2 de junho de 2018

Capítulo vinte e seis

Mare

ME RECUSO A VOAR NO MESMO JATO QUE MAVEN. Cal também. Mesmo enfeitiçado como está, ainda não conseguimos olhar para ele. Julian, Davidson e Anabel o fazem por nós, escoltando Maven no segundo jato e dando espaço aos demais.
Ainda assim, não conseguimos conversar. O voo de volta para Harbor Bay é acompanhado por um silêncio atordoante. Até mesmo Evangeline e Ptolemus estão chocados e quietos. A troca deixou todos sem chão. Ainda não consigo acreditar. Julian e Anabel fazendo negociações secretas com Lakeland? Embaixo do nosso nariz? Sem a aprovação de Cal ou o envolvimento de Davidson? Não faz sentido. Nem mesmo Farley, com sua vasta rede de espionagem, fazia ideia. Mas ela é a única que parece satisfeita. Sorri no seu assento, quase vibrando de tanta animação.
Não devíamos nos sentir assim. A guerra está vencida. Chega de batalhas, chega de mortes. Maven perdeu sua coroa em Province. Ninguém nem se importou em recolhê-la, e o aro de ferro gélido foi abandonado na ilha. Iris tomou seus braceletes. Ele não poderia nos enfrentar nem se quisesse. Está tudo acabado. O garoto não é mais rei. Não pode me machucar por mais nem um segundo.
Então por que me sinto tão mal? O terror se assenta no fundo do meu estômago, pesado como uma pedra e tão difícil de ignorar quanto. O que acontece agora?
A princípio tento jogar a culpa em Iris, sua mãe e Bracken. Apesar de Cal ter jurado honrar a aliança, duvido que eles façam o mesmo. Perderam muito, e nenhum deles parece do tipo que volta para casa de mãos abanando. Todos têm razões pessoais para desejar vingança, e Norta ainda está aleijada, dividida por uma guerra civil. Uma presa fácil para criaturas mais fortes. Seja qual for a paz que encontramos hoje, tem seus dias contados. Quase posso sentir o tique-taque do relógio nos perseguindo.
Não é por isso que você está com medo, Mare Barrow.
Na noite passada, Cal e eu concordamos em não fazer nenhuma escolha e em não mudar as já feitas. Certas coisas podem ser ignoradas quando a guerra está em andamento. Achei que teríamos mais tempo. Não pensei que tudo terminaria tão rápido. Não sabia que já estávamos à beira do precipício.
Com Maven deposto, Cal é o rei legítimo de Norta. Ele vai ser coroado e assumirá seu direito de nascença. Casará com Evangeline. Nada do que aconteceu antes vai importar.
E seremos inimigos de novo.
Montfort e a Guarda Escarlate não vão apoiar outro rei como governante de Norta.
Nem eu posso apoiar, não importa o quanto Cal prometa trazer mudanças. O padrão vai se repetir, com seus filhos ou netos, seguindo a linhagem de reis e rainhas. Cal se recusa a enxergar o que deve ser feito. Ele não tem estômago para o sacrifício exigido para tornar o mundo melhor.
Olho para ele disfarçadamente. Seu foco está em outro lugar, introspectivo. Provavelmente pensando no irmão. Maven Calore deve pagar pelo derramamento de sangue que causou e pelas feridas que abriu em todos nós.
Antes de atacarmos a prisão de Corros, quando Cal pensou que encontraríamos Maven nos esperando, ele disse que perderia o controle. Iria atrás do irmão com tudo o que tinha. Isso o aterrorizava, ter um domínio tão tênue sobre si mesmo. Eu disse que mataria Maven se ele não conseguisse. Pareceu fácil falar isso naquele momento, mas, quando tive a oportunidade, quando Maven olhou para mim deitado na banheira, vulnerável como um recém-nascido, eu fugi.
Eu o quero morto. Pelo que me fez. Por toda a dor, todos os corações partidos. Por Shade. Pelos vermelhos que usou como peões no seu jogo perverso. Ainda assim, não sei se poderia matá-lo eu mesma, simplesmente remover a tormenta que ele causa. Também não sei se Cal conseguiria.
Mas ele vai fazê-lo, e com razão. É o único caminho para onde essas estradas levam.
A viagem de volta para Harbor Bay pareceu mais curta. Descemos no porto Aquarian, os jatos se apertando onde antes era a praça do comércio na beira da orla. Soldados da coalizão cercam o pavimento, e meu estômago se revira. Tantos olhos.
Pelo menos dessa vez não sou eu o centro das atenções. Apesar de Maven ter feito isso comigo tantas vezes, sinto pouca satisfação em vê-lo sendo arrastado de um jato. Ele cambaleia, suas pernas pesadas por causa da habilidade de Julian, parecendo ainda mais um garoto do que antes. Alguém prende suas mãos em algemas. Maven não diz nada, incapaz de falar.
Farley se agiganta, perto do ombro dele, sorrindo orgulhosa, com uma mão erguida em triunfo. Ela o agarra pelo colarinho.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora! — ela grita. Com um pé, chuta a parte de trás da perna de Maven, como Iris fez. Ele cai de joelhos, um rei jogado ao chão. — Vitória!
O silêncio das pessoas chocadas na praça rapidamente se dissipa quando a multidão percebe o que aquilo significa. A gritaria aumenta como uma tempestade, até que brados de alegria e maldade ecoam tão alto que acho que a cidade inteira já deve saber.
Cal irradia calor ao meu lado, seu rosto sem nenhuma emoção. Ele não está gostando disso.
— Leve Maven para o palácio — ele murmura para Anabel quando ela se aproxima. — O mais rápido possível.
A avó olha para ele e solta um suspiro contrariada.
— O povo precisa ver, Cal. Deixe que aproveitem a vitória. Deixe que amem você por isso.
Ele estremece.
— Isso não é amor — responde, apontando com o queixo para a multidão. Vermelhos e sanguenovos em uma quantidade bem maior do que os próprios prateados, todos olhando para Maven com raiva e punhos erguidos. A fúria domina a praça. — É ódio. Leve Maven para o palácio, para longe da multidão.
É a escolha certa. E a mais fácil. Aceno para ele, apertando seu braço de leve. Oferecendo qualquer conforto que possa dar, enquanto ainda é possível. Como a aliança, nosso tempo está chegando ao fim.
Anabel insiste, severa.
— Podemos marchar com ele…
— Não — Cal estoura, rosnando em voz baixa. Ele olha para a avó e para mim. Me mantenho firme. — Não vou cometer os erros dele.
— Está bem — ela cospe por entre os dentes cerrados. Na beira da praça, os transportes estacionam, esperando para nos levar de volta para o palácio. Cal segue direto para o mais próximo e eu vou junto, tomando o cuidado de manter uma distância respeitosa.
— Ainda temos que enviar nossos relatórios e anúncios — Anabel diz conforme andamos. — Para que o povo de Norta saiba que seu verdadeiro rei voltou. Reunir as Casas, cobrar promessas de aliança. Punir os que não se colocarem a serviço da sua coroa…
— Eu sei — ele fala, seco.
Atrás de nós, ouço pessoas se debatendo e tropeçando. Farley arrasta Maven, com Julian escoltando os dois. Alguns soldados jogam cachecóis vermelhos aos pés dela, celebrando nosso triunfo. Comemoram e gritam em igual proporção.
O som é horrível, mesmo vindo do meu próprio povo. Leva minha memória de volta para Archeon, quando fui forçada a andar acorrentada pela cidade. Uma prisioneira, um troféu. Maven me fez ajoelhar diante do mundo. Quero vomitar agora tanto quanto queria na época. Não deveríamos ser melhores do que eles?
Apesar disso, sinto a mesma fome horrível por dentro. O desejo de vingança e justiça me implora para alimentá-lo. Eu o afasto, tentando ignorar o monstro que carrego dentro de mim, nascido de todos os meus erros e de todos os erros cometidos contra mim.
Anabel não para de falar até chegarmos ao transporte e Cal dispensá-la com um olhar. Não me dou ao trabalho de olhar para trás antes de subir no nosso veículo, incapaz de assistir a outra pessoa encarando uma fração do que sofri em Archeon.
Mesmo que seja Maven.
Cal fecha a porta, envolvendo-nos na quase escuridão. A divisória está erguida, nos separando do motorista. Nos deixando sozinhos, sem necessidade de fingimentos. O silêncio é quase completo, o som da multidão abafado e reduzido a um leve ruído.
Cal se inclina para a frente, apoia os cotovelos nos joelhos e enterra o rosto nas mãos. São emoções demais para suportar. Medo, arrependimento, vergonha e muito alívio. Tudo podado pela sensação crescente de pavor, ciente do que está por vir. Me recosto no assento, cobrindo os olhos com as mãos.
— Acabou — me escuto falando, sentindo o gosto da mentira.
Cal respira pesado contra as mãos, como se tivesse acabado de voltar do treinamento.
— Não — ele diz. — Não está nem perto disso.


