15 de julho de 2018

Capítulo 11


De volta a Henrietta, a noite seguiu seu curso.
Richard Gansey não estava conseguindo dormir. Quando fechava os olhos: as mãos de Blue, a voz dele, a escuridão sangrando de uma árvore. Estava começando, começando. Não. Estava terminando. Ele estava terminando. Esse era o cenário do seu apocalipse pessoal. O que era empolgação quando ele estava desperto fundia-se em apreensão quando estava cansado.
Gansey abriu os olhos.
Em seguida abriu a porta de Ronan apenas o suficiente para confirmar que o amigo estava lá, dormindo de boca aberta e com os fones de ouvido ligados a todo volume. Motosserra, um monte imóvel em sua gaiola. Então Gansey o deixou e seguiu para a escola de carro.
Ele usou seu velho código de chave para entrar no complexo atlético indoor da Aglionby, e então tirou a roupa e nadou na piscina escura, no ambiente mais escuro, todos os ruídos estranhos e abafados à noite. Ele foi e voltou diversas vezes, como costumava fazer quando chegara pela primeira vez à escola, quando fazia parte da equipe de remo, quando às vezes chegava ainda mais cedo que o treino de remo, só para nadar. Gansey tinha quase esquecido como era a sensação de estar na água: era como se o corpo não existisse; ele era apenas uma mente sem fronteiras. Ele se impulsionava de uma parede que mal conseguia distinguir e partia em direção à parede oposta menos visível ainda, sem conseguir mais se ater às suas preocupações concretas. Escola, diretor Child, Glendower. Ele era apenas esse minuto atual. Por que abrira mão disso? Gansey não conseguia lembrar.
Naquela água escura, ele era apenas Gansey agora. Ele jamais morrera, e não morreria novamente. Ele era apenas Gansey, agora, agora, apenas agora.
Ele não conseguia ver, mas Noah estava parado na beira da piscina e o observava. Ele mesmo fora um nadador, um dia.


