2 de junho de 2018

Capítulo vinte e um

Maven

ODEIO ONDAS. ELAS ME IRRITAM.
Cada elevação do azul contra o casco do barco faz meu estômago revirar. É muito difícil permanecer parado, em silêncio, mantendo a imagem de poder de que preciso. Talvez Iris ou sua mãe estejam agitando o mar de propósito. Me punindo por arriscar a vida dela em Harbor Bay. Mesmo que tenha sobrevivido e escapado com facilidade. Sobrevivido, escapado perdido a cidade para meu irmão perfeito.
Não me espantaria se fosse a rainha de Lakeland. Ela é ainda mais poderosa que a filha. Certamente consegue controlar o sobe e desce do oceano à nossa volta. Vejo as embarcações dela à frente, seis ao todo. Navios de guerra pequenos, mas formidáveis. Uma fração menor do que eu esperava da sua Marinha.
Rosno para mim mesmo, e meus lábios se curvam. Será que ninguém pode simplesmente seguir as ordens? Mesmo com sua filha em jogo, liderando a defesa fracassada da cidade, a rainha Cenra não usou todos os seus recursos. Uma onda de calor explode pelo meu corpo, como uma língua de fogo furiosa perpassando minhas costas. Eu a contenho depressa.
O movimento constante torna mais difícil me segurar na balaustrada do convés. Drena meu foco. E, quando isso acontece, minha cabeça fica menos… silenciosa. Harbor Bay está perdida.
Mais uma coisa perdida para Cal, uma voz familiar sussurra. Outro fracasso, Maven.
A voz da minha mãe enfraqueceu com o passar do tempo, mas ela nunca desaparece de verdade. Às vezes me pergunto se plantou uma semente em mim, para que florescesse após sua morte. Nem sei se murmuradores podem fazer isso. Mas é uma explicação simples para os murmúrios e sussurros que ecoam no meu crânio.
Às vezes sou grato pela voz dela. Por me guiar do túmulo. Seus conselhos são simples — às vezes algo que costumava dizer, outras vezes apenas memórias. Mas acordo com tanta frequência de um sono inquieto, com suas palavras nos meus ouvidos, que sua voz não pode ser um mero produto da minha imaginação. Minha mãe ainda está aqui comigo, eu querendo ou não. Digo a mim mesmo que é um conforto, ainda quando é tudo menos isso.
Tudo o que importa é o trono, ela sussurra, como fez ao longo dos anos. Sua voz quase se perde com a agitação do oceano. Parte de mim se esforça para ouvir, outra parte faz o contrário. E o que você sacrificou para consegui-lo.
Esse é o refrão de hoje. Repete-se enquanto minha bandeira navega em direção à armada que me aguarda, cortando as ondas conforme o sol se põe, baixo e vermelho contra a costa distante. Harbor Bay ainda está coberta de fumaça, me provocando no horizonte.
Pelo menos a voz dela é gentil hoje. Quando hesito, quando vacilo, ela fica mais afiada, como um grito violento e estilhaçante, metal arranhando metal. Vidro estalando no calor das chamas. Às vezes é tão horrível que até verifico se meus olhos e orelhas não estão sangrando. Nunca estão. As palavras dela não existem fora da prisão da minha cabeça.
Encaro as ondas à frente, cada uma com a crista branca de espuma, e penso no trajeto traçado. Não adiante, mas atrás. Como cheguei à proa de um navio com uma coroa na cabeça e jatos de água salgada atingindo minha pele. O que entreguei para estar aqui. As pessoas que deixei para trás, por vontade própria ou não. Mortas, abandonadas ou traídas. As coisas terríveis que fiz e que permiti que fossem feitas em meu nome. Tudo terá sido em vão se eu falhar. Agora, sigo na direção da frota de Lakeland. Inimigos que viraram aliados através das minhas maquinações cuidadosas.
Como todos no meu país, fui ensinado a odiar o povo de Lakeland, a amaldiçoar sua ganância. Talvez mais do que qualquer um, aprendi a desprezá-los. Afinal, meu próprio pai, e o pai dele, passou sua existência amarrado a uma guerra sem fim nas fronteiras do norte. Viram milhares de vidas serem desperdiçadas contra uniformes azuis — soldados afogados nos lagos, obliterados em campos minados ou por mísseis. Mas, é claro, eles sabiam o verdadeiro motivo da guerra. Não sei se Cal, simplório como é, já ligou esses pontos tão claros, mas eu certamente o fiz.
