2 de junho de 2018

Capítulo vinte

Mare

SÃO POUCOS QUILÔMETROS, mas parecem intermináveis. Continuo segurando a maçaneta, pronta para pular no instante em que entramos na Estrada do Porto, com as rodas girando sob nós. Somos só eu, os eletricons e o motorista. Até Ella está em silêncio, olhando para o céu escuro através da janela. A fumaça da Cidade Nova dá lugar a nuvens escuras e desagradáveis conforme nos aproximamos de Harbor Bay. A princípio, fico feliz por não precisar falar com ninguém. Mas à medida que os minutos passam, o silêncio fica perturbador, carregado, sufocante. Torna difícil pensar em qualquer coisa além da cidade à frente e da batalha furiosa se desenrolando lá. Ao longe, o horizonte parece queimar.
Minha mente gira, imaginando as situações com que podemos nos deparar. Cada cenário é pior do que o anterior. Rendição. Derrota. Farley morta. Tiberias pálido e sangrando, seu sangue formando uma poça prateada.
Na última vez que estive em Harbor Bay, viajei por túneis e becos. Não entrei em disparada pelas ruas em um veículo militar com escolta, como algum tipo de dignitário ou nobre. Quase não reconheço o lugar.
Espero encontrar resistência conforme passamos por dentro da cidade, mas as linhas de frente da batalha estão mais longe do que eu pensava. Exceto pelos soldados, as ruas estão completamente vazias. Todos nossos, marchando para seus postos ou patrulhando. Uma vez ou outra vejo um contingente da coalizão escoltando prisioneiros. Prateados algemados com ferro, sendo conduzidos para onde quer que estejam sendo mantidos. Ordens de Davidson, presumo. Ele sabe como tirar o máximo de vantagem dos prisioneiros.
O transporte manobra, começando a descida suave para o porto.
— A coalizão está se agrupando na costa, reforçando nossas posições antes de avançar para o forte — o motorista avisa. Um rádio no painel emite algumas palavras entremeadas a muita estática. Ele repassa o que consegue. — Parece que a frota aérea está segurando os jatos de Norta no mar e que estamos fazendo o possível para vencer a batalha no porto, mas há embarcações de Lakeland no horizonte.
À minha frente, Rafe xinga baixo.
— Bem fora de alcance — ele murmura.
— Isso é o que vamos ver — Ella retruca severa, ainda olhando pela janela.
Tyton se reclina no banco, mordendo o lábio.
— Então estamos no controle da cidade. Por enquanto.
— Parece que sim — respondo, com muita cautela.
O transporte segue em frente, passando por prédios maiores e lugares que parecem importantes. Meu corpo é como uma mola pressionada, pronto para reagir se a calmaria for só uma armadilha. Um truque para iludir Tiberias e os outros com uma sensação falsa de segurança. Mantenho os dentes cerrados e sinto o relâmpago se aproximando. Os outros eletricons fazem o mesmo, focados e prontos para lutar.
As águas agitadas no porto reluzem no fim da rua, além da multidão apressada de soldados. A impressão que dá é de que uma tempestade acabou de passar. Todas as superfícies estão molhadas, e nuvens cinzentas se dissipam no céu, sopradas por um vendaval furioso. Ondas vêm e vão na orla sinuosa, ainda coberta por uma espuma branca. Agora posso ver ao longe que o Forte Patriota está em ruínas, metade alagado e metade em chamas. Posso sentir o cheiro, mesmo com a água no caminho. A ponte para o forte está tão destruída quanto o resto, partes dela tomadas pelo mar.
Minha testa toca o vidro da janela enquanto me esforço para ver mais. Nossos soldados se ocupam com a limpeza dos destroços, a construção de barreiras improvisadas ou a preparação de metralhadoras. Vasculho as tropas, procurando rostos familiares enquanto dirigimos para a praça pavimentada que acompanha a orla. Todos parecem iguais, mesmo em seus uniformes diferentes. Rostos sujos, cobertos de sangue de ambas as cores, exaustos e prontos para desabar. Mas vivos.
As tropas abrem caminho para o nosso veículo enquanto rondamos a água, seguindo em direção ao centro da orla e aos portões da ponte do forte, agora esmagados. Ella e eu nos esprememos na janela da direita, tentando ver melhor. Do outro lado, Rafe faz o mesmo. Só Tyton permanece parado, encarando suas botas sujas.
— Os navios estão atirando uns nos outros — Ella fala, apontando para as embarcações no porto. — Olhem, três contra um.
Mordo o lábio, confusa por um momento. Ao longe, os gigantes cinzentos balançam na água sob a força de suas próprias artilharias pesadas. De fato, três deles parecem disparar contra um quarto. Me pergunto quem está com a vantagem. Nossa coalizão… ou a de Maven. Barcos menores se arriscam pelas águas agitadas, carregando soldados na direção dos barcos.
O veículo mal para e minhas botas já atingem o pavimento molhado, cada passo escorregadio e precário. Mantenho o equilíbrio, me enfiando pela multidão de soldados. Os outros eletricons me seguem. Chegamos na área em que os oficiais observam os barcos se movendo pelo porto. Ao longe, o quarto navio chacoalha com as ondas, se inclinando para a frente e para trás com a força dos bombardeios.
Dou uma olhada rápida nele, e então tento encontrar rostos familiares entre os soldados em terra firme.
Vejo Farley primeiro, seu cabelo dourado brilhando contra o cinza da batalha. Binóculos pendurados em volta do pescoço, esquecidos por um momento. Ela grita ordens em um ritmo intenso, gesticulando para seus oficiais. Parece não notar os homens empilhando caixas, construindo uma parede precária para protegê-la.
Um pouco da tensão no meu peito se desfaz e consigo respirar melhor.
Julian está aqui também, para meu alívio. Ele e a rainha Anabel estão parados próximos um do outro, ambos com o olhar petrificado na batalha naval. Anabel aperta o braço do Julian, os nós de seus dedos brancos se destacando contra a manga dele.
A visão me perturba, mas não sei dizer por quê.
— Onde precisam de nós? — interrompo, entrando no círculo deles com o máximo de calma que consigo.
Farley me encara furiosa, e me preparo para a repreensão inevitável.
— O que está fazendo aqui? — ela explode. — Há algo de errado na Cidade Nova?
— Cidade Nova já é nossa — Ella diz, cruzando os braços ao meu lado.
Rafe assente.
— Nos coloque para trabalhar aqui, general.
— Iris Cygnet está lá — Farley grunhe, gesticulando para os navios. Então hesita, com os dentes rangendo, me deixando inquieta.
Ponho a mão no braço dela. A rainha de Maven é formidável, mas não é imbatível.
— Iris não me amedronta. Deixe a gente ajudar…
