4 de julho de 2018

Capítulo 11

Quando Gansey e Ronan chegaram à Rua Fox, 300 após a escola, Calla estava sendo atacada na sala de estar por um homem vestido inteiramente de cinza. Blue, Persephone e os móveis pairavam ao fundo. O homem exibia uma postura de luta perfeita, as pernas um pouco mais abertas que os ombros, um pé à frente. Ele segurava firmemente uma das mãos dela. Na outra mão, Calla segurava um manhattan, que tentava não derramar.
O Homem Cinzento sorria ligeiramente. Ele tinha dentes extraordinários.
Os garotos tinham entrado sem bater, de um jeito familiar, e agora Gansey largara a bolsa a tiracolo sobre o velho assoalho empenado e estava parado no vão da porta para a sala de estar. Ele não tinha certeza se a situação exigia intervenção. O Homem Cinzento era um assassino profissional (possivelmente aposentado). Nada para se brincar a respeito.
Mas, mesmo assim, se Calla quisesse e ajuda, certamente teria largado seu drinque. E Blue não estaria simplesmente comendo iogurte.
— Me mostra de novo — disse Calla. — Acho que não vi direito.
— Vou fazer um pouco mais forte — respondeu o Homem Cinzento —, mas não quero quebrar o seu braço de verdade.
— Você não chegou nem perto disso — ela assegurou. — Vá em frente.
Ela deu um pequeno gole em seu manhattan. Ele pegou a mão e o punho dela novamente, sua pele clara contra a dela, e rapidamente virou o braço inteiro de Calla. O ombro dela virou bruscamente para baixo; ela agarrou firmemente o drinque e riu.
— Essa deu para sentir.
— Agora faça comigo — disse o sr. Cinzento. — Vou segurar o seu drinque.
Com as mãos nos bolsos, Gansey se recostou no batente da porta e ficou observando. Ele sabia instintivamente que a notícia terrível que trazia era o tipo de fardo que apenas ficaria mais pesado uma vez que ele a compartilhasse. Ele se permitiu deixar, um momento antes da tempestade, que a atmosfera da casa provocasse o efeito de sempre nele.
Diferentemente da Indústria Monmouth, a Rua Fox, 300 estava tomada de pessoas estranhas e objetos excêntricos. Ela tinha um ruído constante de conversa, música, telefones e aparelhos antigos. Era impossível esquecer que todas aquelas mulheres estavam ligadas ao passado e exploravam o futuro, conectadas a tudo no mundo e umas às outras.
Gansey não chegava tanto a visitar, era mais absorvido.
Ele adorava isso. Ele queria fazer parte daquele mundo, embora compreendesse que havia razões intermináveis para nunca fazer parte dele. Blue era o resultado natural de uma casa assim: confiante, estranha, crédula, curiosa. E lá estava ele: neurótico, refinado, o produto de algo inteiramente diferente.
— O que mais? — perguntou Calla.
— Se você quiser, posso mostrar como tirar o meu queixo do lugar — disse o sr. Cinzento generosamente.
— Ah, sim, isso... Ora, eis Richard Gansey, o Terceiro — disse Calla, vendo-o de relance. — E a cobra. Onde está o Coca-Cola?
— Trabalho — disse Gansey. — Ele não conseguiu se livrar.
Persephone acenou para ele vagamente de trás de um drinque alto, rosa-claro. Blue não acenou. Ela tinha visto a expressão de Gansey.
— O nome Colin Greenmantle significa alguma coisa para você? — perguntou Gansey ao sr. Cinzento, embora já soubesse a resposta.
O Homem Cinzento passou a Calla o drinque e secou a palma das mãos nas calças. Os dentes excelentes haviam desaparecido.
— Colin Greenmantle era meu empregador.
— Ele é nosso novo professor de latim.
— Ah, querido — disse Persephone. — Você gostaria de um drinque?
Gansey percebeu que ela estava falando com ele.
— Ah, não, obrigado.
— Eu preciso de outro — disse ela. — Estou preparando um para você também, sr. Cinzento.
O Homem Cinzento foi até a janela. Seu carro, um Mitsubishi branco pouco sutil com um enorme aerofólio, estava estacionado na rua, e tanto ele quanto Ronan o estudaram pensativamente. Após um momento muito longo, o Homem Cinzento disse:
— Ele é o homem que me pediu para matar o pai de Ronan.
Gansey sabia que não podia ser atingido pela casualidade da declaração — o sr. Cinzento era um assassino profissional, Niall Lynch era seu alvo, ele não conhecia Ronan à época e, eticamente, a profissão do sr. Cinzento talvez não fosse pior do que a de um mercenário —, mas isso não mudava o fato de que o pai de Ronan estava morto. Ele lembrou a si mesmo que o Homem Cinzento fora meramente a arma impessoal. Greenmantle fora a mão que a empunhara.
Ronan, calado até aquele momento, disse:
— Vou matar esse cara.
Gansey teve uma súbita e terrível visão do fato: as mãos de Ronan pintadas de sangue, os olhos vazios e impenetráveis, um corpo a seus pés. Era uma imagem selvagem e impossível de esquecer, tornada ainda pior porque Gansey tinha visto muitos fragmentos separadamente para saber bem como eles ficariam quando colocados juntos.
O Homem Cinzento se virou prontamente.
— Você não vai — ele disse, com a máxima intensidade com que Gansey já o ouvira falar. — Está me ouvindo? Você não pode.
— Ah, não posso? — perguntou Ronan. Sua voz era baixa e perigosa; infinitamente mais ameaçadora do que se ele tivesse rosnado em resposta.
