2 de junho de 2018

Capítulo vinte e três

Cal

ME VIRO, DESCONFORTÁVEL ENQUANTO os minutos passam. A meia-noite chegou e se foi. Só os olhos dela se movem, passando pela página na velocidade da luz. Já deve tê-la memorizado a essa altura. Mare não quis ter nenhuma participação na mensagem para Maven, permanecendo no meu quarto enquanto o resto de nós se reuniu para elaborá-la. Esperava que já tivesse partido quando eu voltasse. Mas ela ficou.
Ainda não posso acreditar no que aconteceu. Ainda não posso acreditar que está sentada aqui, na minha cama, no meio da noite. Depois de tudo o que houve entre nós.
Ela ficou.
Desisti de focar nos papéis à minha frente. Contagens, na maior parte. De soldados, civis, baixas, recursos. O suficiente para fazer minha cabeça girar. Julian é melhor nisso, reduzindo tudo aos detalhes mais importantes para que eu possa ver o todo. Mas preciso da distração, nem que seja para me manter afastado do livrinho que me assombra de dentro da gaveta. Quase quero dizer para Julian pegá-lo de volta. Para guardar o que ele chama de presente até que a guerra esteja vencida e eu consiga encarar o que ele quer que eu encare.
A situação de Norta requer minha atenção, não o livro. E nossa situação é terrível. Harbor Bay é nossa, mas não é uma boa capital. É muito velha e vulnerável de todos os lados, ainda mais com o Forte Patriota destruído. Precisaremos de novas defesas enquanto ele é reerguido. Pelo menos a cidade está do nosso lado, oficialmente que seja. Rhambos se rendeu e os vermelhos de Harbor Bay estão dispostos a seguir seus líderes da Ronda Vermelha, que tem uma aliança firme com a Guarda Escarlate. Listo cada um dos grupos na minha cabeça, repassando a lista infinita que sempre dispara pelo meu cérebro. A essa altura, acho que posso vê-la até nos sonhos.
Com um suspiro, tento esvaziar a cabeça. Em vez de tudo isso, foco nela. É estranho que seja tanto a âncora contra a tempestade quanto a tempestade em si.
Mare está sentada com as pernas cruzadas na minha cama, a cabeça inclinada de forma que o cabelo esconde metade do seu rosto. As pontas cinza rastejam até o castanho-chocolate, repousando sobre a clavícula. Mare está enrolada no meu robe, a gola fechada o suficiente para esconder a marca em sua pele. Estremeço toda vez que a vejo e lembro que meu irmão a colocou lá. Sob a luz trêmula das velas, Mare parece uma chama. Dourada e vermelha, com sombras pretas dançando em volta. Observo em silêncio da cadeira, um pé descalço no chão e o outro sobre a escrivaninha. Minha panturrilha lateja, ainda doendo da batalha, e flexiono os dedos para tentar aliviar um pouco a dor. Me arrependo de ter mandado o curandeiro embora tão cedo, mas é muito tarde para chamá-lo de volta. Só terei que aguentar até de manhã, junto com outras dores menores que brotam sempre que me mexo.
— Quanto tempo faz? — ela murmura de novo, ainda sem tirar os olhos da página.
Me inclino na cadeira e bufo para o teto ornamentado. O lustre elétrico acima de mim está apagado. Queimou uma hora atrás, quando Mare decidiu andar em círculos furiosamente pelo quarto. O temperamento dela tem um efeito tremendo.
— Vinte minutos desde a última vez que você perguntou — respondo. — Já disse, Maven vai responder ao seu tempo. Quer nos deixar tensos.
— Mas não vai demorar muito mais — ela diz, imóvel. — Não tem esse nível de autocontrole. Não com a gente. Não vai resistir à chance de nos encontrar frente a frente.
