2 de junho de 2018

Capítulo vinte e sete


Evangeline

A SALA DO TRONO PARECE VAZIA sem os vermelhos, mais fria de alguma forma.
Anabel é burra de pensar que podemos coroar Cal amanhã mesmo. Ela é afoita demais. Ninguém pode ser coroado rei de Norta fora da capital, e vai levar pelo menos alguns dias para estabilizar Harbor Bay antes de partir para Archeon. Além disso, é preciso lidar com as Grandes Casas que eram leais a Maven. Os nobres vão ter que se ajoelhar, jurar fidelidade a Cal, e então comparecer à coroação, para que o país possa se recompor. Não digo nada disso, claro. Eles que se deem conta sozinhos. Um rei instável dificilmente terá tempo de se casar.
Para meu azar, ele conta com Julian Jacos, e o lorde cantor é mais hábil na política do que seria de imaginar. Ele contradiz Anabel ao sugerir que esperem uma semana para realizar a coroação. Cal tem o maior prazer em seguir seu conselho, nesse e em outros assuntos.
Agora, Cal está afundado no trono, parecendo exausto pela batalha e pelo que aconteceu depois. Especialmente pelo que aconteceu depois. A todo momento, ele olha para a porta, desejando que Mare retorne. Mas já faz quase uma hora. Ela e seus companheiros devem estar longe a essa altura, em sua fuga para as montanhas distantes de Montfort. A família dela está lá, esperando. Mare deve estar feliz de voltar para eles. Queria poder fazer o mesmo e fugir para Rift.
Ou para Montfort, uma voz sussurra. Imagens surgem na minha cabeça, do primeiro-ministro com seu marido à mesa de jantar. De mãos dadas, relaxados e seguros de si. Livres para ser quem são. Massageio a têmpora, tentando me livrar da dor constante na cabeça. Tudo parece impossível agora.
Elane não está na sala do trono, mas está por perto. Ela fez a jornada com meus pais e chegou hoje à tarde. Estou louca para me livrar deste conselho e passar algumas horas com ela. Não sei quantas ainda me restam.
— Vou comunicar a notícia — Julian diz com as mãos cruzadas, ao lado de Cal. Sem os vermelhos aqui, a plataforma elevada da sala do trono fica tão inclinada que chega a ser engraçado. — Os nobres das Grandes Casas serão convocados à capital em uma semana. Você vai esperá-los, feliz em recebê-los. Depois, podemos coroá-lo rei. — Ele não parece muito animado.
Cal mal move a cabeça. Só quer que isso acabe logo. Não nota Anabel, com os olhos cor de bronze fixados em Julian. Ambos querem agradar ao rei, se manter em suas graças, como crianças disputando a atenção do pai. Eu apostaria em Anabel. Ela tem mais estômago para a corte. E a coragem de eliminar quem quer que possa ameaçar seu controle sobre o neto.
Suspiro em silêncio, exausta só com a ideia de uma vida acorrentada a Cal. Antes o poder de ser rainha me animava. Gosto de pensar que Elane me mudou, mas eu já a amava, até quando dizia a mim mesma que ela não passava de um fantoche, como Sonya Iral, uma dama prateada disposta a fazer minha vontade e apoiar minhas maquinações. Acho que a guerra fez alguma coisa comigo. Meteu um medo em mim que nunca tive. Não por mim mesma, mas por Ptolemus e Elane. Aqueles que mais amo, que mataria para proteger. Eu sacrificaria tudo para mantê-los seguros e próximos. Já tive um gostinho da coroa, e sei que não se compara.
Meu pai não pensa o mesmo, tampouco permitiria que abandonasse minhas obrigações.
Não mencionei minhas suspeitas sobre a última parte do acordo de Anabel e Julian. Posso estar enganada. Talvez a rainha Cenra e Iris estivessem dispostas a entregar um rei em troca de uma única gota de vingança, ficando satisfeitas com Salin Iral.
Você sabe que isso não é verdade.
Elas não são idiotas. Não pagariam um preço tão alto por uma recompensa tão pequena.
E a verdadeira recompensa é meu pai.
Olho para ele de soslaio, notando a postura de seus ombros, altivos e firmes sob as curvas de sua armadura de cromo, tão polida que consigo ver meu reflexo nela. Pareço assustada, meus olhos arregalados se movendo de um lado para o outro, rodeados de maquiagem escura para esconder as olheiras. Lutei bem ontem, o bastante para garantir minha sobrevivência e a do meu irmão quando tantos de nós morreram. Meu pai não disse uma palavra sobre isso. Nada que indicasse que está feliz porque seus filhos, e seu legado, sobreviveram. Volo Samos é rígido como o aço de que viemos, cheio de arestas afiadas. Até sua barba é bem cuidada e aparada numa perfeição milimétrica. Herdei sua cor, seu temperamento e sua ambição. Mas agora desejo coisas diferentes. Ele quer poder, o máximo que conseguir. Eu quero liberdade. Quero ser dona do meu próprio destino.
