2 de junho de 2018

Capítulo vinte e nove

Mare

ESTÁ ANOITECENDO QUANDO CHEGAMOS A ASCENDANT, planando pelas montanhas na escuridão quase absoluta. Tento não pensar em bater contra as encostas. Os pilotos são habilidosos, pousando o jato tranquilamente na pista alpina. O restante da Frota Aérea de Montfort, assim como os comboios que carregam o grosso do Exército, está na planície. Vão subir pela Via do Falcão para chegar à cidade, ou viajar pelas diferentes rotas através de Montfort para retomar suas posições. O país assumirá posições defensivas, guardando suas fronteiras para a possibilidade remota de Lakeland decidir testar sua força contra as montanhas. Ou incentivar os saqueadores e Prairie a fazê-lo em seu lugar.
Farley, Davidson, eu e alguns outros entramos na cidade em silêncio, percorrendo os degraus sob um arco de estrelas cintilantes. Observo o céu, tentando identificar as constelações. Me recuso a pensar nos irmãos Calore — o que deixamos em Norta e o que está marchando ao nosso lado, acorrentado e na mira de uma arma. Ele fala de vez em quando, fazendo perguntas sobre Montfort. Ninguém responde, e sua voz vai se extinguindo aos poucos, de tanto ecoar no vácuo. Antes que cheguemos à casa do primeiro-ministro, Maven é conduzido um lance de escadas abaixo, onde mais guardas surgem para escoltá-lo. Montfort não vai correr o risco de perder outro prisioneiro. Maven não vai receber o mesmo tratamento bondoso que os filhos de Bracken. Vai ser levado para as profundezas da cidade, para a prisão embaixo do principal quartel de Ascendant. Tento ignorar sua silhueta conforme vai ficando menor e menor. Ele não olha para trás em momento algum.
Farley anda mais rápido que os outros, inclusive Kilorn, com suas passadas largas. Não preciso ser capaz de ler mentes para saber que está pensando na filha, deixada com a minha família.
Davidson avisou com antecedência que íamos chegar, por isso sua mansão palaciana resplandece quando nos aproximamos, as muitas janelas e sacadas iluminadas por velas e luzes calorosas. Vultos familiares lançam sombras nas pedras, e seguimos na direção deles. Minha mãe entrega Clara a Farley, que toma a bebezinha sonolenta e sorridente nos braços. De canto do olho, vejo Davidson abraçar o marido, Carmadon, antes de minha mãe fazer o mesmo comigo. Seus braços apertam meus ombros com força, e ela me puxa junto ao peito com um suspiro profundo. Relaxo como só consigo fazer perto da minha família, deixando que me guiem para dentro, até nossos aposentos.
O reencontro é sentimental como sempre, embora tenha se tornado um hábito. Eu parto, enfrento a morte e, contra todas as probabilidades, volto inteira. Sei que meus pais seriam capazes de me amarrar para me impedir de repetir esse ciclo, se achassem que funcionaria. Mas confiam na minha capacidade de tomar minhas próprias decisões. Além disso, sou sanguenova. A garota elétrica. São poucas as amarras capazes de me prender. Por mais que queira ficar, a necessidade de seguir em frente, de continuar lutando, é sempre mais forte.
Farley desaparece em seu quarto, com Clara nos braços e um sorriso exausto no rosto. Ninguém a detém. Precisa de tempo a sós com a filha, e todos ficamos felizes em proporcionar isso.
Minha família vai para o terraço ladrilhado, que está mais florido do que antes. Tramy andou ocupado.
— São lindas — digo a ele, apontando para um belo arranjo de botões brancos que caem pelo parapeito como uma cascata. Meu irmão senta numa cadeira com um sorriso tímido, e Gisa se apoia no braço. Fico perto deles, satisfeita em me acomodar numa almofada lisa e macia.
— Mamãe ajudou — Tramy diz, apontando para ela.
Na ponta do terraço, minha mãe faz que não. Seu cabelo está solto hoje. Estou mais acostumada às tranças e aos coques caprichados dela, que mantém sempre o cabelo preso. Apesar dos fios grisalhos, parece mais jovem assim.
— Só fiquei seguindo você com um regador — ela diz.
