2 de junho de 2018

Capítulo vinte e quatro

Mare

AINDA ESTÁ ESCURO QUANDO ACORDO, despertada pela bagunça no quarto. Fico tensa por instinto, pronta para lutar. Por um segundo, a visão de Cal no mesmo quarto que eu me intriga. Então lembro dos eventos de ontem. Sua quase morte e o que fez conosco, estilhaçando qualquer determinação que tivéssemos antes.
Ele já está vestido, parecendo um rei sob a luz suave das poucas velas. Eu o observo por um segundo, vendo-o sem nenhum tipo de máscara ou escudo. Apesar do físico alto e amplo, parece mais jovem com suas roupas refinadas. O paletó tem uma cor vermelho-sangue profunda, com detalhes em preto e botões prateados no punho. A calça combina, enfiada dentro das botas de couro lustrosas.
Ele não vestiu a capa e a coroa ainda, ambas largadas sobre a mesa. Cal se move devagar, fechando os botões até a garganta. Sombras envolvem seus olhos. Ele parece ainda mais exausto do que parecia na noite passada, se é que isso é possível.
Me pergunto se chegou a dormir ou se passou a noite se torturando com a perspectiva de rever Maven.
Quando percebe que acordei, ele se endireita, ajeitando os ombros. Cal assume o comportamento de rei bem rápido. A transformação é pequena, mas inconfundível. Ele sobe a guarda e veste a máscara, mesmo comigo. Gostaria que não agisse assim, mas entendo a razão. Faço o mesmo.
— Partimos em uma hora — ele diz, terminando com os botões. — Pedi para separarem algumas roupas para você. Escolha o que quiser na sala de visitas… — Ele titubeia, como se tivesse dito algo errado. — Ou use o que preferir do seu próprio guarda-roupa, claro.
— Não trouxe um guarda-roupa para a batalha e não acho que nenhum dos seus uniformes me sirva — respondo, rindo. Com um gemido relutante, afasto as cobertas e estremeço com o toque do ar frio. Sento, sentindo a trança emaranhada no meu ombro. — Eu arrumo alguma coisa. Devo causar alguma impressão específica?
Um músculo se contrai de leve na bochecha dele.
— Você pode se vestir como quiser — ele diz, com uma tensão estranha na voz.
— Devo ser uma distração? — pergunto, tentando desmanchar os nós no meu cabelo com cuidado.
Cal olha para meus dedos, não para mim.
— Acho que você vai ser uma distração independente do que vestir.
Meu peito se aperta.
— Elogios não vão te levar a lugar nenhum, Cal.
Mas ele não está errado. Faz meses desde que vi Maven em carne e osso, sua silhueta indo embora no meio da multidão em pânico. Iris estava ao lado dele, defendendo seu novo marido do ataque ao seu casamento na capital. Foi uma missão de resgate; não só o meu, mas de dezenas de sanguenovos manipulados para servi-lo.
Eu poderia vestir um saco de batatas e Maven ainda ia me devorar com os olhos.
Bocejando, dou passos suaves até o banheiro para tomar um banho escaldante rápido. Parte de mim deseja que Cal venha também, mas ele fica para trás, e lavo minhas últimas dores sozinha. Quando passo à sala de visitas, encontro um arco-íris em meio à penumbra. Me concentro para fazer fagulhas elétricas piscarem sobre minha cabeça, iluminando a câmara repleta de trajes. Fico feliz com a ampla variedade de roupas, e ainda mais grata por não ter ninguém ali. Sem criadas para arrumar meu cabelo e meu rosto, sem curandeiros para eliminar a exaustão persistente ou trazer mais vigor ao meu corpo. Recebi só o que preciso e exatamente o que quero.
Se Cal pudesse fazer isso com todas as outras coisas…
Tento não pensar em nada além desta manhã. Ele ainda não mudou de ideia sobre a coroa e eu ainda estou totalmente dedicada à minha causa, talvez até mais agora. Não posso continuar apaixonada por um rei quando tudo o que faço é para destruir seu trono. Destruir a própria noção de reis e rainhas e reinos à mercê das suas vontades. Mas o amor não vai simplesmente ir embora, nem a necessidade.
Me pergunto quem fez a seleção de roupas, cobrindo cadeiras e sofás com uma variedade de vestidos, ternos, blusas, saias e calças, com nada menos do que seis pares de sapatos no chão perto deles. Muitos são dourados, cor da mãe de Cal, ou de um amarelo envelhecido. Ela era uma mulher magra, a julgar pela cintura estreita dos vestidos. Menor do que eu esperaria para a mãe do homem no quarto atrás de mim. Evito suas roupas, procurando alguma coisa que não carregue o peso de uma mulher morta.
Me decido por um vestido esvoaçante afivelado na cintura, em um tom rico e profundo de azul-marinho. As cores da mãe de outra pessoa. É de veludo e com certeza vou suar mais tarde, mas o decote, com uma curva suave abaixo das clavículas, deixa minha cicatriz completamente exposta. Quero que Maven veja o que fez comigo para nunca esquecer o tipo de monstro que é. Me sinto mais forte quando o visto, como se fosse uma armadura.
Nem consigo imaginar a monstruosidade elegante que Evangeline vestirá para a reunião. Talvez um vestido feito de lâminas afiadas. Espero que sim. Ela é excelente em momentos como este, e mal posso esperar para soltá-la sobre seu antigo noivo, sem estar presa a regras de etiqueta ou conspirações.
Quando termino, penteio o cabelo ainda molhado, deixando-o cair solto sobre os ombros. As pontas cinza brilham sob a luz, em um contraste bem marcado com o marrom. Enquanto me examino no espelho, considero minha aparência estranha. Uma garota vermelha adornada como uma prateada é algo que nunca para de me surpreender. Minha pele brilha dourada à luz suave, teimando em parecer viva e vermelha. Estou menos abatida do que pensava, com os olhos castanhos acesos tanto pelo medo quanto pela determinação.
Me dá algum conforto saber que a mãe de Cal, mesmo sendo uma prateada, também não combinava com esta vida. Isso fica claro no retrato dela que está encostado na parede mais ao fundo, cercado por uma dupla de cadeiras ornamentadas.
Me pergunto onde Cal vai pendurá-lo. Fora da vista ou sempre à mão?
Coriane Jacos tinha olhos azuis suaves, se a pintura for realista. Como o céu antes do alvorecer, enevoado no horizonte. Quase sem cor, livre de tons mais profundos. Ela parece mais com Julian do que com o filho. Ambos têm o mesmo cabelo castanho, os dela caindo em ondas delicadas sobre um dos ombros. Está bem-vestida, com pérolas e uma corrente dourada. Seu rosto também é similar ao de Julian. Absorto, parecendo mais velho do que é. Mas, enquanto a tensão nele sempre me foi agradável, como a frustração constante de um acadêmico sempre tentando desvendar um quebra-cabeça, a de Coriane parece ir até os ossos. Me disseram que era uma mulher triste, e isso transparece no retrato.
— Elara a matou — Cal diz à porta do quarto. Ele arruma a capa jogada sobre um ombro, com detalhes em prateado e pedras pretas e brilhantes. Na outra mão, segura uma coroa também preta, meio escondida, como se tivesse lembrado de pegá-la depois. Há uma espada em sua cintura, enfiada em uma bainha coberta de rubi e âmbar preto. É decorativa – ninguém escolheria uma espada para lutar. — Ela enlouqueceu minha mãe, fazendo com que afundasse em sua tristeza, murmurando na cabeça dela até que não tivesse escapatória. Sei disso agora.
Os lábios dele se curvam para baixo, a testa se franze e seus olhos vão para bem longe. Na sua tristeza, vejo um pouco da mãe. A única semelhança que consigo identificar nos dois.
— Gostaria de ter tido a chance de conhecer Coriane — digo.
— Eu também.