Quero o impossível.
— Agora, quanto ao casamento real… — Anabel começa, e não suporto mais.
— Com licença — interrompo, sem me dar ao trabalho de olhar para qualquer um deles antes de sair. Sinto que estou me rendendo. Mas ninguém me detém, nem mesmo meu pai. Ninguém diz uma palavra.
Mal termino de subir a grande escadaria quando minha mãe corta meu caminho. Vestida de verde-claro, ela quase sibila de raiva, parecendo uma de suas serpentes. Nunca vou entender como uma mulher tão pequena pode dominar todo um corredor.
— Oi, mãe. Não precisa se preocupar, estou bem. Não sofri nem um arranhão — murmuro.
Ela ignora o cumprimento. Assim como meu pai, não se importa, ou não se preocupa, que eu tenha enfrentado a morte ontem.
— É inacreditável, Evangeline — ela me repreende, pousando as mãos cobertas de joias nos quadris. Seu nariz se contorce um pouco, e posso ver que não tenho sua atenção total. O resto está num rato que continua espionando o conselho. — Consegue escalar as muralhas do Forte Patriota, mas uma simples reunião é demais para você?
Estremeço, tentando não pensar na batalha. Com certo esforço, afasto a lembrança.
— Não gosto de perder tempo — digo com desdém.
Ela revira os olhos como só as mães sabem fazer.
— Discutindo sobre seu próprio casamento?
— Não há o que discutir — escarneço. — Minha opinião não importa, então de que adianta estar presente? Além do mais, Tolly vai me contar tudo depois. Tudo o que meu pai comandar. — A última palavra tem um gosto amargo.
Minha mãe parece prestes a dar o bote, tensa e perigosa.
— Você age como se fosse uma punição.
Levanto a cabeça. Todo o meu corpo e o aço do meu vestido ficam tensos com a raiva.
— E não é?
Ela reage como se eu tivesse lhe dado um tapa e insultado toda a sua linhagem.
— Não te entendo! — minha mãe diz, erguendo as mãos. — É isso o que você quer, aquilo por que trabalhou a vida inteira.
Só me resta rir da cegueira dela. Não importa com quantos olhos minha mãe veja, nunca vai ser através dos meus. Meu riso a incomoda. Olho para sua testa, para sua trança cravejada de pedras preciosas. Ninguém pode dizer que Larentia Viper não representa bem o papel de rainha. Tanta confusão por isso.
— A coroa combina com você, mãe — suspiro.
— Não mude de assunto, Eve — ela diz, exasperada, enquanto corta a distância entre nós. Com todo o afeto que consegue, ela toca meus braços, como se fosse me abraçar. Permaneço imóvel, paralisada. Devagar, seus dedos sobem e descem pelos meus braços, acariciando minha pele nua. A imagem é quase maternal, muito mais do que estou acostumada. — Está quase acabando, querida.
Não, não está.
Determinada, escapo de suas mãos. O ar é mais quente que seu toque, reptiliano de tão frio. Ela parece magoada pela distância súbita, mas se mantém firme.
— Vou tomar um banho — digo. — Mantenha seus olhos e ouvidos longe de mim enquanto faço isso.
Minha mãe aperta os lábios. Não promete nada.
— Tudo o que fazemos é pelo seu bem.
Viro para ir embora, meu vestido silvando atrás de mim enquanto me afasto.
— Continue tentando se convencer disso.
Quando volto aos meus aposentos, minha vontade é de quebrar alguma coisa, um vaso, uma janela, um espelho. Vidro, não metal. Quero estilhaçar algo que eu não tenha como recompor. Resisto ao impulso, principalmente porque não quero limpar a bagunça depois. Ainda restam criados vermelhos em Ocean Hill, mas são poucos. Apenas aqueles que quiserem continuar a servir em troca de uma remuneração vão permanecer no palácio, e o mesmo vale para o resto do país.
Penso nas repercussões da decisão de Cal. Em quanta coisa vai mudar. A igualdade vermelha implica consequências profundas, e não só na arrumação do meu quarto.
Vou abrindo as janelas conforme avanço pelo quarto. O fim de tarde aqui é sempre bonito, tomado pela luz dourada e pela brisa perfumada do mar. Tento encontrar algum consolo nisso, mas só sinto raiva. O lamento agudo das gaivotas parece me provocar. Considero atingir uma, só para treinar a mira. Em vez disso, ergo as cobertas macias da cama para me deitar. Um cochilo é melhor do que um banho. Só quero que esse dia acabe logo.
Minha mão encontra um papel no meio da seda.
O bilhete é breve, escrito numa letra rebuscada e apertada. Nada como a cursiva elegante e ostentosa de Elane. Não reconheço a caligrafia, mas nem preciso.
Pouquíssimas pessoas me mandariam bilhetes secretos, e menos ainda conseguiriam acesso à minha cama. Meu coração acelera no peito e prendo a respiração.
Temos razão de chamar a Guarda Escarlate de ratos. Talvez seus membros vivam dentro das paredes mesmo.