Nossa guerra contra Lakeland servia a um propósito. Há muito mais vermelhos do que nós. Vermelhos podem nos derrotar. Mas não se morrerem em maior número que prateados. E não se tiverem algo pior a temer do que os prateados diante deles. Seja o povo de Lakeland em si ou a possibilidade de morrer na guerra. Qualquer um pode ser manipulado contra seus próprios interesses, nas circunstâncias adequadas. Meus ancestrais sabiam bem disso, no fundo dos seus corações. Para manter o poder, mentiram, manipularam, derramaram sangue. Não o deles. Sacrificaram vidas, mas não de pessoas próximas.
Não posso dizer o mesmo.
Minha mãe nunca está muito longe dos meus pensamentos. Não só porque sua voz transita pela minha mente, mas porque sinto falta dela. A dor é permanente, acho, uma sensação incômoda que me persegue a cada passo. Como um dedo arrancado ou uma falta de ar. Nada mais foi igual desde que ela morreu. Eu lembro do corpo dela brutalizado nas mãos da garota vermelha. A memória é um soco no estômago.
Não é o mesmo com meu pai. Vejo o cadáver dele também, mas não sinto nada. Nem raiva nem tristeza. Só o vazio. Se alguma vez o amei, não me recordo. E tentar lembrar só me causa dor de cabeça. Minha mãe removeu essa memória, claro. Ela disse que para me proteger do homem que não me amou como amou meu irmão mais velho, meu rival. Aquele que é perfeito em tudo o que faz.
O amor por Cal também se foi, mas, às vezes, sinto o fantasma dele. Memórias retornam nos momentos mais estranhos, atraídas por um cheiro, um som ou uma palavra dita de determinada maneira. Cal me amava, sei disso. Provou muitas vezes ao longo dos anos. Minha mãe teve que ser mais cuidadosa com ele, mas, no fim, não foi ela quem partiu o último elo que nos ligava.
Foi Mare Barrow.
Meu irmão brilhante e idiota não conseguiu se contentar com tudo o que já era dele e quis o pouco que era meu.
Lembro da primeira vez que vi a filmagem de segurança com os dois juntos, dançando em um quarto esquecido no palácio de verão. Foram ideia de Cal, os encontros. As aulas de dança. Minha mãe sentou ao meu lado, perto o suficiente para o caso de precisar dela. Reagi da forma como me treinou. Sem sentimento, sem nem piscar. Ele a beijou como se não soubesse o que significava para qualquer outra pessoa além dele, ou como se não se importasse.
Porque Cal é egoísta, minha mãe murmura nas minhas memórias e na minha mente, a voz dela como uma seda e uma navalha. As palavras são familiares, outro refrão antigo. Cal só vê o que pode vencer e o que pode tomar. Acha que é o dono do mundo. E um dia, se você deixar, ele será. O que vai sobrar para você, Maven Calore? Os restos? Ou nem isso?
Meu irmão e eu temos algumas coisas em comum, no fim das contas. Ambos queremos a coroa e ambos estamos dispostos a sacrificar qualquer coisa para tê-la.
Mas pelo menos eu, nos meus piores momentos, quando a miséria ameaça me sufocar, posso culpar minha mãe por isso.
Quem ele pode culpar?
E, por algum motivo, eu é que sou chamado de monstro.
Não me surpreendo. Cal anda sob uma luz que nunca encontrarei.
Iris está sempre falando sem parar sobre seus deuses e, às vezes, acredito neles. De que outra forma meu irmão ainda estaria vivo, ainda estaria sorrindo, ainda seria uma ameaça? Deve ter sido abençoado por alguém ou por alguma coisa.
Meu único consolo é saber que estou certo sobre ele, e sempre estarei. Sobre Mare também. Eu a envenenei o suficiente, infectei o suficiente. Nunca vai tolerar outro rei, nem por todo amor do mundo. E Cal descobriu isso em primeira mão, outro presente meu, apesar da distância que nos separa.
Só queria ter descoberto um jeito de manter aquele estranho sanguenovo que possibilitou uma conexão com Mare. Mas o risco era muito grande e a recompensa, muito pequena. Uma base obliterada pela chance de falar com ela de novo? Mesmo por Mare, eu não faria isso.
