26 de junho de 2018

Epílogo

Um segredo é uma coisa estranha.
Há três tipos de segredos. Um é do tipo que todo mundo conhece, do tipo que precisa de pelo menos duas pessoas. Uma para guardá-lo. Outra para nunca sabê-lo. O segundo é um tipo mais difícil de segredo: aquele que você esconde de si mesmo. Todos os dias, milhares de confissões não são feitas a seus potenciais confessores, e nenhuma dessas pessoas sabe que todos os seus segredos jamais admitidos se resumem às mesmas três palavras: Estou com medo.
E então há um terceiro tipo de segredo, do tipo mais escondido. Um segredo que ninguém sabe a respeito. Talvez ele tenha sido conhecido um dia, mas foi levado para o túmulo. Ou talvez seja um mistério inútil, oculto e solitário, perdido porque ninguém o procurou.
Às vezes, algumas raras vezes, um segredo permanece desconhecido porque é algo grande demais para a mente guardar. Estranho demais, vasto demais, aterrorizador demais para ser contemplado.
Todos nós temos segredos na vida. Nós os guardamos ou temos alguns guardados de nós, jogamos ou somos jogados. Segredos e baratas — é o que restará no fim de tudo.
Ronan Lynch vivia com toda sorte de segredos.
Seu primeiro segredo era ele mesmo. Ele era irmão de um mentiroso e irmão de um anjo, filho de um sonho e filho de um sonhador. Ele era uma estrela em guerra cheio de possibilidades infinitas, mas no fim, enquanto sonhava no banco de trás a caminho da Barns naquela noite, ele criou apenas isto:

Artigo 7
Condição adicional
Com a minha morte, meus filhos terão livre acesso à “Barns”, embora não possam retomar residência na propriedade até que todos tenham completado dezoito anos.

Então, quando ele acordou, todos ajudaram a colocar Aurora Lynch no carro. E, em silêncio, dirigiram para as coordenadas de GPS marcadas no diário de Gansey.
Lá estava Cabeswater, completamente restabelecida. Ela se alastrava, misteriosa, familiar e extraordinária, sonhadora e sonhada. Cada árvore, pensou Ronan, era uma voz que ele poderia ter ouvido antes. E lá estava Noah, de ombros caídos, mão erguida em um gesto arrependido. De um lado dele estava Adam, com as mãos nos bolsos, e, do outro, Persephone, com os dedos entrelaçados.
Quando eles passaram com Aurora pelo limite da floresta, ela acordou como uma rosa floresce. E, quando ela sorriu para Ronan, ele pensou: O Matthew se parece um pouco com ela.
Ela o abraçou e disse:
— Flores e corvos — porque queria que ele soubesse que ela lembrava.
Então ela abraçou Matthew e disse:
— Meu amor — porque ele era o seu favorito.
Ela não disse nada para Declan, porque ele não estava lá.
O segundo segredo de Ronan era Adam Parrish. Adam estava diferente desde que fizera sua barganha com Cabeswater. Mais forte, mais estranho, mais distante. Era difícil não olhar para as linhas peculiares e elegantes de seu rosto.
Ele havia se afastado um pouco enquanto os irmãos reviviam a mãe, e então disse a todos eles:
— Eu tenho algo para mostrar a vocês.
Enquanto o amanhecer começava a pintar de rosa a casca das árvores, eles se aprofundavam cada vez mais em Cabeswater.
— O lago pequeno desapareceu — ele disse. — Onde os peixes mudaram de cor para o Gansey. Mas agora...
Ao lado da árvore dos sonhos, o lago havia sido substituído por uma superfície rochosa inclinada e escarpada. Era estriada e talhada com arranhões profundos, e o mais profundo deles cortava a rocha inteira até o chão. A escuridão fria chamava.
— Uma caverna? — perguntou Gansey. — Qual a profundidade dela?
— Não entrei. Não acho que seja segura.
— Qual é o próximo passo então? — perguntou Gansey, desconfiado. Era difícil dizer se ele estava desconfiado de Adam ou da caverna.
Adam disse:
— Deixar ela mais segura.
Ele olhou de relance para Ronan, de cenho franzido, como se sentisse os olhos do amigo nele.
Ronan desviou o olhar.
O terceiro segredo era a própria caverna. Quando eles finalmente voltaram à Rua Fox, 300, o sol já estava alto. Para o espanto de Ronan, um Mitsubishi branco estava estacionado junto ao meio-fio. Por um momento, ele pensou — mas então viu o Homem Cinzento acompanhado de Calla, esperando no primeiro degrau na entrada da casa. Sua presença ali, em vez de a centenas de quilômetros de distância, não era provável, mas não era impossível.
Quando Persephone subiu a escada, Calla disse acusadoramente:
— Isso é culpa sua. Você sabia que isso ia acontecer?
Persephone piscou os olhos negros.
— Sr. Cinzento? — perguntou Blue. — Como...
— Não — Calla interrompeu. — Mais tarde. Venham comigo.
Ela os levou para o segundo andar, até o quarto de Maura. Abrindo a porta com um empurrão, Calla os deixou assimilar a vista.
Uma vela estava derretida sobre o tapete. Ao lado dela, em um quadrado de intensa luz do sol, uma tigela de adivinhação havia sido derrubada.
— Quem fez isso? Onde está a minha mãe? — demandou Blue.
Sem dizer uma palavra, Calla lhe passou um bilhete. Todos o leram sobre o ombro de Blue.
Em um rabisco apressado, manchado de água, ele dizia: “Glendower está debaixo da terra. E eu também estou”.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!