Ao longe, no porto, uma explosão de chamas vermelhas percorre a extensão do quarto navio, se movimentando de forma estranha. Uma onda gigante e antinatural se eleva para encontrá-las, desaguando sobre o convés. Outra serpente de fogo brota, espiralando no ar enquanto mais jatos de água rodopiam e espirram.
Tudo se move junto, uma dança elemental que só pode ser trabalho de duas pessoas bem específicas.
Meu coração afunda no peito. De medo e fúria.
O céu fica preto sobre o porto, e nuvens voltam a se formar em um instante. Há raios roxos dentro delas, seguindo o ritmo das batidas do meu coração.
— O que ele pensa que está fazendo? — grunho para mim mesma, dando um passo na direção da água. Algo explode dentro de mim. Qualquer objetivo que eu tivesse e todos os pensamentos sobre a cidade desaparecem em um instante.
— Calma, Mare — ouço Ella dizendo. Ela tenta segurar meu braço, mas eu afasto sua mão. Tenho que chegar naquele navioTenho que pará-lo. — Você não tem mira suficiente para ajudar daqui! — ela grita, mas já ouço sua voz sumindo. Sou mais rápida entre a multidão, mais ágil. Eles não podem me acompanhar.
Abro caminho até a beira da água. O desespero pode me engolir por inteiro. Cal está lutando contra uma ninfoide, e uma muito poderosa. É sua maior fraqueza. E isso me apavora.
Barcos vão e voltam pelo porto, os vazios chegando para carregar mais soldados. Observo, os dentes cerrados com tanta força que parecem prestes a estilhaçar.
Muito devagar.
— Teleportadores! — grito, desesperada e em vão. O som do combate é mais alto. — Teleportadores! — berro de novo. Ninguém vem correndo.
Os barcos podem ser lentos, mas são minha melhor chance. Ponho o pé em um deles e Farley me alcança, me segurando pelos ombros. Ela quase me arrasta para trás, e minhas botas espirram a água escura das docas.
Me solto dela, me contorcendo com movimentos que aprendi há muito tempo nos becos de Palafitas. Farley titubeia mas se segura, com as mãos abertas e o rosto bem vermelho.
— Me leve para aquele navio. — Minha voz tremula de raiva. Sinto como se fosse explodir. — Não estou pedindo sua permissão.
— Tudo bem — ela concede, seus olhos arregalados com seu próprio medo. — Certo…
Um brilho ao longe nos paralisa, e as palavras de Farley morrem em sua boca. Observamos em um silêncio chocado enquanto a sucessão de explosões golpeia o navio de Iris, balançando a embarcação. Ondas sobem para estabilizá-lo, e as explosões se espalham, vermelhas e furiosas, cada uma um inferno em direção ao céu. A fumaça sobe, escura e fétida, quando outra onda é puxada para o navio. Soldados caem do convés, despencando na baía abaixo. A essa distância, não posso distinguir os uniformes. Podem ser vermelhos, verdes ou azuis, não sei dizer.
Mas a armadura dele reluz brilhante contra o fogo, impossível não notar. Sem pensar, arranco os binóculos do pescoço de Farley e os levo aos olhos.
Fico paralisada com o que eu vejo.
Iris desvia de uma bola de fogo, mergulhando com um movimento fluido, mais rápida do que Tiberias jamais foi. Ela dança para fora do alcance dele, girando enquanto o navio se movimenta, agitando-se na direção da saída do porto e para alto-mar. O valente e tolo Calore a persegue.
Outra onda acerta a cabeça dele, o azul e branco esmagador movido pela força total do poder de Iris Cygnet. Meu coração para no peito enquanto o imagino esmagado contra o metal da embarcação, sendo afogado diante dos meus olhos.
Tiberias tomba, sua armadura rachada pela batalha, a capa vermelha em retalhos.
Para um homem tão grande, espalha pouca água ao cair.
Minha visão escurece, embaçada pelas emoções enquanto meu cérebro entra em curto. Meu foco se estreita, cercado de preto, até que não posso mais ouvir a multidão à minha volta. A voz de Farley some, suas ordens desaparecem. Quero gritar, mas meus dentes parecem grudados. Se eu me mexer, se falar, todo o meu controle vai evaporar. A eletricidade não terá piedade. Tudo o que posso fazer é observar e rezar para quem quer que possa ouvir.
Mãos quentes seguram meus ombros quando os eletricons me rodeiam, próximos o suficiente para reagir caso eu perca o controle. Azul, verde, branco. Ella, Rafe, Tyton.
Cal, Cal, Cal.
Sobreviva.
Nada importa além da água, das ondas azuis e brancas espumando com a batalha. A maioria dos soldados que caíram das embarcações ainda está viva, flutuando para cima e para baixo. Mas eles não estão usando armaduras. Não têm pavor de água. Não enfrentaram Iris Cygnet e perderam. O brilho do sol impossibilita ver muita coisa, mas estreito os olhos mesmo assim, até não aguentar mais. Até não poder abri-los. Os binóculos caem das minhas mãos e se quebram.
O caos na beira da água aumenta, até que todos os soldados param, esperando para saber o destino do príncipe Calore. Quando ouço todos prenderem o ar ao mesmo tempo, forço meus olhos a abrir. O aperto de Tyton fica mais forte, seus dedos pressionam meu pescoço. Ele vai me derrubar se precisar, para proteger todos da minha tristeza.
Não sei quem arrastou Tiberias para fora da água ou qual teleportador o trouxe para a costa. Não olho para a curandeira que se curva sobre ele, apavorada, tentando salvar sua vida. Não me importo com Iris, ainda à solta no porto, fugindo. Só consigo olhar para ele, apesar de nunca ter desejado vê-lo dessa forma.
Cada segundo é uma ruína. Já levei um tiro; já fui esfaqueada; já fui completamente drenada. Isso é mil vezes pior.
A pele de um prateado tem um tom mais frio que a nossa, como se o calor tivesse sido drenado. Mas nunca vi alguém desse jeito. Seus lábios estão azuis, as bochechas estão da cor do luar, cada centímetro do seu corpo está ensopado ou sangrando. Seus olhos estão fechados. Ele não está respirando. Parece um cadáver.
Talvez seja um.
O tempo se arrasta. Vivo nesse segundo amaldiçoado, presa, condenada a observar enquanto pedacinhos da vida dele se esvaem. Kilorn sobreviveu na Cidade Nova. Vou perder Tiberias em Harbor Bay?
A curandeira põe a mão no peito dele, suor brotando na testa dela.
Rezo para qualquer deus que possa existir. Para qualquer um que possa ouvir.
Então imploro.
Um jato de água sai da boca dele quando tosse violentamente, seus olhos se abrindo ao mesmo tempo. Quase entro em colapso, e só os eletricons me mantêm em pé. Ofegante, cubro a boca com a mão e abafo o som, para só então sentir as lágrimas rolando pelas bochechas.
Uma multidão se forma em torno dele, Anabel se ajoelha ao seu lado. Julian está lá também. Acalmam seu garoto, alisando o cabelo dele, pedindo que fique parado enquanto a curandeira continua a trabalhar.
Tiberias assente de leve, ainda tentando se situar.
Viro antes que ele possa me ver e perceba o quanto quero ficar.