— Especialmente você — rosno.
— E você — ela replica com o mesmo fervor. — A mãe o envenenou contra nós dois. Nos transformou em sua obsessão. — Irritada, ela suspira. — A reunião será para nada. Um desperdício.
Pisco lentamente. O conhecimento dela sobre meu irmão e sobre como ele pensa me desestabiliza. Principalmente porque sei quão caro pagou por isso. E, para ser honesto, porque sei que está enraizado em emoções nas quais não quero me aprofundar. Mas quem sou eu para julgar o que ela sente? Ainda amo Maven, ou pelo menos a pessoa que pensava que fosse.
Somos uma bagunça, nós dois.
Meu joelho estala quando puxo a perna para trás, e o ruído ecoa. Fazendo careta, massageio a articulação, deixando minhas mãos se aquecerem até uma temperatura agradável. O calor é absorvido, relaxando os músculos sob a pele.
Mare enfim olha para cima, sorrindo ao jogar o cabelo para trás.
— Você parece uma porta enferrujada.
Deixo escapar uma risada dolorida.
— Me sinto como uma.
— Procure o curandeiro pela manhã. — Apesar da curva suave nos lábios dela, sinto sua preocupação. Seus olhos se estreitam, parecendo mais sombrios com a pouca iluminação. — Ou chame Sara. Ela viria agora. Não acredito que ela ou Julian vão dormir até recebermos uma resposta.
Balanço a cabeça e levanto.
— Posso perturbar os dois amanhã — digo, dando passos curtos em direção à cama. Cada passo parece tensionar meus músculos com um tipo diferente de dor.
Como um gato, ela me segue com os olhos enquanto me aproximo devagar, deitando apoiado nos cotovelos. A brisa do oceano entra pela janela, balançando as cortinas douradas com uma mão invisível. Nós dois estremecemos. Devagar, tiro a carta da mão dela e a coloco de lado sem interromper nosso olhar.
Tenho medo desses momentos quietos e acho que ela também. O silêncio, a espera vazia, torna impossível ignorar o que estamos fazendo. Ou não fazendo, na verdade.
Não houve nenhuma mudança de nenhum dos lados, nem no coração dela nem no meu. Nenhuma escolha foi revertida. Mas cada segundo torna minha decisão mais difícil quando lembro o que vou perder quando chegar a hora. O que perdi essas semanas todas. Não só o amor dela, mas sua voz. Sua esperteza. Uma pessoa que não se importa com meu sangue ou minha coroa. Alguém que vê quem eu sou de verdade.
Alguém que me chama de Cal, não de Tiberias.
Mare põe a mão na minha bochecha, abrindo os dedos em volta da minha orelha. Ela está mais hesitante do que antes, com um olhar mais clínico. Como uma curandeira examinando uma ferida. Me inclino um pouco ao seu toque, buscando a sensação refrescante de sua pele.
— Você vai me dizer que essa é a última vez? — pergunto, olhando para ela.
Sua expressão se desfaz um pouco, como se apagasse. Mas seus olhos não vacilam.
— De novo?
Faço que sim com a cabeça.
— Essa é a última vez — ela diz sem rodeios.
Sinto uma vibração no fundo do peito. Meu fogo ruge em resposta, implorando para arder livre.
— Está mentindo?
— De novo?
Seus lábios tremulam quando passo a mão pela sua perna, do tornozelo até os quadris. Seus dedos no meu rosto traçam um caminho suave conforme balanço a cabeça, sentindo meu sangue ferver.
Mare responde baixinho, quase um suspiro.
— Espero que sim.
Ela não me permite dizer qualquer outra coisa.
O beijo dela me devora.
Nenhuma decisão tomada.
De novo.


