverna que estavam desabando. Agora que Adam ouvira a ansiedade que emanava da voz de Gansey dentro da caverna, estava absolutamente atento ao seu reaparecimento. Ele desviou o olhar para dar a Gansey uma chance de se recompor, e então perguntou:
— O que o Malory disse para fazermos em seguida?
— Ele parece entusiasmado com o Túmulo do Gigante, por alguma razão que eu nem imagino.
Gansey havia realmente aproveitado o momento que Adam lhe concedera para controlar cuidadosamente seu tom; a ansiedade se transubstanciara em censura desvirtuada, em um ritual seguidamente praticado.
— Ele fala de pistas visuais e leituras de energia e que todas apontam para lá. E que adora a nossa linha ley. Ele está todo deslumbrado com ela.
— Você já esteve um dia — Adam o lembrou. Ambos haviam estado. Quão ingratos eles haviam se tornado, quão gananciosos por espetáculos melhores.
Gansey bateu ligeiramente com o lápis, concordando sem falar nada.
No silêncio, Adam ouviu sussurros vindos do banheiro. Por experiência, ele sabia que vinham da água que pingava da torneira da pia e que a linguagem era um tagarelar inarticulado para ele. Ronan talvez tivesse sido capaz de identificar uma palavra ou duas; ele tinha sua caixa mágica que traduzia o que quer que fosse aquela língua antiga. Mas Adam ainda ouvia, esperando para identificar se as vozes ascenderiam ou desapareceriam, esperando para ver se a linha ley estava se intensificando ou se Cabeswater estava tentando se comunicar.
Então ele percebeu Gansey olhando para ele com o cenho franzido. Adam não sabia ao certo qual havia sido sua expressão, ou por quanto tempo estivera concentrado em algo que Gansey não conseguia ouvir. Pelo rosto de Gansey, fazia um tempo.
— O Malory passou o dia trancado na Monmouth? — Adam perguntou rapidamente.
O rosto de Gansey se desanuviou.
— Eu emprestei o Suburban para ele dar uma volta. Pelo amor de Deus, ele dirige do mesmo jeito que anda. Mas não há dúvida de que ele não gosta da Monmouth.
— Traição — disse Adam, porque sabia que isso agradaria Gansey, e viu que agradou. — Onde está o Ronan?
— Falou que ia para a Barns.
— Você acreditou nele?
— Provavelmente. Ele levou a Motosserra — disse Gansey. — Não acho que ele vá se meter com Greenmantle... O sr. Cinzento foi muito persuasivo. E em que mais ele se meteria? O Kavinsky está morto, então... Jesus Cristo, olha o que estou dizendo. Jesus Cristo.
As paredes da caverna desmoronaram ainda mais; o ritual fora imperfeito. Gansey se recostou contra a parede e fechou os olhos. Adam o observou se conter.
Mais uma vez ele ouviu a voz de Gansey na caverna.
— Está tudo bem — disse Adam. Ele não se importava que Joseph Kavinsky estivesse morto, mas gostava da ideia de que Gansey se importava. — Eu sei o que você quer dizer.
— Não, não está tudo bem. Isso é revoltante para mim. — Gansey não abriu os olhos. — Tudo ficou tão feio. Não devia ser dessa forma.
Tudo havia começado feio para Adam, mas ele sabia o que Gansey queria dizer. Seu amigo nobre, desatento e otimista estava lentamente abrindo os olhos e vendo o mundo pelo que ele era, e ele era sujo e violento e profano e injusto. Adam sempre achara que era isso que ele queria — que Gansey soubesse. Mas agora ele não tinha certeza. Gansey não era qualquer um, e, subitamente, Adam não sabia ao certo se realmente queria que ele fosse.
— Aqui — disse Adam, de pé, pegando seu texto de história. — Leia. Em voz alta. Vou tomar notas.
Uma hora se passou dessa maneira, Gansey lendo em voz alta em sua adorável voz de sempre, e Adam tomando notas com sua caligrafia exagerada, e, quando Gansey chegou ao fim da tarefa, fechou o texto cuidadosamente e o colocou sobre a caixa de plástico virada de cabeça para baixo que Adam usava como mesa ao lado da cama.
Gansey se pôs de pé e vestiu o casaco, dizendo:
— Eu acho que se... quando a gente encontrar Glendower, vou pedir a ele pela vida do Noah. Você acha que daria certo?
A mudança de assunto foi tamanha que Adam não respondeu de imediato. Simplesmente olhou para Gansey. Algo havia mudado nele; ele havia mudado enquanto Adam estivera de costas. O vinco entre as sobrancelhas? A maneira como ele recolhia o queixo? A boca mais cerrada, talvez, à medida que a responsabilidade puxava os cantos para baixo.
Adam não entendia como eles haviam conseguido brigar com tanta frequência durante o verão. Gansey, seu melhor amigo, seu idiota e gentil e maravilhoso melhor amigo.
— Não. Mas acho que vale a pena pedir.
Gansey anuiu uma vez. Duas vezes.
— Desculpe por te deixar acordado até tarde. Nos vemos amanhã?
— Na primeira hora.
Depois que Gansey foi embora, Adam pegou a carta que estava escondida. Nela havia a data para se apresentar ao tribunal, no processo referente a seu pai. Uma parte remota de Adam ficou admirada com como a mera visão das palavras Robert Parrish podia revirar seu estômago de maneira nostálgica e confusa.
Olhos à frente, Adam. Logo isso seria passado. Logo aquele ano escolar também. Logo eles encontrariam Glendower, logo todos eles seriam reis.
Logo, logo.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!