Ocean Hill era um dos lugares favoritos de Coriane, a rainha morta que nunca conheci. E é um dos favoritos do filho dela também.
O palácio é feito de rocha branca polida com telhados azuis redondos, coroados com chamas prateadas. Ainda é magnífico, mesmo visto entre a fumaça que se arrasta e as cinzas caindo do céu. Circulamos a praça em frente aos portões do palácio, onde normalmente o trânsito é uma bagunça. Agora, a única atividade parece ser no centro de segurança ao lado, tomado por soldados da coalizão. Conforme passamos, eles arrancam as faixas vermelhas, pretas e prateadas, assim como os pôsteres de Maven Calore. Um a um, ateiam fogo nos símbolos. Vejo o rosto dele queimar, seus olhos azuis fixos nos meus, cobertos por chamas vermelhas que os devoram.
As ruas em si estão vazias, e a fonte, que me lembro de ser linda sob um domo de cristal, está seca. A guerra deixa sua marca em Harbor Bay.
Os portões do palácio já estão abertos, escancarados para mim e para Farley. Já estivemos aqui antes, como intrusas. Fugitivas. Não hoje.
Quando o veículo reduz a velocidade, Farley salta rápido, gesticulando para que eu a siga. Hesito, ainda apavorada pelos eventos mais cedo. Só se passaram algumas horas desde que vi Tiberias perto da morte. Não consigo tirar a imagem da cabeça.
— Mare — ela cutuca, com a voz grave. É o suficiente para me trazer de volta.
As portas azul-claras do palácio se abrem com dobradiças silenciosas, revelando dois membros da Guarda Escarlate que a vigiam. Os cachecóis rasgados que usam são de um vermelho reluzente, destoando de tudo, um sinal claro e inconfundível.
Retornamos como conquistadores.
Ocean Hill ainda cheira a falta de uso e abandono. Não acho que Maven sequer colocou o pé aqui desde que se tornou rei. As cores douradas desbotadas de Coriane estão nas paredes e no teto côncavo. O lugar permanece como uma tumba para uma rainha esquecida, vazio exceto pela memória dela e talvez pelo seu fantasma.
Vejo uma inversão estranha conforme ando e reparo nos rostos à minha volta. Alguns vermelhos da Guarda Escarlate continuam de guarda, com suas armas à mostra, mas sem muita necessidade. Outros se recuperam da batalha recente, cochilando apoiados nas colunas opulentas ou explorando preguiçosamente as muitas salas e câmaras que se espalham a partir da galeria central. São os prateados que se ocupam dos trabalhos mais braçais, provavelmente sob ordens de Anabel. Eles têm que preparar o novo trono de Tiberias e seu palácio, para marcá-lo como governante legítimo. Abrem as janelas, puxam as coberturas dos móveis, até tiram o pó das soleiras e das estátuas. Pisco várias vezes diante da visão, abalada. Prateados fazendo trabalhos domésticos. Isso é novidade. Os serviçais devem ter fugido, e os vermelhos que ainda estão aqui não farão o trabalho por eles.
Não reconheço ninguém passando. Não vejo Julian. Nem mesmo Anabel supervisionando a preparação do palácio. Isso me preocupa, porque só existe um outro lugar onde possam estar.
Estou quase correndo quando Evangeline me alcança, saindo de um corredor. Está sem a armadura e usa roupas mais leves. Se a batalha foi difícil, não deixa transparecer. Enquanto todos estão sujos, senão cobertos de sangue, Evangeline Samos parece recém-saída de um banho gelado.
— Saia do meu caminho — é tudo o que consigo dizer, tentando desviar dela.
Farley para e a encara com intensidade.
— Deixe Mare ir, Samos — ela grunhe.
Evangeline a ignora. Ela agarra meus ombros, me forçando a encará-la. Resisto ao desejo familiar de socá-la. Para minha surpresa, ela me olha de cima a baixo, se detendo nos meus muitos cortes e machucados.
— Deveria ver um curandeiro, temos vários deles — ela diz. — Você está horrível.
— Evangeline…
Ela se irrita.
— Ele está bem. Juro.
Lanço um olhar cortante a ela.
— Sei disso — sibilo. — Vi com meus próprios olhos. — Mesmo assim, cerro os dentes diante da memória, muito recente e ainda dolorosa.
Ele está vivo; sobreviveu à princesa ninfoide, lembro a mim mesma. A esposa assassina do irmão dele. Eu poderia torcer o pescoço de Tiberias por ter desafiado a ninfoide no meio de uma baía. Já vi Tiberias Calore hesitar para nadar em um riacho. Ele odeia água, não tem nada que tema mais. É o pior jeito, e o mais fácil, de matá-lo.
Evangeline morde o lábio, me observando. Ela gosta de alguma coisa que viu.
Quando fala de novo, sua voz muda, saindo mais suave. Um sussurro leve como uma pena.
— Não consigo esquecer. O jeito como ele afundou como uma pedra, com a armadura e tudo — diz, se aproximando o suficiente para falar na minha orelha. As palavras giram à minha volta, espetando minha pele. — Quanto tempo demorou até os curandeiros fazerem com que respirasse de novo?
Fecho bem os olhos, tentando não pensar naquilo. Sei o que está fazendo, Evangeline. E está funcionando. Tiberias pálido e morto, seu corpo ensopado. A boca aberta, os olhos opacos e vazios. Foi o mesmo com o corpo de Shade, e isso ainda me assombra. Quando abro os olhos de novo, o corpo de Tiberias ainda está lá, flutuando na minha mente. Não consigo parar de pensar nisso.
— Chega — Farley diz, colocando-se entre nós. Ela quase me arrasta, enquanto Evangeline sorri.
A princesa Samos começa a andar atrás de nós, me empurrando na direção certa como se eu fosse uma vaca sendo levada para o pasto. Ou para o matadouro.
