4 de julho de 2018

Capítulo 1

— Você acha que isso é mesmo real? — perguntou Blue.
Eles estavam sentados entre carvalhos imponentes sob um sol roubado de verão. Raízes e pedras se expunham para fora através do solo úmido à sua volta. O ar mormacento não parecia em nada com o frio de outono dominante que eles haviam deixado para trás. Eles haviam desejado o verão, e assim Cabeswater havia lhes dado o verão.
Richard Gansey III estava deitado de costas, mirando o azul cálido e insípido acima dos galhos. Esparramado com sua calça cáqui e o blusão de gola V amarelo-cítrico, ele parecia indolente, largado, um herdeiro sensual da floresta à sua volta.
— O que é real?
— Pode ser que a gente venha aqui, durma e tenha o mesmo sonho.
Ela sabia que não era verdade, mas ao mesmo tempo era reconfortante e emocionante imaginar que eles estavam tão conectados, que Cabeswater representava algo que todos sonhavam quando fechavam os olhos.
— Eu sei quando estou acordado e quando estou dormindo — disse Ronan Lynch. Se tudo em volta de Gansey era suave e orgânico, descorado e homogêneo, Ronan parecia feroz, sombrio e dissonante, destacando-se de maneira absolutamente nítida da mata.
Adam Parrish, encolhido em um macacão surrado e cheio de graxa, perguntou:
— Sabe mesmo?
Ronan emitiu um ruído desagradável de desdém ou contentamento. Ele era como Cabeswater: um fazedor de sonhos. Se ele não sabia a diferença entre estar acordado e estar dormindo, era porque a diferença não importava para ele.
— Talvez eu tenha sonhado você — ele disse.
— Obrigado pelos dentes retos, então — respondeu Adam.
Em torno deles, Cabeswater zunia e murmurava com vida. Pássaros que não existiam do lado de fora da floresta voavam acima deles. Em algum lugar próximo, a água corria sobre as rochas. As árvores eram majestosas e velhas, cobertas de musgo e líquen. Talvez por saber que a floresta era senciente, Blue achava que ela parecia sábia. Se ela deixasse a mente perambular longe o suficiente, podia quase sentir a floresta a ouvindo. Era difícil de explicar; era mais ou menos como o sentimento de alguém passando a mão de leve em sua pele, sem a tocar realmente.
Adam dissera:
— Precisamos conquistar a confiança de Cabeswater antes de entrar na caverna.
Blue não compreendia o que significava para Adam estar tão conectado à floresta, ter prometido ser suas mãos e seus olhos. Ela suspeitava de que, às vezes, Adam também não compreendia. Mas, seguindo seu conselho, o grupo sempre retornava à floresta, caminhando em meio às árvores, explorando cuidadosamente, sem levar nada. Caminhando em torno da caverna que poderia conter tanto Glendower... como Maura. Mãe.
O bilhete que ela deixara havia mais de um mês não indicava quando pensava em voltar. Não indicava se tinha ou não intenção de voltar um dia. Então era impossível saber se ela ainda estava desaparecida porque estava encrencada ou porque não queria voltar para casa. Será que as mães de outras pessoas desapareciam em buracos no chão durante a crise da meia-idade?
— Eu não sonho — disse Noah Czerny. Ele estava morto, portanto provavelmente não dormia também. — Então acho que isso deve ser real.
Real, mas deles, apenas deles.
Por mais alguns minutos, ou horas, ou dias — o que era o tempo ali? — eles se deixaram ficar.
Um pouco distante do grupo, o irmão mais novo de Ronan, Matthew, batia um papo com sua mãe, Aurora, feliz pela visita. Os dois tinham os cabelos dourados e angelicais, ambos parecendo invenções daquele lugar.
Blue desejava odiar Aurora por causa de sua origem — literalmente sonhada pelo marido — e porque ela tinha a capacidade de atenção e o intelecto de um filhote de cachorro. Mas a verdade era que Aurora era incansavelmente gentil e para cima, tão compulsivamente adorável quanto seu filho mais novo.
Ela não abandonaria a filha pouco antes de seu último ano no ensino médio começar.
A parte que mais enfurecia Blue a respeito do desaparecimento de Maura era que ela não sabia se deveria ser consumida pela preocupação ou pela raiva. Ela oscilava terrivelmente entre os dois sentimentos,  ocasionalmente se esgotando e deixando de sentir qualquer coisa que fosse.