Nunca considerei Ruth Barrow bonita. Como uma vermelha pobre poderia ser considerada bonita perto dos prateados? Mas Montfort confere um brilho a ela, uma saúde que faz sua pele dourada cintilar. Até suas rugas parecem menores, aliviadas pela luz fraca da lamparina. E meu pai parece melhor do que nunca, mais forte do que em Palafitas. Ganhou peso onde precisa, com seus braços e pernas mais grossos enquanto sua cintura afinou. Atribuo isso à nutrição, assim como à perna e ao pulmão reparados. Depois de me cumprimentar, ele assume seu silêncio rabugento de sempre, sentando numa cadeira perto de Bree. As semanas foram boas para todos. Especialmente para Gisa. Seu cabelo vermelho-escuro cintila como óleo sob a luz fraca. Observo suas roupas, um uniforme de Montfort reutilizado. Os punhos e a gola estão cheios de bordados serpenteantes em fios coloridos, no formato de flores e raios roxos cintilantes. Estendo a mão para ela, passando os dedos em seu artesanato caprichoso.
— Posso fazer um para você, se quiser — minha irmã diz, olhando para meu uniforme. O vermelho agressivamente vivo da roupa da Guarda Escarlate a faz torcer o nariz. — Talvez deixar um pouco mais discreto — ela murmura, gesticulando de leve. — Dar a você alguma coisa melhor do que medalhas.
Kilorn senta perto de mim, recostando-se apoiado nas mãos e de pernas cruzadas.
— Também vou ganhar um?
— Se eu estiver disposta — Gisa responde com seu sarcasmo habitual. Ela o olha de cima a baixo, como se avaliasse um cliente. — Peixe no lugar de flores, creio eu.
Não posso deixar de rir baixo do bico exagerado de Kilorn.
— Por quanto tempo vocês vão ficar aqui desta vez? — A voz de meu pai ainda é um grunhido baixo, acusatório. Viro para ele, encontrando seus olhos castanhos. Os mesmos de Bree e Tramy, mais escuros que os meus.
Minha mãe coloca a mão no ombro dele, como se para fazê-lo mudar de assunto.
— Daniel, Mare acabou de chegar.
Ele não se vira para ela.
— É exatamente o que quero dizer.
— Não tem problema — murmuro, olhando de um a outro. É uma pergunta sincera e uma boa pergunta, considerando as circunstâncias. — Para falar a verdade, não sei. Podem ser dias. Semanas. Meses. — Minha família vai se animando a cada medida maior de tempo. Me dói dar a eles o que pode ser uma esperança falsa, por mais que eu queira que seja verdade. — Ainda não sabemos o que vai acontecer.
Meu pai aperta os lábios.
— Com Norta.
Faço que não.
— Com Lakeland, em particular. — Os outros continuam me olhando, em silêncio enquanto explico. Exceto Kilorn. Sua sobrancelha se franze devagar, sua testa marcada por linhas profundas de raiva. — Eles detêm todo o poder agora. Cal ainda está consolidando um país dividido, e estamos esperando para ver como as coisas vão se desenrolar. Se Lakeland atacar…
Meu irmão mais velho inspira furioso antes de soltar um suspiro exasperado. Ele me encara, simplesmente porque não tem mais ninguém em quem descontar sua raiva.
— Você vai ajudar a combatê-los? — Ouço a acusação em sua voz, igual à do meu pai.
Só posso dar de ombros. Não é comigo que está frustrado, mas com a situação em que vivo me encontrando. Empurrada para o perigo, dividida entre reis prateados, uma arma a ser empunhada, um rosto a ser usado.
— Não sei — murmuro. — Não somos mais aliados.
Kilorn muda de posição, parecendo incomodado. Talvez com o assunto.
— E o outro?
No aglomerado de cadeiras, minha família empalidece em níveis variados de confusão. Minha mãe cruza os braços, me lançando um olhar penetrante que conheço bem demais.
— O outro o quê? — ela pergunta, mesmo sabendo a resposta. Só quer me fazer dizer.
Me obrigo a responder entre os dentes.
— Ele está se referindo a Maven.
A voz do meu pai sai letal, como nunca a ouvi antes:
— Ele deveria estar morto a esta altura.
— Mas não está. E está aqui — Kilorn rosna antes que eu possa impedi-lo.