Saímos dos aposentos dele juntos e andamos no mesmo ritmo pelos corredores de Ocean Hill até o salão de reunião, maior e mais público. Na noite passada, afastei qualquer preocupação com fofocas, me sentindo ousada e corajosa. Agora o desconforto me alcança. Me pergunto se vamos ser recebidos por uma ebulição de cochichos, sorrisos irônicos dos prateados, julgamentos dos vermelhos e dos sanguenovos. Farley vai zombar de mim por ceder? Vai virar suas costas de vez? Não suporto nem pensar nisso.
Cal sente minha inquietação. Os dedos dele acariciam meu braço, tomando o cuidado de manter distância dos pontos sensíveis nos meus pulsos.
— Não temos que entrar juntos — ele murmura enquanto descemos um lance de escadas, cada vez mais próximos do ponto sem volta.
— Não importa mais agora — respondo.
À frente, um guarda espera. Membros da Casa Lerolan, primos por parte da avó dele. Diferente dos sentinelas, não usam máscaras, mas são tão perigosos e silenciosos quanto.
Anabel está com eles, as mãos entrelaçadas na altura do cinto de rubis e citrinos flamejantes. Ela usa sua coroa de ouro rosé com orgulho, um aro simples repousando suavemente sobre o cabelo grisalho. Seus olhos param primeiro em mim.
— Bom dia — diz, puxando Cal para um abraço rápido. Ele aceita e se avoluma sobre ela.
— Bom dia — responde. — Estão todos prontos?
— Devem estar — ela diz, acenando com a mão enrugada. — Mas presumo que a gente tenha que esperar a princesa de Rift vestir todo o metal que puder encontrar. Me lembre de verificar se não roubou as maçanetas.
Uma pilha de nervos, Cal não sorri, ainda que um canto da boca se levante.
— Estou certo de que temos algumas sobrando — ele diz.
— Você parece bem, srta. Barrow — Anabel comenta, voltando os olhos para mim.
Mas não me sinto assim, penso.
— Tão bem quanto posso estar dadas as circunstâncias. — Tomo o cuidado de não usar nenhum tipo de título em seu tratamento, mas ela não parece perceber ou se importar.
A julgar pela forma como seu rosto muda, suavizando-se, devo ter dito a coisa certa. Para minha surpresa, Anabel não demonstra nenhuma hostilidade a mim esta manhã. Ela inspira devagar.
— Prontos ou não — murmura, girando —, aqui vamos nós, Maven.
O salão de visitas no fim das escadas grandiosas leva a vários salões de baile e à sala do trono de Ocean Hill, bem como ao salão de banquetes e uma versão menor e menos oficial da câmara do conselho em Whitefire. Foi construída para ser digna de uma corte de prateados e para abrigar o governo de Norta quando necessário. Agora vermelhos se espalham por ali, tão ocupados quanto serviçais, mas sem exercer essa função. Os uniformes verdes de Montfort contrastam com o mármore branco e os ornamentos azul-marinho, e muitas faixas douradas ainda estão penduradas nas paredes e no teto. O uniforme rubro de Cal se destaca entre eles. Marcando sua posição como rei legítimo e conquistador de quase metade de Norta.
Como em Ascendant, quando falou na Galeria, Davidson veste seu melhor terno verde-escuro. Farley também está com seu uniforme formal, tão desconfortável nele quanto antes. Fico feliz por não ter que usar um. O vestido cai suave sobre minha pele enquanto ando, e meus pés estão firmes nas delicadas botas azuis.
Anabel nos deixa para ficar ao lado de Julian, e Farley observa nossa aproximação. Sua testa se franze e me preparo para uma carranca, talvez até um grunhido. Ela só pisca, pensativa. Quase em aceitação.
— Calore — diz, abaixando a cabeça para o rei.
Ele sorri com o uso deliberado do cumprimento informal.
— General Farley — ele responde, com toda a propriedade. — Fico feliz por ter concordado em se juntar a nós.
Ela ajeita a gola apertada para que fique dobrada.
— A Guarda Escarlate é uma parte valiosa desta coalizão, e o Comando deve ter um representante quando negociarmos a rendição de Maven.
Quando Cal inclina a cabeça, concordando de forma gentil, suspiro para mim mesma.
— Não teria tanta certeza de que vamos chegar a um acordo — eu a alerto com a voz baixa. Estou ficando cansada de me repetir.
Farley só zomba.
— Claro, nada na vida é fácil. Mas não custa sonhar, não é?
Olho atrás dela, para os vários oficiais parados ali. Nenhum dos rostos é familiar.
— Como está Kilorn? — pergunto, franzindo a testa enquanto a vergonha sobe pela minha coluna.
Retorço as mãos, tentando esconder o tremor. Ao meu lado, Cal estremece. Gostaria de poder segurar sua mão, mas reprimimos essa demonstração de afeto tão declarada.
Farley olha para mim com pena.
— Foi curado por completo ontem, mas precisa de descanso. — Tento visualizá-lo inteiro e saudável, não à beira da morte, como quando o deixei. Não funciona. — Tomamos o comando dos quartéis da central de segurança. Ele está lá com os demais feridos.
— Bom — me forço a dizer, incapaz de falar qualquer outra coisa. Farley não insiste. Ainda assim, fico constrangida pela minha escolha, como se uma ferida tivesse sido aberta por uma lâmina afiada. Kilorn quase morreu. Cal quase morreu.
E você correu para Cal.
Ao meu lado, o legítimo rei olha em outra direção, seu próprio rosto prateado com o assunto. Ainda que tenhamos decidido não fazer escolhas, sabemos que elas foram feitas mesmo assim.
— E Cameron? — acrescento, mais para estancar o sangramento que os pensamentos provocam.
Farley coça o queixo.
— Ajudando a organizar as coisas na Cidade Nova. Ela é um recurso valioso lá, assim como o pai. As cidades de técnicos possuem suas próprias redes clandestinas, e a notícia está se espalhando para as outras. Os prateados de Maven podem estar se preparando para mais ataques, mas nós também estamos.
Isso me enche de orgulho, bem como de ansiedade. Com certeza Maven retaliará pelo que fizemos na Cidade Nova e tentará impedir que aconteça de novo. Mas, se as favelas vermelhas se levantarem, se as cidades de técnicos pararem de funcionar, seu poderio será praticamente extinto. Ele vai ficar sem recursos. Sem combustível. Podemos fazê-lo passar fome até se render.
— Reparei que estamos esperando pela princesa Evangeline de novo — Davidson diz, juntando-se a nós. Seu contingente particular de conselheiros fica para trás, nos dando espaço.
Inclino a cabeça para trás e suspiro.
— A única constante nesse mundo.
O primeiro-ministro cruza os braços. Se está nervoso, não demonstra.
— Um pavão precisa de tempo para ajeitar as penas, mesmo que sejam de metal — comenta.
— Perdemos muitos magnetrons ontem — Cal diz, sua voz grave e firme. Quase uma repreensão. — A Casa Samos pagou um preço alto por Harbor Bay.
Farley se enrijece, apertando a mandíbula.
— Duvido que vão nos deixar esquecer isso. Ou que esse sacrifício não vai exigir recompensas.
— Essa é uma ponte a ser cruzada ainda — Cal responde.
Apesar do nosso histórico, sinto uma necessidade estranha de defender Evangeline.
— Se tiver que ser cruzada — digo. — Mas podemos discutir isso depois — acrescento, apontando para a passagem arqueada onde ela acabou de aparecer, com Ptolemus ao seu lado.
As roupas dos dois combinam entre si, em tons de branco perolado e prateado brilhante. Ele usa um paletó de caimento perfeito abotoado até o pescoço, calça, e botas pretas similares às de Cal, além de uma faixa cinza apertada cruzando seu corpo do ombro até o quadril. A estampa da faixa parece estranha, mas conforme se aproxima, percebo que as formas de diamantes pretos são lâminas fixadas diretamente no tecido. Armas, caso precise.
As fendas do vestido longo de Evangeline revelam uma calça fina de couro por baixo. Caso esse encontro termine em sangue, sua ação não vai ser restringida pela saia. Queria ter pensado nisso também. O cabelo dela está preso em uma trança firme para trás, as mechas prateadas ornamentadas com o brilho cintilante de pérolas metálicas com pontas afiadas. Boas para cortar a carne. Seus braços estão nus, sem mangas para impedir seus movimentos ou se enroscar nas joias de suas mãos. Um anel brilha em cada dedo, com pedras brancas e pretas, e correntes elegantes envolvem os pulsos. Ótimas para estrangular ou fatiar. Até os brincos dela parecem mortais, longos e afiados.
Fico feliz que Evangeline tenha demorado tanto. Ela está vestindo um arsenal.
— Devo pedir para ajustarem os relógios nos seus quartos, majestades? — Anabel grasna, ao lado de Julian.
Evangeline responde com um sorriso tão afiado quanto suas lâminas.
— Nossos relógios marcam a hora exata, majestade. — A saia dela balança em volta das pernas conforme passa pela velha rainha, seguindo na nossa direção. Estremeço quando ela dirige um sorriso para mim. — Bom dia, Mare. Vejo que está bem descansada. — Ela passa os olhos por Cal, com os dentes à mostra. — E você não.
— Obrigada — respondo seca, com o maxilar cerrado. Logo me arrependo de qualquer sentimento bom que tive por ela.
Evangeline se diverte com minha resposta áspera e com o prateado nas bochechas de Cal. Atrás dela, Ptolemus cruza os braços atrás das costas, estufando o peito. Mostrando com orgulho as adagas. Farley repara em cada uma delas, com os olhos raivosos bem abertos.
— É uma pena que esse encontro não pôde ser marcado à noite — Ptolemus murmura. Sua voz é mais profunda que a de Cal e infinitamente menos gentil. Ele é corajoso por abrir a boca, com Farley e eu por perto.
Me pergunto se ela também vê Shade morto pelo golpe de Ptolemus Samos. Só ficar na presença dele já parece uma traição.
Farley tem mais controle do que eu. Enquanto só consigo manter a boca bem fechada, ela balança a cabeça com sarcasmo.
— Para que sua irmã tivesse mais tempo de pintar o rosto? — ela dispara, gesticulando para a maquiagem elaborada de Evangeline.
A princesa Samos se move bem pouco, se posicionando entre o irmão e nós. Protetora até o fim. Quase espero que o mande para longe do nosso alcance.
— Para que meu pai pudesse participar — Evangeline explica. — O rei Volo estará aqui ao pôr do sol.
Cal estreita os olhos. Ele sente a ameaça com tanta clareza quanto eu.
— Com reforços?
— Mais soldados leais a Samos para morrer por você? Improvável — Evangeline zomba. — Ele vem para supervisionar o ataque final contra Maven.
Supervisionar. Os olhos cinza e tempestuosos dela escurecem, ainda que só por um momento. Não é difícil preencher as lacunas entre suas palavras, o que diz em oposição ao que fala.
Ele está vindo para arrumar a bagunça que fizemos.
Estremeço. Evangeline e Ptolemus são formidáveis, violentos e perigosos, mas, no fim das contas, são ferramentas. Armas manejadas por um homem ainda mais poderoso.
— Bom, assim economizo o tempo que levaria para convocá-lo — Cal diz, apoiando a mão sobre o cabo da espada cravejada de joias. Ele abre um sorriso leve, como se a chegada de Volo Samos tivesse sido ideia sua. — Estou certo de que vai recebê-lo com alegria, Evangeline.
O olhar que ela lhe lança poderia envenenar rios inteiros.
— Vamos terminar logo com essa bobagem — ela bufa.