Alguém bate na porta do quarto, me acordando. Mare está vestida, sentada de forma arriscada na janela. Eu meio que espero que fuja, desaparecendo no meio da noite, mas ela volta para dentro. Seu rosto cora quando joga meu robe. A seda vai de encontro ao meu rosto.
— Vai ficar aqui? — pergunto com a voz baixa o suficiente para que a pessoa do outro lado não ouça. — Não precisa.
Ela só olha para mim.
— Por que fugiria? Logo mais todo mundo vai saber.
Vai saber o quê, exatamente?, quero perguntar, mas seguro a língua. Alongando o corpo, levanto da cama e fecho bem o robe, dando um nó na cintura. Ela observa enquanto me movo, seus olhos me seguindo.
— O que foi? — sussurro, com um meio sorriso.
Mare pressiona os lábios em uma linha fina.
— Você removeu algumas cicatrizes.
A única coisa que posso fazer é dar de ombros. Passaram semanas desde que pedi que uma curandeira apagasse as cicatrizes antigas nas minhas costas e costelas, removendo a pele branca retorcida. Feridas são impróprias para um rei. Fico um pouco lisonjeado por Mare ter percebido, por lembrar bem do meu corpo.
— Algumas coisas não precisam ser guardadas.
Os olhos dela se estreitam.
— E algumas precisam, Cal.
Só posso assentir em silêncio, sem disposição para segui-la até o precipício aonde essa conversa vai levar. Não seria nada produtivo.
Mare se apoia na minha escrivaninha, perpendicular à porta, inclinando o corpo. Seu semblante muda, os olhos se afiando enquanto o resto do corpo parece endurecer, transformando-a em outra pessoa. Um pouco Mareena, a prateada que fingiu ser. Um pouco garota elétrica, cheia de faíscas e de uma fúria impiedosa. E, em meio a isso tudo, ela mesma, alguém que ainda está se descobrindo. Mare abaixa o queixo, em um aceno para mim.
Quando abro a porta, só posso ouvi-la inspirando para reunir forças.
— Julian — digo, me afastando para deixar que meu tio entre no quarto.
Ele dá um passo à frente, já falando, com um suéter desbotado vestido de qualquer jeito sobre o pijama. A página na sua mão tem poucas palavras.
— Recebemos a resposta de Maven. — Ele só vacila um pouco ao ver Mare, fazendo o melhor que pode para não deixar que quebre seu ritmo. Limpa a garganta e força um sorriso casual. — Boa noite, Mare.
— Bom dia seria mais apropriado, Julian — ela diz, cumprimentando-o com um aceno de cabeça. Indisposta a oferecer qualquer coisa a mais ou a menos. Mas nossa aparência já diz tudo. Ela com o cabelo ainda bagunçado e eu com nada além de um robe. Julian olha para nós com a mesma suavidade de quando lê um livro. Tem o bom senso de não comentar nada nem abrir um sorriso malicioso.
Ele avança mais para dentro do quarto.
— O que Maven disse?
— Como suspeitávamos, ele concordou — meu tio responde, se recuperando. — Ao amanhecer.
Começo a amaldiçoar minha decisão de marcar o encontro tão cedo. Preferiria fazer isso depois de uma boa noite de sono. Mas é melhor resolver a questão o mais rápido possível.
— Onde? — A voz de Mare sai irregular.
Julian olha para nós.
— Ele escolheu a ilha Province. Não é exatamente território neutro, mas a maior parte da população local partiu, fugindo da guerra.
Cruzo os braços e tento visualizar o lugar. Uma imagem me vem rapidamente. Province fica no extremo norte das Ilhas Bahrn, que se espalham em forma de gancho além da costa. É um pouco parecida com Tuck, a base da Guarda Escarlate. Lar de nada além de dunas e algas.
— É território Rhambos e pequena o suficiente. Se vale de alguma coisa, a escolha está a nosso favor.
Da escrivaninha, Mare zomba. Ela nos analisa como se fôssemos crianças.
— A menos que a Casa Rhambos decida trair você.
— Eu estaria inclinado a concordar, se a família dele não estivesse em jogo. Ou sua própria vida. Lord Rhambos não arriscaria nenhum dos dois — digo. — Province vai servir.
Ela não parece convencida, mas assente mesmo assim. Seus olhos passam para Julian, depois para o papel solitário na mão dele. A cópia da resposta de Maven.
— Ele fez alguma outra exigência?
Julian balança a cabeça.
— Nenhuma.
— Posso ver? — Mare estende a mão num pedido gentil, com a palma virada para cima. Julian obedece sem queixas.