Como ela pôde fazer isso comigo agora?
Blue recostou o rosto em uma rocha coberta de musgo quente, tentando manter os pensamentos equilibrados e agradáveis. A mesma capacidade que amplificava a clarividência também aumentava a estranha magia de Cabeswater, e ela não queria causar outro terremoto ou começar um estouro da boiada.
Em vez disso, começou uma conversa com as árvores.
Ela pensou em pássaros cantando — pensou ou quis ou desejou ou sonhou. Era um pensamento virado do avesso, uma porta deixada aberta em sua cabeça. Blue estava ficando melhor em dizer quando o estava fazendo direito.
Um pássaro estranho cantarolou agudo e desafinado acima dela.
Ela pensou-quis-desejou-sonhou folhas farfalhando.
Acima deles, as árvores sussurraram suas folhas, formando palavras vagas e cochichadas. Avide audimus.
Ela pensou em uma flor de primavera. Um lírio, azul, como seu nome, Blue.
Uma pétala azul caiu a esmo em seu cabelo. Outra pousou nas costas de sua mão, escorregando punho abaixo como um beijo.
Os olhos de Gansey se abriram à medida que as pétalas pousavam suavemente sobre suas faces. Quando seus lábios se entreabriram, sempre surpresos, uma pétala pousou diretamente sobre sua boca. Adam levou a cabeça para trás para observar a chuva floral, cheirosa, cair derivando lentamente à sua volta, borboletas de azul em câmera lenta.
O coração de Blue explodiu com uma alegria incontida.
É real, é real, é real...
Ronan olhou para Blue, os olhos estreitados. Ela não desviou o olhar. Esse era um jogo que ela às vezes jogava com Ronan Lynch: quem desviaria o olhar primeiro?
Dava sempre empate.
Ele havia mudado com o passar do verão, e agora Blue se sentia menos desigual no grupo. Não porque conhecesse Ronan melhor de alguma maneira — mas porque sentia que talvez Gansey e Adam o conhecessem menos agora. Ronan desafiava todos a aprender sobre ele novamente.
Gansey se ergueu sobre os cotovelos; pétalas rolaram como se ele tivesse sido despertado de um longo sono.
— Tudo bem. Acho que chegou o momento. Lynch?
Ronan se levantou e se postou rigidamente ao lado de sua mãe e seu irmão; Matthew, que estivera acenando os braços como um urso de circo, se aquietou. Aurora fez uma carícia na mão de Ronan, que ele permitiu.
— Levanta — ele disse para Matthew. — Hora de ir.
Aurora sorriu suavemente para os filhos. Ela ficaria ali, em Cabeswater, fazendo o que quer que os sonhos faziam quando ninguém estava por perto. Não causava surpresa alguma para Blue que ela cairia em um sono instantâneo se deixasse a floresta; era impossível imaginar Aurora existindo no mundo real. Mais impossível ainda imaginar crescer com uma mãe como ela.
Minha mãe não desapareceria simplesmente para sempre. Certo?
Ronan colocou as mãos de cada lado da cabeça de Matthew, pressionando os cachos loiros e prendendo o olhar do irmão ao seu.
— Vá esperar no carro — ele disse. — Se não voltarmos até às nove, ligue para a casa da Blue.
A expressão de Matthew era simpática e tranquila. Seus olhos eram do mesmo tom azul dos de Ronan, mas infinitamente mais inocentes.
— Como eu vou saber o número?
Ronan continuava prendendo a cabeça do irmão.
— Matthew. Foco. Já falamos sobre isso. Eu quero que você pense. Agora me diz: como você vai saber o número?
Seu irmão mais novo riu um pouco e bateu no bolso.
— Ah, certo. Está programado no seu telefone. Agora eu lembrei.
— Eu fico com ele — Noah se ofereceu imediatamente.
— Medroso — disse Ronan, mal-agradecido.
— Lynch — disse Gansey. — Boa ideia, Noah, se você estiver a fim.
Como fantasma, Noah necessitava de energia externa para permanecer visível. Tanto Blue quanto a linha ley eram baterias espirituais poderosas; esperar no carro estacionado próximo deveria ser mais que suficiente. Mas às vezes não era energia que faltava a Noah — era coragem.