Adam Parrish estava trabalhando. Ele tinha um turno tarde aquela noite no armazém, descarregando potes de conserva, produtos eletrônicos e brinquedos de montar baratos. Às vezes, quando ele trabalhava tarde assim, quando estava cansado, sua mente corria de volta para sua vida no parque de trailers. Nem temeroso, tampouco nostálgico, apenas esquecido. De certa maneira, Adam havia deixado de lembrar que as coisas haviam mudado, e suspirava enquanto se imaginava dirigindo de volta para o trailer quando seu turno terminasse. Então haveria um choque de surpresa quando sua mente consciente se realinhava com a realidade do seu apartamento, no piso superior da Igreja de Santa Inês.
Hoje à noite, mais uma vez, ele lembrou equivocadamente de sua vida e deu uma guinada ao relembrar que ele havia melhorado as coisas, e, à medida que o alívio o perpassava lentamente, ele lembrou do rosto assustado da Garota Órfã. Com certeza os sonhos de Ronan eram muitas vezes coisas assustadoras, e, diferentemente deste, ela não tinha esperança de despertar. Quando ele a trouxera de volta para o mundo real, a Garota Órfã deve ter pensado que ela também havia descolado para si uma vida nova. Mas, em vez disso, eles só a levaram para outro pesadelo.
Adam disse a si mesmo que ela não era real.
Mas a culpa o consumia.
Ele pensou sobre como hoje à noite ele retornaria ao lar que ele havia construído para si mesmo. A Garota Órfã, no entanto, permaneceria presa no mundo dos sonhos, usando seu velho relógio e seu velho medo.
Enquanto Adam pegava a prancheta do estoque, pensamentos de Cabeswater não o deixavam, lembrando-o de que ele ainda precisava considerar a origem da árvore escurecida. Ao soltar um suspiro, Aglionby colocou pressão em Adam, lembrando-o de que ele ainda tinha uma dissertação de três páginas sobre a economia dos anos 30 para entregar. Ao subir no carro, o motor de arranque reclamou. Ele precisava dar uma olhada nele antes que apagasse completamente.
Adam não tinha tempo para devotar à garota de sonho de Ronan; ele tinha seus próprios problemas.
Mas não conseguia parar de pensar nela.
Seus pensamentos eram concentrados enquanto os dedos deslizavam pela direção à sua frente. Ele levou um momento para se dar conta do que estava acontecendo, na realidade, apesar de olhar precisamente para a cena que se desenrolava. Sua mão galopava no topo da direção, sentindo a borda, testando a pressão de cada digital contra a superfície.
Adam não havia dito para sua mão se mexer.
Ele fechou aquela mão em punho e a puxou da direção. Em seguida segurou o punho com a outra mão.
Cabeswater?
Mas Cabeswater não parecia mais presente dentro dele do que costumeiramente ocorria quando ele não estava tentando chamar-lhe atenção. Adam estudou sua palma no brilho cavernoso da iluminação de rua, desconcertado com a imagem de seus dedos se mexendo com a rapidez das pernas de um inseto, sem que sua mente estivesse ligada a eles. Agora que Adam olhava direto para sua mão de sempre, as linhas escuras com a poeira do papelão e verniz do metal, ele tinha a impressão de que havia imaginado tudo. Como se Cabeswater tivesse lhe enviado a imagem.
Relutantemente, Adam se lembrou das palavras do pacto que ele havia feito com a floresta: Eu serei suas mãos. Eu serei seus olhos.
Ele pousou a mão mais uma vez sobre o centro da direção. Ela ficou ali, parecendo estranha com a faixa pálida de pele onde seu relógio estivera. Ela não se movia.
Cabeswater?, pensou Adam novamente.
Folhas sonolentas desenrolaram-se em seus pensamentos, uma floresta à noite, fria e tardia. Sua mão seguiu onde ele a havia colocado. O coração de Adam ainda se arrastava dentro dele, como a imagem de seus dedos se movendo, aleatoriamente.
Ele não sabia se aquilo era real. Real estava se tornando um termo cada dia menos útil.