Não conheço Ocean Hill, mas já estive em palácios suficientes para saber o que estou procurando. Subimos uma escada curva pomposa até um andar cheio de aposentos reais e suítes. Aqui em cima, longe dos níveis mais públicos, a poeira é ainda pior. Voa do carpete, formando nuvens. As cores de Coriane estão por toda parte. Dourado e amarelo, pálidos e desbotados. Lembrado apenas aqui. Me pergunto se causam dor ao seu filho. O filho que quase se juntou a ela no mundo dos mortos.
Os aposentos do rei são vastos, a entrada protegida por soldados Lerolan. Eles usam as cores de Anabel e têm a mesma aparência dela, com cabelo preto e olhos cor de bronze. Os olhos de Tiberias. Ninguém nos impede de passar, e entramos num cômodo comprido que funciona como sala de visitas. Uma sala bem lotada.
Vejo Julian primeiro, com as costas viradas para a janela arqueada que dá vista para a baía reluzente, brilhando azul com o sol da tarde. Ele vira o rosto para mim, suas feições se contorcendo em uma expressão que não consigo nomear. Sara Skonos está ao seu lado, com a postura extremamente ereta e as mãos entrelaçadas à frente do corpo. Apesar de estarem limpas, as mangas do seu uniforme simples estão encrostadas até os cotovelos de sangue vermelho e prateado. Tremo ao notar.
Ela não repara em mim a princípio, focada no homem monumental no centro da sala, que se ajoelha.
Farley senta em silêncio, perto de uma dupla de tenentes da Guarda Escarlate. Sinaliza para que eu me junte a ela, mas fico parada. Prefiro me manter à margem dessa multidão.
Não conheço o chefe da Casa Rhambos, mas reconheço sua forma maciça, mesmo ajoelhado. Suas roupas são inconfundíveis, resplendorosas com tons intensos de marrom e vermelho, as barras bordadas com pedras preciosas. É o líder e governador desta cidade e da região. Seu cabelo é de um loiro escuro que abre espaço para o grisalho, trançado de maneira intrincada. O penteado está se desfazendo, ou por causa da batalha ou porque o lorde está puxando o cabelo em desespero. Provavelmente ambos.
Os prateados não estão acostumados a se render.
Solto o ar e me permito olhar por cima dos ombros dele para o verdadeiro rei. Com a espada em punho. A visão apaga da minha mente a imagem do cadáver.
Seus dedos firmes e inabaláveis seguram o cabo adornado da espada cerimonial. De onde veio, não sei dizer. Não é a espada com que Elara o forçou a matar o pai, mas é bem parecida. E tenho certeza de que Tiberias lembra disso agora, quando está parado acima de outro homem que implora por sua vida. Deve ser dolorido para ele, fazer isso com outra pessoa. E por vontade própria dessa vez.
Tiberias parece mais pálido que o normal, as bochechas sem cor alguma. Mas se é por vergonha ou medo, não sei dizer. Talvez exaustão. Ou dor. Apesar disso, é rei dos pés à cabeça. Sua armadura foi limpa, a coroa está pronta. As linhas angulosas do queixo e das bochechas de algum modo parecem mais acentuadas, esculpidas pelo peso repentino sobre seus ombros. É tudo uma máscara. Uma expressão corajosa que ele tem que usar. A outra mão está vazia, os dedos à mostra e sem chamas. Não há fogo, exceto o que queima em seus olhos.
— A cidade é sua — Rhambos diz, com a cabeça curvada e as mãos erguidas.
A rainha Anabel dá um passo para ficar mais perto do neto, os dedos curvados como garras. Deve ser a única pessoa no mundo que parece da realeza mesmo sem ornamento algum.
— Dirija-se de forma apropriada ao rei, Lorde Rhambos.
Ele concorda rápido, se curvando mais, os lábios quase tocando o carpete no chão.
— Vossa majestade, rei Tiberias — ele diz sem hesitar, então abre as mãos, submisso. — A cidade de Harbor Bay e toda a região de Beacon são suas por direito. Devolvidas ao verdadeiro rei de Norta.
Tiberias aponta seu nariz retilíneo para baixo, girando a lâmina. A borda reflete a luz. O lorde se retorce, fechando os olhos diante do brilho repentino.
— E a Casa Rhambos? — ele pergunta.
Ao meu lado, Evangeline cobre um riso irônico com a mão.
— Que bela atuação.
— Também somos todos seus, faça como desejar — o nobre murmura, sua voz falhando. Até onde ele sabe, Tiberias poderia executar toda a sua família. Exterminá-los pela raiz. Apagar seu nome e seu sangue da face da terra. Reis prateados já fizeram pior por menos. — Nossos soldados, nosso dinheiro, nossos recursos estão ao seu dispor — ele acrescenta, listando tudo o que sua Casa pode oferecer. Tudo que sua Casa viva pode dar.
O silêncio se alonga, tenso como um fio esticado. Ameaçando estourar a qualquer momento. Tiberias analisa Lorde Rhambos sem piscar, sem sentir, com a expressão neutra e inescrutável. Então abre um sorriso, que transborda calor e compreensão. Não sei dizer se é sincero.
— Agradeço por isso — ele diz, inclinando um pouco a cabeça. Abaixo dele, Lord Rhambos quase treme de alívio. — Assim como agradecerei a cada membro da sua Casa quando seguirem seu exemplo e jurarem lealdade a mim. Renegando o falso rei que senta no trono do meu pai.
Ao lado dele, Anabel está radiante. Se o treinou, fez muito bem.
— Sim… Sim, é claro — Rhambos gagueja. Seu corpo quase desaba ao concordar. Reparo que Tiberias afasta os pés, com medo de que o lorde derrotado tente beijá-los. — Isso será feito o mais rápido possível. Nossa força é sua.
O rosto de Tiberias enrijece.
— Vocês têm até amanhã — ele diz, sem deixar margem para discussão.