— Ele vai ser um campeão — disse Blue, socando fraquinho o braço de Noah.
— Eu vou ser um campeão — repetiu Noah.
A floresta esperava, ouvindo, farfalhando. A orla do céu era mais cinzenta que o azul que pairava acima, como se a atenção de Cabeswater estivesse tão estreitamente focada sobre eles que o mundo real fosse capaz agora de interferir.
Na entrada da caverna, Gansey disse:
— De fumo in flammam.
— Da fumaça ao fogo — Adam traduziu para Blue.
A caverna. A caverna.
Tudo em Cabeswater era mágico, mas a caverna era extraordinária porque não existia quando eles descobriram a floresta pela primeira vez.
Ou talvez existisse, mas em um lugar diferente.
— Conferir equipamentos — disse Gansey.
Blue despejou o conteúdo de sua mochila surrada. Um capacete (de bicicleta, usado), joelheiras (de patins, usadas) e uma lanterna (em miniatura, usada) rolaram para fora, assim como um canivete rosa.
Enquanto ela começava a colocar todas essas coisas no corpo, ao lado dela Gansey esvaziava sua bolsa a tiracolo. Ela continha um capacete (de espeleologia, usado), joelheiras (de espeleologia, usadas) e uma lanterna (Maglite, usada), assim como vários metros de corda nova, um arnês e uma coleção de pinos de fixação e mosquetões de metal.
Blue e Adam encararam o equipamento usado. Parecia impossível que Richard Campbell Gansey III pensasse em comprar nada menos que algo novo em folha.
Alheio à atenção deles, Gansey prendeu sem esforço um mosquetão a uma corda, através de um nó perfeito.
Blue se deu conta um momento antes de Adam. O equipamento era usado porque Gansey o usara.
Às vezes era difícil lembrar que ele vivera uma vida antes de eles o terem conhecido.
Gansey começou a desenrolar um cabo de segurança mais longo.
— Como combinamos. Estamos amarrados juntos, deem três puxões se tiverem o menor receio. Horas?
Adam conferiu seu relógio arranhado.
— Meu relógio não está funcionando.
Ronan conferiu seu relógio caro e escuro e balançou a cabeça.
Apesar de isso não ser inesperado, Blue ainda estava desconcertada, uma pipa solta.
Gansey franziu o cenho, como se compartilhasse de seus pensamentos.
— Nem meu telefone. Tudo bem, Ronan.
Enquanto Ronan gritava algum latim para o ar, Adam sussurrava a tradução para Blue:
— É seguro para nós entrarmos?
E minha mãe ainda está lá dentro?
A resposta veio na forma de folhas sibilantes e ruídos guturais arranhados, mais selvagens que as vozes que Blue ouvira antes.
— Greywaren semper est incorruptus.
— Sempre a salvo — traduziu Gansey rapidamente, ansioso para provar que não era completamente inútil quando se tratava de latim. — O Greywaren está sempre a salvo.
O Greywaren era Ronan. O que quer que eles significassem para aquela floresta, Ronan significava mais.
Adam refletiu:
— Incorruptus. Nunca achei que alguém usaria essa palavra para descrever o Lynch.
Ronan parecia tão contente quanto uma víbora.
O que você quer de nós?, Blue se perguntou enquanto eles adentravam a caverna. Como você nos vê? Apenas quatro adolescentes entrando às escondidas em uma floresta antiga.
Um espaço de chão batido estranhamente silencioso se encontrava logo após a entrada da caverna. As paredes eram puro pó e rocha, raízes e greda, tudo da cor do cabelo e da pele de Adam. Blue tocou uma samambaia relutantemente retorcida, a última folhagem antes de a luz do sol desaparecer. Adam virou a cabeça para ouvir, mas só havia o som normal, abafado, de seus passos.
Gansey ligou a lanterna de cabeça. Ela mal penetrou a escuridão do túnel que se estreitava.
Um dos garotos tremeu um pouco. Blue não sabia se era Adam ou Ronan, mas sentiu o cabo vibrando no cinto.
— Pena que não trouxemos o Noah — disse Gansey abruptamente. — Vamos lá. Ronan, não esqueça de colocar os marcadores à medida que avançamos. Estamos contando com você. Não fique aí só me encarando. Acene com a cabeça para mostrar que compreendeu. Muito bem. Sabe de uma coisa? Passe os marcadores para a Jane.
