15 de julho de 2018

Capítulo 10

A oitocentos quilômetros dali, Laumonier fumava um cigarro no cômodo principal de uma velha balsa portuária. O cômodo era prático e sem graça — janelas de vidro sujas afixadas no metal bruto, tudo tão frio e cheirando a peixe quanto o porto escuro. As decorações de aniversário eram as mesmas de uma celebração anterior, mas a passagem do tempo e a iluminação fraca as deixaram descoradas e vagamente sinistras enquanto chocalhavam na corrente.
Os olhos de Laumonier repousavam sobre as luzes distantes na linha do horizonte de Boston. Mas sua mente estava em Henrietta, Virgínia.
— Primeiro passo? — perguntou Laumonier.
— Não sei se é uma questão de ação — respondeu Laumonier.
— Eu gostaria de algumas respostas — disse Laumonier.
Os trigêmeos Laumonier eram praticamente idênticos. Havia ligeiras diferenças — um tinha um cabelo mais baixo, por exemplo, e um tinha um queixo visivelmente mais largo. Mas qualquer individualidade que tivessem na aparência, eles haviam destruído pela prática de uma vida inteira de apenas usar seu sobrenome. Uma pessoa de fora saberia que não estava falando com o mesmo Laumonier que ela havia falado em uma visita anterior, mas os irmãos teriam se referido a si mesmos pelo mesmo nome, então ela teria de tratá-los como a mesma pessoa. Não havia realmente trigêmeos Laumonier. Havia apenas Laumonier.
Laumonier soou indeciso.
— Como você espera conseguir essas respostas?
— Um de nós vai até lá — disse Laumonier —, e o questiona.
Até lá significava a casa em Back Bay do seu velho rival Colin Greenmantle e questionar significava lhe infligir algo desagradável em troca de meia década de afrontas. Laumonier estivera no comércio de artefatos mágicos desde que chegara a Boston, e havia enfrentado pouca competição até que o novo-rico almofadinha do Greenmantle entrara nele. Os vendedores haviam ficado gananciosos. Os artefatos haviam ficado caros. Capangas haviam se tornado uma necessidade.
Laumonier achava que tanto Colin Greenmantle quanto sua esposa, Piper, tinham visto filmes de máfia demais.
Agora, no entanto, Colin havia demonstrado alguma fraqueza ao bater em retirada de seu território há tanto tempo defendido de Henrietta. Sozinho. Não havia sinal de Piper. Laumonier queria saber qual o significado disso.
— Eu não me oponho — disse Laumonier, soltando uma nuvem de fumaça de cigarro no cômodo fechado. Sua insistência em fumar tornava impossível para os outros dois abandonar o cigarro, uma desculpa que todos eles apreciavam.
— Bem, eu me oponho — respondeu Laumonier. — Não quero criar confusão. E aquele mercenário dele é aterrorizante.
Laumonier bateu a cinza do cigarro e olhou de relance para as bandeirolas como se imaginasse incendiá-las.
— O que se fala por aí é que o Homem Cinzento não está mais trabalhando para ele. E somos perfeitamente capazes de ser discretos.
Laumonier compartilhava nome e metas, mas não metodologia. Um deles pendia para a cautela e outro para o fogo, deixando o último como pacificador e advogado do diabo.
— Certamente há outra maneira de se descobrir a respeito... — começou Laumonier.
— Não diga o nome — os outros dois o interromperam imediatamente.
Laumonier premiu os lábios. Era um gesto dramático, uma vez que todos os irmãos tinham bocas expressivas, um efeito que se tornava um tanto belo em um deles e um tanto obsceno em outro.
— Então vamos até lá conversar... — começou de novo Laumonier.
— Conversar — rosnou Laumonier, brincando com seu isqueiro.
— Pare com isso, por favor. Você fala como um pivete.
Esse Laumonier havia mantido o sotaque para usar em situações exatamente como essa. Acrescentava peso ao seu desdém.
— O advogado disse que eu não deveria cometer outro delito por pelo menos seis meses — disse Laumonier melancolicamente, apagando o cigarro.
Laumonier zumbiu baixo.
Embora fosse perturbador se qualquer um dos irmãos proferisse um zumbido do nada, houve um mal-estar arrepiante que se somou ao ruído que imediatamente gelou o ambiente.
Os outros dois se entreolharam de maneira suspeita — desconfiados não um do outro, mas de tudo que não fosse um ou o outro. Eles examinaram o irmão zumbidor em busca de sinais de uma doença, e então em busca de indícios de um amuleto antigo roubado de uma tumba francesa, um bracelete misterioso comprado no mercado negro do Chile, uma fivela de cinto sinistra furtada da Mongólia, ou um cachecol inescrutável feito de uma mortalha peruana. Qualquer coisa que pudesse produzir efeitos colaterais sobrenaturais.