— Amanhã, majestade — Rhambos responde, balançando a cabeça para cima e para baixo. Ainda está ajoelhado, com ambos os punhos cerrados. — Todos saúdam Tiberias VII, rei de Norta e a verdadeira Chama do Norte! — o homem grita, sua voz ficando mais forte a cada segundo.
A multidão de conselheiros e soldados, tanto prateados quanto vermelhos, responde em coro, repetindo os títulos irritantes. Um pouco de cor volta para as bochechas de Tiberias. Seus olhos se movem pela sala, tentando reparar em quem grita seu nome e quem não o faz. Seu olhar para sobre mim e meus lábios paralisados. Eu o sustento, adorando a sensação de continuar com a boca fechada.
Farley faz o mesmo, examinando suas unhas em vez de dar atenção à cerimônia pomposa.
Anabel se deleita, a mão sobre o ombro do neto. Sua mão esquerda, que exibe sua antiga aliança de casamento, com uma pedra preta incrustada. A única joia que usa, a qual sempre lhe bastou.
— Todos saúdam — ela murmura, seus olhos brilhando ao admirar Tiberias. Ao menor sinal no rosto dele, ela entra em ação, pondo-se à sua frente. Então entrelaça as mãos letais, com o anel ainda à mostra. — O rei agradece a todos pela lealdade, e eu também. Temos muito a discutir nas próximas horas.
É um convite para que todos se retirem. Tiberias se vira, dando as costas para a sala, e percebo um consentimento naquele gesto. Ele está cansado. Ferido. Talvez não fisicamente, mas em algum lugar profundo, onde ninguém pode ver. Seus ombros rígidos, sua postura familiar, murcha sob as ombreiras rubras da armadura. Liberando um pouco do peso. Ou cedendo a ele.
De alguma forma, todas as imagens do seu cadáver voltam em disparada. O temor se acumula em mim, ameaçando me afogar e me arrastar.
Dou um passo à frente, com a intenção de ficar, mas a multidão me empurra em outra direção. Evangeline também. Ela me segura pelo braço, suas garras decorativas penetrando minha pele macia. Aperto os dentes, deixando que me leve para fora dos aposentos de Tiberias, sem querer causar confusão ou fazer cena.
Julian passa por nós com uma única sobrancelha erguida, surpreso por nos ver tão unidas. Tento me comunicar com ele pelos olhos. Tento pedir socorro ou orientação. Mas ele se vira antes de saber o que eu quero. Ou simplesmente não pretende me ajudar.
Passamos de novo pelos guardas Lerolan, parecendo sentinelas de vermelho e laranja. Talvez os uniformes tenham vindo daí. Olho para trás, por cima da cabeça dos lordes prateados e dos oficiais vermelhos. O cabelo loiro de Farley cintila em algum lugar, e Ptolemus Samos se mantém a uma distância segura. Vejo Anabel, observando tudo como uma águia. Está posicionada em frente à porta do quarto de Tiberias. Ele se enfiou lá dentro, longe de vista, sem nem olhar de relance para trás.
— Não discuta — Evangeline sibila na minha orelha.
Por instinto, abro a boca para fazer justamente isso, mas me seguro enquanto ela me arrasta para longe da multidão e para dentro de um corredor.
Mesmo que a gente esteja em um lugar com o máximo de segurança possível dadas as circunstâncias, meu coração dispara no peito.
— Você mesma disse que nos prender juntos em uma salinha não vai funcionar.
— Não estou prendendo ninguém em lugar nenhum — ela sussurra de volta. — Só estou te mostrando a porta.
Viramos e viramos de novo, pegando a escada lateral e a passagem dos criados, muito devagar e rápido demais para meu gosto. Minha bússola interior gira loucamente, e acho que estamos quase de volta ao ponto onde começamos quando ela para em uma passagem escura, quase estreita demais para nós duas.
Com uma sensação incômoda, penso no meu brinco. O que não estou usando. A pedrinha vermelho-sangue, enfiada em uma caixa em Montfort, escondida do mundo.
À minha direita, Evangeline coloca a palma da mão em uma porta enferrujada pela falta de uso. As dobradiças e os trincos ganharam um tom vermelho-escuro, como sangue coagulado. Com um movimento dos dedos, o metal gira, expulsando a ferrugem como gotas d’água.
— Isso vai levar você…
— Eu sei aonde vai me levar — respondo quase rápido demais. De repente sinto como se tivesse corrido um quilômetro.
O sorriso dela me deixa furiosa e quase me faz dar meia-volta. Quase.
— Muito bem — Evangeline diz, dando um passo para trás. Ela gesticula para a porta como se fosse um presente de valor incalculável, em vez da manipulação explícita que de fato é. — Faça como desejar, garota elétrica. Vá aonde quiser. Ninguém vai te impedir.
Não tenho uma resposta inteligente para ela. Tudo o que posso fazer é observar enquanto desaparece, ansiosa para se livrar de mim. Elane deve estar a caminho da cidade para celebrar a vitória. Me pego invejando as duas. Estão do mesmo lado, pelo menos. São aliadas, apesar de todas as circunstâncias contra elas. Ambas prateadas, criadas como nobres. Entendem uma à outra de uma forma que Tiberias e eu nunca seremos capazes. Vieram do mesmo lugar, são iguais. Ele e eu não somos.
Eu deveria voltar atrás.
Mas já passei pela porta, invadindo a escuridão quase completa da passagem esquecida, meus dedos tocando a pedra gelada. Uma luz surge à frente, mais próxima do que pensei que estaria. Delineando outra porta.
Volte atrás.
Toco a madeira, um corte delicado, uma peça única. Aliso os painéis por um momento, nervosa. Sei aonde esse caminho leva e o que me espera do outro lado. Ouço passos dentro do quarto, e me sobressalto quando chegam perto da porta.
