26 de junho de 2018

Prólogo

Um segredo é uma coisa estranha.
Há três tipos de segredos. Um é do tipo que todo mundo conhece, do tipo que precisa de pelo menos duas pessoas. Uma para guardá-lo. Outra para nunca sabê-lo. O segundo é um tipo mais difícil de segredo: aquele que você esconde de si mesmo. Todos os dias, milhares de confissões não são feitas a seus potenciais confessores, e nenhuma dessas pessoas sabe que todos os seus segredos jamais admitidos se resumem às mesmas três palavras: Estou com medo.
E então há um terceiro tipo de segredo, do tipo mais escondido. Um segredo que ninguém sabe a respeito. Talvez ele tenha sido conhecido um dia, mas foi levado para o túmulo. Ou talvez seja um mistério inútil, oculto e solitário, perdido porque ninguém o procurou.
Às vezes, algumas raras vezes, um segredo permanece desconhecido porque é algo grande demais para a mente guardar. Estranho demais, vasto demais, aterrorizador demais para ser contemplado.
Todos nós temos segredos na vida. Nós os guardamos ou temos alguns guardados de nós, jogamos ou somos jogados. Segredos e baratas — é o que restará no fim de tudo.
Ronan Lynch vivia com toda sorte de segredos.
O primeiro segredo envolvia seu pai. Niall Lynch foi um poeta fanfarrão, um músico fracassado, um pedaço de mau caminho criado em Belfast, mas nascido na Cúmbria, e Ronan o amava profundamente.
Embora Niall fosse um patife e um mau-caráter, os Lynch eram ricos. O trabalho de Niall era misterioso. Ele sumia de vez em quando durante meses, e era difícil dizer se era por causa de sua carreira ou pelo fato de ser um canalha. Ele sempre voltava com presentes, preciosidades e quantidades inimagináveis de dinheiro, mas, para Ronan, a coisa mais maravilhosa era o próprio Niall. Toda partida parecia que seria a última, e então todo retorno era quase como um milagre.
— Quando eu nasci — Niall Lynch contou para o filho do meio —, Deus quebrou a forma com tanta força que o chão tremeu.
Isso já era uma mentira, pois, se Deus realmente tivesse quebrado a forma, ele faria para si uma cópia vinte anos mais tarde para moldar Ronan e seus dois irmãos, Declan e Matthew. Os três eram imitações bonitas do pai, embora cada um tivesse puxado um lado diferente de Niall. Declan tinha o mesmo jeito de tomar conta de um lugar e apertar-lhe a mão. Nos cachos de Matthew estavam enredados o charme e o humor de Niall. E Ronan era tudo o que sobrara: olhos brilhantes e um sorriso feito para a guerra.
Havia pouco ou quase nada da mãe em qualquer um deles.
— Foi um terremoto para valer — esclareceu Niall, como se alguém tivesse lhe perguntado, e, conhecendo Niall, eles provavelmente haviam feito isso mesmo. — Quatro ponto um na escala Richter. Qualquer coisa menos que quatro teria só rachado a forma, não quebrado.
Na época, Ronan era dado a acreditar nas coisas, mas não havia problema, pois seu pai queria adoração, não confiança.
— E você, Ronan — disse Niall. Ele sempre dizia Ronan de maneira diferente das outras palavras. Como se quisesse dizer uma palavra inteiramente diversa, algo como faca ou veneno ou vingança, e então a trocasse pelo nome de Ronan no último minuto.
— Quando você nasceu, os rios secaram e o castelo no condado de Rockingham chorou sangue.
Era uma história que ele havia contado mais de uma vez, mas a mãe de Ronan, Aurora, insistia que era mentira. Ela dizia que, quando Ronan veio ao mundo, todas as árvores floresceram e os corvos de Henrietta gargalharam. Quando seus pais discutiam sobre o seu nascimento, Ronan nunca chamava atenção para o fato de que ambas as versões poderiam ser verdadeiras.
Declan, o mais velho dos irmãos Lynch, uma vez perguntou:
— E o que aconteceu quando eu nasci?
Niall Lynch olhou para ele e disse:
— Eu não saberia dizer. Eu não estava aqui.
Quando Niall dizia Declan, soava como se quisesse dizer Declan.