Uma vibração de fúria perpassa toda a minha família. Todos os rostos ficam vermelhos, todos os lábios se retorcem, todos os olhos ganham um brilho de raiva.
— Kilorn, não crie confusão — sussurro, apertando seu punho. Mas o mal já está feito. O silêncio cai pesado com uma raiva escarlate, tão forte que consigo sentir seu gosto.
Finalmente, Gisa fala, seu tom tão feroz quanto o do meu pai.
— Ele tem que morrer.
Minha irmã não é violenta, e tem mais habilidade com a agulha do que com a faca. Mas parece capaz de arrancar os olhos de Maven com as próprias mãos se tiver a oportunidade. Talvez devesse me sentir culpada por despertar essa raiva nela, mas não posso evitar um arroubo súbito de amor, admiração e orgulho.
Meus irmãos acenam devagar, concordando com o sentimento. Talvez já estejam tramando alguma tentativa tola de entrar na cela de Maven.
— Ele é valioso vivo — digo rápido, para impedi-los.
— Estou cagando para o valor dele — Bree retruca.
Penso que nossa mãe vai repreendê-lo pela linguagem, mas ela não se incomoda. Na verdade, também parece letal, e por um instante vejo o ardor violento da rainha Anabel, de Larentia Viper e até de Elara Merandus em seus olhos.
— Aquele monstro tirou meu filho de mim. E você.
— Estou bem aqui, mãe — murmuro, suprimindo a memória súbita e dolorosa de Shade.
— Você sabe o que quero dizer — ela responde. — Vou cortar eu mesma a garganta dele.
O mais espantoso de tudo é o silêncio do meu pai. Ele é um homem naturalmente calado, mas não quando o assunto é o ódio contra prateados. Quando olho para ele, entendo por que não diz nada. Porque não consegue. Seu rosto está em um tom furioso de vermelho, fervilhando com um ódio firme e crescente. Se abrir a boca, quem sabe o que pode escapar?
— Podemos falar de outro assunto? — tenho que perguntar, olhando para o resto da minha família à minha volta.
— Por favor — meu pai solta entre os dentes.
— Vocês todos parecem bem — digo rápido. — Montfort está…
Minha mãe parece irritada, mas concorda com a cabeça. Ela responde por todos, me interrompendo.
— É um sonho, Mare.
Minha desconfiança natural flameja, apesar de tudo o que sei sobre Davidson. Não conheço seu país ou sua cidade. Não conheço os políticos a que serve ou o povo que eles representam.
— É bom demais para ser verdade? — pergunto. — Acham que vamos acordar e descobrir que estamos numa enrascada? Descobrir que algo deu terrivelmente errado?
Ela solta um suspiro forte, olhando para as luzes cintilantes de Ascendant.
— Sempre devemos ter cautela, mas…
— Acho que não — meu pai completa. São poucas palavras, mas expressivas. — Aqui é diferente.
Gisa concorda com eles.
— Nunca vi vermelhos e prateados juntos dessa forma. Lá em Norta, quando eu ia fazer uma venda com a minha mestra, os prateados nem olhavam para nós. Não encostavam em nós. — Seus olhos castanhos, iguais aos meus, lacrimejam um pouco ao lembrar de sua vida muito tempo atrás, antes de um oficial prateado quebrar sua mão. — Aqui não.
Tramy se recosta na cadeira, parte de sua ira se desfazendo. Como um gato lambendo os pelos depois de um susto.
— Nos sentimos como iguais.
Não consigo deixar de me questionar se é por minha causa. Eles são a família da garota elétrica, um bem valioso para o primeiro-ministro de Montfort. É claro que seriam bem tratados. Mas não comento nada, ao menos para manter a paz numa noite tumultuosa. Depois disso, a conversa se torna muito mais agradável.
