30 de julho de 2018

Capítulo 10

LIMEROS

— Ela é só uma menina. Nada mais. Mas você acredita?
Ioannes conseguia se comunicar com os outros mentalmente quando estava no mundo mortal, mesmo na forma de falcão. Ele virou os olhos aguçados para a princesa de olhos escuros que havia saído do alto e sinistro castelo de pedra e viu sua amiga Phaedra empoleirada no galho ao lado.
— Eu acredito.
— E se ela realmente for? O que isso significa? — Phaedra perguntou.
— Tudo.
Significava que o Santuário poderia ser salvo, que eles poderiam afinal recuperar a Tétrade antes que caísse nas mãos de outra pessoa.
O Santuário continuaria intacto bem depois que o mundo mortal desaparecesse de todo, mas não duraria para sempre. O que havia se tornado sua prisão logo se tornaria seu túmulo. Sem elementia tudo desapareceria, mais cedo ou mais tarde. Inclusive aquilo criado pela própria magia.
— E se ela não for? — a amiga insistiu.
— Então está tudo perdido.
Dezesseis anos atrás Ioannes tinha visto os sinais. Até as estrelas se alinharam para celebrar o nascimento daquela linda garota. Ele a vira ser roubada de seu berço, as bruxas — descendentes de uma exilada do próprio Santuário — arrancando-a da proteção da mãe biológica.
Era verdade que a mãe não tinha ideia do que havia concebido, mas as bruxas comuns não tinham o direito de pegar a criança e escondê-la, derramando tanto sangue no processo. Uma bruxa, a mais bondosa, havia morrido pelas mãos da irmã mais sinistra. Esta última ainda vivia, e tomava conta da menina enquanto Ioannes observava as duas.
A paciência era um dom prezado acima de tudo pelos vigilantes. Mas até Ioannes sentia uma palpitação de nervosismo no peito. Ele acreditava, observava e esperava por um sinal de que estivesse certo. De que ela fosse a tal. Odiava admitir que sua crença estava começando a minguar e que a paciência estava diminuindo.
Ele agora sentia uma ponta de raiva pela possibilidade daquela simples garota não ser mais do que uma mortal qualquer — no máximo outra bruxa comum. Ficar tanto tempo naquele mundo era perigoso para um vigilante. A raiva crescente era um sinal de que ele precisava voltar logo ao Santuário para se purificar da carga de emoção negativa.
Talvez ele estivesse errado. Talvez tivesse perdido o seu tempo analisando a garota sempre que ela saía. Sempre que ficava no terraço olhando para os jardins congelados abaixo de seus aposentos. Observando seus lábios quando ela lia para si mesma em voz alta, quando rezava a uma deusa falsa que não merecia tamanha devoção.
Ioannes queria ir embora, passar suas preciosas horas no mundo mortal ocupando-se de outras coisas, mas não podia deixá-la.
Em breve, talvez. Mas não agora.
Ele saiu do galho e bateu as asas, voando alto no céu. Do solo, a bela princesa de cabelos escuros olhava para ele. Por um breve momento, seus olhos se encontraram.
Tudo o que ela viu ao olhar para ele foi um falcão dourado.
Por algum motivo, tal percepção o entristeceu.

Um comentário:

  1. Que fofo,passar tanto tempo no mundo material fez ele despertar o sentimento mais perigoso do mundo, a paixão

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Boa leitura, E SEM SPOILER!