Desculpe por não poder lhe fazer este convite pessoalmente, mas as circunstâncias não permitem. Abandone Norta. Abandone Rift. Venha a Montfort. Concessões serão feitas a você e a Lady Elane. Serão bem-vindas nas montanhas, livres para viver como quiserem. Deixe essa vida vazia para trás. Não se submeta a esse destino. A escolha está em suas mãos, nas de ninguém mais. Não pedimos nada em troca.

Quase amasso o bilhete de Davidson diante de sua falsidade descarada. Nada em troca. Minha simples presença é uma dádiva. Sem mim, a aliança de Cal com Rift ficará em risco. Ele poderia perder seu único aliado. Então Davidson e a Guarda Escarlate teriam o rei sob seu controle.

Se aceitar meu convite, peça uma xícara de chá. Tomaremos conta do resto.
D

As palavras ardem, gravando-se na minha mente. Eu as encaro pelo que parecem horas, embora sejam apenas alguns minutos.
A escolha está em suas mãos. Nada poderia estar mais longe da verdade. Meu pai vai me perseguir até os confins da terra, não importa quem tente impedi-lo. Sou seu investimento, parte de seu legado.
— O que você vai fazer? — uma voz familiar pergunta, mais doce que uma canção.
Elane surge do outro lado do quarto, contra a luz da janela. Continua linda, mas sem nada de seu brilho. A visão me faz sofrer.
Olho para o bilhete na minha mão.
— Não há nada que eu possa fazer — murmuro. — Se… — Não consigo sequer dizer as palavras em voz alta, nem mesmo para ela. — Só pioraria as coisas. Para mim e para você.
Ela não se move, por mais que eu queira que atravesse o quarto. Seus olhos continuam distantes, fixos na cidade e no oceano.
— Acha mesmo que as coisas podem piorar ainda mais para mim?
Seu sussurro, frágil e suave, parte meu coração.
— Meu pai ia me matar, Elane. E você, se pensasse… se soubesse como fico tentada por isto — digo, apertando o bilhete.
E Tolly? Não posso deixá-lo sozinho, o único herdeiro de um reino pequeno e precário. As letras do bilhete parecem se turvar e se embaralhar.
Estou chorando, percebo com um choque nauseado.
Lágrimas grossas caem uma a uma no papel. A tinta escorre, azul e úmida.
— Evangeline, não sei por quanto tempo posso continuar vivendo assim. — A admissão é simples, direta. Seu rosto se contrai.
Preciso desviar os olhos. Devagar, levanto da cama e passo por ela. Seu cabelo ruivo reluz na minha visão periférica.
Elane não me segue até o banheiro, me deixando pensar.
Com as mãos trêmulas e as lágrimas rolando, faço o que disse à minha mãe que ia fazer. Me arrasto até a banheira e afundo o bilhete na água. Deixando as palavras, a oferta e nosso futuro se afogarem.
Enquanto deito na água quente, sinto nojo de mim mesma, da minha covardia, de toda a podridão na minha vida. Jogo a cabeça para trás e mergulho, deixando a água da banheira substituir as lágrimas ainda frescas em meu rosto. Submersa, abro os olhos para ver o estranho mundo ondulante além da superfície. Expiro devagar, observando as bolhas flutuarem e estourarem. Concluo que posso fazer uma coisa, e apenas uma, em relação a tudo isso.
Posso manter a boca fechada.
E deixar que Julian e Anabel sigam em frente com seus jogos.