Por um segundo, ela hesita, agarrando o papel entre o dedão e o indicador como se fosse algo sujo. Maven costumava escrever cartas para ela na época em que estávamos operando no Furo, reunindo sanguenovos. Costumava deixá-las em cadáveres. Todas imploravam para que Mare voltasse, prometendo parar o derramamento de sangue. Por fim, ele teve seu desejo atendido. Eu tiraria o papel da mão dela para protegê-la da dor que suas palavras lhe causam, mas ela não precisa de mim para protegê-la. Enfrentou coisa pior sozinha.
Mare então pisca, se preparando para ler a resposta de Maven. As rugas na testa dela se aprofundam enquanto os olhos passam pelas palavras várias e várias vezes.
Olho para Julian.
— Minha avó foi informada?
— Foi — ele diz.
— Ela tem alguma sugestão?
— Quando não tem?
Abro um sorriso torto.
— Verdade.
Julian e minha avó não são exatamente melhores amigos, mas é certo que estão do mesmo lado, ao menos quando se trata de mim. Eles têm um passado juntos — minha mãe —, e isso é o suficiente para os dois. Ao pensar nisso, sinto um frio repentino e não consigo evitar olhar para a gaveta da escrivaninha. Está bem fechada, com o livro longe da vista.
Mas nunca longe da minha cabeça.
Ocean Hill era o palácio favorito da minha mãe. Eu a vejo em todo lugar, mesmo que não tenha lembranças do seu rosto. Só do que vi em fotos ou quadros. Pedi que alguns dos seus retratos fossem pendurados de novo, pelo menos na antessala do meu quarto. Ela usava sempre dourado, mais vibrante do que o amarelo que Julian usa agora. Uma cor digna de uma rainha nascida em uma Casa da alta nobreza, embora ela estivesse longe do convencional.
Ela dormia neste quarto. Respirava este ar. Está viva aqui.
A voz de Julian me puxa de volta das areias movediças da memória.
— Anabel acha que você deveria enviar alguém no seu lugar — ele diz.
Um meio sorriso volta ao meu rosto.
— Tenho certeza de que sugeriu a si mesma.
O rosto dele espelha o meu.
— Sim.
— Vou agradecer a sugestão e recusar cordialmente. Se alguém vai encarar Maven, tem que ser eu. Vou apresentar nossas condições…
— Maven não vai barganhar. — O punho de Mare se fecha, amassando um pedaço da mensagem. O olhar dela lembra seu beijo, devorador.
— Ele concordou com o encontro… — Julian começa, mas ela o corta.
— E isso foi tudo com que concordou. Não vai discutir as condições. Não está nem perto de se render. — Eu me fixo no olhar lívido dela, assistindo à tempestade em seus olhos. Quase espero o estrondo de um trovão no céu. — Só quer nos ver. Ele é assim.
Para minha surpresa, Julian dá um passo temeroso na direção dela. Seu rosto está pálido, toda a cor se foi.
— Ainda assim, devíamos tentar — ele insiste, exasperado.
Mare só pisca.
— E dar a ele a satisfação de nos torturar?
Respondo antes de Julian:
— É claro que vamos encontrar Maven. — Minha voz fica mais grave, mais intensa. — E é claro que ele não vai barganhar.
— Então por que fazer isso? — Mare cospe, lembrando uma das cobras da Larentia Viper.
Tento não rosnar em resposta, mantendo uma aparência de controle e dignidade.
— Porque também quero ver meu irmão. Quero olhar nos olhos dele para ter certeza de que se foi para sempre.
Nem Julian nem Mare, duas das pessoas mais falantes que conheço, têm uma resposta para isso. Ela olha para os pés, as sobrancelhas unidas, enquanto um tom vermelho floresce nas suas bochechas. Pode ser vergonha, frustração ou ambas. Julian só fica mais pálido, branco como um papel. Ele evita meus olhos.
— Tenho que saber que o que a mãe dele fez, seja lá o que for, não pode ser revertido. Preciso ter certeza — murmuro, me aproximando de Mare. Nem que seja só para me acalmar. De repente noto o calor no quarto, se elevando com meu temperamento. — Obrigado, Julian — acrescento, tentando dispensá-lo da forma mais gentil que posso.
Ele entende rápido a deixa.
— É claro. — Meu tio curva a cabeça, mesmo que eu já tenha lhe pedido repetidas vezes para não me reverenciar. — Você já… — Ele se atrapalha com a pergunta. — Leu o que te dei?
A dor de outra perda pessoal se espalha no meu peito. Meus olhos miram a gaveta de novo. Mare segue minha linha de visão, mesmo sem saber do que estamos falando.
Posso contar depois. Em um momento mais apropriado.
— Um pouco — consigo responder.