— O quê? — Ronan soou como se sentisse traído.
Blue aceitou os marcadores — discos plásticos redondos com setas desenhadas. Ela não havia percebido como estava nervosa até segurá-los nas mãos; era bom ter algo concreto para fazer.
— Ronan, quero que você assovie ou cante, e que faça uma contagem do tempo — disse Gansey.
— Você só pode estar de sacanagem comigo — respondeu Ronan. — Eu?
Gansey espiou o túnel adiante.
— Eu sei que você conhece um monte de músicas e consegue cantar cada uma delas na mesma velocidade e duração todas as vezes. Porque você teve que memorizar todas elas para as competições de música irlandesa.
Blue e Adam trocaram um olhar satisfeito. A única coisa mais agradável que ver Ronan ser discriminado era vê-lo ser discriminado e forçado a cantar repetidamente uma canção irlandesa.
— Vai ver se eu estou na esquina — disse Ronan.
Gansey esperou, sem se ofender.
Ronan balançou a cabeça, mas então, com um sorriso maroto, começou a cantar.
— Abóbora um, abóbora dois, ab...
— Essa não — Adam e Gansey disseram juntos.
— Não vou ouvir isso durante três horas — disse Adam.
Gansey apontou para Ronan até ele começar a assoviar baixinho a canção de uma dança típica animada.
E eles avançaram em direção às profundezas da caverna.


As profundezas.
O sol desapareceu. Raízes deram lugar a estalactites. O ar tinha um cheiro úmido e familiar. As paredes bruxuleavam como algo vivo. De tempos em tempos, Blue e os outros tinham de avançar com dificuldade por poças e regatos — o caminho estreito e acidentado havia sido aberto pela água, e ela ainda fazia esse trabalho.
A cada dez interpretações de Ronan, Blue depositava um marcador. À medida que a pilha em sua mão diminuía, ela se perguntava até onde eles iriam e como saberiam se estavam chegando perto. Parecia difícil acreditar que um rei estivesse escondido lá embaixo. Mais difícil ainda imaginar que sua mãe também estivesse. Aquele não era um lugar para se morar.
Blue acalmou os pensamentos. Nada de terremotos. Nada de estouros da boiada.
Ela tentava não desejar, ou esperar, ou pensar, ou chamar por Maura. A última coisa que ela queria era que Cabeswater fizesse uma cópia de sua mãe para ela. Ela só queria a coisa real. A verdade.
O terreno ficou mais inclinado. A escuridão em si era fatigante; Blue ansiava por luz, espaço, céu. Ela se sentia enterrada viva.
Adam escorregou e se apoiou com a mão estendida no chão.
— Ei! — ordenou Blue. — Não toque as paredes.
Ronan parou de assoviar para perguntar:
— Germes da caverna?
— É ruim para o crescimento das estalactites.
— Ah, por favor...
— Ronan! — ordenou Gansey da frente da fila, sem se virar, o blusão canário parecendo cinza-claro na luz das lanternas de cabeça. — Volte ao trabalho.
Ronan mal começara a assoviar novamente quando Gansey desapareceu.
— O quê? — disse Adam.
Então ele foi puxado pelos pés, caindo com força e deslizando de lado, os dedos tentando se agarrar ao chão.
Blue não teve tempo de perceber o que aquilo significava quando sentiu Ronan agarrá-la por trás. Então a corda em torno de sua cintura a apertou forte, ameaçando derrubá-la também. Mas Ronan estava bem firme. Seus dedos estavam tão cravados nos braços de Blue que a estavam machucando.
Adam ainda estava no chão, mas havia parado de escorregar.
— Gansey? — ele chamou, a palavra desconsolada no vasto espaço adiante. — Tudo bem aí embaixo?
Porque Gansey não havia apenas desaparecido — ele havia caído em um buraco.
Graças a Deus estamos amarrados juntos, pensou Blue.
Os braços de Ronan ainda estavam entrelaçados em volta dela; Blue os sentiu trêmulos. Ela não sabia se era do esforço muscular ou de preocupação. Ele nem hesitara antes de agarrá-la.
Não posso me permitir esquecer isso.