O alvorecer se espalha pelas ondas, brotando do horizonte com uma mistura difusa de rosa e azul-claro. Mantenho a testa apoiada no vidro gelado do jato para observar nossa descida. Conforme os segundos passam, meu corpo se enrijece e minha pulsação acelera como um tambor em disparada, e temo que possa explodir. Preciso de toda a minha concentração para manter meu poder contido e o jato a salvo dos meus ataques elétricos. Do outro lado, Farley me encara, suas mãos prontas para abrir o cinto de segurança. Para se soltar e pular pela porta caso eu perca o controle.
Cal tem mais fé. Ele exibe uma fachada de desdém casual, com uma perna esticada à frente e a lateral do corpo encostada em mim. Irradia um calor tranquilizador e seus dedos acariciam os meus de tempos em tempos, um lembrete constante da sua presença.
Se sua avó está infeliz ou surpresa com nossa proximidade, não demonstra. Está sentada em silêncio com Julian, o rosto dele mais soturno do que nunca.
Davidson é o último passageiro do nosso jato. Por sorte, Evangeline e seu irmão vão na outra aeronave, que nos acompanha. Posso ver na água o reflexo do jato pequeno e ruidoso onde eles estão, uma sombra desfocada entre as ondas. Esses aviões são extremamente barulhentos, mas desta vez fico feliz por isso. Ninguém pode falar, planejar ou fazer comentários maldosos. Tento me perder no ruído constante.
Province chega rápido demais, um círculo verde envolvido por uma faixa de areia pálida. De cima, parece um dos mapas de Julian. Um desenho simples, o vilarejo à beira da água, uma pequena teia com poucas ruas. O porto está vazio, mas quase uma dezena de navios de guerra está ancorada a uns oitocentos metros da costa. Maven poderia atirar nos jatos se quisesse, penso, imaginando o estrondo distante do disparo da artilharia.
Mas pousamos sem incidentes. A sensação de aperto no peito aumenta, chegando a uma intensidade muito além do que posso suportar. Cerro os dentes, sentindo como se minha mandíbula fosse estilhaçar, e salto do jato o mais rápido que posso, nem que seja só para respirar um pouco de ar fresco.
E, talvez, correr direto para o mar.
Em vez disso, me distancio dos motores do jato, com uma das mãos erguida para proteger meu cabelo da pior parte da ventania. Farley me segue com os ombros encolhidos.
— Você está bem? — ela pergunta sob o barulho, para que só eu possa ouvir.
Sacudo a cabeça de leve. Não.
Vasculho a grama alta que cobre as dunas da praia, esperando que sentinelas saltem e nos cerquem. Para forçar nossa rendição, para me obrigar a voltar para as algemas. A bile sobe pela minha garganta, e o gosto quase me faz vomitar. A sensação da Pedra Silenciosa contra minha pele retorna com um sorriso vingativo.
Não posso voltar para lá. Viro o rosto, me escondendo atrás do cabelo que chicoteia com o vento. Tentando respirar e me dar os segundos preciosos de que preciso para me recompor.
A mão de Farley envolve meu ombro. Seu aperto é firme, mas gentil.
— Não vou dizer para esquecer o que aconteceu — ela sussurra no meu ouvido. — Mas tem que aguentar. Só um pouquinho.
Aguente.
Aperto os dentes e olho para ela, com os olhos misericordiosamente limpos.
— Só um pouquinho — ecoo. Depois posso desabar. Quando tudo isso terminar.
Atrás dela, Cal acompanha, vigilante, mas hesitando em interromper. Encontro seus olhos por cima do ombro e aceno brevemente. Vou conseguir. Tenho que conseguir.
Parecemos um grupo estranho, alguns nobres prateados, uma general vermelha e dois sanguenovos, escoltados por guardas de diversas cores. Apesar de ninguém estar disposto a acreditar que Maven obedecerá as leis de guerra, sabemos que a rainha de Lakeland provavelmente vai. Ainda assim, fico próxima de Farley e dos seus dois oficiais da Guarda Escarlate. Confio nas armas e na lealdade deles.
Evangeline e Ptolemus descem do seu jato, agindo como se aquela reunião fosse um mero incômodo. Como se tivessem coisas mais importantes a fazer. É uma encenação, claro. Evangeline quer ver Maven tanto quanto eu não quero. Nunca deixaria de lado a chance de desdenhar da cara dele. Os motores do jato fazem o cabelo dela voar enquanto espera passando seus olhos aguçados e penetrantes pela grama que nos cerca.
Concordamos em nos reunir no interior da ilha. Uma chance para as ninfoides de Lakeland mostrarem sua boa vontade. A caminhada é curta e silenciosa pelas dunas, em direção à floresta esparsa de árvores tortas. Lembro de Tuck, agora abandonada às ondas. Shade está enterrado lá, sem ninguém para olhar por ele.
Cal nos lidera, com Davidson de um lado e Farley do outro. Para representar nossa frente unida. Sangue vermelho aliado ao prateado. Evangeline e Ptolemus seguem logo atrás, surpreendentemente tranquilos com sua posição secundária.
Fico feliz por ter tantas pessoas à minha frente, me dando uns segundos a mais para reunir cada grama de coragem que posso encontrar. Meu maior conforto é minha eletricidade, serpenteando sob minha pele, sem que ninguém mais saiba. Eu a imagino atrás dos meus olhos, linhas roxas e brancas de um brilho intenso, ramificando-se. Elas não vão embora e ninguém pode tirá-las de mim, nem mesmo ele. Vou matá-lo se tentar.
Meses atrás, acompanhei Maven fazendo um acordo de paz com o povo de Lakeland de uma maneira muito parecida. Mesmo que o cenário fosse bem diferente — o interminável campo minado do Gargalo, em vez de uma ilha gramada entre o céu brilhante e o mar tranquilo —, a sensação era a mesma. Marchamos em direção ao desconhecido, em direção a pessoas com poderes formidáveis e terríveis. Pelo menos dessa vez não estarei sentada ao lado de Maven na mesa. Não sou mais seu animal de estimação.
Como na reunião com Lakeland, uma plataforma foi construída no meio de um campo. As placas de madeira foram encaixadas com cuidado. Há um círculo de cadeiras ali em cima, metade dele já ocupada. Quase vomito na grama a meus pés.
Alguém ao meu lado toca minha mão. Julian.