Os criados, gentis e sorridentes, servem um banquete considerável. A comida é simples, mas suculenta e saborosa, variando desde frango frito a torradas com frutinhas roxo-escuras açucaradas. A refeição é mais para mim e Kilorn, mas Bree e Tramy se servem de porções inteiras. Gisa dá preferência a uma bandeja de frutas e queijos, enquanto meu pai pega um prato de frios e biscoitos salgados para dividir com a minha mãe. Comemos devagar, mais conversando do que mastigando. Praticamente só escuto, deixando meus irmãos me deliciarem com as histórias de suas explorações por toda a cidade. Bree nada no lago toda manhã. Às vezes acorda Tramy jogando uma garrafa de água gelada do lago na cabeça dele. Gisa tem um conhecimento quase científico das lojas e dos mercados, bem como de todo o terreno do primeiro-ministro. Ela gosta de caminhar pelas campinas altas com Tramy, enquanto minha mãe prefere os jardins da cidade, que ficam mais para baixo nas encostas. Meu pai tem aprimorado suas habilidades de caminhada, indo mais e mais longe no vale todos os dias, fortalecendo seus músculos novos e reaprendendo a usar as duas pernas a cada passo.
Kilorn os atualiza como pode, detalhando nossas façanhas desde que partimos de Montfort. É uma rememoração esparsa, e ele tem a gentileza de deixar de fora os detalhes mais complicados ou inquietantes. Incluindo qualquer menção a Cameron Cole, pelo bem de Gisa, mas, a julgar pela maneira como ela falou de uma moça e da joalheria em que trabalha, acho que seu amor pelo meu melhor amigo já passou.
Depois de um tempo, minhas pálpebras começam a pesar. Foi um dia longo e difícil. Tento não lembrar como acordei hoje de manhã, no quarto real de Cal, com seus lençóis sobre meu corpo. Hoje vou dormir numa cama vazia. Mas não sozinha. Gisa vai estar do outro lado do quarto. Ainda não consigo dormir sem alguém perto. Ou, pelo menos, não tentei desde que fugi da prisão de Maven.
Não pense nele, repito para mim mesma de novo e de novo, enquanto me preparo para dormir.
O rosto de Cal está gravado em meus olhos, enquanto Maven assombra até meus sonhos mais distantes e efêmeros. Dois idiotas, que nunca me deixam em paz.
De manhã, meus nervos estão cheios de energia. Sinto uma tração constante, um puxão pelo estômago, como se alguém tivesse colocado um gancho na minha coluna. Sei aonde quer me levar. Para dentro da cidade, na direção do quartel central de Ascendant. A estrutura cobre a prisão da cidade, cravada no leito de rocha da encosta. Tento imaginá-lo sozinho atrás das grades, andando de um lado para o outro como um animal moribundo. Por que quero vê-lo, não entendo.
Talvez parte de mim saiba que ainda é útil. Ou quer entendê-lo um pouco mais, enquanto há tempo. Somos parecidos em alguns sentidos. Senti o gosto das trevas, e Maven habita nelas. Ele representa o que eu poderia me tornar se fosse jogada no abismo, sem minha família, sem uma âncora.
Mas Maven é o abismo. Não posso enfrentá-lo. Não ainda. Não sou forte o bastante para isso. Ele só vai rir da minha cara, me provocar e me torturar, girando os parafusos encravados fundo demais na minha cabeça. Preciso deixar as feridas cicatrizarem um pouco antes de lhe dar a oportunidade de reabri-las.
Então, em vez de descer para a cidade, eu subo. E subo. E subo.
No começo, sigo a estrada que pegamos quando os saqueadores atacaram na planície. Sabemos agora que foi um ataque planejado, com a intenção de nos distrair enquanto os soldados de Lakeland resgatavam os filhos do príncipe Bracken. Os saqueadores foram pagos, e muito bem, para tal. Chuto as pedras no caminho, repassando a batalha na cabeça. O silêncio tomou conta do meu corpo, como algo vivo e abominável sob a pele. Substituindo minha eletricidade pelo vazio. Praguejo, afasto o pensamento e saio da estrada para me misturar às rochas e árvores.
As horas passam. O ar parece arder em meus pulmões, queimando minha garganta. É páreo apenas ao ardor em meus músculos. Eles reclamam a cada passo enquanto subo pelas rochas. A neve se acumula nas sombras, branca e pura mesmo ao fim do verão. Fica cada vez mais frio à medida que subo, meus pés escorregando na terra, nos gravetos, no cascalho e na rocha exposta. Apesar da dor, sigo em frente.