— Gansey? — repetiu Adam, com apenas um indício de algo terrível por trás da pergunta. Ele pronunciara o nome com uma confiança exagerada para que sua ansiedade permanecesse despercebida.
Três puxões. Blue os sentiu vibrar através de Adam até ela.
Adam repousou o rosto na lama, visivelmente aliviado.
— O que está acontecendo? — perguntou Ronan. — Onde está ele?
— Deve estar pendurado — respondeu Adam, o sotaque de Henrietta deixando o r arrastado por causa da incerteza. — A corda está me cortando ao meio de tão forte que está me puxando. Não consigo me aproximar para ajudar. Está escorregadio, o peso dele simplesmente me puxaria para baixo.
Libertando-se dos braços de Ronan, Blue deu um passo hesitante para perto de onde Gansey havia desaparecido. A corda entre ela e Adam se afrouxou, mas ele não escorregou mais para perto do buraco. Lentamente, ela disse:
— Acho que você pode fazer contrapeso se não se mexer, Adam. Ronan, fique onde está. Se acontecer alguma coisa e eu começar a escorregar, você consegue se ancorar?
A lanterna de cabeça de Ronan apontou para uma coluna barrenta e ele anuiu.
— Tudo bem — ela disse. — Vou até ali dar uma olhada.
Passou lentamente e com dificuldade por Adam. Os dedos dele estavam cravados inutilmente no terreno inclinado, na altura do rosto.
Blue quase caiu no buraco.
Não era de surpreender que Gansey não o tivesse visto. Havia uma saliência rochosa e então — simplesmente nada. Ela esquadrinhou o buraco de um lado ao outro com sua lâmpada de cabeça e viu apenas escuridão absoluta. A fenda era larga demais para ver do outro lado. Profunda demais para ver o fundo.
A corda de segurança era visível, mas estava suja de lama, levando para o poço. Blue focou a escuridão com sua lanterna.
— Gansey?
— Estou aqui. — A voz de Gansey estava mais próxima do que ela esperava. Mais baixa do que esperava, também. — Eu só... acho que estou tendo um ataque de pânico.
— Você está tendo um ataque de pânico? Nova regra: todo mundo deve dar quatro puxões antes de desaparecer de repente. Você quebrou alguma coisa?
Uma longa pausa.
— Não.
Algo a respeito do tom dessa única sílaba transmitiu que ele não estava brincando a respeito de seu medo.
Blue não tinha certeza se tranquilizar as pessoas era o seu ponto forte, especialmente quando era ela quem precisava disso, mas tentou.
— Vai ficar tudo bem. Nós estamos bem ancorados aqui em cima. Tudo que você precisa fazer é escalar para fora daí. Você não vai cair.
— Não é isso. — Sua voz estava fendida. — Tem algo na minha pele que parece...
Gansey não terminou a frase.
— Água — sugeriu Blue. — Ou lama. Está por toda parte. Fala mais alguma coisa para que eu possa apontar a lanterna em você.
Não havia nada a não ser o som da respiração de Gansey, entrecortada e cheia de medo. Ela varreu o facho de luz novamente.
— Ou mosquitos. Tem mosquitos por toda parte também — ela disse com a voz animada.
Nenhuma resposta.
— Existem mais de duas dúzias de besouros de caverna — Blue acrescentou. — Li isso antes de virmos para cá hoje.
Gansey sussurrou:
— Marimbondos.
O coração de Blue se contraiu.
Em meio à injeção de adrenalina, ela procurou se acalmar: sim, marimbondos podiam matar Gansey com apenas uma ferroada, mas não, não havia marimbondos naquela caverna. E hoje não era o dia em que Gansey morreria, porque ela tinha visto seu espírito quando ele morrera, e aquele espírito estava usando um uniforme da Aglionby salpicado de chuva. E não uma calça cáqui e um blusão de gola V amarelo-claro.
O facho de sua lanterna finalmente o encontrou. Ele estava pendurado solto em seu arnês, a cabeça inclinada para baixo, as mãos sobre os ouvidos. O facho acompanhou seus ombros e sua respiração. Eles estavam salpicados de lama e sujeira, mas não havia insetos.
Blue podia respirar novamente.
— Olhe para mim — ela ordenou. — Não tem marimbondo nenhum.
— Eu sei — ele sussurrou. — É por isso que eu disse que acho que estou tendo um ataque de pânico. Eu sei que não tem marimbondo nenhum.