Meus aposentos em Ocean Hill ficam do lado oposto aos de Cal, conforme eu mesma pedi. São bem decorados, iluminados e arejados, mas o banheiro é muito pequeno e no momento está lotado. Estremeço sob a água quente, deixando que as bolhas de sabão passeiem pelo meu corpo. A temperatura é relaxante, aliviando as dores e tensões nos músculos. Farley está sentada no chão, apoiada na banheira, de costas para mim, enquanto Davidson faz o mesmo na porta, com uma postura surpreendentemente informal para o líder de uma nação. Seu terno refinado escolhido para a reunião está desabotoado, exibindo a camisa branca e o movimento de sua garganta. Ele esfrega os olhos e boceja, já exausto, apesar de a manhã mal ter acabado.
Esfrego o rosto, desejando poder limpar minha frustração com a mesma facilidade com que limpo o suor e a sujeira. É impossível conseguir um segundo para mim mesma.
— E quando ele recusar? — resmungo para os dois. Nosso plano, a última chance de manter as coisas unidas, tem incontáveis furos.
Davidson cruza as mãos contra o joelho dobrado.
— Se ele recusar…
— Ele vai recusar — Farley e eu falamos em um coro sombrio.
— Então faremos como combinamos — o primeiro-ministro diz com franqueza, dando de ombros de leve. Seus olhos amendoados me observam atentos. — Está tudo acabado para nós se não mantivermos nossa palavra. E eu tenho promessas a cumprir com meu próprio país.
Farley balança a cabeça, concordando. Ela vira a cabeça para mim por cima do ombro, seu rosto a apenas alguns centímetros do meu. Tão perto que posso contar as sardas que se espalham sobre o seu nariz, contrastando com a cicatriz na boca.
— Eu também — ela diz. — Os outros generais do Comando foram claros.
— Gostaria de me reunir com eles — Davidson comenta.
Ela oferece um sorriso amargo.
— Se tudo correr como imaginamos, estarão nos aguardando quando retornarmos.
— Isso é bom — ele responde.
Abro meus dedos, criando linhas pela água leitosa e perfumada.
— Quanto tempo teremos? — digo, indo ao assunto que estávamos evitando. — Antes de Lakeland voltar?
Ao meu lado, Farley vira para descansar o queixo sobre o joelho dobrado. Ela bate os dentes, nervosa. Algo estranho para a general.
— Os espiões em Piedmont e Lakeland informaram que há uma movimentação nos fortes e cidadelas. Exércitos sendo reunidos. — A voz dela muda, ficando mais pesada. — Não vai demorar muito.
— Vão atacar a capital — falo de bate-pronto. Não é uma pergunta.
— Provavelmente — Davidson diz. Ele bate um dedo nos lábios, pensativo. — Uma vitória no mínimo simbólica. E, na melhor das hipóteses, se outras cidades e regiões se ajoelharem, uma conquista rápida do país inteiro.
Farley enrijece diante da ideia.
— Se Cal morrer no ataque… — Sua voz some, ela mesma se interrompendo.
Apesar do banho quente, meu corpo gela com essa hipótese. Tiro os olhos da silhueta de Farley e observo a janela. Nuvens brancas se movem preguiçosas pelo céu azul amistoso. Muito brilhantes e alegres para essa conversa.
Consciente disso ou não, Davidson gira a faca fincada no meu estômago, dando continuidade à linha de raciocínio de Farley.
— Então não haverá herdeiros da família Calore. O caos reinará pelo país.
Ele fala como se aquilo fosse uma opção. Viro rápido na banheira para encará-lo. Coloco a mão na borda de porcelana, deixando uma faísca ameaçadora correr por um dedo. O primeiro-ministro recua, mas só um pouco.
— Causará mais derramamento de sangue vermelho, Mare — ele explica, como se pedisse desculpas. — Não tenho interesse em algo assim. Precisamos tomar Archeon antes deles.
Assentindo, Farley cerra o punho, resoluta.
— E forçar Cal a renunciar. Fazer com que veja que não há outra escolha.
Não me movo, ainda encarando o primeiro-ministro.
— E Rift?
Os olhos dele se estreitam.
— Volo Samos nunca vai tolerar um mundo em que não possa reinar, mas Evangeline… Ela pode ser persuadida. Ou, pelo menos, subornada.
— Com o quê? — zombo. Sei que faria qualquer coisa para impedir seu casamento com Cal, mas trair sua família, perder sua coroa? Não consigo acreditar. Ela preferiria o sofrimento. — Ela é mais rica do que todos nós. E muito orgulhosa.
Davidson ergue o queixo, parecendo superior. Como se soubesse de algo que não sabemos.
— Com seu próprio futuro — ele diz. — Com a liberdade.
Torço o nariz, cética.
— Não sei o que você poderia pedir a ela. Não vai se livrar do próprio pai.
O primeiro-ministro concorda com a cabeça.
— Não, mas ela pode destruir uma aliança. Recusar o casamento. Separar Rift de Norta. Deixar Cal sem ninguém a quem recorrer. Ajudar a pressioná-lo. Ele não é nada sem aliados.
Davidson não está errado, mas o plano secundário é muito precário. Depender das motivações de Evangeline é uma coisa, mas e sua lealdade ao sangue? À sua família? Parece impossível. Ela mesma disse que não poderá recusar o noivado e não poderá se voltar contra os desejos do pai quando tudo estiver acabado.
O vapor sobe em silêncio, rodopiando no ar.
Do outro lado da porta, vem uma voz exasperada.
— Quais são as chances de qualquer uma dessas coisas acontecer de acordo com o planejado? — Kilorn fala do meu quarto.
Tenho que rir.
— Alguma vez aconteceu?
Kilorn responde com um grunhido longo e frustrado. A porta balança quando ele bate a cabeça contra ela.
Kilorn e Davidson são gentis o suficiente para deixar que eu me vista em paz, mas Farley fica lá. Esparramada sobre as cobertas verde-oceano da minha cama. A princípio quero mandá-la embora para que possa ter um momento sozinha, mas conforme os minutos transcorrem, fico feliz com sua presença. Se estivesse sozinha, poderia enlouquecer e nunca mais abrir a porta. Com ela aqui, não tenho desculpas para não me arrumar o mais rápido possível. Com sorte, o movimento constante vai me conduzir pelo resto do que promete ser um dia muito interessante.
Ela ri enquanto entro no uniforme formal da Guarda Escarlate. Recém-lavado e feito sob medida para mim. Jurei lealdade à Guarda quase um ano atrás, mas nunca pareceu oficial. O uniforme deveria ser simbólico, para mostrar que não estou unida a Cal e seus aliados prateados — mas, na verdade, acho que Farley só quer que mais alguém sofra com ela. A roupa vermelho-sangue reluzente é justa e rígida, abotoada até o topo da garganta. Me debato nela, tentando afrouxar um pouco o estrangulamento.
— Nem um pouco divertido, né? — Farley gargalha. A gola dela por enquanto está aberta.
Me olho no espelho, reparando como a roupa delineia meu corpo. Fica quadrado no torso, e a calça de corte reto enfiada nas botas me confere uma silhueta quase retangular. Definitivamente não se trata de um vestido de baile.
Além dos botões polidos e brilhantes, não tenho nenhuma outra decoração no uniforme. Nenhum emblema, nenhuma insígnia. Passo a mão sobre o peito, sentindo o tecido puro.
— Vou finalmente receber uma patente? — pergunto, olhando para Farley.
Como na Galeria do Povo, ela tem seus três quadrados de general no colarinho, mas a maior parte das medalhas e fitas falsas foi abandonada. Não têm utilidade diante de Cal, que não se deixa iludir.
Ela deita, olhando para o teto. Tem uma perna cruzada sobre a outra, e o pé balança livre.
— Soldado raso soa bem.
Coloco a mão sobre o coração, fingindo me sentir insultada.
— Estou com vocês há um ano.
— Talvez eu possa mexer alguns pauzinhos — ela diz. — Falar bem de você. Conseguir uma promoção para cabo.
— Que generosidade.
— Kilorn será seu superior.
Apesar do medo que me corrói por dentro, rio alto.
— Só não diga isso a ele. — Nem consigo imaginar o quanto ia me perturbar. Com provocações, ordens falsas. Não teria fim.
Farley ri comigo, seu cabelo loiro curto espalhado sobre o rosto como uma aura dourada. Não é exatamente raro vê-la rir, mas agora é diferente. O riso não está contaminado pela ironia ou pela rispidez. É uma pequena explosão de felicidade sincera. Algo incomum ultimamente, em todos nós.
Aos poucos, ela se recupera, o eco das risadas morrendo na garganta. Desvio o olhar rápido, como se tivesse visto algo que não devesse.
— Você passou a noite com ele ontem. — Sua voz é segura. Farley sabe, assim como todos os outros, tenho certeza. Cal e eu não fomos exatamente discretos.
Respondo com sinceridade e sem vergonha.
— Sim.
O sorriso se apaga, e ela senta na cama. Pelo reflexo no espelho, vejo sua expressão mudar. Os cantos da boca se curvam para baixo e seus olhos se suavizam, assumindo um ar de tristeza, se não de pena. E, talvez, um toque de desconfiança.
— Isso não muda nada. — Forço a frase a sair, me virando irritada. — Para nenhum de nós.
Farley responde rápido, com a mão erguida.
— Sei disso — ela diz, como se estivesse acalmando um animal. Sua garganta sobe e desce, e ela lambe os lábios, escolhendo com cuidado as palavras. — Sinto falta de Shade. Faria coisas terríveis para trazê-lo de volta. Para ter mais um dia com ele. Para que Clara o conhecesse.
Cerro os punhos ao lado do corpo e olho para os pés, sentindo as bochechas corarem. Com vergonha, porque ela não confia em mim. Com raiva, tristeza profunda e arrependimento pela perda do meu irmão.
— Eu não…
Ela levanta e encurta a distância entre nós com passos firmes. Suas mãos agarram meus ombros, me forçando a olhar para cima, para seu rosto coberto pela cicatriz.
— Estou dizendo que você é mais forte que eu, Mare. — Ela respira, com os olhos brilhando. Demora um bom tempo até as palavras assentarem. — Só em relação a isso. Em nenhuma outra coisa — Farley acrescenta de imediato, rompendo a tensão.
— Em mais nada — digo, concordando com uma risada curta e forçada. — Só eletrocutar as pessoas.
Farley só encolhe os ombros largos.
— Bom, vai saber? Nunca tentei.