Meu cabelo ainda está úmido na hora do jantar, enrolado numa espiral na base do pescoço. Meu rosto está limpo. Sem maquiagem, sem pintura de guerra. Não há necessidade dos ornamentos habituais entre família, embora minha mãe pareça discordar. Ela está vestida para um jantar formal, ainda que sejamos apenas nós cinco no salão dos aposentos do meu pai. Minha mãe cintila como sempre, usando um vestido de mangas longas e gola alta em um tecido preto que reluz em tons de roxo e verde. Ela usa a coroa e o cabelo trançado. Meu pai pode prescindir da sua. É intimidador independente do que use. Assim como Ptolemus, está com uma roupa simples sem adornos, em nosso preto e prata. Elane parece serena ao lado dele, seus olhos secos e vazios.
Remexo a comida em silêncio, como fiz com os dois pratos anteriores. Meus pais falam o suficiente por todos nós, embora Ptolemus faça comentários de vez em quando. Ainda me sinto nauseada, com a barriga revirando de mal-estar. Por causa dos meus pais e do que querem de mim, por causa do quanto estou magoando Elane, por causa do que estou fazendo. Posso estar condenando meu pai com meu silêncio. E seu reino. Mas não consigo dizer as palavras em voz alta.
— Acho que as cozinhas de Ocean Hill estão sofrendo com as proclamações do jovem rei — minha mãe comenta, revirando a comida no prato. As refeições antes deliciosas foram substituídas por uma comida simples e insossa. Frango sem tempero acompanhado por verduras e batatas cozidas, com um molho aguado.
Um prato simples que qualquer um poderia preparar. Até mesmo eu. Imagino que os cozinheiros vermelhos do palácio já tenham partido.
Meu pai corta um pedaço de frango, seu movimento agressivo e duro.
— Não vai durar — é tudo o que ele diz, as palavras escolhidas com cuidado.
— O que te leva a pensar isso? — Tolly, o estimado herdeiro, tem o privilégio raro de questionar nosso pai sem nenhuma consequência.
Não que isso o faça responder. Meu pai não diz nada, continuando a mastigar a carne insípida com uma careta.
Eu respondo em seu lugar, tentando fazer meu irmão enxergar o que vejo.
— Ele vai pressionar Cal como puder. — Aponto para meu pai. — Provar que o país precisa da mão de obra vermelha de alguma forma.
Meu querido Tolly franze a testa, pensativo.
— Ainda vai haver mão de obra vermelha. Eles também precisam comer. Com salários justos…
— E quem vai pagar por esses salários? — minha mãe interrompe, olhando para Tolly como se ele fosse um imbecil. É estranho vindo dela, que o mima na maior parte do tempo, mais do que a mim. — Nós não. — Ela continua e continua, cortando a comida com movimentos tensos e impetuosos, à velocidade de um coelho. — Não é certo. Não é natural.
Repasso as parcas proclamações na minha cabeça. Anunciadas e aplicadas imediatamente. Salários justos, liberdade de ir e vir, punição e proteção igualitária sob a lei prateada, e…
— E quanto ao recrutamento? — pergunto em voz alta.
Minha mãe bate na mesa.
— Mais uma insensatez. É um bom incentivo. Trabalhe ou sirva. Sem a segunda opção, por que alguém escolheria a primeira?
É uma conversa em círculos. Respiro fundo. Do outro lado da mesa, Elane me lança um olhar de alerta. É óbvio que não me agrada a falta de criados, e sei que o novo mundo que Cal quer construir vai resultar em um grande motim, sobretudo entre os prateados acostumados à sua posição tradicional. Isso não vai durar. Não tem como durar. Os prateados não vão permitir. Mas permitem em Montfort. Como Davidson disse, o país dele foi criado a partir de um país como o nosso.
Lembro de outra coisa que ele disse, apenas para mim, nas montanhas. Davidson chegou perto demais, sussurrou rápido demais. Mas suas palavras me atingiram em cheio. Então o que deseja lhe é negado por causa de quem é. Uma escolha que não foi sua, uma parte de você que não pode mudar. E que não quer mudar.
Nunca me considerei semelhante aos vermelhos, em nenhum aspecto. Nasci em berço de prata, sou filha de um homem poderoso, cheio de conquistas. Fui feita para ser rainha. E seria uma, não fosse pelo desejo em meu peito, pelas estranhas mudanças na minha natureza que estou apenas começando a entender. Davidson estava certo em Montfort. Assim como os vermelhos, sou diferente daquilo que o mundo exige de mim. E não sou pior por causa disso.
Por baixo da mesa, Ptolemus pega minha mão, seu toque suave e passageiro. Sinto um rompante de amor pelo meu irmão, e outro de vergonha.
Uma última chance, então.
— Suponho que Elane vá conosco para Archeon — digo em volta alta, olhando para meus pais. Eles trocam um olhar incisivo, que conheço bem e de que não gosto. Elane baixa os olhos, fitando as mãos sob a mesa. — Ela vai ter que se apresentar junto ao resto de sua Casa para jurar lealdade — explico friamente, apresentando um argumento sólido o bastante.