Olho para ele, implorando em silêncio. Pelo quê, não sei. Não posso virar. Não posso correr. Não posso fazer nada que meu corpo grita para eu fazer. Tudo o que ele oferece é um olhar gentil e um aceno de compreensão.
Aguente.
Duas sentinelas se postam no nosso caminho, seus rostos indecifráveis por trás das máscaras. A brisa do mar balança os uniformes flamejantes.
— Pedimos que descartem as armas antes de se aproximar de sua majestade, o rei de Norta — um deles diz, gesticulando para Farley e seus oficiais. Ninguém se mexe. Farley nem pisca.
A rainha Anabel vira a cabeça com um olhar sarcástico. Ela espreita ao lado de Cal, mal chegando à altura do ombro dele.
— O rei de Norta está bem aqui, e ele não teme as armas dos vermelhos.
Diante disso, Farley ri com gosto, seu desdém direcionado às sentinelas.
— Por que se importam com nossas armas? — ela grasna. — Essas pessoas são mais perigosas do que qualquer coisa que possamos carregar. — Ela gesticula para os sanguenovos e os prateados. Com poderes muito mais destrutivos do que qualquer arma. — Não me diga que seu reizinho está com medo de uns poucos vermelhos com pistolas?
Ao lado dela, os dois oficiais da Guarda Escarlate se ajeitam um pouco, como se pudessem disfarçar as metralhadoras em suas mãos.
Cal não ri, nem mesmo esboça um sorriso. Ele pressente algo errado, o que me dá arrepios.
— Presumo — ele começa, deliberadamente devagar — que vamos entrar em um círculo silencioso. Estou correto, sentinela Blonos?
Meu sangue congela. Todo o ar sai do meu corpo. Não.
Julian estende lentamente o braço, me oferecendo algo em que me agarrar.
O sentinela estremece, reagindo ao uso do nome de sua Casa por Cal. Foco nele, para me impedir de perder a cabeça. Não adianta. Meu coração dispara, batendo como uma trovoada, e o ar entala na minha garganta. Um círculo silencioso.
Quero arrancar minha pele. Meus dedos tremem no braço do Julian, e eu os aperto com um pouco de força demais. O branco nas minhas articulações se destaca.
Ele cobre minha mão com a dele, tentando controlar um pouco do meu medo.
À nossa frente, Cal ergue o queixo com os olhos faiscantes. Como se quisesse virar para mim. Com dó? Com frustração? Ou compreensão?
— Sim — o sentinela responde, sua voz abafada. — O rei Maven providenciou Pedra Silenciosa para garantir que o encontro não tenha desavenças mais desagradáveis.
Um músculo se contrai na bochecha de Cal.
— Esse não é o protocolo — ele fala por entre os dentes. O rosnado dele parece se propagar, como o alerta de um animal. Parte de mim quer que perca o controle e queime aqueles dois, queime a ilha, queime Maven, Iris e a mãe dela. Remova todos os obstáculos no nosso caminho com um fogo devorador e destrutivo.
O sentinela fica ereto e bate os dois punhos no uniforme. Ele é mais alto do que Cal, mas nem de perto tão imponente. Seu parceiro faz o mesmo, parado ombro a ombro para bloquear nosso caminho.
— Essa é a vontade do rei. Não um pedido… senhor — ele acrescenta, soando estranho e afetado. Esses homens costumavam proteger Cal, como haviam protegido seu pai e agora protegem Maven. Suponho que confrontar a pessoa de quem já foram encarregados seja uma das poucas situações para as quais não foram treinados.
Cal olha de um lado para o outro, buscando tanto Farley quanto Davidson.
Meus dentes rangem, osso contra osso, conforme puxo pequenas doses de ar pelo nariz. Quase posso sentir a Pedra Silenciosa de novo, ameaçando me drenar. Não se recusarmos. Não se formos embora. Ou se Maven ceder, permitindo que a gente passe sem sofrimento.
É claro que ele não vai fazer isso. Porque foi justamente por isso que trouxe a Pedra Silenciosa. Não para se proteger. As leis de guerra já são proteção suficiente, principalmente com seu irmão absurdamente nobre liderando o outro lado. Maven fez isso para nos ferir. Para me machucar. Sabe o tipo de prisão em que me manteve por seis meses. Sabe como cada dia foi devastador, morrendo devagarinho, separada de uma parte de mim. Presa atrás de um vidro que nunca quebraria, independente do quanto eu lutasse.
Meu estômago afunda quando Farley assente a contragosto. Pelo menos ela não vai sentir nada. A Pedra Silenciosa não tem efeito sobre ela ou qualquer outro vermelho sem habilidades.
Davidson parece menos contente, endireitando a coluna e os ombros ao olhar para Cal. Mas inesperadamente ele assente, concordando com os termos.
— Muito bem. — Quase não ouço o que Cal diz, só o urro que cresce nos meus ouvidos.
O chão sob meus pés gira em um círculo vertiginoso. Só minha mão agarrada ao braço de Julian me mantém firme. Na linha de frente, Farley e seus oficiais descartam as armas fazendo barulho, mostrando todo o seu arsenal de pistolas e facas. Estremeço com cada uma que cai, inútil, desaparecendo no gramado.
— Vamos — Julian sussurra para que só eu possa ouvir.
Ele me força a dar um passo. Minhas pernas vacilam, ameaçando desabar. Eu me apoio nele tanto quanto posso, deixando que me guie.
Aguente.
Ergo os olhos tanto quanto posso, tentando não tremer, cair ou fugir.
Iris se destaca reluzente em seu vestido azul. O espartilho é uma armadura, e a saia se espalha em volta dela, cuidadosamente ajeitada na cadeira. Iris tem o equilíbrio perfeito entre rainha e guerreira, mesmo se comparada a Evangeline. Seus olhos cinza nos seguem conforme nos aproximamos, estreitos como os de um predador. Nunca foi indelicada comigo, para os padrões de uma prateada. Ainda assim, sinto ódio dela e do que fez. Com a Pedra Silenciosa cada vez mais próxima, tenho que me encher de raiva. É a única coisa que bloqueia meu medo.