E então Niall desapareceu por mais um mês. Ronan aproveitou a oportunidade para vasculhar a Barns, que era como a enorme fazenda Lynch era conhecida, em busca de uma explicação para a origem do dinheiro de Niall. Ele não encontrou nenhuma pista do trabalho de seu pai, mas descobriu um recorte de jornal amarelado em uma caixa de metal enferrujada. Era do ano em que seu pai havia nascido. Relatava friamente a história do terremoto de Kirkby Stephen, sentido em todo o norte da Inglaterra e o sul da Escócia. Quatro ponto um.
Qualquer coisa menos que quatro não teria quebrado, apenas rachado.
Aquela noite, Niall Lynch voltou para casa na escuridão e, quando acordou, encontrou Ronan parado acima dele no quarto principal, branco e pequeno. O sol da manhã deixara ambos com a pureza de anjos, o que já era a melhor parte de uma mentira. O rosto de Niall estava manchado de sangue e pétalas azuis.
— Eu estava justamente sonhando com o dia em que você nasceu, Ronan — disse Niall.
E limpou o sangue da testa para mostrar ao filho que não havia nenhum machucado embaixo. As pétalas grudadas no sangue tinham o formato de estrelas bem pequenas.
Ronan ficou espantado com a certeza que teve de que elas tinham vindo da mente de seu pai. Ele nunca se sentira tão certo a respeito de algo. O mundo se abriu e se estendeu, subitamente infinito.
Ronan disse para ele:
— Eu sei de onde vem o dinheiro.
— Não conte para ninguém — seu pai disse.
Esse foi o primeiro segredo.
O segundo segredo foi perfeito em seu ocultamento. Ronan não o disse. Ronan não o pensou. Ele nunca criou uma letra para o segundo segredo, que escondeu de si mesmo.
Mas, mesmo assim, o segredo tocava ao fundo.
E então havia isto: três anos mais tarde, Ronan sonhando com o carro de seu amigo Richard C. Gansey III. Gansey confiava a ele todas as coisas, exceto as armas. Jamais as armas, e de jeito nenhum seu Camaro 73 vistoso, com as faixas pretas e um quê diabólico. Ronan nunca passou do banco do passageiro. Quando Gansey deixava a cidade, levava as chaves consigo.
Mas, no sonho de Ronan, Gansey não estava ali e o Camaro estava. O carro estava parado no canto de um estacionamento abandonado, montanhas apareciam em um azul espectral ao longe. A mão de Ronan se fechou em torno da maçaneta da porta do motorista. Ele tentou abrir. Era um esforço de sonho, apenas substancial o suficiente para se manter fiel à ideia de abrir a porta. Não havia problema nisso. Ronan se recostou no banco do motorista. As montanhas e o estacionamento eram um sonho, mas o cheiro do interior era uma memória: gasolina, vinil, tapetes e anos zunindo uns contra os outros.
As chaves estão aqui, pensou Ronan.
E estavam.
As chaves estavam penduradas na ignição como frutas metálicas, e Ronan passou um longo momento segurando-as na mente. Ele trocou as chaves do sonho para a memória e de volta ao sonho novamente, e então as envolveu na palma da mão. Ele sentiu o couro suave e o canto gasto do chaveiro; o metal frio do anel e a chave do porta-malas; a promessa fina e aguçada da chave da ignição entre os dedos.
Então acordou.
Quando abriu a mão, as chaves estavam bem ali. Do sonho para a realidade.
Esse era o terceiro segredo.

4 comentários:

  1. "O segundo segredo foi perfeito em seu ocultamento. Ronan não o disse. Ronan não o pensou. Ele nunca criou uma letra para o segundo segredo, que escondeu de si mesmo."

    Ai, minha nossa, mal vejo a hora de vcs descobrirem esse segredo, queria muito ver a reação de todo mundo

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  2. Ais mds Mih, seus comentários são sempre ótimos, adoro eles. Mas eles também me apavoram às vezes.


    Jo

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  3. Também quero tipo MUITO saber. É ruim ou bom?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!