Mas gostaria de poder fazer.
Ela está lá fora, além das ondas, em algum lugar na cidade junto à distante costa rubra. Viva. Caso contrário, eu saberia. Mesmo tendo passado apenas algumas horas, a morte da garota elétrica não seria um segredo por tanto tempo. O mesmo vale para meu irmão. Eles sobreviveram. O pensamento faz minha cabeça doer.
Harbor Bay é uma escolha lógica para Cal, mas a favela dos técnicos vermelhos obviamente foi ideia de Mare. Ela é casada com sua causa e com seu orgulho pelo sangue vermelho. Deveria ter previsto que iria atrás da Cidade Nova. É triste, na verdade, saber que sua causa depende de pessoas como Cal, sua avó sarcástica e os traidores Samos. Nenhum deles dará o que ela quer. Só pode terminar em sangue.
E, provavelmente, na morte dela, quando tudo estiver encerrado.
Se pelo menos a tivesse mantido mais perto. Com guardas melhores, numa coleira mais apertada. Onde estaríamos agora? E onde será que eu estaria se minha mãe pudesse tê-la removido de mim, como fez com meu pai e com Cal? Não sei dizer. Minha cabeça dói só de tentar imaginar.
Observo o convés, os soldados manejando a embarcação. Ela poderia estar ao meu lado, se não fosse por alguns erros. O vento em seu cabelo, os olhos sombrios e profundos, consumidos pelas algemas que teriam que mantê-la amarrada a mim. Uma visão feia, mas ainda assim bonita.
Pelo menos ela está viva. Seu coração ainda bate.
Diferente de Thomas.
Me contraio quando o nome dele passa pela minha cabeça. Minha mãe tampouco pôde removê-lo. A agonia da perda dele, a memória do seu amor.
Esse futuro se foi, extirpado da existência.
Um futuro perdido, aquele vidente sanguenovo horrível costumava dizer. Acho que Jon foi mais meu torturador do que fui seu carcereiro. Ficou claro que ele podia ter saído quando quisesse, e seja lá o que fez no meu palácio ainda está dando frutos.
Olho para a água, para o leste dessa vez, para o oceano vasto e infinito. O vazio deveria me acalmar, mas há duas estrelas adiantadas sobre as ondas. Luzes alegres e brilhantes me ofendem também.
O navio da rainha Cenra é fácil de notar. As ondas em volta estão calmas, quase paradas, reprimidas. A embarcação mal balança, mesmo a essa distância.
Os navios de Lakeland não são tão lustrosos quanto os nossos. Nossas capacidades de manufatura são melhores, em parte graças às favelas dos técnicos que Mare tem intenção de destruir.
Mesmo com os navios dela e os meus, temos poucas armas, e qualquer coisa que usarmos contra a cidade enfrentará a resistência dos magnetrons e dos sanguenovos, se não do meu próprio irmão imundo. Só o navio de guerra de Harbor Bay, que por enquanto está com Iris, tem algum tipo de artilharia que poderia ser útil à distância.
Olho para ele, uma embarcação de aço ancorada ao lado do navio de Cenra. Lança uma sombra longa e irregular entre a rainha de Lakeland e a costa. Minha rainha ardilosa o está usando como escudo. Um escudo bem caro.
Rosno para mim mesmo enquanto subo a bordo do navio dela, com cuidado para não perder o equilíbrio enquanto passo de um convés para o outro. Meus sentinelas me cercam enquanto andamos, próximos demais para me deixar confortável. Mantenho as mãos sem luva ao lado do corpo, os dedos à mostra diante do perigo.
— Por aqui, majestade — alguém de Lakeland diz, surgindo de uma porta aberta fixada por rebites, com uma roda como tranca. — As rainhas estão esperando.
— Diga a elas que o rei aguarda no convés — respondo, me virando em direção à extremidade da embarcação.
Não é um cruzeiro turístico, e não há muitos lugares para ficar parado observando, muito menos se reunir. Mas prefiro ficar no convés a descer, aprisionado no aço com uma dupla de ninfoides. Meus sentinelas andam à minha frente, tomando o cuidado de se manter em formação conforme subimos uma escada para chegar à ponte de observação da proa.
Não demora muito para as rainhas aparecerem.