Entro no círculo, e a sensação antinatural recai sobre mim como uma cortina. Mordo o lábio com força para me impedir de gritar. Minhas entranhas se reviram de novo quando o peso dolorido e familiar pousa com tudo sobre meus ombros. Meus passos vacilam e eu pisco, a única demonstração evidente da minha dor intensa. Por dentro, meu corpo grita, todos os nervos queimando. Meu instinto me diz para correr, para abandonar o círculo de tortura. O suor escorre pela minha coluna quando forço um passo após o outro, tentando acompanhar o ritmo dos demais. Se não fosse pela Pedra Silenciosa, eu explodiria em um ataque elétrico de fúria maior do que qualquer tempestade que já criei. A eletricidade não tem piedade. Nem eu.
Meus olhos se estreitam para conter a vontade de chorar.
Observo todos, menos Maven. A rainha Cenra parece resignada, uma mulher menor do que a filha, usando as mesmas cores, mas com a expressão neutra. Seu vestido é de um azul intenso, com faixas douradas para combinar com a coroa na sua testa. Elas se apoiam uma na outra, bem juntas, com uma confiança que só mãe e filha podem compartilhar. Quero rasgá-las ao meio.
Nunca vi o quarto membro da realeza antes, mas posso adivinhar facilmente sua identidade. O príncipe Bracken se avoluma sobre a cadeira, sua pele lustrosa, com o tom preto azulado perfeito de uma pedra preciosa. Seu traje é púrpura como uma ametista, cuidadosamente posicionado por baixo de uma placa de ouro maciço no peito. Seus olhos pretos se fixam não em Cal ou em mim, mas em Davidson. Parece capaz de virar o primeiro-ministro do avesso, ansiando por se vingar pelos filhos.
Entre ele e Iris, está Maven.
Tento não olhar para ele a princípio, mas é impossível. Só de vê-lo sinto como se facas quentes passassem pela minha pele, tão afiadas que poderia começar a sangrar.
AguenteAgarre-se à raiva.
Meu coração para quando olho para ele e descubro que já está me encarando, com um sorriso irônico familiar nos seus lábios pálidos.
Maven balança a cabeça enquanto assumimos nossos lugares, seus olhos saltando entre mim e Cal, como se ninguém mais existisse. O primeiro-ministro Davidson senta entre nós, como uma divisória clara. Maven parece gostar muito disso, sorrindo para ele. A brisa do mar balança seu cabelo, mais longo que o de Cal, curvando-se de leve sob o peso da sua maldita coroa negra de ferro.
Quero matá-lo.
Seu uniforme é familiar, preto como um corvo, acompanhado pelas tradicionais medalhas que não merece. Ele sorri para o paletó de Cal, reparando com satisfação nas cores invertidas. Provavelmente feliz por ter tomado os símbolos do irmão.
Nos saúda com frieza e com um deleite evidente, ansioso para tornar tudo o mais doloroso possível. A máscara do rei cruel está firme em seu rosto.
Preciso arrancá-la.
Me inclino na direção de Davidson, apoiando o cotovelo no braço da minha cadeira e deixando a clavícula exposta. A cicatriz fica clara para todos verem, queimada na minha pele. M de Maven. M de monstro. O olhar dele se demora na carne arruinada, vacilando por um momento. Aqueles olhos gélidos empalidecem e vão para longe. Como se tivesse sido desviado do caminho, ou mandado para um corredor longo e escuro.
Maven se recupera, piscando para o restante da nossa coalizão, mas é um bom começo.
Todos sentam sem incidentes nos lugares predeterminados. Para minha surpresa e desconforto, Farley tem Cal de um lado e Ptolemus de outro. Faço uma careta. Se ela não voar pela plataforma para estrangular Maven, pode acabar matando um dos seus próprios aliados.
O olhar de Farley queima tanto quanto o de qualquer Calore quando encara Maven. Eles já se encontraram antes, muito tempo atrás, no palácio de verão, quando ele enganou todos nós com suas mentiras sedutoras, em que queríamos acreditar. Maven a enganou tanto quanto a mim.
— É de fato fascinante ver o quanto você subiu, general Farley — ele diz. Sei o que está tentando fazer. Abrir rachaduras entre nós antes mesmo de nos acomodarmos direito. — Me pergunto onde diria que estaria agora se eu lhe perguntasse um ano atrás. Que jornada. — Os olhos dele saltam de Farley para Ptolemus, a insinuação evidente.
Quando eu era sua prisioneira, ele rachou minha cabeça, vasculhando minhas memórias com a ajuda de um primo Merandus. Viu Shade morto pelas mãos de Ptolemus, e sabe o que ele significava para Farley. Sabe o que meu irmão deixou para trás. Não é difícil para ele cutucar essa ferida aberta.
Farley mostra os dentes, uma predadora mesmo sem suas garras. Cal responde antes que ela possa retribuir o veneno.
— Acho que todos chegamos a lugares estranhos. — Sua voz sai severa e equilibrada. É diplomático até os ossos. Não consigo imaginar o esforço que isso deve exigir. — Não é sempre que um rei de Norta senta perto das rainhas de Lakeland.
Maven só escarnece. Ele é bem melhor nisso do que Cal jamais será.
— Não é sempre que o primogênito senta em qualquer lugar que não o trono — ele dispara de volta, e Cal fecha a boca com um estalo audível. — O que você acha de tudo isso, minha avó? — Maven acrescenta, lançando suas adagas contra Anabel. — O sangue do seu sangue em guerra entre si.
Ela responde à altura.
— Você não é da minha família, garoto. Deixou de ser quando ajudou a matar meu filho.
Maven só estala a língua, como se tivesse pena dela.
— Cal brandiu aquela espada, não eu — ele diz, apontando o queixo para a arma na cintura do irmão. — Quanta imaginação. Velhas são tão propensas a fantasias.
Ao seu lado, a rainha Cenra arqueia uma única sobrancelha. Não diz nada, deixando Maven tecer sua teia… ou preparar a própria forca.
— Bem — ele continua, batendo as mãos. — Não fui eu que solicitei esta reunião. Imagino que vão apresentar os termos que querem me oferecer. Rendição, talvez?
Cal balança a cabeça.
— Sim. A sua.
A risada de Maven é estranha. Forçada. O ar é expulso de forma calculada e treinada, numa imitação de como acha que uma risada deveria soar. Irrita Cal, que se remexe na cadeira, desconfortável.
Bracken não sorri, mantendo uma carranca. Ele apoia o queixo no punho cerrado. Não conheço seu poder, mas presumo que seja forte, contido apenas pela Pedra que lentamente afoga todos nós.
— Não vim até aqui, com toda essa urgência, para me entreter com piadas sem sentido, Tiberias Calore — Bracken diz.