De volta a Monmouth, Ronan Lynch sonhava.
O sonho era uma memória. Uma Barns verdejante de verão, viçosa e desordenada de insetos e umidade. Água borrifava de um regador aninhado na relva. Matthew corria através dela de calção de banho. Jovem. Gorducho. Os anéis do cabelo branqueados de sol. Ele ria de uma maneira solta e contagiante. Um segundo mais tarde, outro garoto se lançou contra ele, derrubando-o sem hesitação. Os dois garotos rolaram, cobertos de folhas molhadas de grama.
Esse outro garoto colocou-se de pé. Ele era mais alto, sinuoso, confiante. Seu cabelo era longo, escuro e crespo, chegando quase até o queixo.
Esse era o Ronan, antes.
Agora havia um terceiro garoto, saltando cuidadosamente sobre o regador. Jack seja ágil, jack seja rápido. Rá, você achou que não seria eu, disse Gansey, pousando a palma das mãos sobre os joelhos despidos.
Gansey! Essa era Aurora, já rindo enquanto dizia o nome dele. O mesmo riso desregrado de Matthew. Ela direcionou o regador bem em sua direção, encharcando-o imediatamente. Ronan, antes, observou Ronan, depois.
Ele percebeu o momento em que se deu conta de que estava sonhando — ele ouviu o som eletrônico em seus ouvidos —, e sabia que poderia despertar. Mas essa memória, essa memória perfeita... ele se tornou aquele Ronan, antes, ou o Ronan antes se tornou o Ronan, depois.
O sol ficava cada vez mais brilhante. Mais brilhante.
Mais brilhante.
Era um olho elétrico, branco de calor. O mundo estava crestado de luz, ou de sombra, e nada mais. Gansey protegeu os olhos. Uma pessoa emergiu da casa.
Declan. Algo em sua mão. Escuro nessa luz berrante.
Uma máscara.
Olhos redondos, sorriso aberto.
Ronan não se lembrava de nada da máscara, exceto horror. Algo a respeito dela era terrível, mas ele não conseguia lembrar o que era agora. Todo pensamento incinerava-se para fora dele, nesse lixo nuclear que sua memória se transformara.
O irmão Lynch mais velho se afastou, decidido, os sapatos fazendo ruído no gramado encharcado.
O sonho estremeceu.
Declan começou a correr, bem na direção de Matthew.
— Garota Órfã! — gritou Ronan, colocando-se de pé com esforço. — Cabeswater! Tir e e’lintes curralo!
O sonho estremeceu novamente. Uma aparição de uma floresta se sobrepôs sobre o sonho inteiro, um quadro enfiado no rolo de um filme.
Ronan saiu correndo pela grama branca doentia.
Declan alcançou Matthew primeiro. O irmão Lynch mais novo inclinou a cabeça em sua direção, confiante, e esse era o pesadelo.
Cresce, imbecil, disse Declan para Ronan, e colocou a máscara com um tapa no rosto de Matthew.
Esse era o pesadelo.
Ronan arrancou Matthew de Declan; o sonho arfou novamente. Ele tinha a forma familiar do seu irmão mais novo em seus braços, mas era tarde demais. A máscara primitiva era uma parte integral do rosto de Matthew.
Um corvo voou acima da cabeça deles e desapareceu céu adentro.
Vai ficar tudo bem, disse Ronan a seu irmão. Você pode viver desse jeito. Só que você nunca vai poder tirá-la do rosto.
Os olhos de Matthew não transmitiam medo em suas órbitas grandes. Esse era o pesadelo. Esse era o pesadelo. Esse era o...
Declan arrancou a máscara.
Uma árvore atrás de si exsudou um líquido negro.
O rosto de Matthew consistia de linhas e traços. Não estava sangrento; não era horrível; simplesmente não era um rosto, então era terrível. Ele não era uma pessoa, ele era apenas uma coisa desenhada.
O peito de Ronan sacudia em soluços silenciosos e abafados. Ele não chorava assim há muito tempo...
O sonho estremeceu. E agora não era somente Matthew que havia se desfeito; tudo se desfazia. As mãos de Aurora apontavam uma para a outra, todos os dedos dobrados para trás em direção ao peito — linhas, desfeitas. Atrás deles, Gansey estava de joelhos, os olhos mortos. A garganta de Ronan estava em carne viva. Eu faço qualquer coisa! Eu faço qualquer coisa! Eu faço qualq...
O pesadelo desfazia tudo que Ronan amava.
Por favor...


Nos dormitórios da Aglionby, Matthew Lynch despertou. Quando se espreguiçou, sua cabeça bateu na parede; ele havia rolado direto nela durante a noite. Foi só quando seu colega de quarto, Stephen Lee, bufou, que ele percebeu que estava desperto porque seu telefone tocava.
Ele o tateou até o ouvido.
— Hum?
Não houve resposta. Matthew piscou em direção à tela para ver quem estava ligando, então o colocou de volta no ouvido. Sussurrou, sonolento:
— Ronan?
— Onde você está? No seu quarto?
— Hã.
— Estou falando sério.
— Ãhã.
— Matthew.
— Sim, sim, estou no meu quarto. O SL te odeia. São duas por aí. O que você quer?
Ronan não respondeu imediatamente. Matthew não podia vê-lo, mas ele estava em sua cama em Monmouth, encolhido, a testa pousada sobre os joelhos, uma mão segurando a própria nuca, o telefone pressionado contra o ouvido.
— Só para saber se você está bem.
— Estou bem.
— Vá dormir, então.
— Ainda estou dormindo agora.
Os irmãos desligaram.


Na rua, aninhado à linha ley, algo sombrio observava tudo isso, tudo que se passava na noite de Henrietta. E dizia: Estou desperto estou desperto estou desperto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!