Cenra usa um uniforme harmonioso, azul-escuro com prata e ouro. Uma faixa preta divide seu corpo do ombro até o quadril, incrustada com safiras preciosas. Ainda de luto. Não acho que minha mãe usou trajes de luto por mais do que alguns dias. Talvez a rainha de Lakeland se importasse com o marido. Estranho. Ela me observa com seus olhos tempestuosos, a pele um bronze frio coberto pelo dourado do sol poente.
Sinto como se pudesse ler a batalha em Iris. As mangas azuis do uniforme dela estão carbonizadas até o cotovelo, manchadas por dois tipos de sangue. Seu cabelo preto comprido está despenteado, ainda molhado, espalhado sobre um ombro. Um curandeiro a segue, tentando trabalhar em seu braço enquanto ela caminha, reduzindo as queimaduras e os cortes.
Mantê-la a certa distância tem sido uma decisão sábia. Não quero muito contato com minha esposa, que provavelmente preferiria me matar. Mas, como os vermelhos, ela pode ser controlada pelo medo. E pela necessidade. Tem ambos na mesma proporção.
O mesmo vale para Cenra. Foi por isso que ousou sair das suas fronteiras. Ela sabe que mantenho sua filha na palma da minha mão. Não tenho dúvidas de que quer libertá-la do nosso casamento. Mas precisa dessa aliança tanto quanto eu. Sem mim, encararia Cal e seu bando de traidores e criminosos sozinha. Uma frente unida contra ela. Sou seu escudo, e ela é o meu.
— Minhas rainhas — digo, fazendo uma leve reverência para ambas.
A filha parece mais um soldado do que alguém que nasceu princesa e se tornou rainha.
A mãe mergulha em um gesto vazio de cortesia. Suas mangas tocam o convés.
— Majestade — ela diz.
Viro o rosto para o horizonte.
— Harbor Bay caiu.
— Por enquanto — Cenra diz. A calma da sua voz é ofensiva.
— Ah, é? — zombo, erguendo uma sobrancelha. — Acha que podemos tomá-la de volta? Hoje à noite, talvez?
De novo ela abaixa a cabeça.
— Na hora certa.
— Quando o restante da sua armada chegar — cutuco.
A rainha Cenra cerra os dentes.
— Sim, claro. — Ela os afrouxa com relutância. — Mas…
— Mas?
A brisa do mar gela meus dentes à mostra.
— Temos nossa própria orla a proteger. — Ao lado dela, Iris parece presunçosa, feliz por deixar a mãe lutar essa batalha. — Os lagos devem permanecer defendidos, especialmente de Montfort. Podem cruzar Prairie e atacar nossa fronteira oeste com facilidade. Assim como o reino de Rift pode avançar pelo leste.
Tenho que rir. Balanço a mão na direção do oceano, repleto de traidores Samos e usurpadores de Montfort sob o comando do idiota do meu irmão.
— E com qual exército eles atacariam suas fronteiras? O que no momento está ocupando minha cidade?
As narinas de Cenra se dilatam e o sangue aquece seu rosto, salpicando as bochechas acentuadas.
— Samos tem a Frota Aérea de Norta, uma das maiores do continente. Sem falar nos recursos de Montfort, sejam lá quais forem. Seu irmão tem a vantagem pelo ar e tem velocidade. Qualquer lugar pode estar em risco. — Ela fala mais devagar agora, como se eu fosse uma criança que precisa que alguém segure sua mão durante a guerra. Meus dedos formigam em resposta. — Isso não pode ser ignorado, majestade.
Como se aproveitasse a deixa infeliz, um batalhão de jatos aéreos acelera sobre a costa em formação. O ruído distante deles nos alcança lentamente, um longo rugido tedioso. Cruzo os braços, escondendo as mãos antes que inflamem.
— A força aérea de Bracken deve ser suficiente para segurá-los — murmuro, mantendo os olhos nos jatos em movimento. Circulando a cidade. Fazendo manobras defensivas.
Iris finalmente encontra sua língua.
— A maior parte da frota dele foi canibalizada pela ocupação de Montfort. Não está à altura do inimigo. — Ela sente um deleite evidente ao me corrigir. Deixo que tenha esse pequeno prazer em vez de perder a calma.
Parecer poderoso torna alguém poderoso. Minha mãe disse isso mais vezes do que posso contar. Aparente estar calmo, firme e forte. Seguro de si e da vitória.
— Por isso mesmo devemos voltar para um lugar que nos dê força — Cenra diz. — Não temos utilidade nenhuma aqui no meio das ondas, esperando para ser pegos pelo céu. Mesmo as ninfoides Cygnet não são invencíveis.