A sala do trono de Ocean Hill tem vista para toda a cidade, passando pelos telhados azuis e paredes brancas até o porto. Janelas grandes se arqueiam sobre o trono, inundando a câmara com a luz dourada do final da tarde. Isso confere ao ambiente um ar quase onírico, como se o momento não fosse real. Parte de mim acredita que posso acordar na escuridão dessa manhã, antes de partir para Province. Antes de a guerra ter sido vencida de forma tão fácil e de uma vida ter sido trocada como se não fosse nada de mais.
Cal não falou nada sobre Salin Iral depois daquilo, mas nem precisa. Eu o conheço o suficiente para compreender o quanto a lembrança pesa sobre ele. Um lorde em desgraça, mas ainda assim um lorde, afogado, uma morte em pagamento por Maven. Não foi fácil para Cal. Mas, olhando para o rei Tiberias VII, ninguém seria capaz de dizer isso.
Ele senta altivo no trono de cristais de diamante do pai, parecendo uma verdadeira chama em rubro-negro. As janelas fazem sua silhueta brilhar, e me pergunto se um dos seus guardas é um sombrio Haven, manipulando a luz para criar uma imagem de poder e força. Com certeza está funcionando, como funcionava com seu pai. Como nunca funcionou com Maven.
Desprezo a imagem. O trono reluzente, a coroa simples na cabeça — de ouro rosé, como a da avó. Mais refinada que a de ferro. Mais elegante. Menos violenta. Uma coroa para a paz, não para a guerra.
Farley e eu sentamos lado a lado, à esquerda do trono, com Davidson e seus subordinados. À direita de Cal está Anabel, seu assento mais próximo do trono do que qualquer outro. A Casa Samos senta ao lado dela, agrupada em volta de outro rei.
Me pergunto quanto tempo Volo Samos passou construindo seu próprio trono de aço e metal perolado. O material foi moldado em tiras trançadas de prateado e branco, decorado com um brilho ocasional de âmbar preto. Meus lábios se retorcem com a ideia dele desperdiçando horas do seu dia com isso. A ostentação dos prateados nunca deixa de me surpreender.
Evangeline parece estranhamente nervosa ao lado do pai. No geral, ela se deleita com essas coisas, contente em observar e ser observada. Mas agora não consegue parar quieta, seus dedos se retorcendo e o pé batendo no chão por baixo das dobras do vestido. Me pergunto o que sabe ou do que suspeita. Não pode ser a oferta de Davidson. Ele não a apresentou ainda; não até ter certeza de que será necessária. Ainda assim, seus olhos cinza-escuro brilham, vasculhando a sala. Sempre retornando para as portas altas abertas no fundo da câmara, que dão para os salões do palácio. Uma multidão vaga do lado de fora, prateados e vermelhos com a esperança de conseguir ver algo de relance lá dentro. Sinto que me encolho de medo. Evangeline não é alguém que se assusta fácil.
Esqueço depressa de tudo isso quando Julian entra, sua mão em um braço familiar enquanto guia o prisioneiro real em direção ao trono. Murmúrios vigorosos os acompanham, silenciando apenas quando as portas da câmara se fecham com um barulho retumbante, nos separando do restante do palácio. Cal não é do tipo que precisa de uma plateia, e é esperto o suficiente para saber que não deveríamos ter uma enquanto decide o destino do irmão.
Maven não tropeça dessa vez. Ele mantém a cabeça erguida, mesmo com os pulsos algemados. Lembra uma ave de rapina, um falcão ou uma águia, rondando todos nós com olhos aguçados e garras afiadas. Mas ele não é uma ameaça. Não sem seus braceletes. Não sem ninguém para seguir seu comando. Os guardas que o escoltam são de Lerolan, leais a Cal e Anabel. Não a Maven.
Não vejo escapatória, nem mesmo para ele.
Eles param a alguns metros dos pés de Cal, e Anabel se levanta, seu corpo lançando uma sombra longa. Ela passa os olhos por Maven lentamente, como se fossem facas o esfolando vivo.
— Ajoelhe-se diante do seu rei — ela diz, sua voz ecoando pelo silêncio mortal da câmara.
Maven inclina a cabeça.
— Não, acho que não.
De repente, estou de volta a outro palácio, vendo outro rei Calore. Eu de joelhos, ao lado de Maven de pé, minhas mãos algemadas atrás das costas. Quando ele traiu todos nós e revelou a quem seu coração pertencia de fato.
Maven, me ajude.
Não, acho que não.
Maven Calore escolhe suas palavras com cuidado, e não é diferente agora. Mesmo quando não têm significado, quando não lhe restou nenhum poder, ele ainda pode nos machucar.
No trono, Cal está sombrio, com uma mão cerrada. Sinto o monstro crescendo dentro de mim, implorando para estraçalhar Maven, obliterá-lo. Não posso negar o desejo, mas tenho que controlá-lo. Pela minha sanidade. Pela minha humanidade.
— Fique de pé se desejar — Cal por fim diz, e um pouco da tensão se dissipa. Ele acena como se aquilo não importasse. — Isso não muda onde você está. E onde eu estou sentado no momento.
— No momento — Maven repete, enfatizando as palavras. Seus olhos brilham, frios como o gelo, quentes como uma chama azul. — Duvido que vai ficar aí por muito tempo.
— Isso não é algo com que precise se preocupar — Cal fala. — Você cometeu traição e assassinato, Maven Calore. Crimes numerosos demais para mencionar, então não vou nem tentar.
Maven só zomba, revirando os olhos.
— Preguiçoso.
Seu irmão mais velho é esperto demais para cair em uma provocação tão evidente e deixa o insulto passar em branco. Ele gira o corpo para Davidson, como se consultasse um conselheiro, ou mesmo um amigo.
— Primeiro-ministro, qual seria a punição no seu país? — ele pergunta, sua expressão aberta e convidativa. Uma demonstração brilhante de solidariedade, tudo parte da imagem que Cal está tentando construir para si. Um rei que unifica em vez de destruir. Um prateado que pede um conselho a um vermelho, desdenhando da divisão entre os sangues.
Isso já causa repercussões.
Em seu trono, Volo retorce os lábios, se remexendo como um pássaro incomodado inflando as penas. Maven percebe rapidamente.
— Vai permitir isso, Volo? — ele grasna. — Vai ficar atrás de um vermelho? — Sua gargalhada estridente ecoa, capaz de rachar vidro. — É impressionante como a Casa Samos caiu.
Como Cal, Volo não tem intenção de cair nas provocações de Maven. Ele cruza os braços cobertos de metal cromado.
— Ainda tenho uma coroa, Maven. E você?
Em resposta, o garoto só olha com ironia, um canto da boca se repuxando.
— Execução — o primeiro-ministro Davidson diz com firmeza, se inclinando para a frente. Ele apoia os cotovelos nos braços da cadeira conforme se vira para ter uma vista melhor do rei deposto. — Punimos traição com execução.
Cal nem parece piscar. Ele vira de novo, se inclinando para Volo.
— Majestade, como o senhor lidaria com ele em Rift?
Volo responde rápido, rangendo os dentes. Como Evangeline, seus caninos estão encapados em prata.
— Execução.
Cal assente.
— General Farley?
— Execução — ela responde, erguendo o queixo.
No chão, Maven não parece se importar com a sentença, ou mesmo se surpreender. Ele dispensa pouca atenção ao primeiro-ministro, a Farley e Volo. Ou mesmo a mim. Como uma cobra que prepara o bote, ele só tem olhos para uma pessoa. Encara o irmão sem piscar, seu peito subindo e descendo em respirações curtas. Esqueço o quanto são parecidos, mesmo sendo só meios-irmãos. Não só nos traços, mas no fogo. Determinados, motivados. Crias dos pais deles. Cal foi construído a partir dos sonhos do rei, e Maven, dos pesadelos da rainha.
— E o que você vai fazer, Cal? — ele pergunta, sua voz tão grave e silenciosa que quase não posso ouvi-lo.
Seu irmão não hesita.
— O mesmo que tentou fazer comigo.
Maven quase ri de novo. Em vez disso, só bufa.
— Então vou morrer na arena?
— Não — o rei responde balançando a cabeça. — Não pretendo vê-lo desperdiçar seus últimos momentos se envergonhando. — Ele não está exagerando. Maven não é um guerreiro. Não duraria nem um minuto na arena.
Mas não merece o que Cal está oferecendo, uma gota de misericórdia em algo que deveria ser um julgamento de ferro.
— Mas vai ser rápido. Posso te conceder isso.
