4 de julho de 2018

Capítulo 10

— Aqui estamos, vivendo em meio aos provincianos! — Colin Greenmantle se inclinou para fora da janela. Lá embaixo, um rebanho de vacas olhou para ele. — Piper, venha dar uma olhada nessas vacas. Essa imbecil está olhando diretamente para mim. “Colin”, diz essa vaca, “você está realmente vivendo entre os provincianos agora.”
— Estou no banheiro — disse Piper.
Sua voz vinha da cozinha, no entanto. Sua esposa (embora ele não gostasse de usar essa palavra, esposa, porque o fazia lembrar que ele tinha mais de trinta anos, o que ele tinha, mas mesmo assim ele não precisava ser lembrado, e, de qualquer maneira, ele ainda tinha sua bela aparência de garoto; na realidade, a caixa no supermercado tinha flertado com ele na noite passada, e, mesmo que talvez isso tenha acontecido porque ele estava arrumado a ponto de ser intimidante para um pulo no supermercado, provavelmente tinham sido seus olhos azul-claros, pois ela estivera virtualmente nadando neles) tinha assimilado a mudança para Henrietta melhor do que ele imaginara. Até o momento, o único ato de rebelião de Piper fora bater o carro alugado ao dirigir agressivamente através da placa de um centro comercial para demonstrar que não nascera para viver em um lugar onde não podia fazer suas compras a pé. Era possível que ela não o tivesse feito de propósito, mas havia muito pouco que Piper fazia acidentalmente.
— São basicamente monstros — disse Greenmantle, embora agora ele estivesse pensando menos em vacas e mais em seus novos pupilos. — Aceitam tudo de mão beijada o dia inteiro, mas comeriam você em um segundo, se tivessem os dentes certos para isso.
Eles tinham se mudado havia pouco para sua casa alugada “histórica” em uma fazenda de gado. Greenmantle, que havia protagonizado história suficiente, duvidava da reivindicação histórica da casa de fazenda, mas ela era suficientemente encantadora. Ele gostava da ideia da produção rural em uma fazenda; no sentido linguístico mais básico, ele era um fazendeiro agora.
— Eles vão estar aqui atrás do seu sangue na sexta — disse Piper.
As vacas mugiram curiosamente. Greenmantle gesticulou para que fossem embora; suas expressões não mudaram.
— Estão aqui agora.
— Não as vacas. Estou fazendo mais um seguro de vida para você, e eles precisam do seu sangue. Na sexta. Esteja aqui.
Ele enfiou a cabeça de volta para dentro e foi até a cozinha rangendo o assoalho. Piper estava no balcão, de calcinha e sutiã rosa, cortando uma manga. Seu cabelo loiro era uma cortina em torno da cabeça. Ela não ergueu o olhar.
— Vou dar aula na sexta — ele disse. — Pense nas crianças. Quanto seguro de vida nós precisamos?
— Eu tenho um determinado padrão de vida que quero manter se algo terrível acontecer com você no meio da noite. — Ela tentou acertá-lo com a faca quando Greenmantle roubou um pedaço de manga. Ele só evitou um ferimento porque foi rápido, não pela falta de intenção dela. — Volte direto depois da aula. Não desperdice seu tempo por aí, como anda fazendo.
— Não tenho desperdiçado meu tempo — disse Greenmantle. — Tenho sido bastante focado.
— Sim, eu sei, se vingando, sendo macho e sei lá mais o quê.
— Você pode ajudar, se quiser. Você sabe se orientar muito melhor do que eu e tudo o mais.
Piper não conseguiu dissimular que o apelo ao seu ego a agradou.
— Não posso até domingo. Vou fazer as sobrancelhas na quarta. Virilha na quinta. Não venha para casa no sábado. Vá dar uma volta. Vai vir um pessoal fazer limpeza espiritual da casa.
Greenmantle roubou outro pedaço de manga; a faca chegou um pouco mais perto dessa vez.
— O que isso quer dizer?
— Eu vi um folheto. É se livrar da energia ruim do lugar. Essa casa está cheia de energia ruim.
— Isso é coisa sua.
Ela jogou a faca na pia, onde ela permaneceria até a morte. Piper não era muito chegada em afazeres do lar. Ela tinha um leque de habilidades muito restrito. Então seguiu silenciosamente na direção do quarto, a caminho de um banho, uma sesta ou começar uma guerra.
— Não nos mate.
— Ninguém vai nos matar — disse Greenmantle com certeza. — O Homem Cinzento conhece as regras. E os outros... — Ele lavou a faca e a recolocou no bloco de madeira.
— Os outros o quê?
Ele não havia se dado conta de que ela ainda estava na cozinha.
— Ah, eu só estava pensando que vi um dos filhos de Niall Lynch hoje.
— Era um canalha também? — perguntou Piper. Niall Lynch havia sido responsável por sete meses moderadamente desagradáveis e quatro extremamente desagradáveis na vida deles.
— Provavelmente. Mas, meu Deus, ele é a cara daquele desgraçado. Mal posso esperar para reprová-lo. Eu me pergunto se ele sabe quem eu sou, e me pergunto se devo contar.
— Você é tão sádico — ela disse descuidadamente.
Greenmantle bateu com os nós dos dedos no balcão.
— Vou lá ver em qual mandíbula essas vacas têm dentes.
— Na de baixo. Eu vi no Animal Planet.
— Vou ver de qualquer jeito.
Enquanto ele tentava lembrar qual porta levava ao quarto adjacente onde eram deixadas as botas, Greenmantle a ouviu dizer algo, mas não captou o que era. Ele já havia ligado para o número de um contato na Bélgica que estava pesquisando a respeito de uma fivela de cinto do século XV que provocava pesadelos no usuário. Estava levando uma eternidade para o cara encontrá-lo. Uma pena que ele não pudesse colocar o Homem Cinzento nessa parada; ele fora o melhor. Até trair Greenmantle, é claro.
Ele se perguntou quanto tempo levaria para o Homem Cinzento chegar até ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!