É claro que não, sua enguia arrogante.
Pisco para ela, tentando queimá-la com os olhos.
— Sugere uma retirada?
— Já nos retiramos — Iris estoura. O curandeiro ao seu lado dá um passo para trás, assustado com sua raiva. — Harbor Bay é uma cidade…
Fecho o punho e uma onda de calor estala no ar.
— Harbor Bay não é a única parte do país que perdi para meu irmão — digo lentamente, sem erguer a voz, de modo que tenham que se esforçar para ouvir. — O sul é dele, Rift e Delphie. Corvium foi tomada de mim. E agora o Forte Patriota também.
Minha rainha irônica não se intimida com minha fúria declarada.
— O Forte Patriota terá pouca utilidade para ele — ela diz, parecendo um gato satisfeito depois de um jantar caprichado.
— É mesmo? — retruco. — E por quê?
As duas compartilham um olhar que não consigo decifrar.
— Quando ficou claro que a cidade estava perdida e que Tiberias venceria, inundei tudo o que pude — Iris explica, orgulhosa e firme. — O muro caiu.
Metade do forte está sob a água e o restante foi separado do continente. Teria afundado os navios se pudesse, mas a fuga exigiu muito de mim. Ainda assim, os reparos vão atrasá-los, e tomei recursos valiosos da força de ataque deles.
E da minhaAgora, mesmo se eu recuperar a cidade, o forte está destruído. Que desperdício. Jatos, as docas do Porto da Guerra, armas e munições, a infraestrutura em si.
Olho-a fixamente, deixando minha máscara cair um pouco. Deixando que saiba que percebi o que está fazendo. Iris e a mãe vão me incapacitar pouco a pouco, retirando meus próprios recursos.
As rainhas ninfoides são ardilosas. Não precisam me colocar na água para me afogar. É uma questão de ver quanto tempo isso vai levar e como equilibrar as ações delas com as minhas. Pretendem deixar Cal e eu nos destruirmos, para depois lutar contra o vencedor enfraquecido mais à frente.
Iris me encara de volta, os olhos firmes. Ela é fria e calculista, como a água parada ocultando um turbilhão.
— Então voltaremos para Archeon — ela diz. — Reuniremos toda a nossa força, tudo que pudermos disponibilizar. Despejaremos a fúria total dessa guerra em cima deles.
Me inclino, apoiado na balaustrada, deixando transparecer calma e desapego. Suspirando, olho para as ondas manchadas de vermelho pelo pôr do sol.
— Seguimos amanhã.
— Amanhã? — Cenra estranha. — Devemos ir agora.
Devagar, sorrio, exibindo com cuidado meus caninos. É o tipo de sorriso que deixa as pessoas tensas.
— Tenho a sensação de que meu irmão vai nos mandar uma mensagem em breve.
— Do que está falando? — Cenra murmura.
Não dou explicações, voltando o olhar para o leste. No horizonte que escurece, borrões se destacam contra a linha firme do mar.
— As ilhas serão território neutro — reflito.
— Território neutro — Cenra repete, sentindo o gosto das palavras.
Iris não diz nada, mas seus olhos se estreitam.
Tamborilo os dedos no peito, soltando o ar devagar.
— Que reencontro agradável será.
Só posso imaginar. Um arco-íris de traidores e conspiradores sentados à nossa frente, prontos para discursar e se exibir. Evangeline, com suas garras e sua eterna arrogância. Aquela general vermelha, Farley, que pagará com sangue por tudo o que fez ao meu reino. O metódico e lamuriento Julian, seguindo meu irmão como um fantasma esquecido. Nossa própria avó, Anabel, outra pessoa que deveria me amar e nunca o fez. O líder de Montfort, que ainda é um mistério e um perigo.
E, é claro, Mare, com uma tempestade sob a pele.
Meu irmão também.
Faz muito tempo que não olho nos olhos de Cal. Me pergunto se ele mudou.
Eu com certeza mudei.
Chegaremos a um acordo? Duvido muito. Mas quero ver os dois de novo. Pelo menos mais uma vez antes da guerra acabar, seja na morte deles ou na minha.
Nenhum futuro me amedronta.
Meu único medo agora é perder o trono e a coroa, a razão de toda essa miséria e tormenta. Não vou me destruir em vão. Não vou deixar que tudo tenha sido por nada.