Então uma cadeira range quando um corpo pesado se senta. Duas batidas anunciam as botas que ele apoia em cima de uma mesa ou escrivaninha. E, na sequência, vem um suspiro longo e duradouro. Não de satisfação. Cheio de frustração. Cheio de dor.
Volte atrás.
A maçaneta se move na minha mão como se tivesse vontade própria. Dou um passo à frente, piscando diante da luz suave do entardecer. O quarto de Tiberias é grande e arejado, com teto curvo pintado de azul e branco, quase um céu com nuvens. As janelas dão para a baía, e o dia está mais ensolarado do que deveria. A brisa do oceano sopra para longe o que restou da fumaça.
Parece que o rei está fazendo o melhor que pode para encher o lugar com sua bagunça habitual, apesar de só ter ficado aqui algumas horas. Ele está sentado a uma escrivaninha que foi arrastada para um ponto aleatório no centro do quarto, apontada na direção contrária de uma cama que me recuso a olhar. Papéis e livros estão empilhados à sua volta. Um em particular está aberto, seu texto escrito à mão numa caligrafia rebuscada e apertada.
Quando finalmente reúno coragem para olhar para ele, Tiberias já está de pé. Tem um punho erguido e flamejante, seu corpo inteiro tensionado como uma cobra pronta para o ataque.
Os olhos dele passam por mim, a mão ainda em chamas, apesar de ver que não sou uma ameaça. Depois de um longo momento, ele deixa o fogo chamuscar e morrer.
— Você chegou depressa aqui — Tiberias solta, quase sem fôlego.
Isso pega nós dois desprevenidos. Ele desvia o olhar, voltando devagar à cadeira. Fica de costas para mim e rapidamente fecha o livro. A poeira se espalha. A capa é gasta, de um dourado desbotado sem nada escrito, e a lombada está rachada. Ele o esconde, guardando em uma gaveta com pouco cuidado.
Tiberias finge se ocupar com alguns relatórios. Ele se curva sobre eles e faz um olhar concentrado. Sorrio para mim mesma e dou um passo na direção dele.
Volte atrás.
Dou outro passo para dentro do quarto. O ar parece vibrar contra minha pele.
— Depois que… — Vacilo. Não tem jeito fácil de dizer isso. — Depois, tive que ver com meus próprios olhos — digo, observando o canto da boca dele se levantar. Seus olhos não se movem, queimando um buraco na página à sua frente.
— E?
Encolho os ombros e apoio as mãos na cintura.
— Você está bem. Não deveria ter me preocupado.
À escrivaninha, ele solta uma risada áspera, mas genuína. Então se reclina para trás, colocando um braço em cima da cadeira, e gira para me ver por inteiro. Com a luz do dia, seus olhos cor de bronze brilham como metal fundido. Eles me examinam, se retendo aos meus cortes e ferimentos expostos. É como se seus dedos percorressem meu corpo.
— E você? — ele pergunta, com a voz mais grave.
Hesito. Meus ferimentos parecem pequenos se comparados ao que ele sofreu e à memória de Kilorn se afogando com o próprio sangue.
— Nada que não possa ser remendado.
Tiberias aperta os lábios.
— Não foi isso que perguntei.
— Não foi nada comparado a você, quero dizer. — Dou a volta até a frente da escrivaninha. Ele se move comigo, me seguindo como um caçador. A sensação é similar a uma dança ou perseguição. — Nem todo mundo pode dizer que quase morreu hoje.
— Ah, isso — ele murmura, passando a mão pelo cabelo. As pontas das mechas curtas ficam de pé, estragando sua aparência perfeita de rei. — Foi tudo de acordo com o planejado.
Faço uma careta.
— Engraçado, não lembrava que estava nos planos lutar contra uma ninfoide assassina no meio do oceano.
Ele se ajeita na cadeira, desconfortável. Lentamente, começa a tirar sua armadura, revelando a camisa fina e justa e a forma exemplar de seu corpo sob ela. É uma provocação, mas me seguro. Cada peça cai no chão produzindo um ruído que ecoa pelo recinto.
— Precisávamos de navios. Precisávamos do porto.
Continuo dando voltas, e ele continua tirando as peças da armadura. Tiberias afrouxa as manoplas com os dentes, sem nunca tirar os olhos de mim.
— E precisávamos que você lutasse sozinho com ela? Com a pessoa que tinha todas as vantagens a seu favor, Tiberias?
O rei ri diante do metal vermelho.
— Ainda estou vivo.
— Isso não é engraçado. — Alguma coisa se aperta no meu peito. Passo o dedo pelo canto adornado da escrivaninha, varrendo o pó da superfície. Minha pele fica coberta por um tom cinza que filtra o calor. Como quando me disfarçava de prateada, tendo que aguentar a maquiagem pesada só para poder continuar respirando. — Quase perdemos Kilorn hoje.
O sorriso de Tiberias desaba instantaneamente, e ele esquece da armadura por um momento. Nuvens escurecem seus olhos, apagando seu brilho.
— Achei que tinha sido fácil derrubar a Cidade Nova. Eles não estavam esperando… — Tiberias se interrompe, apertando os dentes. Desvio o rosto quando me encara. Não quero ver sua pena. — O que aconteceu?
Minha respiração parece presa na garganta. É muito cedo para reviver tudo, o perigo ainda tão próximo.
— Guardas prateados — murmuro. — Um telec o arremessou pela escada. Retalhou as entranhas dele. — As palavras saem conforme a memória ressurge.
Meu amigo mais antigo, sua pele ficando pálida, morrendo a cada segundo. Sangue vermelho no queixo, no peito e nas roupas. Cobrindo minhas mãos.
O rei não diz nada. Com toda a minha força de vontade, olho para ele e o encontro me encarando, os olhos arregalados, os lábios formando uma linha fina. A preocupação está clara na sua expressão, na testa enrugada e na mandíbula travada.
Me forço a me mover de novo, meus pés me levando para mais perto da cadeira dele, para dentro do círculo de calor tão familiar que emite.