Córregos finos escoam, descendo pela encosta para formar o lago lá embaixo. Olho para trás, para o espaço entre os pinheiros, na direção do vale. As montanhas fazem Ascendant parecer pequena, um brinquedo a essa distância. Bloquinhos brancos espalhados em volta de estradas finas e escadas serpenteantes. A cordilheira parece infinita, uma muralha irregular de pedra e neve dividindo o mundo em dois. Lá no alto, o céu azul límpido insiste para eu continuar a escalada. Dou o meu melhor, parando nos córregos para beber água e molhar o rosto vermelho e suado.
De quando em quando, pego bolachas da mochila ou carne salgada. Me pergunto se o cheiro pode atrair um urso ou um lobo. Tenho meus raios, claro, tão próximos quanto o ar nos meus pulmões. Mas nenhum predador se aproxima. Acho que sabem que sou tão perigosa quanto eles.
Com exceção de um.
No começo, acho que é só uma saliência nas rochas, sua silhueta cinza contra o azul perfeito. Os pinheiros são mais esparsos nessa altitude elevada, oferecendo pouca sombra contra o sol do meio-dia. Preciso piscar e esfregar os olhos antes de me dar conta do que estou vendo.
De quem estou vendo.
Meu raio parte ao meio o rochedo de granito embaixo dele. O corpo se move antes, escapando para outras rochas.
— Filho da mãe — rosno, avançando com velocidade, a adrenalina súbita e crescente. Ela me move, assim como a frustração. Porque sei que, não importa quão rápida eu seja, não importa quão forte seja minha eletricidade, nunca vou pegá-lo.
Jon sempre vai saber quando estou chegando.
Seu riso ecoa pela encosta, vindo do alto. Rosno sozinha e sigo o som, deixando que me guie. Ele ri e ri, e eu subo e subo. A floresta fica para trás e chegamos a um terreno alto demais para qualquer coisa brotar ali. O ar é frio e rarefeito.
Engulo um grito de fúria, deixando a temperatura impactar meus pulmões. Então me jogo no chão, sem conseguir continuar. Sem querer deixar Jon ou qualquer outra pessoa controlar aonde vou e o que faço.
Mas principalmente porque estou exausta.
Eu me recosto, me apoiando numa pedra polida por séculos de vento e neve inclementes.
Minha respiração sai com dificuldade. Acho que nunca vou conseguir recuperar o fôlego, assim como nunca vou pegar o maldito vidente.
— Altitude — ele diz. — Torna tudo mais difícil quando não se está acostumado. Até para seu príncipe de fogo seria assim.
Estou cansada demais para fazer algo além de me virar para ele, os olhos semicerrados. Jon está sentado acima de mim, balançando as pernas. Usa roupas apropriadas ao clima da montanha — um casaco grosso e botas com solas gastas. Me pergunto há quanto tempo está caminhando, ou o quanto teve que me esperar aqui em cima.
— Você sabe tão bem quanto eu que ele não é mais um príncipe — respondo, escolhendo minhas palavras com muito cuidado. Talvez eu possa fazer com que me revele algo, dando um sinal que seja do futuro diante de todos nós. — Assim como sabe por quanto tempo ele vai ser rei.
— Sim — Jon responde, sorrindo de leve. É claro que ele sabe o que estou fazendo, e diz apenas o que quer.
Inspiro com dificuldade, puxando o ar para meus pulmões sedentos.
— O que está fazendo aqui?
— Admirando a paisagem.
Ele ainda não me olhou, seus olhos vermelhos fixos no horizonte. A vista diante de nós é maravilhosa, mais esplêndida do que trezentos metros abaixo. Me sinto muito pequena e muito grande, tudo e nada, sentada aqui na beira do mundo.
Meu hálito vira fumaça diante dos meus olhos, uma prova viva do frio. Não posso ficar muito tempo. Não se quiser descer antes do cair da noite.
E gostaria de levar a cabeça de Jon comigo.
— Eu avisei que isso aconteceria — ele murmura.
Rosno e mostro os dentes.
— Você não me avisou nada. Meu irmão poderia estar vivo se tivesse me avisado. Milhares de pessoas…
— Já considerou a alternativa? — ele retruca. — Que o que fiz e não fiz, o que disse e não disse, salvou mais?
Cerro o punho e dou um chute no ar, mandando uma chuva de pedrinhas ladeira abaixo.
— Já considerou parar de se meter em tudo?
Jon gargalha.
— Muitas vezes. Mas, quer eu me envolva ou não, eu vejo o caminho. Vejo o destino. E às vezes simplesmente não posso deixar que aconteça.