Mas não para minha mãe. Ela põe o garfo no prato, e o metal produz um tinido sobre a porcelana.
— A princesa Elane é esposa do seu irmão — diz, enfatizando as palavras, que soam como pregos riscando vidro. Parece até que Elane não está na sala. Seu tom me faz ranger os dentes. — E seu irmão, assim como o resto da nossa família, já se provou leal ao rei Tiberias. Não é necessário que faça a longa jornada. Ela vai voltar para a mansão Ridge.
Um rubor tinge as bochechas de Elane. Ainda assim, ela morde a língua, sabendo que é melhor não lutar essa batalha sozinha.
Solto um suspiro exasperado. Longa jornada. Que monte de…
— Bom, como princesa de Rift, Elane deve estar presente na coroação. Para mostrar ao reino quem somos. As fotos e gravações vão ser transmitidas em todo o Rift, além de Norta. Nosso reino deve conhecer sua futura rainha, não? — Meu argumento é frágil, na melhor das hipóteses, e soa tão desesperado quanto me sinto. Odeio lembrar a todos, sobretudo a mim mesma, o título de Elane, porque ele vem do meu irmão, e não de mim.
— A decisão não cabe a você.
Quando eu era criança, o olhar fixo do meu pai me calava na hora. Às vezes eu fugia dele, o que só significava castigos piores. Por isso, aprendi a encará-lo de volta, apesar do medo. A olhar nos olhos do que me apavora.
— Ela não pertence a você nem a ele — eu me ouço rosnar, soando como um dos felinos da minha mãe.
Não sei por quanto tempo posso continuar vivendo assim, ela me disse antes.
Nem eu.
Ela range os dentes furiosamente, sem poder falar.
Tolly se inclina para a frente, como se pudesse me defender de nossos pais.
— Eve… — ele murmura, para acabar com a discussão antes que as coisas piorem.
Minha mãe joga a cabeça para trás e ri, produzindo um som horrendo e abrupto. É como se cuspisse na minha cara; me sinto desprezada, diminuída por alguém que deveria me amar.
— E ela pertence a você por acaso, Evangeline? — minha mãe diz, ainda rindo.
Tenho vontade de dar um tapa na cara dela.
O medo em mim se transforma em raiva, o ferro vira aço.
— Pertencemos uma à outra — respondo, tomando um gole de vinho à força.
Os olhos de Elane se voltam para os meus. Seu olhar arde em meu corpo.
— Nunca ouvi algo tão ridículo na minha vida — minha mãe zomba, empurrando o prato de lado. — Isso aqui é impossível de comer.
Mais uma vez, meu pai me encara.
— Não vai durar — ele diz, e concluo que se dirige a nós duas.
Imitando minha mãe, empurro meu prato de comida intocado.
— Veremos — murmuro comigo mesma. Estou farta disso. De tudo.
Antes que possa deixar a mesa, sair correndo pela segunda vez no dia, Anabel Lerolan entra na sala, seguida por seus guardas. Nem mesmo ela teria a presunção de enfrentar a família Samos sem proteção.
— Mil perdões pela interrupção — a mulher diz rápido, acenando com a cabeça. Sua coroa cintila, refletindo a luz fraca com um brilho ardente.
Diante da rainha Anabel, minha mãe logo assume o papel de rainha Larentia. Ela melhora a postura já impecável, endireitando a coluna e baixando os ombros. Com um olhar imperioso, vira-se para a avó de Cal.
— Imagino que tenha um motivo.
A rainha Lerolan faz que sim.
— Maven Calore não está mais entre nós.
Ao meu lado, Ptolemus solta o ar. Ele quase sorri. Meus pais também, aliviados por finalmente se livrar do antigo rei. Eu queria poder ter visto com meus próprios olhos a vida do menino monstruoso que nos atormentou por tanto tempo ser extinta.
Meu irmão é o primeiro a falar, virando-se para encarar Anabel.
— Cal o executou com as próprias mãos?
A expressão de Anabel fica dura.
— O que quero dizer é que ele não está mais neste palácio.
Sinto uma leve pressão, o apertar lento dos meus braceletes, mais tensos nos meus punhos. Sobre a mesa, os talheres começam a tremer. Não com a minha raiva, ou a de Ptolemus, mas a do meu pai. Ele cerra um punho sobre a mesa, fazendo as facas e garfos se curvarem.
Meu pai estreita os olhos.
— Ele escapou?
Improvável, mas não impossível. Muitos prateados ainda são leais, inclusive parte da Casa Haven. Poderiam entrar no palácio facilmente, soltá-lo e levá-lo às escondidas. As possibilidades passam pela minha mente. O envolvimento dos Haven seria a pior opção. Porque Elane poderia sofrer as consequências.
Anabel nega, sua expressão mais grave a cada segundo que passa.
— Não foi isso — ela sussurra, furiosa.
Minha mãe inspira fundo.
— Então…
Completo o pensamento por ela.
— Ele foi levado.
A velha rainha retorce os lábios.
— Sim.
— Pelos vermelhos — murmuro.
Por um momento, acho que Anabel vai estourar. Então ela mostra os dentes.
— Sim.