— Nós o levamos até um curandeiro a tempo — digo enquanto ando. — Ele vai ficar bem, como você.
Quando passo por trás dele, reprimo o desejo de tocar seu ombro. De colocar uma mão de cada lado do seu pescoço e me inclinar, abraçando-o. De deixá-lo me segurar. Agora mais do que nunca, quero esquecer tudo e descansar, permitir que outra pessoa carregue meus fardos. É tão difícil resistir.
— Mas você está aqui comigo. — A voz dele é muito baixa. Quase não o escuto.
As palavras ficam no ar, como uma cortina de fumaça entre nós.
Não tenho resposta para ele. Nenhuma que eu esteja disposta a dar ou admitir.
A vergonha não é novidade para mim. Com certeza a sinto agora, de pé no quarto dele, com Kilorn se recuperando muito longe daqui. Meu amigo, que não estaria nessa situação se não fosse por mim.
— A culpa não é sua — Tiberias insiste. Ele me conhece o suficiente para adivinhar meus pensamentos. — O que aconteceu com ele não é responsabilidade sua. Kilorn fez as próprias escolhas. E, sem você, sem o que fez por ele… — A voz dele falha. — Sabe o que teria acontecido.
Recrutado. Condenado a uma trincheira ou a um quartel. Provavelmente morto nos últimos suspiros da guerra contra Lakeland. Outro nome em uma lista, outro vermelho perdido para a ganância prateada. Outra pessoa esquecida. Por causa de gente como você, penso, forçando uma respiração profunda. O quarto cheira a sal, e um frescor entra pela janela aberta.
Tento encontrar algum conforto no que ele diz. Mas não posso. Isso não me isenta de nada que fiz ou do que Kilorn virou por minha causa.
Mas suponho que todos nós mudamos desde o ano passado. Desde aquele dia em que o mestre de Kilorn morreu e ele apareceu na minha casa em meio às sombras, tentando não lamentar pela vida que lhe era roubada. Engulo em seco, lembrando do que lhe disse. Deixa comigo.
Me pergunto se nos tornamos quem deveríamos ser ou se essas pessoas se perderam para sempre. Acho que só Jon saberia, e o vidente sumiu faz muito tempo, totalmente fora de alcance.
Limpo a garganta, mudando de assunto com todo o cuidado.
— Ouvi que há uma frota de Lakeland no horizonte. — Dou as costas para ele, virando para a porta externa, que leva de volta à sala de visitas. Poderia sair por ali agora se quisesse. Tiberias não me impediria.
Eu me impeço com toda a força que tenho.
— Ouvi isso também — Tiberias responde. Sua voz fica mais profunda. Vacila com o medo. — Me lembro da escuridão. Do vazio. Do nada.
Relutante, olho por cima do ombro para vê-lo levantar, tirando o restante da armadura. Evitando meu olhar. Ainda é alto e grande, mas fica menor sem o peso do aço gasto pela batalha. Com um ar mais jovem também. Aos vinte anos, começa a vida adulta, mas algumas partes dele ainda se prendem à juventude. Se agarram a algo que está desaparecendo, como todos nós.
— Caí na água e não conseguia subir. — Ele chuta uma pilha de aço no chão. — Não conseguia nadar, respirar, pensar.
Sinto como se não pudesse respirar também.
Tiberias treme enquanto o observo, começando pelos dedos. Seu medo é assustador. Ele se força a olhar de volta para mim. Está paralisado, com os pés plantados e as mãos firmes nos quadris. O rei não vai se mexer a menos que eu o faça. Quer que eu me renda primeiro. É o que qualquer bom soldado faria. Ou então está me deixando escolher. Me deixando decidir por nós dois.
Provavelmente pensa que é a coisa honrada a fazer.
— Pensei em você antes do fim — ele disse. — Vi seu rosto na água.
Vejo o cadáver dele de novo, flutuando na minha frente, rodeado pela luz oscilante do mar agitado. À deriva, à mercê de uma maré desconhecida.
Nenhum de nós se move.
— Não posso — disparo, olhando para qualquer lugar que não o rosto dele.
Tiberias responde rápido, com força.
— Nem eu.
— Mas também não posso…
Ficar longe. Continuar fazendo isso. Privando a nós mesmos enquanto a morte está sempre à espreita.
Ele solta um suspiro.
— Nem eu.
Quando damos um passo à frente juntos, damos risada. Quase quebra o feitiço. Mas continuamos andando, iguais em movimento e intenção. Lentos e metódicos, medindo tudo. Ele me observa, eu o observo, o espaço se apaga à nossa volta. Eu o toco primeiro, colocando a mão aberta sobre seu coração pulsante. Ele inspira lentamente, e o peito se eleva sob meus dedos. Uma mão quente escorrega pelas minhas costas, bem aberta sobre a base da minha coluna. Sei que pode sentir minhas cicatrizes antigas sob a camisa, a pele retorcida tão familiar a nós dois.
Respondo envolvendo sua nuca com a outra mão, afundando as unhas de leve nas mechas de cabelo preto.
— Isso não muda nada — digo apoiada na clavícula dele, uma linha firme contra minha bochecha.
Sinto a resposta dele nas minhas costelas.
— Não.
— Não estamos mudando nossas decisões.
Seus braços se apertam à minha volta.
— Não.
— Então o que é isso, Cal?
O nome tem um efeito sobre nós dois. Ele estremece e eu me aproximo, me apertando contra seu corpo. Parece uma entrega, para ambos, mesmo que a gente não tenha mais nada a ceder.
— Estamos escolhendo não escolher.
— Isso não parece real.
— Talvez não seja.
Mas ele está errado. Não posso pensar em nada mais real do que a sensação do seu corpo. O calor, o cheiro, o gosto. É a única coisa real no meu mundo.
— É a última vez — sussurro antes de levar minha boca à sua.
Pelas próximas horas, repito isso tantas vezes que até perco a conta.