— O sentido é claro, alteza — Cal responde, abaixando a cabeça em deferência e respeito.
Maven solta uma risada grave e profunda.
— Você está vendo meus aliados aqui. — Ele abre bem as mãos brancas. — Ambos da realeza prateada, com todo o poder de suas nações em favor da nossa causa. Controlo a capital e as terras mais ricas de Norta…
— Você não controla Rift — Evangeline estoura, interrompendo Maven. Apesar da Pedra, seus metais estão todos a postos. A roupa foi costurada de fato, não se mantinha unida apenas pela habilidade dela. Evangeline se preparou bem. Como eu deveria ter feito. — Não controla Delphie. Perdeu Harbor Bay ontem. Perderá mais, até que restem apenas as pessoas sentadas ao seu lado. Então ficará sem nada para oferecer pelo que lhe deram. — O sorriso dela se abre, mostrando os dentes com pontas prateadas. Acho que Evangeline devoraria o coração dele se pudesse. — Será um rei sem coroa e sem trono logo mais, Maven. É melhor desistir enquanto ainda tem alguma coisa para barganhar.
Maven ergue o nariz, o que o faz parecer uma criança petulante.
— Não vou barganhar por nada.
— Nem pela sua vida? — murmuro, com a voz baixa, mas firme o suficiente para me impor. Me mantenho parada quando ele vira os olhos para mim, deixando o gelo cair sobre minha carne. Sem tremer, sem piscar. Aguente.
Maven apenas ri outra vez.
— O blefe de vocês me diverte, no mínimo. — Ele solta mais algumas risadinhas. — Sei o que vocês têm, quem seduziram. Diga seus termos, Cal. Ou volte para Harbor Bay e nos force a matar todos vocês.
— Muito bem — Cal responde com os punhos cerrados. Se não fosse pela Pedra, ele provavelmente estaria em chamas. — Renuncie, Maven. Renuncie e deixo você viver.
— Isso é ridículo. — Maven suspira, revirando os olhos para Iris. Ela não retribui.
Cal prossegue, indiferente.
— A aliança com Lakeland e Piedmont permanecerá. Teremos paz na nossa costa, desde as orlas congeladas até as ilhas do sul. E tempo para a reconstrução, para recriar o que a guerra destruiu. Para curar as feridas e corrigir os erros que nos perseguem há séculos.
— Está se referindo a direitos iguais para os vermelhos? — Iris pergunta. A voz dela é como me lembro. Calma, calculada. É uma criatura de autocontrole.
— Estou — Cal diz com firmeza.
Bracken solta uma risada profunda e longa, com a mão no ouro esculpido sobre a barriga. Se não fosse pelas circunstâncias, eu acharia o som reconfortante e caloroso. Cenra e Iris permanecem quietas, relutantes em demonstrar suas verdadeiras intenções ou opiniões tão abertamente.
— Você é ambicioso, tenho que admitir — Bracken diz, apontando para Cal. — E jovem. E sujeito a distrações. — Os olhos negros dele encontram os meus, deixando claro a que se refere. Eu me contorço sob seu olhar. — Não faz ideia do que está nos pedindo para fazer.
Farley não se amedronta com tanta facilidade. Finca os dedos nos braços da cadeira, quase levantando. Suas bochechas se tingem de vermelho.
— Vocês se sentem tão ameaçados pelo povo em que cospem que não podem nem conceder algo simples como a liberdade? — ela fala com ironia, os olhos saltando de Bracken para Cenra e Iris. — Seu poder é tão tênue assim?
A rainha de Lakeland arregala os olhos, o branco deles em contraste com o bronze da pele e o castanho-escuro da íris. Parece realmente surpresa. Duvido que alguma vez uma vermelha tenha se dirigido a ela dessa forma, o que fica claro.
— Como ousa falar conosco…
Julian age rápido e a interrompe, antes que Cenra instigue Farley a fazer algo mais drástico.
— A história favorece os desprivilegiados e oprimidos, majestade. — Ele soa encantador e metódico, sábio, mesmo sob o peso da Pedra Silenciosa. A rainha é relutante, mas fecha a boca lentamente para ouvir. — Os anos são longos, mas, no final, a sorte sempre muda. O povo se levanta. É assim que as coisas funcionam. Ou se permite que a mudança venha por bem, facilitando o processo, ou se enfrenta a fúria de tal força. Pode não ser com vocês, nem mesmo com seus filhos. Mas chegará o dia em que os vermelhos vão derrubar os portões dos seus castelos, destruir suas coroas e cortar a garganta dos seus descendentes enquanto eles imploram pela misericórdia que vocês não demonstram agora.
As palavras dele ecoam por muito tempo, como se dançassem ao vento. Elas trazem de volta para a realidade as rainhas de Lakeland e Bracken, que trocam olhares inquietos.
Maven não se abala nem um pouco. Lança seu olhar malicioso sobre lorde Jacos, as pupilas brilhando. Sempre desprezou Julian.
— Você ensaiou isso, Julian? Sempre me perguntei por que passava tanto tempo sozinho na biblioteca.
É fácil demais rebater as farpas.
— Duvido que alguém passe mais tempo sozinho que você — digo, me inclinando mais uma vez para a frente para mostrar a cicatriz.
A combinação o deixa pálido, com a boca entreaberta. A respiração sibila por entre os dentes expostos. Parece que quer me beijar ou rasgar minha garganta.
Duvido que conseguisse escolher.
— Cuidado, Maven — pressiono, levando-o ao limite da tolerância. — Essa sua máscara pode cair.
O medo brilha nos olhos dele. Então a expressão se desfaz, a testa se franze e os lábios se curvam para baixo, mostrando mais dentes. Com as sombras sob seus olhos e sob as maçãs do rosto, parece uma caveira, branco como o luar.
— Eu poderia matar você, vermelha — Maven rosna, sem se envergonhar da ameaça vazia.
— Engraçado, porque teve essa oportunidade por seis longos meses. — Passo as mãos pelo peito, me demorando na cicatriz. — Mas aqui estou.
Desvio o olhar antes que ele possa dizer mais alguma coisa, e me dirijo a seus aliados.