— Que nobre da sua parte, Tiberias — Maven zomba. Então ele pensa melhor e sua expressão clareia. O falso rei arregala os olhos, me lembrando um cão implorando por sobras. Um filhote que sabe exatamente o que está fazendo. — Posso fazer um pedido?
Cal quase revira os olhos diante disso. Ele fixa no irmão um olhar de puro escárnio.
— Pode tentar.
— Me enterre com a minha mãe.
O pedido abre um buraco em mim.
Acho que ouço alguém do outro lado do conselho engasgando, talvez Anabel. Quando olho para ela, está com a mão sobre a boca, mas seus olhos estão secos.
Cal fica branco como um osso, ambas as mãos grudadas nos braços do trono. Seu olhar titubeia, caindo por um momento, antes de se forçar a olhar de volta para o irmão.
Não sei onde o corpo de Elara foi enterrado. Da última vez que ouvi falar, estava com a Guarda em Tuck, a ilha que abandonamos. Uma ilha de corpos. Incluindo o do meu irmão e o dela.
— Isso pode ser providenciado — Cal finalmente murmura.
Mas Maven não acabou. Ele dá um passo, não para a frente, mas para o lado. Na minha direção. A força do seu olhar quase me derruba da cadeira.
— E quero morrer como a minha mãe — ele diz sem cerimônias, como se pedisse mais um cobertor.
De novo, fico abalada demais para pensar. Tudo o que posso fazer é manter a mandíbula travada para que minha boca não se abra em choque.
— Destroçado pela sua fúria — ele insiste, com seus olhos horríveis, inesquecíveis, cravados em mim. A cicatriz na minha clavícula parece arder. — Pelo seu ódio.
Dentro de mim, o monstro ruge. Posso fazer isso agora mesmo. Estou nisso desde o começo, então nada mais justo do que terminar. Meus dedos cravam na cadeira, como os de Cal. Tentando me ancorar, me controlar, manter a eletricidade contida. Sinto como se pudesse iniciar uma tempestade com uma única batida do meu coração.
Não darei a Maven a satisfação de uma última sedução. É disso que se trata. Mais uma gota de veneno, uma última onda de podridão, a corrupção final de quem eu era antes que colocasse suas garras em mim. Ele sabe que alguma parte minha, uma parte grande, quer isso. E sabe que vai arruinar qualquer coisa que eu tenha conseguido salvar da sua prisão e da tortura do seu amor.
Mate Maven, Mare Barrow. Acabe com ele.
O falso rei me encara, esperando minha decisão. Assim como os outros. Nem mesmo Cal dirá uma palavra. Como antes, está me deixando escolher qual caminho quero seguir.
Por alguma razão, penso em Jon. O vidente que me contou meu destino. Se levantar. E se levantar sozinha. Me pergunto se esse destino já mudou ou se é assim que mudará.
Lentamente, balanço a cabeça.
— Não serei seu fim, Maven. E você não será o meu.
No chão, ele parece enrijecer. Seus olhos permanecem quietos por um longo minuto, como se esperasse eu mudar de ideia. Continuo firme, rangendo os dentes para me impedir de hesitar. A eletricidade não tem misericórdia, eu disse uma vez. Mas o poder é só uma parte de mim. Não me controla.
Eu o controlo.
— Está bem — Maven força as palavras, com raiva por ter sido contrariado. Sinto certo triunfo florescendo, contrabalanceando o monstro dentro de mim. Ele se vira para Cal de novo. — Então uma bala. Uma espada. Corte minha cabeça se quiser. Não me importo com sua escolha.
Cal está aos poucos perdendo o controle, a máscara de rei caindo conforme a provação pesa sobre ele. Quase espero que se levante e saia da sala. Mas Cal não é assim. Nunca se rende, não demonstra suas fraquezas. Foi treinado para isso desde criança.
— Vai ser rápido — ele repete, hesitante.
— Você já disse isso — Maven rebate, como uma criança petulante. O sangue prateado se acumula em suas bochechas.
Anabel cruza as mãos. Ela olha para os irmãos, medindo um em relação ao outro. A tensão entre eles salta e estala como eletricidade, e me pergunto se Maven está tentando incitar Cal a matá-lo agora mesmo, já que não pode me forçar a fazer isso.
— Guardas, terminamos com o traidor — ela diz com um olhar autoritário.
Tirando a decisão das mãos de Cal por completo.
Contra meus melhores instintos, olho para Maven, que já está me encarando.
Cal não consegue tomar decisões.
Maven me disse isso muitas vezes, e senti na pele de várias maneiras dolorosas. Mesmo com o irmão destituído, Cal ainda está relutante, incapaz de decidir. Maven me disse que o irmão seria um péssimo rei por causa disso. Ou, na melhor das hipóteses, outro rei em uma coleira, dependente de outras pessoas. Tenho que concordar. Maven pode ser desumano, mas não é tolo.
Os guardas Lerolan o viram à força, agarrando seus ombros para arrastá-lo da câmara. Espero que Julian vá junto, mas ele fica, ocupando um lugar atrás do trono. Ele cruza as mãos, pensativo. Passos são os únicos sons na sala, ecoando com um tom definitivo enquanto Maven é levado. Me pergunto se vou vê-lo de novo. Se terei estômago para assisti-lo morrer.
Quando as portas pesadas se fecham atrás dele, me afundo um pouco no assento, soltando o ar devagar. Não tem nada que eu queira mais do que subir as escadas e tirar um cochilo.
Acho que Cal sente o mesmo. Ele se mexe no trono, se preparando para levantar.
— Acredito que isso conclui qualquer assunto que poderíamos ter — o rei diz, sua voz tensa de fadiga. Ele olha para todos nós um a um, como se consultasse um conselho leal em vez de uma sala de aliados precários. Talvez pense que pode nos transformar nisso se agir de acordo.
Boa sorte.
A rainha Anabel é rápida mas gentil, colocando a mão no braço dele para impedi-lo. Cal responde ao toque dela, perturbado.
— Temos que decidir sobre sua coroação — ela o lembra com um sorriso plácido. Cal parece incomodado com a perspectiva, talvez pelo fato de a avó o conduzir como se fosse um bebê. — Deve ser o mais rápido possível… Amanhã mesmo, até. Não há necessidade de alarde, mas precisa ser oficializado.
Desacostumado a ser deixado de lado, Volo segura seu queixo barbado com a mão. Um movimento suave e um pedido claro de atenção.
— E a questão da Cidade Nova ainda precisa ser resolvida, sem mencionar o casamento. — Ele olha para Cal e Evangeline. Se não fosse pelo controle bem treinado deles, acho que poderiam se contorcer ou mesmo engasgar. — Levará algumas semanas para ser preparado…
Me agarro à outra questão.
— Importa-se em explicar o problema na Cidade Nova? — pergunto, me ajeitando para ver Volo por completo. Ele me encara de volta, seus olhos cinzentos quase pretos de desgosto. Ao meu lado, os lábios de Farley se repuxam, mas ela rapidamente os força a voltar à neutralidade.
Anabel responde antes que Volo possa rebater minha grosseria.
— Não precisamos discutir isso agora — diz, com a mão firme no braço do neto.
Cal olha para mim, preocupado com o que eu possa fazer e com os efeitos que pode provocar no rei Samos. Ele morde o lábio e franze a testa como se quisesse me afastar do assunto.
Sem chance, Calore.
— Mas acho que deveríamos — digo a todos. Minha voz é forte e clara, um eco gélido de Mareena Titanos, a arma que os prateados me deram. — Entre outras coisas.
Cal ergue uma sobrancelha.
— Como o quê?
O primeiro-ministro limpa a garganta, assumindo seu papel na nossa conversa planejada às pressas e mal ensaiada. Mas ele é um político e diplomata talentoso. Nada nas suas palavras soa premeditado. Ele atua bem e fala com grande habilidade.
— Está claro que o povo de Lakeland e o príncipe Bracken, sem mencionar seus aliados em Piedmont, não têm nenhuma intenção de deixar Norta em paz — Davidson diz, dirigindo seu discurso a toda a realeza prateada. Em especial a Cal, que deve ser convencido. — Ela está unida de novo, mas foi enfraquecida por uma guerra amarga. Dois dos seus maiores fortes estão destruídos ou neutralizados. Vocês ainda aguardam que as demais famílias nobres jurem sua lealdade, apostando no apoio deles. A rainha Cenra não parece do tipo que deixa uma oportunidade dessa passar.