Julian parece quase desapontado.
— Não é fácil.
— Não, não é. — Não quero mais falar sobre isso. — E se você puder… — gaguejo, gesticulando de leve entre mim e Mare para mudar de assunto. — Você sabe.
Mare ri sozinha, mas Julian fica feliz em concordar.
— Não sei do que está falando — ele diz com um sorriso agradável.
Enquanto caminha de volta para a sala de visitas, acompanho sua figura. Ao passar pelo quadro, ainda apoiado numa cadeira, ele reduz o passo, mas não para. Apenas passa a mão pela moldura, incapaz de dedicar um olhar à irmã.
Eles eram parecidos, a julgar pelo retrato. Olhos inquisidores e cabelo castanho fino. Minha mãe era simples, tinha uma beleza comum. Do tipo em que a maioria não presta atenção. Não tenho muito dela em mim, se é que tenho alguma coisa.
Mas gostaria de ter.
A porta é fechada, e ela e meu tio saem do meu campo de visão.
Lentamente, dedos macios se entranham nos meus, segurando minha mão.
— Ele não pode ser consertado — Mare sussurra, repousando o queixo no meu ombro. Não exatamente em cima, porque ela não o alcança, mas agora não é o momento de provocá-la. Eu me reclino, facilitando para ela.
— Preciso ver com meus próprios olhos. Se vou desistir dele…
Ela segura minha mão mais forte.
— Não existe desistência contra o impossível.
O impossível. Parte de mim se recusa a acreditar nisso. Meu irmão não é uma causa perdida. Não pode ser. Não vou permitir.
— Davidson tentou — sussurro, relutante em falar aquelas palavras em voz alta. Mas é preciso. Tenho que torná-las reais. — Ele procurou. Não há murmuradores sanguenovos.
Ela dá um suspiro longo e arrastado.
— Provavelmente é melhor assim — Mare diz depois de um momento. — No esquema geral das coisas.
Dói saber que está certa.
Metódica, ela apoia as mãos nos meus ombros, me guiando para longe da escrivaninha. Para longe da memória que repousa na gaveta.
— Você deveria dormir — Mare diz com firmeza, me empurrando para a cama. — A exaustão fica melhor em Maven do que em você.
Reprimo um bocejo, ansioso para seguir suas ordens. Com um suspiro, deslizo para debaixo das cobertas. Quando minha cabeça cai sobre o travesseiro, o sono vem quase que instantaneamente.
— Você vai ficar? — murmuro, observando-a pelos olhos semicerrados.
Como resposta, ela rasteja na minha direção, chutando as botas para longe enquanto se aproxima. Então se enfia sob a seda. Eu a observo, sorrindo, e ela encolhe os ombros.
— Todo mundo vai saber mesmo.
Sem pensar, pego a mão dela, entrelaçando nossos dedos na borda do cobertor.
— Julian sabe guardar segredo.
Mare solta uma gargalhada.
— Evangeline, não. Faz parte dos seus planos.
Tenho que rir junto, apesar da exaustão.
— Quem ia imaginar que seria ela quem nos aproximaria de novo?
Ao meu lado, Mare se mexe, tentando achar uma posição confortável. Ela acaba se aninhando em mim, mantendo uma perna livre.
— Ainda que Maven não possa mudar, outras pessoas podem — ela murmura, encostada no meu peito. As vibrações de sua voz me fazem estremecer.
Não preciso de muita concentração para apagar as velas acesas por todo o quarto, nos deixando numa escuridão azul suave.
— Não quero casar com ela.
— Esse nunca foi o meu problema.
— Sei disso — sussurro.
Não consigo dar o que ela quer. Não quando significa trair meu pai, meu direito de nascença e qualquer chance que eu possa ter que fazer a diferença. Mare não concorda, mas posso fazer mais sentado em um trono, com uma coroa, do que de outra forma.
— Depois da conferência, assim que Harbor Bay estiver segura, acho que devemos atacar a Cidade Cinzenta. Com força total. Não pegaremos outra favela desprotegida, não depois de Cidade Nova.
Na escuridão, o toque dos lábios dela me pega desprevenido e levo um susto.
Sinto seu sorriso contra minha pele.
— Obrigada — Mare sussurra, se acomodando de volta.
— É a coisa certa a fazer.
Mas será que estou fazendo pelo motivo errado? Por ela?
E isso tem alguma importância?
— O que Julian deu a você? — ela murmura, meio adormecida. Está tão cansada quanto eu, se não mais. O dia foi muito longo e sangrento.
Pisco na escuridão, olhando para o nada. A respiração dela fica mais lenta e ritmada.
Já está dormindo quando enfim respondo.
— Uma cópia do diário da minha mãe.