— Que ótimo ser você quem decide — ironizo, com a raiva de sempre do maldito sanguenovo.
— Você gostaria de carregar esse fardo, Mare Barrow? — Jon pergunta, descendo para sentar ao meu lado. Ele abre um sorriso triste. — Acho que não.
Estremeço sob sua atenção.
— Você viu que eu ia me levantar, e me levantar sozinha — murmuro, repetindo o que ele me disse muito tempo atrás, numa cidade mineradora abandonada e parcialmente encoberta pela chuva. Esse era o meu destino. E o vejo se tornando mais real a cada dia que passa. Perdendo Shade. Perdendo Cal. Mas também no distanciamento constante, na mão fria que me separa de todos que amo. Por mais que tente ignorá-la, não consigo deixar de me sentir diferente, despedaçada, furiosa e, portanto, sozinha. Com apenas uma pessoa que realmente me entende. E ele é um monstro.
Perdi Maven também. A pessoa que ele fingia ser, o amigo que amei e de quem precisei quando estava muito sozinha e assustada. Perdi tanta gente.
Mas também ganhei. Farley, Clara. Minha família ainda está comigo, a não ser Shade. Kilorn, sem nunca hesitar em sua lealdade e amizade. Tenho os eletricons, sanguenovos como eu que provam que não estou sozinha. O primeiro-ministro Davidson e tudo o que ele sonha em fazer. É mais gente do que perdi.
— Não acho que você estivesse certo — murmuro, quase sem acreditar nas minhas palavras. Jon se sobressalta, seu pescoço estalando ao virar para mim de maneira abrupta. — Ou esse caminho também mudou?
Embora eu odeie seus olhos, me obrigo a olhar no fundo deles. Procurando uma mentira ou a verdade.
— Eu mudei esse caminho?
Ele pisca devagar.
— Você não mudou nada.
Minha vontade é dar uma cotovelada nele, seja na garganta, na barriga ou no crânio. Em vez disso, me jogo para trás, inclinando a cabeça para olhar para o céu.
Jon observa, rindo baixo.
— Que foi? — rosno, virando os olhos para ele.
— Se levantar — ele murmura, apontando para o vale a milhares de metros lá embaixo. Depois aponta para o meu peito. — E se levantar sozinha.
Bato em seu braço sem muita força, desejando ser capaz de infligir mais dor nele.
— Sei que você não estava falando de escalar uma montanha — resmungo. — “Não apenas um relâmpago, mas uma tempestade. A tempestade que vai engolir o mundo inteiro.”
Ele gira o corpo e volta os olhos para a cordilheira, sua respiração virando fumaça no ar frio.
— Quem sabe do que eu estava falando?
— Você sabe.
— E vou guardar esse peso só para mim, muito obrigado. Ninguém mais precisa dele.
— Você parece gostar de comandar nosso destino. — Mordendo o lábio, considero minhas opções de novo. Uma sugestão de Jon pode ser infinitamente valiosa ou devastadora, me lançando em um caminho escolhido por ele. Mas tenho que correr o risco, e analisar o que ele diz com muita cautela. — Mais alguma escolha de palavras que esteja disposto a oferecer? Um empurrãozinho?
O canto de sua boca se ergue, mas seus olhos hesitam, quase tristes.
— Seu amigo é melhor na pesca do que você.
Inspiro fundo, produzindo um leve assovio.
— O que você sabe sobre Kilorn? — pergunto, minha voz subindo uma oitava. Kilorn não é ninguém para Jon, ninguém nos grandes movimentos dos reinos e do destino. Ele não deveria ocupar um centímetro da cabeça do vidente, não em comparação com as coisas terríveis e perigosas que existem lá dentro. Tento pegar seu braço, mas ele se afasta habilmente.
Seus olhos vermelhos me encaram, como gotas gêmeas de sangue.
— Ele é o catalisador de tudo, não? Da sua parte nisso tudo, ao menos — Jon diz. — O pobre amigo condenado ao recrutamento, tendo apenas você para salvá-lo.
Suas palavras são lentas, metódicas. Deliberadas. Não me dão tempo de montar as peças dessa parte do quebra-cabeça. Não quero entender, não quero aceitar o que está bem diante dos meus olhos. Minha vontade é matá-lo. Quebrar sua cabeça nas rochas. Mas não me movo.