Cal relaxa um pouco, seus ombros abandonando a tensão infinita. O povo de Lakeland é um tema mais fácil do que a opressão contra os vermelhos. Ele olha para mim, quase dando uma piscadela, como se fosse só um jogo, um flerte divertido. E não três caçadores encurralando um lobo.
— Concordo — Cal diz com um aceno. — E, com nossas alianças fortalecidas, podemos defender Norta de qualquer invasão, pelo norte ou pelo sul.
A expressão serena de Davidson não muda. Ele só levanta um dedo.
— Sobre isso…
Me preparo, meus dedos dos pés se curvando dentro das botas. O calor cresce no meu peito. Digo a mim mesma para não esperar nada. Conheço Cal bem o suficiente para prever o que vai dizer. Ainda assim, há uma pequena chance de estar cansado demais para lutar, enojado com o derramamento de sangue, farto das maldades de seu povo.
Cal não vê aonde o primeiro-ministro pretende levá-lo, mas Anabel não é tão inocente. Seus olhos se estreitam, afiados. Atrás dela, Volo parece capaz de perfurar todos nós com algumas lanças bem miradas.
Mais próximo a mim, escondido dos demais, Davidson abaixa uma mão. Há um brilho azul tênue nela, pronto para nos proteger de qualquer ataque. Seu rosto permanece inalterado, sua voz é constante e firme.
— Agora que seu irmão foi deposto e você se apresentou para governar como rei, gostaria de propor outra opção.
— Sim? — Cal pergunta, ainda incapaz de compreender, ou evitando fazê-lo.
A ira declarada em Volo e em Anabel me deixa alerta. Como Davidson, abaixo uma mão e invoco faíscas em volta da pele.
Davidson continua, apesar da expressão de fúria dos outros prateados.
— Anos atrás, a República Livre de Montfort não era como hoje. Não passávamos de um agrupamento de reinos e protetorados governados por prateados, como vocês agora. Uma guerra civil cruzou as montanhas. — Mesmo já tendo ouvido antes o que ele está prestes a dizer, ainda sinto um arrepio. — A paz era algo desconhecido. Vermelhos morriam em guerras prateadas, pelo orgulho prateado, pelo poder prateado.
— Soa familiar — murmuro, com os olhos em Cal. Tento medir a reação dele, reparando nos pequenos sinais de movimento em seu rosto. Os lábios apertados, as sobrancelhas pretas se curvando. Um enrijecimento na mandíbula, o ar sendo solto. É como tentar ouvir uma imagem ou cheirar uma música. Frustrante e impossível.
O primeiro-ministro ganha ritmo. Ele gosta disso, e é de fato bom.
— Foi só por uma revolução — Davidson continua —, uma aliança entre vermelhos impulsionada pelo número crescente de rubros e prateados simpáticos à nossa difícil situação que fomos capazes de nos transformar na nação democrática que somos hoje. Foi preciso um grande sacrifício. Custou muitas vidas. Agora, mais de uma década depois, estamos melhores por causa disso. E melhoramos a cada dia. — Satisfeito, ele se inclina, ainda ignorando os olhares matadores de Anabel e Volo. — Espero que você se empenhe em fazer o mesmo, Cal.
Cal.
O uso do nome aqui, quando ele está sentado em um trono com uma coroa na cabeça, tem um significado claro. Até mesmo Cal parece captar. Ele pisca, se recompondo.
Antes que possa dizer alguma coisa, Farley se posiciona em frente a Cal, ansiosa para cumprir seu papel.
Suas insígnias de general brilham, refletindo pontos de luz no rosto de Cal.
— Temos uma oportunidade agora que não voltará. Norta está em uma situação confusa, implorando para ser reconstruída. — Ela não é tão boa com discursos como Davidson, mas não é uma amadora. A Guarda Escarlate a escolheu para ser sua porta-voz muitos meses atrás por uma razão. Farley tem fogo e crença suficientes para mover mesmo os corações mais gelados. — Vamos reconstruí-la juntos, transformá-la em algo novo.
Anabel fala antes que seu neto possa.
— Em algo como seu país, primeiro-ministro? — ela sibila. — E me deixe adivinhar: você oferece seus serviços para ajudar a criar essa nova nação gloriosa? — acrescenta, lançando farpas com uma precisão mortal. Plantando a semente de suspeita de que precisa. Vejo-a pousar, obscurecendo os olhos de Cal. Criará raízes? — Talvez até possa se oferecer para ajudar a governá-la.
Um pouco do autocontrole de Davidson cede. Ele quase sorri.
— Tenho meu próprio país para servir, majestade, enquanto me é permitido.
Volo solta uma risada vazia. Quase pior que a de Maven.
— Quer que desistamos de nossos tronos, de tudo pelo que trabalhamos. Que joguemos fora nossa linhagem, traindo nossas Casas, nossos pais e avôs?
Anabel fecha o rosto.
— E avós — ela grunhe baixinho.
Mesmo que queira levantar, fico no lugar. Não seria sábio agitar ainda mais os ânimos.
— E aquilo pelo que nós trabalhamos, Volo? — Ele mal se digna a olhar para mim. Isso só alimenta minha raiva, que me serve de combustível. — Pelo que sangramos? Foi meramente pelo direito de ser governados de novo? De ser trancafiados em favelas, condenados ao alistamento, de volta à vida de que escapamos? Como isso é certo? Como isso é justo?
Meu controle sobre mim mesma começa a escapar. Tento me segurar, ignorando o nó na garganta que denuncia minha fraqueza. Dizer tudo isso em voz alta, para as pessoas que construíram esse mundo cruel ou o mantiveram dessa forma, tem um efeito estranho. Sinto como se pudesse chorar ou explodir, e não sei para qual lado ir. Quero pegar Anabel pelos ombros ou agarrar Volo pelo pescoço, forçá-los a ouvir e ver o que fizeram e o que continuam fazendo. Mas e se continuarem de olhos fechados? E se olharem e não virem nada de errado? O que mais posso fazer?
O rei Samos zomba de mim, o que me enoja.
— Esse mundo não é nem correto nem justo, garota. Achei que qualquer um nascido vermelho saberia disso — ele bufa. Ao seu lado, Evangeline continua parada, com os olhos no chão, a boca lacrada. — Vocês não são nossos iguais, não importa o quanto tentem ser. A natureza é assim.
Cal por fim rompe seu silêncio, seus olhos ardendo.
— Volo, silêncio — ele diz, ríspido. Sem títulos, sem gentilezas. Mas sem negar o que o outro disse. Seja qual for a linha na qual caminha, fica mais tênue a cada minuto. — O que exatamente está me pedindo, primeiro-ministro?
Ele vai nos fazer soletrar.
— Não é uma solicitação só minha — Davidson responde, me olhando.
Cal vira para mim também, com seu olhar de bronze focado em meu rosto. Contra minha vontade, meus olhos passam por ele, das mãos até a coroa na cabeça. Por tudo o que ele é.
Não hesito. Sobrevivi a muita coisa por muito tempo. Depois de tudo pelo que passamos, Cal não deveria se surpreender.
— Renuncie — digo a ele. — Ou nos retiramos.
Sua voz sai neutra, sem emoção. Sem choque.
Ele previa isso.
— Vocês vão encerrar a aliança.
Davidson confirma:
— A República Livre de Montfort não tem interesse em criar um reino como aquele de que escapamos.
Orgulhosa, Farley fala também:
— A Guarda Escarlate tampouco apoiará algo do tipo.
Sinto um tremor leve de calor, uma pequena onda vinda da direção de Cal. Um mau sinal. Com um suspiro, abandono qualquer esperança de que ele possa enxergar a razão. Isso atrai a atenção dele, ainda que por um segundo. Vejo dor em seus olhos, o suficiente para evocar o mesmo em mim. Uma pequena picada, leve se comparada a todas as feridas que os irmãos Calore abriram em mim.
Cal olha de volta para Davidson, direcionando sua raiva crescente para outra pessoa.
— Então vão nos deixar à mercê de Lakeland e de Piedmont. Reinos e principados piores do que jamais serei — diz, exasperado, quase tropeçando nas palavras. Fica claro que está tentando salvar a aliança, que está fazendo tudo o que pode para nos manter aqui. — Como disse, estamos enfraquecidos agora. Somos presas fáceis. Ainda mais sem seus exércitos…
— Exércitos vermelhos — o primeiro-ministro o lembra com frieza. — Exércitos de sanguenovos.
— Isso não pode ser feito — Cal responde, sua voz brusca. Ele exibe as mãos, com as palmas para cima, vazias. Sem nada a oferecer. — Simplesmente não pode ser feito. Não agora. Com tempo, talvez, mas as Casas não vão se ajoelhar se não houver um rei. Racharemos. Norta não existirá mais. Não temos tempo para mudar a própria forma de governo enquanto nos preparamos para uma invasão inevitável…