36 comentários:

  1. Deve ter algo neste diário que pode mudar as coisas.....

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    1. Conta como a mãe de Malve, murmurou na cabeça da mãe de Cal para ela se matar. Ass: Ray

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  2. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 20:30

    Por motivos que fogem de minha compreensão, algumas garotas — e garotos(?) — irão amar esse capítulo.
    Nem tanto por seu conteúdo, mas pelo narrador.

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    1. Eu sou uma dessas garotas, Peeta.E, de fato, esperava mais do conteúdo.

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    2. eu adoraria ver uma narração de Cal no meio de uma batalha ,teria mais conteúdo .

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  3. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 20:38

    "Sinto uma vibração no fundo do peito. Meu fogo ruge em resposta, implorando para arder livre."

    Descrever essa sensação com palavras mais objetivas, não seria tão poético.Né,Cal?! kkk

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  4. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 20:42

    "Sinto uma vibração no fundo do peito. Meu fogo ruge em resposta, implorando para arder livre."

    Descrever essa sensação com palavras mais objetivas, não seria tão poético.Né,Cal?! kkk

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  5. Peeta, o garoto do pão5 de junho de 2018 20:48

    Você não tem talento para a política, Cal.Se instrua, cara!

    "Mare não concorda, mas posso fazer mais sentado em um trono, com uma coroa, do que de outra forma."

    Faça por merecer a Mare, seu f*****!

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    1. EXATAMENTE !!! Mare entende mais de estratégia e politica do que ele kkkk

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  6. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH MEU CAPÍTULO FAVORITO EVER POR INÚMEROS MOTIVOS<3

    -Narração do meu bb
    -Cal e Mare sendo amorzinhos e terríveis como sempre<3
    -DIÁRIO DA CORIANE AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH
    -Nutshell de MareCal: "Somos uma bagunça, nós dois."