— Porque ele não podia mais ser aprendiz — digo, trêmula. — Porque seu mestre morreu.
— Porque seu mestre caiu. — Não é uma pergunta. Jon sabe exatamente o que aconteceu com o velho Cully, o pescador para quem meu melhor amigo trabalhava. Um homem simples, precocemente grisalho, como o resto de nós.
Lágrimas enchem meus olhos. Sou uma marionete há tempo demais, mais do que achava possível.
— Você o empurrou.
— Eu empurro muitas pessoas, de muitas formas diferentes.
— Você empurrou um homem inocente para a morte? — pergunto, furiosa.
Algo se altera nele, como se um interruptor tivesse sido acionado. O foco muda. Jon se recompõe e funga, a voz subitamente clara, mais vigorosa. Como se estivesse se dirigindo a uma multidão de soldados, e não apenas a mim.
— Lakeland vai atacar Archeon em breve — ele diz. — Em algumas semanas. Está se preparando neste exato momento, treinando seus exércitos além da perfeição. Tiberias Calore está fraco, e eles sabem disso. — Não tenho coragem nem ânimo para discutir. Jon tem razão. — Se conquistarem a cidade, Tiberias nunca vai reconquistar Norta. Nem neste ano. Nem no próximo. Nem daqui a cem anos.
Cerro os dentes.
— Você pode estar mentindo.
Ele me ignora.
— Se a capital cair para a rainha de Lakeland, a estrada será longa e sangrenta, pior do que tudo o que você já viveu antes. — Em seu colo, ele entrelaça os dedos, que ficam pálidos contra o cinza das roupas. — Mal consigo ver o fim desse caminho. Mas sei que é terrível.
— Não gosto de ser um peão nas suas mãos.
— Todo mundo é o peão de alguém, Mare, consciente ou não.
— E você é o peão de quem?
Ele não responde, apenas ergue os olhos para o céu frio e cristalino. Com um último suspiro, se levanta, deslocando pedrinhas com o movimento.
— É melhor você ir — ele diz, apontando montanha abaixo.
— Para passar sua mensagem adiante? — retruco, com a voz cheia de ódio.
Receber ordens de Jon é a última coisa que quero agora, mesmo se ele estiver certo. Acho que preferiria morrer congelada a lhe dar essa satisfação.
— Para evitar aquilo. — Ele aponta para o norte com o queixo, onde as nuvens se unem entre os picos. — As tempestades se movem rápido aqui em cima.
— Consigo aguentar tempestades.
— Faça como preferir — Jon responde, dando de ombros e apertando o casaco à sua volta. — Não vamos nos ver mais, Mare Barrow.
Lanço um olhar de desprezo para ele.
— Ótimo.
Jon não responde. Ele se vira para continuar a escalada.
Observo sua figura ficar cada vez menor, um homem cinza contra a pedra cinza, até desaparecer.
Me levantar, e me levantar sozinha.
A tempestade rebenta no cume assim que entro sob a proteção da floresta, escapando do vento uivando e da chuva congelante. A descida dói quase tanto quanto a subida, meus joelhos estalando com o impacto duro de cada passo.
Preciso tomar cuidado e me concentrar bem onde piso, para não quebrar o tornozelo nas pedras soltas e nos galhos caídos sobre a trilha. Lá de cima, no alto da montanha, vem um estrondo grave de trovão, tão vivo quanto meu coração pulsante.
Chego a Ascendant assim que o sol começa a afundar atrás dos picos do outro lado do vale. Embora esteja dolorida da escalada e inflamada pela conversa, aperto o passo enquanto entro no palácio do primeiro-ministro. Passo por soldados e oficiais de Montfort, bem como por políticos em seus ternos elegantes, todos andando de um lado para o outro do andar inferior do prédio, entrando ou saindo de reuniões. Eles me observam passar com atenção, mas não medo. Aqui, não sou uma aberração.
Duas cabeleiras de cor chocante, uma azul e outra completamente branca, se destacam na multidão de ternos e uniformes verde-escuros. Ella e Tyton. Os eletricons relaxam em uma das alcovas com janelas, ocupando espaço suficiente para que ninguém os incomode.