Farley o interrompe.
— Consiga tempo.
Apesar da sua altura, do seu corpo largo, da coroa, do uniforme e de todos os aparatos de um guerreiro e de um rei, Cal nunca se pareceu mais com uma criança. Ele olha para nós, então para sua avó e Volo, que não lhe dão trégua, seus rostos esculpidos com expressões igualmente reprovadoras. Não vão permitir que Cal concorde. O outro lado da aliança será rompido.
Atrás de Cal, quase invisível, Julian abaixa a cabeça, mas mantém a boca fechada.
Volo passa uma mão mortal pela barba prateada. Seus olhos brilham.
— Os lordes prateados de Norta não cederão seus direitos de nascença.
Rápida como um raio, Farley salta da cadeira. Ela cospe de forma impressionante nos pés de Volo.
— É isso que eu penso do seu direito de nascença.
Para minha surpresa, o rei Samos fica paralisado e em silêncio. Parece embasbacado diante dela, de boca aberta. Eu nunca ouvi falar de um Samos que ficou sem palavras.
— Ratos não mudam — Anabel grunhe. Ela tamborila os dedos no braço da cadeira, numa ameaça clara como o dia. Não que isso afete muito Farley.
Cal só se repete, sua voz apenas um murmúrio. Os caçadores o encurralaram.
— Não pode ser feito.
Devagar, mas de forma definitiva, Davidson levanta do seu assento, e eu o sigo.
— Assim sendo, sentimos muito por deixá-los dessa forma — ele diz. — De verdade. Considero você um amigo.
Os olhos de Cal passam por nós, saltando de um lado para o outro. Vejo tristeza nele, a mesma que sinto. Compartilhamos a resignação também. Esse sempre foi o caminho que escolhemos seguir.
— Sei disso — Cal responde. Sua voz muda, ficando mais profunda. — Mas você deveria saber que não reajo bem a ultimatos, amigáveis ou não.
É um alerta.
E não só para nós.
Descemos juntos, vermelhos alinhados em nossas crenças e metas. Uniformes rubros e verdes, nossa pele beijada pelos mesmos tons róseos e escarlates. Deixamos para trás os prateados, tão frios e imóveis como se fossem esculpidos em pedra, estátuas com olhos vivos e corações mortos.
— Boa sorte — consigo dizer sobre o ombro, roubando um último olhar.
Cal responde da mesma forma ao me ver partir.
— Boa sorte.
Em Corvium, quando ele escolheu a coroa, pensei que meu mundo tinha sido roubado, como se estivesse caindo no abismo. Não é a mesma coisa agora. Meu coração já estava partido, e uma noite não o consertou. Essa ferida não é nova; a dor não é desconhecida. Cal é a pessoa que me disse que era. Nada nem ninguém vai mudá-lo. Posso amá-lo, e talvez sempre ame, mas não posso fazê-lo se mover quando decide ficar parado. O mesmo pode ser dito de mim.
Farley me cutuca, um lembrete afiado enquanto andamos. Nosso último pedido ainda deve ser feito.
Viro de novo, voltando o rosto para ele. Tento olhar pelo tempo necessário. Determinada, mortal, uma queda inevitável para um rei prateado. Mas ainda assim Mare, a garota que ele ama. A vermelha que tentou mudar seu coração.
— Você vai deixar os vermelhos saírem das favelas, pelo menos?
Ao meu lado, Farley grunhe o restante:
— E vai acabar com o recrutamento forçado?
Não esperamos nada em troca. Talvez uma tristeza simulada, ou outra explicação trágica sobre como é impossível. Talvez Anabel nos enxote da sala.
Cal fala sem olhar para os prateados à sua direita. Decidindo sem consultá-los. Não sabia que era capaz disso.
— Posso prometer salários justos. — Quase gargalho alto. Volo empalidece, parecendo enojado, mas Cal continua falando. — E liberdade de ir e vir. Poderão viver e trabalhar onde preferirem. O mesmo vale para os exércitos. Salários justos e termos justos de recrutamento. Sem convocações.
É minha vez de ser pega despreparada. Pisco e faço uma reverência com a cabeça. Ele retribui o gesto.
— Obrigada por isso — me obrigo a falar.
Sua avó estapeia o braço do trono dele, indignada.
— Estamos prestes a lutar outra guerra — ela diz, como se alguém precisasse ser lembrado do perigo vindo de Lakeland.
Me viro para esconder meu sorriso. Ao meu lado, Farley faz o mesmo.
Trocamos olhares, agradavelmente surpresas pelas concessões. Isso significa pouco diante do todo; pode ser uma promessa vazia, e provavelmente não durará. Mas serve ao menos para um propósito.
Dividir os prateados, abrir rachaduras na sua aliança já precária. A única que restou a Cal.
Ouço quando silencia a avó com um tom perigoso atrás de mim:
— Eu sou o rei, e essas são as minhas ordens.
A resposta dela é um sussurro que não posso ouvir, abafado pelo rangido das portas conforme se abrem e depois se fecham. O salão à nossa frente está tão tumultuado quanto antes, cheio de nobres e soldados esticando o pescoço, ansiosos para ver mesmo que de relance o novo rei e seu conselho remendado. Passamos em silêncio, nossas expressões neutras e incompreensíveis. Farley e Davidson resmungam para seus oficiais, repassando nossa decisão. É chegada a hora de deixar Harbor Bay e Norta para trás. Desabotoo a gola do uniforme, deixando a jaqueta aberta para respirar melhor, livre do tecido rígido.
Kilorn é a única pessoa esperando por mim e me alcança rápido. Nem se importa em perguntar como o encontro foi. Nossa saída em silêncio responde tudo.
— Droga — ele grunhe enquanto andamos em nosso ritmo rápido e determinado.
Não tenho nada para levar. Todas as minhas roupas são emprestadas ou facilmente substituíveis, mesmo as que usava quando cheguei a Harbor Bay. Não tenho nenhum pertence, exceto os brincos na minha orelha. E o brinco que está em Montfort, guardado em uma caixa. A pedra vermelha, aquela que não suportava mais usar. Até agora.
Gostaria de tê-la aqui. Para deixá-la no quarto dele, no travesseiro em que dormi. Seria uma despedida apropriada. Mais fácil do que a que tenho que encarar agora.
Me separo de Farley e Davidson, que seguem para seus quartos no final da grande escadaria.
— Encontro vocês lá fora em alguns minutos — digo aos dois. Nenhum deles questiona minha decisão ou meu objetivo, me deixando ir com um aceno.
Kilorn hesita, aguardando um convite para me acompanhar. Mas não vai receber um.
— Você também. Não vou demorar.
Seus olhos verdes se estreitam, duros como esmeraldas.
— Não deixe ele arruinar você.
— Ele já fez o que podia comigo, Kilorn — digo. — Maven não pode quebrar mais nada.
A mentira o acalma, o suficiente para se virar, convencido da minha segurança.
Mas sempre há mais alguma coisa a ser quebrada.
Os guardas à porta abrem caminho. Giro rápido a maçaneta do quarto dele, para evitar perder a calma ou mudar de ideia. Não é uma cela, e sim um quarto escondido em um andar elevado, com vista para o mar. Sem cama, só com algumas cadeiras e um sofá comprido. Ou ele vai morrer esta tarde, e portanto não precisa de um lugar para dormir, ou ainda não lhe arranjaram uma cama.
Ele está parado à janela, com a mão na cortina, como se fosse fechá-la.
— É inútil — resmunga, com as costas viradas para mim, que fecho a porta. — Não bloqueia a luz.
— Pensei que era isso que você queria: permanecer na luz.
Ecoo as palavras que me disse meses atrás, quando eu era sua prisioneira, acorrentada em um quarto como este, condenada a olhar pelas janelas enquanto apodrecia.
— É uma simetria estranha, não? — ele diz, gesticulando para o quarto com um sorriso preguiçoso. Quase dou risada. Em vez disso, afundo em uma cadeira, com o cuidado de manter as mãos livres e as faíscas próximas.
Eu o observo, parado à janela. Ele não se move.
— Ou talvez os reis Calore tenham um gosto parecido para celas.
— Duvido muito — ele diz. — Mas, ao que parece, demonstramos nosso afeto através de prisões requintadas. Pequenas misericórdias para prisioneiros que não conseguimos deixar de amar.
As declarações dele não significam mais nada para mim. Mal sinto uma pontada no fundo do coração, que ignoro com facilidade.