Está escuro lá fora quando chegamos aos aposentos de Cal, nos aglomerando na grande sala de visitas onde nos reunimos ontem. Ele anda de um lado para o outro furiosamente, ainda vestindo suas insígnias da corte, incluindo a coroa de ouro rosé. Rodeia seu tio Julian, empertigado em uma das cadeiras com os braços e as pernas cruzados. Uma mulher está apoiada atrás dele, as mãos pálidas plantadas nos ombros estreitos de Julian. Sara Skonos, a curandeira de pele. Não abre a boca, deixando os dois falarem enquanto considera o que ouve.
— A intenção é bem óbvia — Julian se interrompe quando entramos. — Duas reuniões do conselho em um único dia, quanta honra — ele diz então, seco. — Rainha Larentia, é interessante vê-la.
Em vez de olhar feio para o lorde cantor, minha mãe abre o sorriso mais afetado de que é capaz. O efeito é o mesmo.
— Lord Jacos — ela cumprimenta, mantendo distância.
Fico grata por Elane não estar conosco, tendo voltado aos meus aposentos. A presença dela apenas aumentaria a tensão de uma situação já complicada.
Meu pai não perde tempo, voando para uma cadeira como uma ave de rapina que encontra um poleiro. Ele encara Cal, que continua a andar de um lado para o outro.
— Então seu irmão está em mãos inimigas.
Do outro lado do salão, Julian aperta os lábios.
— “Inimigas” é uma palavra muito forte.
— Eles não estão mais do nosso lado — meu pai responde, sem se importar em controlar o tom de voz. — Roubaram um refém valioso. Isso faz de Montfort e da Guarda Escarlate nossos inimigos.
Ainda andando em círculos, Cal leva a mão ao queixo e olha para o meu pai.
— E o que propõe que façamos, rei Volo? — ele pergunta. — Quer que eu pegue nossos exércitos, ainda em recuperação, e ataque uma nação distante para recuperar um adolescente inútil e destruído? Acho que não.
Quase posso ver os pelos da nuca de meu pai se eriçarem. Ele cerra os dentes.
— Enquanto Maven respirar, é uma ameaça a Norta.
Cal concorda rápido, gesticulando com a mão aberta.
— Nisso podemos concordar.
Normalmente, qualquer desestabilização do reinado iniciante de Cal seria motivo de celebração, mas acho difícil me alegrar agora. Sento numa cadeira, me recostando e bufando.
— A maioria das Grandes Casas ainda vai jurar lealdade a você — falo mais para mim mesma, ainda que em voz alta. — Elas sabem que ele está acabado.
Cal estala a língua de maneira muito irritante. Eu me imagino cortando-a de sua boca.
— Não é o suficiente. Precisamos de uma nação unida para rechaçar os soldados de Lakeland e Piedmont.
Anabel fecha a porta atrás de nós e atravessa a sala para ficar ao lado do neto. Sua pose inabalável me cansa.
— Aqueles ratos malditos mal podem esperar que matemos uns aos outros para que possam se alimentar dos nossos cadáveres.
Ergo os olhos para ela com escárnio, pensando em quando Anabel chegou a Rift. Na época, prometeu que qualquer aliança com os vermelhos seria passageira e que Norta como conhecíamos logo retornaria às suas tradições.
— Se não estou enganada — digo com a maior inocência possível —, nosso plano não era fazer o mesmo?
Ela me olha com repulsa, e Cal volta a andar. Ele passa entre nós, me protegendo por um momento. Encontro seus olhos e os encaro por um segundo. Não posso falar, mas tento comunicar o que for possível. Ele não confia em mim, não gosta de mim, e sinto o mesmo por ele. Mas precisamos um do outro agora, por mais que detestemos a ideia.
Cal se vira, voltando a encarar meus pais.
— Não podemos perder de vista o verdadeiro perigo. Os soldados de Lakeland vão voltar, com força total e apoio de Piedmont.
— Vai saber o que elas prometeram a Bracken pela ajuda dele… — Anabel pragueja.
No sofá, minha mãe não consegue segurar seu desprezo.
— Bom, para começo de conversa, não foram elas que se aliaram aos sequestradores dos filhos dele — ela diz friamente, examinando as unhas.
Quase acho que a rainha Lerolan vai pular em cima de minha mãe, mas ela não se move.
Meu pai intervém, com a voz branda.
— Somos mais do que capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo, rei Tiberias.
Cal responde com sua chama habitual.
— Não vou lutar duas guerras, Volo. Tampouco você.
A ordem paira no ar, espantando a todos. Até minha mãe se retrai, olhando para meu pai com medo. Do que ele vai fazer, de como vai reagir a tamanho desrespeito.
Os dois reis se encaram. O contraste é assombroso. Cal é jovem, um guerreiro experiente, mas um político desajeitado. Movido por amor, paixão, pela chama que sempre arde dentro dele. Meu pai é letal com armas e palavras. E é infinitamente mais frio, uma estátua calculista, seu coração nada além de um vácuo imenso.
Isso pode dar um fim em tudo. Separar Rift de Norta e me levar embora junto.