    ENFIM DANE SE O MAVEN NARRA TB QUERO MAIS POV DO CAL

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  7. "Uma cópia do diário da minha mãe."

    Eba! Teremos vislumbres dos pensamentos da Rainha Coriane.

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    1. Esse diário seria A Canção da Rainha, sabe o conto presente em Coroa Cruel?

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    2. Já o li, Karina, mas havia me esquecido. kkk

      Obrigada pela atenção.

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    3. Caramba ,Karina . Tinha esquecido desse detalhe !!

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  8. O coração possui razões que a própria razão desconhece:

    "Porque também quero ver meu irmão. Quero olhar nos olhos dele para ter certeza de que se foi para sempre."

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  9. Como eu ri disso:

    "(...)Mare sussurra, repousando o queixo no meu ombro. Não exatamente em cima, porque ela não o alcança(...)."

    Ser baixinha tem suas desvantagens.
    Que bom que sou alta. kkk

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  10. Respostas
    1. "É cruel dar esperanças quando não há nenhuma."
      Tu não aprendeu essa lição, garota?!

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  11. Cal tem um propósito muito importante nessa trama toda: ele é o coração valente, que vai fazer o que acha ser certo por seus amados e por seus princípios, sem corrupção; diferente dos de Evangeline, que são aparentemente os mesmos, só que sujos de orgulho, status e preconceito. Cal é muito é do fofo! Mas é obtuso quanto ao alcance das tramoias dos outros e não consegue ler todas as entrelinhas, o que o deixa de fato muito vulnerável nisso tudo.

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    1. Análise perfeita, Taiane P. Couto.

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    2. Perfeita mesmo , primeira vez que vejo alguém fazer uma critica de Cal que o definisse tanto .

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    3. Uma analise feita com precisão. Gostei da critica Taiane-chan

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  12. gostei muito de ler na perspectiva de Cal
    mas serio como assim "Mare não concorda, mas posso fazer mais sentado em um trono, com uma coroa, do que de outra forma."
    discordo vc poderia fazer mais casada com Mare
    ASSJanielli

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  13. FINALMENTE, espero que tenha mais capítulos na visão dele , e espero que a mare tenha decidido ficar com ele

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  14. FINALMENTEEEEEE <3 AMEI AMEI AMEI SIMPLESMENTE AMEI OBG KARINA
    ~Diane

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  15. Bem eu precisava saber se tinha POV do Cal tbm. E ainda bem que tem.

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  16. Foi só eu que achei o POV de Marven melhor???

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  17. Simplesmente não acredito que ele vai abrir mão da Mare de tudo que viveram estão vivendo, claro que pode fazer coisas maravilhosas sem ter uma coroa na cabeça a prova disso é o Primeiro Ministro e tudo que mostrou ao Cal e á todos e levou ao seu lar!Mas o Cal se nega a ver a verdade, acho que se ele lesse o Diário da mãe talvez o ajudasse a enxergar as coisas diferente pois a mãe sofreu tanto. Acho que o Julian lhe entregou com esse intuito de tentar abrir seus olhos para a verdade!! Juro achei que ele fosse escolher a Mare mas mais uma vez parece que errei feio. E sobre o Maven até posso entender não querer desistir do único irmão e que ainda ama apesar de tudo mas ao mesmo tempo esta se colocando em risco e a Mare também, pois Maven nunca jogara limpo! DM

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  18. A narração de Cal foi a minha favorita neste livro. Acho que seria legal a Victoria escrever um contendo algumas cenas importantes da saga com POV do Cal e do Maven. Eu com certeza compraria!
    Ass.: Cristal Mermaid

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  19. Lembram q a Coriane n queria q o Cal fosse soldado??
    Só esperando ele ler isso

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  20. Até que enfim um capítulo do Cal!!!
    *Primeiro comentário, depois de dois anos curtindo o blog. Obrigada Karina!
    *Interior do Paraná

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    1. Bem-vinda aos comentadores então :3 De nada!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!