— O que Cal sente por você e o que você sente por mim são coisas bem diferentes.
Maven dá uma risada sombria.
— Espero que sim — ele diz, passando as mãos pela cortina de novo. Ele olha para minha jaqueta, depois para minha clavícula. Minha cicatriz está escondida pela camisa. — Quando? — ele pergunta, com a voz mais suave.
A execução.
— Não sei.
Outra risada envenenada. Maven começa a andar, com as mãos atrás das costas.
— Quer dizer que o grande conselho não conseguiu chegar a uma decisão? Não me surpreende. Acho que vou morrer de velhice antes do seu grupo concordar em alguma coisa. Especialmente com Samos por perto.
— E sua avó.
— Não tenho avó — ele retruca com rispidez. — Você mesma ouviu: não somos da mesma família. — A lembrança deixa Maven azedo. Ele acelera o ritmo, cruzando o cômodo em alguns poucos passos e voltando. Apesar de sua calma exterior, parece um maníaco, sustentado por uma corda cada vez mais fina. Tento não olhar em seus olhos, que brilham iluminados por um fogo que parece capaz de queimar. — O que está fazendo aqui? Devo dizer que não sentia todo esse prazer em te provocar quando você era minha prisioneira.
Encolho os ombros, observando Maven.
— Você não é meu prisioneiro.
— Sou prisioneiro do meu irmão. — Ele agita a mão. — Que diferença faz?
Toda. Sinto as rugas se formando na minha testa, a tristeza já familiar me invadindo. Ele a vê por trás da minha máscara de indiferença.
— Ah — Maven murmura, parando no centro do quarto. Ele olha para mim intensamente, como se pudesse enxergar através do meu crânio e dentro do meu cérebro. Da forma como sua mãe fazia. Mas Maven não precisa ler minha mente para saber o que estou pensando ou o que seu irmão fez. — Então uma decisão foi tomada.
— Só uma — sussurro.
Maven dá um único passo à frente. Eu sou o perigo aqui, não ele, de modo que toma cuidado para se manter longe do meu alcance.
— Me deixe adivinhar, os vermelhos deram uma escolha a ele? A mesma escolha que você deu alguns meses atrás?
— Algo assim.
Seus lábios se curvam, mostrando os dentes. Não é um sorriso. Ele não se diverte ao me ver com dor, física ou de outra natureza.
— Não foi uma surpresa, foi?
— Não.
— Muito bem. Eu já tinha avisado. Cal segue ordens. Vai cumprir os desejos do pai até o dia de sua morte. — Ao falar, Maven quase parece pedir perdão pelo que o irmão se tornou, como se sentisse muito. Estou certa de que Cal compartilha desse sentimento. — Ele nunca vai mudar. Nem por você nem por ninguém.
Como Maven, não preciso de armas para machucar. Só palavras.
— Isso não é verdade — digo, olhando diretamente nos olhos dele.
Maven inclina a cabeça, estalando a língua como se eu fosse uma criança levando uma bronca.
— Pensei que já tivesse aprendido, Mare. Todo mundo pode trair todo mundo. E Cal a traiu mais uma vez. — Ele dá um passo ousado à frente, ficando a poucos metros de distância agora. Ele puxa o ar pelos dentes, como se tentasse sentir o ar saindo dos meus pulmões. — Não consegue admitir o que ele é? — Maven murmura, como se implorasse. Como se fosse o último pedido de um homem morto.
Ergo o queixo, sem tirar os olhos dele.
— Imperfeito, como todos nós.
Seu deboche reverbera no fundo do meu peito.
— Cal é um rei prateado. Um bruto, um covarde. Uma pedra que nunca vai se mover ou mudar.
Isso não é verdade, repito para mim mesma. Todos esses meses serviram de prova, e principalmente o que aconteceu há alguns minutos. Quando Cal se decidiu, mesmo com a avó espreitando. Salários justos, fim do recrutamento forçado. Passos que parecem pequenos, mas que são gigantes.
— Mas ele está mudando — digo, com a minha voz firme e ponderada. Provocando Maven. Ele empalidece, incapaz de se mover. — Mais devagar do que precisamos, mas é visível. Posso ver uma prévia do que talvez se torne. Cal está virando outra pessoa. — Abaixo os olhos, conforme as rachaduras na máscara de Maven começam a aparecer. — Não espero que compreenda isso.
Ele range os dentes, furioso. E um pouco confuso.
— Por quê?
— Porque nenhuma mudança que sofreu foi obra sua. — As palavras afiadas como navalhas caem, cortando no caminho. Ele se retrai, piscando rápido.
— Obrigado por me lembrar — diz. — Estava precisando.
Saco minha última lâmina, pronta para enfiar no fundo do coração dele. E talvez para fazê-lo sentir um pedacinho do que perdeu, mesmo que seja uma emoção fugaz.
— Sabia que Cal procurou por toda parte alguém que pudesse consertar você? — conto.
A boca de Maven desaba e fecha. Ele parece procurar alguma coisa ardilosa ou inteligente a dizer, mas só consegue gaguejar:
— O-o quê?
— Em Montfort — explico. — Cal fez o primeiro-ministro procurar algum sanguenovo, algum rubro, algum tipo de murmurador poderoso o suficiente para desfazer a obra de sua mãe. — Quase dói vê-lo tremer, demonstrando pequenas nuances de emoção além de raiva ou voracidade. Lutam para vir à tona, mas a deformação de Elara assume o controle rápido. O rosto de Maven fica paralisado, sem forças enquanto continua ouvindo. — Mas não existe ninguém assim. E, mesmo se existisse, não dá para mudar o que você é. Percebi isso há muito tempo, quando era sua prisioneira. Mas seu irmão… ele não acreditava que você estava totalmente perdido até hoje. Quando olhou nos seus olhos.
Lentamente, o rei caído se senta em uma cadeira oposta à minha. Ele estica as pernas e se afunda no assento, abandonando a coluna sempre ereta. Anestesiado, Maven passa a mão pelos cachos pretos. Seu cabelo é parecido com o de Cal, como o do pai deles. Ele fixa o olhar no teto, incapaz de falar. Imagino Maven na areia movediça, lutando para sair. Travando uma batalha impossível contra a natureza que sua mãe lhe deu. Não adianta. Seu rosto enrijece de novo, seus olhos se estreitam e gelam, fazendo tudo o que podem para ignorar o que seu coração quer sentir.
— Mas não se pode completar um quebra-cabeça com peças faltando. Ou remontar um painel de vidro estilhaçado — murmuro para mim mesma, repetindo o que Julian me disse semanas atrás.
Maven senta, endireitando as costas. Ele esfrega o pulso, tocando o ponto onde o bracelete costumava ficar. Sem eles, não tem poder. É inútil. Não precisa nem de guardas Arven.
— Cenra e Iris vão afogar todos vocês — ele sibila. — Pelo menos estarei morto antes de colocarem as mãos em mim.
— Que consolo.
— Eu ia gostar de ver você morrer. — A admissão é pequena, mas sincera e sem segundas intenções. Só a verdade nua e horrorosa. — Você vai gostar de me ver morrendo?
Pelo menos posso responder com um pouco de sinceridade.
— Parte de mim, sim.
— E o restante?
— Não — sussurro.
Ele sorri.
— É o suficiente para mim. Uma despedida melhor do que mereço.
— E o que eu mereço, Maven?
— Mais do que lhe demos.
A porta se abre com uma pancada antes que eu possa perguntar o que ele quer dizer. Levanto, esperando que os guardas me coloquem para fora agora que não faço mais parte da coalizão. Então vejo Farley e Davidson. Ela olha para Maven com mais fogo do que ele e do que até mesmo Cal é capaz de invocar, e imagino que vai esfolá-lo vivo na minha frente.
— General Farley — Maven fala lentamente. Talvez esteja tentando induzi-la a matá-lo antes que seu irmão tenha a chance. Ela só responde com um rosnado, como uma fera.
Davidson faz sinal para que outra pessoa entre no quarto. Percebo que o corredor atrás dele está vazio. Os guardas se foram.
— Mil desculpas por interromper — o primeiro-ministro diz, mais educado.
Arezzo, uma sanguenova de Montfort, entra na câmara. Pisco para ela, confusa, mas só por um segundo.
Arezzo é uma teleportadora, como Shade, e estende as mãos.
— É hora de partirmos — Davidson suspira, olhando para nós.
Levo um susto quando Arezzo agarra meu punho, mas não sou a única que ela vai levar.
Antes que o quarto desapareça, se encolhendo e se transformando em nada, vejo Maven. Seu rosto branco, mais pálido a cada segundo. Seus olhos azuis, arregalados em um estado raro de choque. E a mão de Arezzo na dele.