Mas não, meu pai nunca faria uma coisa dessas. Ele tem seus próprios planos, que mal consigo sondar. E dependem de manter Cal no trono.
Então fala devagar, como se estivesse se contendo.
— Não estou falando de uma guerra contra Montfort ou contra os bandidos vermelhos que conspiram com eles. — Meu pai apoia as mãos abertas nos joelhos, exibindo seus vários anéis e braceletes, todos letais sob seu comando. — Mas ponha o dedo na ferida. Tome de volta o que pensam ter conquistado aqui. Seja um rei prateado, um rei para seu povo.
O lorde cantor é o primeiro a falar. Me preparo para a voz dele, sempre com medo.
— O que está sugerindo?
Meu pai não se digna a olhar para Julian.
— Suas proclamações vão enfraquecer este país — ele diz a Cal. — Retire-as.
Para minha surpresa, Julian ri de forma descarada. O som é estranhamente afável, um tipo suave de gargalhada. Não estou acostumada a isso.
— Desculpe, majestade, mas meu sobrinho não pode revogar o que fez hoje. Não seria uma demonstração de força e seria indigno de um rei.
Meu pai se vira, fixando o peso total de seu olhar em Julian.
— É uma punição adequada para a traição dos vermelhos.
Isso atinge Cal.
Eu governo em Norta, não você — ele diz, com cuidado para falar o mais claramente possível. — Nem ninguém mais aqui — acrescenta, lançando um olhar incisivo para seu tio e sua avó. — As proclamações se mantêm.
A resposta do meu pai é rápida.
— Não no meu reino.
Assim como minha mãe, me retraio quando Cal dá um passo à frente, diminuindo a distância até meu pai. É quase um desafio.
— Que seja — ele diz entre os dentes.
Os dois se encaram mais uma vez, sem piscar, sem desviar os olhos. Queria poder dar um empurrão em ambos. Acabar com tudo de uma vez por todas.
Anabel intervém antes que um dos lados interrompa o contato visual. Ela entra habilmente entre eles, pousando a mão no ombro de Cal.
— Vamos retomar o assunto pela manhã, quando estivermos com a cabeça mais fria e tivermos uma perspectiva melhor da situação.
Atrás deles, Julian se levanta, ajeitando suas vestes.
— Concordo, majestade.
Minha mãe também ouve a voz da razão, e faz sinal para Ptolemus segui-la. Levanto com eles, exausta. Apenas meu pai permanece sentado. Ele se recusa a ceder.
Cal está menos inclinado a participar de joguinhos. Ele vira, dispensando todos com um aceno desinteressado.
— Muito bem, vejo todos vocês pela manhã. — Então ele para e olha para trás. Não para meu pai, mas para mim. — Na verdade, Evangeline, posso ter uma palavrinha com você? — Pisco, dissimulada. O resto da sala não poderia parecer mais confuso. — Em particular.
Devagar, volto a sentar enquanto as pessoas saem. Inclusive meu pai, a passos largos, e o resto da minha família. Apenas Ptolemus olha para trás, me encarando por um momento. Faço sinal para ele ir. Vou ficar bem; meu irmão não tem por que se preocupar comigo aqui.
Julian não demora para atender aos desejos do sobrinho, mas Anabel permanece.
— Posso ajudar de alguma forma? — ela pergunta, alternando o olhar entre nós.
— Não, vovó Anabel — Cal responde. Ele caminha com ela, guiando-a habilmente em direção à porta. A mulher percebe sua intenção com um retorcer amargurado dos lábios, mas abaixa a cabeça. Ele é seu rei, e ela deve obedecer.
Quando a porta se fecha, relaxo um pouco a postura. Cal hesita, de costas para mim, e eu o escuto soltar o ar trêmulo.
— Coroas são pesadas, não? — digo a ele.
— Sem dúvida. — Relutante, Cal se vira. Sem a pressão de se apresentar para o conselho e sua família, ele relaxa também. Exausto, prestes a desabar.
Ergo uma sobrancelha.
— Valem o preço?
Cal não responde, caminhando em silêncio até a cadeira em frente à minha. Ele recosta o corpo, com uma perna dobrada e a outra esticada. Ouço seu joelho estalar.
— A sua vale? — ele pergunta, apontando para minha cabeça vazia. Não há nenhuma agressividade em suas palavras. Ele está cansado demais para brigar comigo.
E eu não vejo utilidade em brigar com ele agora.
— Não, creio que não — murmuro.
A admissão o surpreende.
— Planeja fazer algo a respeito? — Cal pergunta, com esperança na voz.
Meu plano é não fazer nada, penso comigo mesma.
— Não há muito que eu possa fazer — digo. — Não com ele segurando minha coleira. — Cal sabe a quem me refiro.
— Evangeline Samos em uma coleira. — Ele finge um sorriso maldoso. — Parece impossível.
Não tenho energia para corrigi-lo.
— Queria que fosse verdade.
É tudo o que consigo dizer.
Cal passa a mão no rosto, fechando os olhos com força por um momento.
— Eu também.
Os lamentos dos homens nunca deixam de me espantar.
— Que coleira poderia haver no rei de Norta? — pergunto com escárnio.
— Não são poucas.
— Foi você quem se colocou nessa situação. — Encolho os ombros, sem conseguir sentir nenhuma compaixão pelo jovem à minha frente. — Eles te deram uma escolha antes de partir, uma última chance de mudar as coisas.