24 comentários:

  1. Desejo que Mare e Cal fique juntos no final.

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  2. Pelas próximas horas, repito isso tantas vezes que até perco a conta.

    Se eu gritei? SÓ UM POUQUINHO

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    1. Eu tô morrendo aqui! Eu shippo demais esses dois! Eu tô surtando véi kkkk

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  3. Gente, eu vou... Morri aqui
    Xama o xamu, mais um semideus a caminho do Hades aqui, quem mais?

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  4. AHHHH SCRR FINAMENTE, ÚLTIMA VEZ NADA PAREM COM ISSO E CASEM LOGO

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  5. Isso muda tudooooooo
    ~Diane

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  6. Eita casalzinho difícil!

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  7. Como não amar esse casal ? Muito amor por eles ❤

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  8. Se sou a favor deles se pegarem ? Sim, claro. Se sou a favor deles juntos no final depois de toda essas merdas ? Não, óbvio q não.
    Gente amar um personagem n significa amar um casal. Eu amo o Cal, mais n acho q ele é Maré combinam mais juntos, nem qnd ambos estão ali se entregando um para o outro... nem mesmo assim estão escolhendo um ao outro, está sendo apenas sexo, apenas matar o desejo, eles se amam.? Sim. Mais não o suficiente.

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  9. Fiquei com com esse final do capítulo 😂😍😍😍 amo eles dois ❤️

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    1. ja parou pra pensar que ela pode ter engravidado?

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  10. Uma coisa é certa, Cal sabe o que faz em uma batalha . Como ele venceu uma ninfoide ,cara ? Quase morreu , mas sabia o que queria e conseguiu !!! Foi meio suicida , mas gostei kkk afinal ele foi treinado para isso . Em relação a Mare , só digo uma coisa , precisou de um susto desses pra ela ir conversar com ele de forma madura e sincera ,sem brigas .

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  11. Tenho certeza que Victoria está de complô com as empresas de seguro de vida pra nos fazer ter um ataque do coração a cada capitulo... SERIO GENTE!!! Primeiro ela quase mata Kirlon, depois Cal e acaba o cap com uma "sena" dessas???!!!

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  12. Quase perdemos o Cal, quase infartei estou muito mas muito feliz com essa recaída, e realmente desejo que depois disso os dois se deem conta que não podem ficar longe um do outro, pois realmente desejo que eles de alguma maneira fiquem juntos! Pois ambos merecem isso e podem juntos construir um novo lugar para o povo viver reconstruir um lugar melhor, sem escravos todos juntos reconstruindo vivendo com igualdade! Eles são tão prefeitos juntos mas ainda tem um inimigo pra enfrentar na verdade dois Iris e seu quem se julga Rei marido! DM

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  13. Esse casal, Cal e Mare, é definitivamente o meu preferido. Não consigo imaginar um mais perfeito que este. A Victoria teve um jeito incrível de escrever a história deles que foi amor a primeira vista. Ela consegue fazer o leitor sentir na pele o amor e o ódio; fez personagens cheios de defeitos, e por conta disso são perfeitos na maneira deles (seus defeitos os atraíram? Não sei explicar). Mare e Cal foram um dos que mais sofreram mudanças no decorrer da saga e não é difícil perceber. Não tenho palavras para descrever, mas são feitos um para o outro. Enfim, tudo isso para dizer que por mais que a autora tenha diversos erros ela é excepcional! Assim como eles, assim como nós. Cheios de rachaduras.

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  14. ja pararam pra pensar que o problema entre Mare e Cal,poderia ser resolvido se instalassem o parlamentarismo? Cal teria a coroa,Mare um PAIS livre.E todos vivem felizes para sempre!

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  15. que capítulo foi esse minha gente???

    Não vejo outro final sem ver Mare e Cal juntos.

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  16. Kkkkkk pelas próximas horas mds q longo o tempo q isso durou ksksks Marecal melhor shipper
    Pâmela Caistairs Harondale Fairchild Blackthorn

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Boa leitura, E SEM SPOILER!