39 comentários:

  1. Primeira a comentar!
    Maven vc partiu meu coração
    Mas meu amor não tem problema!

    #teamo

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    1. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 19:50

      Nutrir amor por um PSICOPATA é uma atitude masoquista.

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    2. peeta o garoto do pao AMO MUITO jogos vorazes
      e conciordo Maven e um psicopata a cada capitulo o odeio mais e mais
      ASS:Janielli

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    3. Ué, só pq ele é um psicopata não quer dizer que ele não é, tipo, o melhor personagem da série
      Assim, só dando um exemplo :v

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    4. Ok que ele é um psicopata mas o amo muito, melhor personagem

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  2. Esperaria que Maven chegasse ao um acordo com seu irmão. Mas acho muito difícil.

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    1. na verdade ,acho impossivel!!! a maẽ dele destruiu essa possibilidade quando controlou a mente dele

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  3. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 20:24

    HITLER, STALIN, e MAO TSÉ-TUNG, foram alguns dos genocidas que me vieram à mente ao ler isso:

    "Meus ancestrais sabiam bem disso, no fundo dos seus corações. Para manter o poder, mentiram, manipularam, derramaram sangue. Não o deles. Sacrificaram vidas, mas não de pessoas próximas."

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    1. Os aspirantes à ditadores de hoje, adotam a estratégia de Gramsci:

      "Não tomem quarteis, tomem escolas e universidades. Não ataquem blindados, ATAQUEM IDEIAS." (Antônio Gramsci)

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    2. Che Guevara (Cuba), Raul Castro (Cuba), Fidel Castro (Cuba), Hugo Chávez (Venezuela),Nicolás Maduro (Venezuela)...

      Se fôssemos citar todos os nomes que merecem estar nessa lista...

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  4. Ainda nem li mas já gritei e dancei toda feliz! Pov do Maven!!!!!!

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  5. O Maven cumpre o papel de vilão com maestria.Amo (e invejo) suas frases cortantes!

    Gosto dele.Não do vilão em sí, mas do que ele representa para o desenrolar da história.

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  6. Maven: ODEIO ONDAS.ELAS ME IRRITAM.

    Minha versão:ODEIO NÚMEROS.ELES ME ASSUSTAM.

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  7. Eu infelizmente não superei meu amor pelo Maven mas confesso que esperava mais do Pov dele

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    1. Também esperava mais... Tomara que tenha mais um Pov dele

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  8. Aguardei demais por um capítulo narrado por Maven!! Tem alguns vilões que vc simplesmente não gosta, outros que vc consegue compreender mas ainda assim não gosta, outros que são carismáticos mas que nem assim vc gosta, os que manipulam tudo e todos o tempo todo com uma inteligência descomunal e até óbvia que lhe deixa com raiva do mocinho por ter caído nas armadilhas... Enfim... e que tipo de vilão é Maven? Resposta: Todas as anteriores.

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    1. concordo , em todos os casos é um vilão ,independente da história por trás da sua maldade .