Não encontraram nada, mas o zumbir não cessava, então eles vasculharam metodicamente o cômodo, tateando debaixo de cadeiras e ao longo de saliências, ocasionalmente olhando um para o outro de relance para ter certeza de que havia apenas um Laumonier zumbidor ainda. Se fosse algo ruim, Greenmantle era o candidato mais provável. Eles tinham outros amigos, é claro, mas Greenmantle era o mais próximo de casa. De todas as maneiras.
Laumonier não encontrou nada sobrenaturalmente interessante, apenas um esconderijo com joaninhas preservadas.
— Ei. Sou eu.
Laumonier voltou sua atenção para o irmão zumbidor, que havia parado de zumbir e largado o cigarro, que brilhava impotentemente sobre o chão de metal estampado. Ele franziu o cenho em direção ao porto de maneira introspectiva, de certa forma contrária à sua natureza costumeira.
— Isso foi ele? — perguntou Laumonier.
Laumonier fechou a cara.
— Não foi a voz dele, foi?
O irmão que estivera zumbindo perguntou:
— Vocês conseguem me ouvir? Sou nova nisso.
Certamente não era sua voz. E certamente não era sua expressão facial. Suas sobrancelhas se moveram de uma maneira que elas sempre foram capazes de fazer, certamente, mas jamais haviam sido solicitadas a fazê-lo. Isso o fez parecer imediatamente mais jovem e mais intenso.
O Laumonier coletivo sentiu uma pontada de possível compreensão.
— Quem está falando? — demandou Laumonier.
— É a Piper.
Aquele era um nome que tinha um efeito imediato e visceral em Laumonier: ira, traição, choque e então de volta para ira e traição. Piper Greenmantle. A esposa de Colin. Seu nome não fora mencionado na conversa antes e, no entanto, ali estava ela, invadindo-a de qualquer maneira.
— Piper! Como assim, é a Piper? Saia dele.
— Ah, é assim que isso funciona? — ela perguntou com curiosidade. — Isso é horripilante? Um telefone de possessão?
— É você — disse Laumonier de maneira assombrada.
— Olá, pai — disse Piper.
Embora tivessem se passado anos, Laumonier ainda reconhecia os trejeitos de sua filha muito bem.
— Não acredito. O que você quer? Como tem passado o FDP do seu marido?
— Ele está em Boston sozinho — respondeu Piper. — Provavelmente.
— Eu só estava perguntando para ver o que você iria dizer — respondeu Laumonier. — Eu já sabia disso.
— Você estava certo; eu estava errada. Não quero brigar mais.
O Laumonier que havia apagado o cigarro agora afagava o olho de uma maneira sentimental.
O Laumonier que nunca parava de fumar disparou:
— Dez anos e agora “não quer brigar mais”?
— A vida é curta. Eu gostaria de fazer negócios com vocês.
— Deixe-me ver se estou entendendo bem a situação. Você quase nos mandou para a prisão no ano passado. O seu marido matou um fornecedor por um produto que não existe. Você está nos possuindo. E quer fazer negócios com a gente? Isso não combina com a mulherzinha bonita de Colin Greenmantle.
— Não, certamente não. Por isso estou ligando. Estou virando uma nova página.
— De qual árvore estamos falando? De onde vem a folha dessa página? — perguntou Laumonier, desconfiado.
— Uma bela árvore, com raízes sobrenaturais — respondeu Piper. — Tenho algo incrível para lhes mostrar aqui. Extraordinário. A compra de uma vida. De um século. Preciso que parem com tudo que estão fazendo, tragam todos para cá, para o seu leilão. Vai ser grande.
Laumonier parecia esperançoso.
— Nós...
O único Laumonier que ainda estava fumando o interrompeu:
— Depois de agosto? Não acredito que você espere que simplesmente passemos a trabalhar juntos. Pode me chamar de maluco, amor, mas não confio em você.
— Você simplesmente terá de aceitar a minha palavra.
— Essa é a coisa menos valiosa que você tem para oferecer — respondeu Laumonier friamente. Ele passou o cigarro para o outro irmão para que pudesse enfiar a mão por dentro do casaco e do colarinho do blusão até as contas de seu rosário. — Você a desvalorizou bastante nos últimos dez anos.
— Você é o pior pai que existe — disparou Piper.
— Para ser sincero, você é a pior filha que existe.
Ele pressionou o rosário contra o irmão previamente zumbidor. Imediatamente, ele cuspiu sangue e caiu de joelhos, sua própria expressão transformando-se em seu rosto novamente.
— Isso — disse Laumonier. — Era o que eu suspeitava.
— Não acredito que você cortou a conexão antes que eu pudesse dizer adeus — respondeu Laumonier, magoado.
— Acho que eu estava possuído — disse Laumonier. — Vocês viram alguma coisa?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!