— Maven Calore é, no mínimo, instável. — Estou muito ciente da atenção deles, do peso de três coroas me olhando, bem como da pressão constante e esmagadora da Pedra Silenciosa. Gostaria de poder sentir minha eletricidade e extrair um pouco de força dela, mas só possuo o que restou de mim. E tem que ser o suficiente. — Todos vocês sabem. Quaisquer que sejam os benefícios do reinado dele, não superam os riscos. Ele será deposto, ou por nós ou pelo esfacelamento do país. Olhem à sua volta. Quantas Casas se sentam com ele? Onde estão? — Gesticulo para os sentinelas, seus próprios guardas, sem mais ninguém de Norta presente. Nada da Casa Welle, da Casa Osanos ou qualquer outra. Não sei onde estão, mas sua ausência diz muito. — Vocês são o escudo dele. Maven está usando seus países. Ele vai se virar contra vocês um dia, quando tiver força suficiente para descartá-los. Maven não tem lealdade ou amor no coração. O garoto que se autoproclamou rei é uma casca vazia, um perigo para tudo e para todos.
Maven se concentra em suas mãos, ajustando os punhos do uniforme. Qualquer coisa para parecer indiferente. É um fingimento muito ruim, especialmente para alguém tão talentoso quanto ele.
Mantenho minha cabeça erguida.
— Por que continuar sustentando essa loucura? Para quê?
À minha esquerda, Farley se mexe e sua cadeira range. Seu olhar tem todo o fogo que os Calore não podem invocar.
— Porque eles preferem se matar a se igualar a qualquer sangue que não seja da cor certa — ela sibila.
— Farley — Cal resmunga.
Para minha surpresa, Evangeline assume a frente, atraindo a atenção para si. Ela aperta os lábios e ajeita o vestido com gestos chamativos.
— É muito claro o que está acontecendo aqui. Você diz que Maven está usando os dois como escudo? — ela fala, quase rindo. — Onde estão seus exércitos, rainha Cenra? E os seus, príncipe Bracken? Quem está sangrando de fato nessa guerra? Se alguém aqui é um escudo, é Maven. Eles estão usando um garotinho contra seu irmão mais velho, jogando um contra o outro até que se sintam confiantes de que podem destruir o que restou. Não é verdade?
Eles não negam, sem querer dar espaço a tal alegação. Iris tenta outra tática, se inclinando na direção da princesa Samos com um leve sorriso.
— Devo presumir o mesmo sobre você, Evangeline. Ou Tiberias Calore não é uma arma para Rift?
Maven acena para sua rainha recuar. Ele olha para Cal e para Farley. Ela é o ponto fraco aqui, ou pelo menos ele pensa que é. Boa sorte.
— Não, não Cal — ele diz ronronando. — Os vermelhos. Os vira-latas de Montfort. Conheço Volo e os outros prateados que se rebelaram. Não vão tolerar nenhuma liberdade para os vermelhos além do necessário. Não é mesmo, Anabel? — ele acrescenta, lançando um sorriso para a avó.
Ela meramente se vira, se recusando até mesmo a olhar para ele. Apesar de toda a sua pose, o sorriso de Maven diminui um pouco.
Farley não cai na armadilha dessa vez. Ela se mantém parada. Davidson bate as mãos lentamente, inclinando a cabeça na direção do falso rei.
— Tenho que aplaudir você, Maven — ele diz. A calma demonstrada pelo primeiro-ministro é um descanso bem-vindo de todo o veneno. — Admito que não esperava uma manipulação tão hábil de alguém tão jovem. Mas presumo que sua mãe o criou assim, não foi? — ele acrescenta, olhando para mim.
Isso incendeia Maven mais do que qualquer outra coisa. Ele sabe o que aquela insinuação quer dizer: que contei a eles tudo o que pude a seu respeito, a respeito do que a mãe lhe fez.
— Sim, Maven foi fabricado por ela — murmuro. É como se eu girasse uma faca nas entranhas dele. — Não importa quem deveria se tornar. Aquela pessoa se foi por completo.
A voz de Cal é suave ao lançar o golpe final.
— E nunca vai voltar.
Se não fosse pela Pedra Silenciosa, Maven queimaria. Ele bate o punho, com as articulações tão brancas quanto ossos expostos.
— Essa conversa não tem sentido — estoura. — Se vocês não têm condições a oferecer, então vão embora. Fortifiquem sua cidade, reúnam seus mortos, se preparem para uma guerra de verdade.
Cal não vacila. Não tem mais nada a temer em relação a Maven. Uma transformação, uma transformação trágica, recaiu sobre o verdadeiro rei, que assume o papel que desempenha melhor. De general, de guerreiro. Diante de um oponente que pode derrotar. Não um irmão que quer salvar. Não restaram laços de sangue entre eles, só o sangue que Maven o fez derramar.
— A verdadeira guerra já chegou — Cal responde, sua calma contrastando com o descontrole repentino do irmão. — A tempestade começou, Maven, quer você queira admitir ou não.
Tento fazer como Cal fez. Tento deixar tudo para trás. A máscara falsa do garoto gentil e esquecido já se foi. Nem mesmo seu fantasma sobrou. Só há a pessoa na minha frente, com seu ódio, sua obsessão e seu amor pervertido. Aguente, sibilo na minha cabeça. Maven é um monstro. Ele me marcou, me aprisionou, me torturou da pior forma possível. Para me manter ao seu lado, para alimentar a fera que ronda o interior do seu crânio. Mas por mais que eu tente, não consigo evitar enxergar um pouco de mim mesma refletido nele. Presa por uma tempestade, incapaz de me libertar, incapaz de fugir do que já fiz e continuarei fazendo.
Esse mundo é uma tempestade que ajudei a criar. Todos ajudamos, em maior ou menor proporção. Com passos que não podíamos calcular, por caminhos pelos quais jamais imaginamos caminhar.
Jon viu tudo. Me pergunto quando o gatilho foi disparado. Qual foi a escolha que desencadeou tudo. Foi Elara, vendo dentro da minha cabeça uma oportunidade para atacar a Guarda Escarlate? Foi Evangeline, me fazendo cair na arena da Prova Real? Foi Cal, segurando minha mão quando eu era só uma ladra vermelha? Ou Kilorn, com seu destino decidido pela morte do mestre e a maldição do alistamento? Talvez nem tenha começado com nenhum de nós. Pode ter sido com a mãe e a irmã de Farley, afogadas pelo rei de Lakeland, instigando o pai dela, o coronel, a agir. Ou Davidson escapando da morte nas legiões, para construir um novo tipo de futuro em Montfort. Talvez alguém ainda mais distante, cem, mil anos atrás. Alguém amaldiçoado ou escolhido por um deus distante, condenado e abençoado a tornar isso tudo realidade.
Acho que nunca vou saber.