O que ele não estava dizendo, mas ambos sabiam, era que Cabeswater era uma ouvinte atenciosa.
O que significava que ele precisava parar de pensar em marimbondos.
— Bom, você está me deixando brava — disse Blue. — O Adam está deitado com a cara na lama por sua causa. O Ronan está indo para casa.
Gansey riu, sem graça.
— Continue falando, Jane.
— Eu não quero. Eu só quero que você agarre aquela corda e se puxe aqui para cima, como eu sei que você é perfeitamente capaz de fazer. E que diferença vai fazer se eu falar?
Então ele olhou para ela, com o rosto vincado e irreconhecível.
— É que tem alguma coisa sussurrando abaixo de mim, e a sua voz faz essa coisa se calar.
Um arrepio terrível correu pela espinha de Blue.
Cabeswater era uma ouvinte muito boa.
— Ronan — ela chamou baixinho sobre o ombro. — Plano novo: o Adam e eu vamos puxar o Gansey para fora bem rápido.
— O quê? Que ideia mais idiota — disse Ronan. — Por que o plano agora é esse?
Blue não queria falar alto.
No entanto, Adam estivera ouvindo e disse, baixo e claramente:
— Est aliquid in foramen. Não sei. Apis? Apibus? Forsitan.
O latim não escondia nada de Cabeswater; eles só queriam poupar Gansey.
— Não — disse Ronan. — Não, não tem. Não é o que está lá embaixo.
Gansey fechou os olhos.
Eu vi, pensou Blue. Eu vi o espírito dele quando ele morreu, e ele não estava vestido assim. Não é assim que vai acontecer. Não é agora, é mais tarde, é mais tarde...
Ronan seguiu em frente, sua voz mais alta:
— Não. Está me ouvindo, Cabeswater? Você prometeu me proteger. Quem somos nós para você? Nada? Se você deixar o Gansey morrer, não vai estar me protegendo. Entendeu? Se eles morrerem, eu também morro.
Agora Blue conseguia ouvir o ruído, como um zunido do poço.
Adam se pronunciou, a voz um pouco abafada pela lama:
— Eu fiz um trato com você, Cabeswater. Sou suas mãos e seus olhos. O que você acha que eu vou ver se ele morrer?
O sussurro ficou mais alto. Ele soava numeroso.
Não são marimbondos, Blue pensou, desejou, ansiou, sonhou. Quem somos nós para você, Cabeswater? Quem eu sou para você?
Em voz alta, ela disse:
— Nós fortalecemos a linha ley. Nós fortalecemos você. E vamos continuar te ajudando, mas você tem que nos ajudar...
A escuridão sumiu com o facho de sua lanterna, erguendo-se das profundezas. O ruído explodiu. Estava zunindo; eram asas, que preencheram o poço, escondendo Gansey de vista.
— Gansey! — gritou Blue, ou talvez fosse Adam, ou talvez fosse Ronan.
Então alguma coisa bateu as asas contra o rosto de Blue, e mais outra. Um corpo passou raspando pela parede. Pelo teto. Os fachos das lanternas em suas cabeças foram cortados em mil pedaços bruxuleantes.
O ruído das asas. O ruído.
Não eram marimbondos.
Morcegos?
Não.
Corvos.
Não era ali que os corvos viviam, e não era assim que eles se comportavam. Mas jorravam e jorravam do poço abaixo de Gansey. Parecia que o bando era interminável. Blue teve a estranha sensação de que sempre fora daquela maneira, corvos cruzando em volta dela, as penas raspando suas faces, as garras arranhando seu capacete. Então, subitamente, os corvos começaram a guinchar, de lá para cá, de lá para cá. Os gritos se tornaram cada vez mais monótonos, como uma recitação, e então se transformaram em palavras.
Rex Corvus, parate Regis Corvi.
O rei Corvo, abram caminho para o rei Corvo.
Choveram penas à medida que os pássaros tomaram o caminho da entrada da caverna. O coração de Blue foi arrebatado pela grandeza daquele momento, e de nenhum outro.
Então houve silêncio, ou pelo menos nenhum ruído alto o suficiente para ser ouvido acima do coração palpitante de Blue. Penas estremeceram na lama ao lado de Adam.
— Segurem firme — disse Gansey. — Estou saindo.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!