Cal se eriça, se inclinando para a frente apoiado nos cotovelos.
— E o que teria acontecido se eu tivesse feito o que queriam? Se tivesse jogado essa coisa infernal fora? — Para ilustrar o argumento, ele pega a coroa e a joga de lado com um estrondo. Que dramático. — Caos. Revoltas. Outra guerra civil. E definitivamente uma guerra com seu pai. Talvez com minha própria avó também.
— Talvez.
— Ah, não venha com essa, Evangeline — ele retruca, começando a perder a calma. — Pode ficar aí e me culpar por todos os seus problemas se quiser, mas não aja como se não fosse responsável por eles.
Sinto meu rosto esquentar.
— Como é que é?
— Você também tem uma escolha, mas prefere ficar aqui.
— Porque tenho medo, Cal — sussurro, embora minha vontade seja de gritar.
Isso o acalma um pouco. É como uma compressa fria em uma queimadura recente.
— Eu também — ele diz, sua voz ecoando a dor da minha.
Sem pensar, digo o que realmente sinto.
— Sinto falta dela.
Ele responde no mesmo tom.
— Eu também.
Estamos falando de duas pessoas diferentes, mas o sentimento é o mesmo. Cal abaixa os olhos, como se envergonhado pelo amor que sente por alguém que não pode ter. Sei como é essa agonia. Essa âncora. Mais cedo ou mais tarde, vai nos afundar.
— Se eu te contar uma coisa, promete guardar segredo? — murmuro. Eu me debruço também, até poder pegar as mãos dele se quisesse. — Inclusive de Julian e Anabel. Especialmente deles, aliás.
Cal ergue os olhos para examinar os meus, à procura de um truque. Esperando pela armadilha dos Samos que acha que estou prestes a montar.
— Sim.
Lambo os lábios e falo antes que meu cérebro possa me impedir.
— Acho que eles vão matar meu pai.
Cal pestaneja, confuso.
— Não faz sentido.
— Bom, não vão matar eles próprios, mas… — Pela primeira vez na vida, pego a mão de Tiberias Calore e não detesto a sensação. Aperto seus dedos com firmeza, tentando fazer com que entenda. — Acha mesmo que Cenra e Iris trocariam Maven por alguém como Salin Iral?
— Não, não acho — Cal murmura. Ele aperta minha mão, com mais força do que eu estava usando. — E com seu pai morto…
Aceno, vendo que segue minha linha de raciocínio.
— Rift morre com ele — digo. — Retorna ao domínio de Norta. Ptolemus não vai ter coragem de travar uma guerra com nosso pai morto. Por melhor que seja em lutar, não foi feito para isso.
— Isso eu acho difícil de acreditar — Cal zomba, com um tom diferente. Então seus olhos mudam, as sobrancelhas se unem e se soltam de uma vez. Ele entende. — Você não contou isso para os seus pais, contou?
Faço que não.
Ele fica boquiaberto.
— Evangeline, se estiver certa…
— Vou deixar que ele morra, eu sei — murmuro, com raiva de mim mesma. Puxo a mão, incapaz de encostar em Cal ou olhar para ele. Olho para o carpete, notando os desenhos elegantes da tapeçaria feita por vermelhos. — Você sempre me achou terrível. É boa a sensação de estar certo?
Sinto seus dedos quentes no meu queixo quando ergue meu rosto para encará-lo.
Evangeline — Cal murmura. Não quero sua piedade, então o afasto.
— Espero que os deuses de Iris Cygnet não sejam reais. Mal posso imaginar as punições que guardam para mim.
Ele passa a mão distraidamente pelos lábios. Com o olhar distante, concorda com a cabeça.
— Para todos nós.

9 comentários:

  1. Muito legal essa conversa de Evangeline e Cal.Gostaria que ele terminasse de ler o diário da mãe.Acho que com esse diário poderia mudar o rumo das coisas.

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  2. To amando essa nova Evangeline e achei muito legal essa parceria e confiança entre ela e o Cal, mesmo q sendo só por um momento, acho q pode ser o inicio de uma amizade muito legal
    ~Diane

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  3. sem palavras depois desse capitulo
    ASS:Janielli

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  4. Fiquei só espespera ela pedir o chá

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  5. Celeste devia estar nesse livro ,seria amiga de Evangeline kkkkk

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    1. Nossa, acertou em cheio... kkkkkk São idênticas! Duas vilãs lindas, mas que beeem no fundo têm um coração enorme! ❤

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  6. Sou só eu penso que os POV de Eve é melhor que os outro, com exceção do de Marven, essse definitivamente foio melhor, pois podemos ver o que se passa na mente desse monstrinho.

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  7. AF SAMOS PARA DE FZR DRAMA E VAI PARA MONTFORT PLEASE
    E FICA LONJE DO CALZINHO

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Boa leitura, E SEM SPOILER!