9 comentários:

  1. O que será que muda agora nesse povo, meu Deus????

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  2. Mds isso so melhora, to doida pra ver quem vai se rebelar primeiro, quem vai trair quem primeiro, qual cobra vai ser a primeira a dar o bote
    ~Diane

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  3. GEEENTEE!!! que lavação de roupa suja kkkkkkkkkk muita panelinha acontecendo ao mesmo tempo . O que ninguém sabe ainda é que Lakeland ja planeja se unir com Piedmont quando Maven for derrotado !!

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  4. GENTE!!! Que cap foi esse???!!! tenso não se amostrou em!!!

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  5. só eu acho q a família de Mare será refém de Montfort quando Cal for o rei?

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  6. Eu disse que o Maven não iria jogar limpo nunca vai faze-lo isso é FATO! Mas pelo menos serviu para o Cal se dar conta que o seu irmão se perdeu a muito q o tempo e não tem como salva-lo! Mas a pergunta que não quer calar será que a Iris e a sua mão vão se permitir a abandonar o barco, e abandonar o Maven!? DM

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  7. Que capítuloooo é esseeeeee Brasilllll!!
    A Mare sabe desarmar o Maven como ninguém!!

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  8. TENSO
    LOGO EU Q PENSEI Q O CAL IRIA CEDER PRIMEIRO

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Boa leitura, E SEM SPOILER!