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  9. "As coisas terríveis que fiz e que permiti que fossem feitas em meu nome."

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  10. Gente, ainda n entendi o relacionamento que o Maven tinha com esse Thomás... as vezes entendo que eles tinham sentimentos mais fortes um pelo outro .... será só impressão minha?

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    1. Sim, tinham... Poderiam até ter construído um relacionamento se tivessem tido tempo

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    2. Ainda nem li mas já estou amando a narrativa de Maven , tomara que tenha mais ❤

      Obs:eu gritei quando vi que tinha a narrativa dele

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  11. Juro que me segurei mt pra não gritar quando vi que ele ia narrar o capítulo, kklkk pode me chamar de psicopata mas eu ainda amo o Maven não consigo odiar ele

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  12. Eu estava tão agoniada pra saber se tinha POV dele que eu simplesmente fui passando os capítulos sem ler. E Ahh que maravilha espero que não seja o único.

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    1. Pode ter certeza, você não foi! Eu fiz a mesma coisa . Eu fui ver se tinha Pov dele e do Cal kkkk não conseguir controlar a curiosidade (e ansiedade).

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  13. Muito bom esse capítulo de Maven devia ter mas...

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  14. VM ariana divergente audaciosa sem casa Galathynius12 de junho de 2018 09:24

    Nem estou acreditando que esperei 20 cap pela visão do Mavem, mas finalmente aconteceu é para Glorificar de pé kkkkkkkkkk

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  15. Ainda n li, mais ja estou gritando aqui, meu coração n se aguenta.
    MAVEN QUERIDO!! Que saudades. Cara eu de fato amo esse personagem.
    Ps: Ama-lo não significa que eu goste de suas atitudes, ele se tornou um monstro. Mais seu personagem é foda de mais, e da uma atiçada surreal na história.

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    1. Anônimo-san vc simplesmente falou o que eu queria dizer.

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  16. "Meu irmão e eu temos algumas coisas em comum, no fim das contas. Ambos queremos a coroa e ambos estamos dispostos a sacrificar qualquer coisa para tê-la.
    Mas pelo menos eu, nos meus piores momentos, quando a miséria ameaça me sufocar, posso culpar minha mãe por isso.
    Quem ele pode culpar?
    E, por algum motivo, eu é que sou chamado de monstro."

    Concordo com cada palavra. E por algum motivo eu é que sou chamada de louca qnd digo que Cal n é o cara certo pra Mare.

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  17. Não amo nem odeio o Mavem,tenho pena dele

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  18. Não sei o que dizer sobre esse capítulo!!
    Eu amo o Maven, mas sei que ele tem que morrer. Ele causou muito mal, seja por influência da sua mãe ou não. O significado de amor que ele tem é muito distorcido, fez a Mare sofrer demais.
    Deu para ver que ele quer o bem dela, como ele mesmo disse: pelo menos ela está viva. Mas acho que acima do bem dela, ele quer o bem de si próprio. Acha que a Mare mantém ele mais lúcido. Por isso que se ele pega-la novamente vai ser pior, de um jeito que nunca será possível fugir.

    Durante o capítulo me peguei desejando várias vezes que o Maven não fosse desse jeito e com dó dele. Fico muito triste, mas o personagem é assim ( o que só torna o livro melhor) e é necessário a sua morte.



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  19. Finalmente o capítulo mais esperado de todos!!! Não sei porque, mais amo o Maven. A inteligência dele é impressionante! 😍😍❤️👏🏼👏🏼

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  20. Li o título, comecei a ler e voltei no título : um capítulo do Maven 😱 ñ acredito.
    Te amo Maven

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  21. Eu esperaria um perdão de ambos os irmãos no final,mas sei q isso é praticamente impossível.A mãe destruiu qualquer resquício de humanidade que poderia ser a "salvação" dele.
    Eu acho algumas esc0lhas do Cal controvérsias mas não consigo compararar a obsessão pela coroa dele com a do Cal,parece mais doentia e cruel.
    Mas tem muita história pela frente,veremos.

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  22. Esse capítulo me fez sentir pena dele! Ele é doente!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!