— Colin Greenmantle é intocável — disse o Homem Cinzento. Ele abriu bem os dedos, a mão parada no ar. — Ele é uma aranha se firmando a uma teia. Cada perna toca um fio, e, se qualquer coisa acontecer com a aranha, o inferno vai cair sobre a nossa cabeça.
— Eu já passei pelo inferno — disse Ronan.
— Você não faz ideia do que seja o inferno — disse o Homem Cinzento, mas não de maneira agressiva. — Você acha que é o primeiro filho a querer vingança? Você acha que o seu pai foi o primeiro que ele matou? E, no entanto, Greenmantle está vivo e intocado. Porque todos nós sabemos como a coisa funciona. Antes de vir para cá de Boston, ele deve ter firmado dezesseis fiozinhos a pessoas como eu, a programas de computador, a contas bancárias. A aranha morre, a teia estremece, subitamente suas contas são limpas, seu irmão mais novo vira um amputado, seu irmão mais velho morre atrás da direção de um carro em Washington, a campanha da sra. Gansey desmorona por causa de fotos escandalosas falsas, a bolsa do Adam desaparece, a Blue perde um olho...
— Pare — disse Gansey, achando que poderia vomitar. — Meu Deus, por favor, pare.
— Eu só quero que o Ronan compreenda que não pode fazer nada estúpido — disse o Homem Cinzento. — Matar o Greenmantle significa acabar com a nossa vida. E que bem uma vingança traria para você?
— O assassino falando — disse Ronan. Agora seu rosnado estava de volta, sinal de que a conversa o machucava.
— O assassino falando, sim, mas eu sou bom nisso — respondeu o sr. Cinzento. — Mesmo que ele não fosse uma aranha em uma teia estonteante, você estaria disposto a ir para a prisão pela satisfação de matá-lo?
Sem uma palavra, Ronan saiu, batendo a porta atrás de si. Gansey não o seguiu. Ele estava dividido entre o impulso de mitigar a dor de Ronan e a vontade de deixá-lo ferido, mas consciente de que precisava tomar cuidado. A violência era uma doença que Gansey não acreditava que pudesse pegar. Mas, à sua volta, seus amigos estavam lentamente infectados.
Persephone trouxe um drinque para o Homem Cinzento; ela preparara outro para si. Eles tomaram em uníssono, de um gole só.
— Quer? — Blue perguntou a Gansey, virando o pote de iogurte para que ele pudesse ver que tudo que sobrara fora a fruta no fundo. Ele não anuiu, mas ela o trouxe de qualquer maneira, dando-lhe a colher.
O gesto teve um efeito de firmá-lo — a viscosidade chocante dos mirtilos, o açúcar atingindo seu estômago, vazio da escola, o conhecimento de que a boca de Blue havia sido a última coisa que tocara a colher.
Blue o observou dar a primeira colherada e então se virou rapidamente para o sr. Cinzento.
— Foi ele que veio para uma leitura ontem à noite, não foi?
— Sim — disse o sr. Cinzento. — Como eu pensei. E agora ele está ensinando latim para os garotos.
— Por quê? — perguntou Gansey. — Por que nós?
— O negócio não é com vocês — respondeu o sr. Cinzento. — É comigo. Obviamente, ele não acreditou na minha história de fugir com o Greywaren. Ele veio até aqui atrás da Maura, porque acredita que ela é importante para mim. E se infiltrou na escola porque descobriu que vocês e eu nos conhecemos. Ele quer me mostrar que sabe que eu ainda estou aqui e que sabe muito a meu respeito.
— O que vamos fazer? — perguntou Gansey. Ele estava começando a achar que aquele dia fora um erro; aquele não era o primeiro dia de verdade da escola; ele devia ter ficado na cama até o dia seguinte e tentado de novo.
— Ele não é problema seu; é problema meu — o sr. Cinzento disse secamente.
— Ele está na minha escola todos os dias. O Ronan tem que olhar para a cara dele todos os dias. Como isso não é problema meu?
— Porque não é você que ele quer. Vou cuidar disso. O seu problema é me deixar cuidar disso.
Gansey se agachou, desanimado. Ele acreditava nas intenções do sr. Cinzento, mas não na declaração. Se ele tinha aprendido algo no último ano, era que tudo naquela cidade estava emaranhado.
Calla pegou o punho do sr. Cinzento e lentamente fingiu quebrar seu braço. Balançando um pouco a cabeça, ele trocou de posição com ela, pegando sua palma com uma mão e o punho com a outra. Ele o virou com lenta precisão. Algumas vezes, para que ela pudesse ver como ele fazia.
Havia algo de prazeroso em vê-lo demonstrar de maneira competente aquele ato de violência fingida, algo controlado e belo, como uma dança. Tudo a respeito de sua aparência limpa e musculosa, e do método limpo e intencional, dizia: Tenho a situação sob controle. situação queria dizer tudo.
Como Gansey desejava que Greenmantle fosse um problema do Homem Cinzento. No entanto, mais uma vez ele viu aquele túnel negro se estreitando e o poço, e no fundo uma cova.
Calla disse um palavrão e segurou o próprio ombro.
— Desculpe — disse o sr. Cinzento. E, para Gansey: — Vou descobrir o que ele quer.
— Não vá morrer — disse Blue imediatamente.
— Não é a minha intenção.
Persephone finalmente se manifestou com sua voz fina:
— Acho que é uma coisa boa que você quase tenha encontrado aquele rei.
Gansey percebeu que ela estava falando com ele.
— Eu quase encontrei?
— Certamente — disse Calla. — Isso já lhe tomou tempo suficiente.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!