16 comentários:

  1. Oqueeeeeeeeeeeeeee?????

    Esse livro é cheio de surpresas

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  2. OMG!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    =OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
    MORTA ESTOU!!!

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    1. EU TB!!!!!!!!! MEU DEEEEEEEEEEUUUUSSS!!!!!!!! ESTOU GRITANDO DENTRO DE CASA E O POVO DAQUI TÁ ACHANDO QUE EU ESTOU LOUCA!!!!! AAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!

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  3. PARA TUDO BRASIL, O QUE TA ACONTECENDO ?

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  4. — Eu ia gostar de ver você morrer. — A admissão é pequena, mas sincera e sem segundas intenções. Só a verdade nua e horrorosa. — Você vai gostar de me ver morrendo?
    Pelo menos posso responder com um pouco de sinceridade.
    — Parte de mim, sim.
    — E o restante?
    — Não — sussurro.
    Ele sorri.
    — É o suficiente para mim. Uma despedida melhor do que mereço.
    — E o que eu mereço, Maven?
    — Mais do que lhe demos.
    Nn tem comentario q expresse o que eu senti ao ler isso. Mare, apesar de tudo, deu a despedida perfeita pro Maven nn so omo uma deixa pro personagem sair do livro de uma forma realmente gloriosa mostrando q o monstro dentro de si nn é quem ele é de vdd, que essa pessoa cruel é ao mesmo tempo real mas sem deixar de ser uma mascara, mas tbm pro Maven pessoa,que foi transformado pela vida, tornado um monstro pelas maos de outros, que ainda assim mostrou amor por Mare e um pouco de gratidao por cal ter esperanças nele que mesmo com tudo oq fez, nn conseguimos deixar de amar. No fundo todos temos uma parte sombria, no fundo todos travamos uma batalha interna entre o bem e o mal, todos temos uma historia, alguma coisa trágica que nos marcou, todos ja perdemos alguém nn so pra morte mas as vezes pra distancia, pro desinteresse, pro orgulho. Maven nada mais é do que um monstro criado pela vida, moldado pelas pessoas que o marcaram. A gnt ama o Maven pq no fundo todos temos um Mavem, todos somos meio Maven
    ~Diane

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  5. OMG Agora vejo um pouco do antigo Maven fofo
    OMG ansiosa demais partiu proximo capitulo !!
    ASSJanielli

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  6. Putz quando o Cal descobrir isso ele vai pirar

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    1. Acho q não,na minha opinião no fundo Cal não está tão afim de mata- lo
      Só oq eu acho

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  7. tenho a leve impressão que esses personagens sofrem de bruxismo, nunca vi ranger tanto os dentes

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  8. "Cal não consegue tomar decisões." Eu falei isso lá atrás que Cal só toma uma decisão quando a corta esta enrolada no seu pescoço e a um triz de ser puxada. Ele é uma marionete, um fantoche. Já Maven é um exemplo de ditador desses que conhecemos e que embebedam as pessoas com palavras bonitas e sorriso amigável a história real está recheada deles. Eu até fiquei surpresa com o final do capitulo, mas lembrei que recebi um spoiller e enfim... Digamos que esse spoiller tenha estragado um pouco as coisas.

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  9. Tô surpreso mas ainda tenho fé na Vic

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  10. Não tô entendendo mais nada, mas sinto q vai da merda,pra mim estao subestimando Maven

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  11. So me vem uma coisa agora.., PQP!!! 😱😱

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  12. Minha teoria louca o primeiro ministro mentiu sobre o murmurador.
    Sei lá sou retardada kkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!