— Esperando por mim? Não precisava — digo com um sorriso, minha respiração ainda irregular e esbaforida.
Tyton me olha de cima a baixo, com um cacho branco caindo sobre o rosto. Ele se recosta calmamente, com uma perna comprida apoiada na cadeira à frente.
— Você não deveria escalar sozinha — ele diz. — Principalmente não sendo boa nisso.
— Você deveria passar mais tempo com meus irmãos, Tyton — respondo com sarcasmo. — Eles são melhores em tirar sarro de mim do que você.
Seu sorriso se abre fácil, mas seus olhos escuros não brilham. Ella se irrita com ele.
— Está todo mundo na biblioteca de Davidson. A general Farley e o resto — diz, apontando para o corredor.
Meu estômago se revira com a perspectiva de enfrentar mais um conselho.
Cerro os dentes.
— Como estou?
Ella lambe os lábios, passando os olhos por mim.
Tyton é menos diplomático.
— A hesitação dela deve ser resposta suficiente. Mas você não tem tempo para fazer sua pintura de guerra, Barrow.
— Ótimo — resmungo, deixando os dois para trás.
Jogo o cabelo para trás, tentando esconder os nós bagunçados pelo vento em uma trança apressada. O resto. Quem mais poderia estar com Farley e o primeiro-ministro?
A biblioteca não é difícil de achar. Fica no andar de cima, ocupando uma grande extensão do lado leste do palácio. Guardas estão ao lado das portas duplas, mas não me detêm quando me aproximo, deixando que eu passe em silêncio.
Assim como o resto do palácio, trata-se de um lugar iluminado e agradável, com painéis de madeira em carvalho envernizado reluzente. O cômodo é cercado por fileiras duplas de estantes, o segundo andar circundado por um parapeito de bronze. Soldados da Guarda Escarlate estão parados lá em cima, brilhando em seus uniformes vermelhos, as armas penduradas. Eles me notam quando entro, rígidos, mas dispostos a proteger seus oficiais caso eu represente uma ameaça.
Os generais vermelhos do Comando.
Farley está sentada com eles no centro da sala, em sofás de couro verde dispostos em semicírculo. Ada também, de volta após longas semanas com o Comando. Ela está sentada no canto, com os braços cruzados. Em silêncio, observando tudo.
Quando me aproximo, abre a sombra de um sorriso.
A Guarda Escarlate está de frente para um arranjo correspondente de cadeiras, todas ocupadas por oficiais e políticos de Montfort, com Davidson no centro. Eles murmuram, imperturbados pela minha presença. Talvez esperando por mim.
Mais uma vez, me sinto suja demais para estar aqui, fedendo ao frio e à montanha. Mas não deveria me preocupar. Os generais do Comando estão tão desgrenhados quanto eu, se não mais. Acabaram de chegar de onde quer que esteja seu quartel-general itinerante. Parecem com Farley — não em aparência, mas em atitude. Se ela tivesse trinta anos de experiência e uma vida de sobrevivência árdua conquistada a duras penas. Os três homens e as três mulheres são todos grisalhos, com cabelos curtos como os de Farley. Me pergunto se pretendia imitá-los. Apesar das semelhanças, Farley representa um forte contraste a todos eles. Ainda é jovem, ainda é exuberante. A agitadora deles.
O pai dela está entre os muitos oficiais que cercam o andar de cima, apoiado no parapeito com as mãos cruzadas. Se tem inveja da filha e de sua posição, não demonstra. Volta seu olho vermelho para mim enquanto entro, e até me cumprimenta com a cabeça.
A conversa baixa continua conforme me aproximo. Farley se movimenta um pouco, abrindo espaço ao seu lado. Mas não sou uma general. Não faço parte do Comando. Não conquistei o direito de sentar. Paro atrás dela, próxima como uma guardiã, e cruzo os braços.
— É um prazer conhecê-la, srta. Barrow — uma general de cabelo cacheado diz, se virando para me olhar por cima do ombro com a severidade de uma professora. Como se eu tivesse acabado de atrapalhar uma aula especialmente importante. Cumprimento com a cabeça, sem querer interromper a reunião, embora o assunto não pareça urgente. Muitos conselheiros falam entre si, e os soldados lá no alto sussurram uns para os outros.
— Acabamos de terminar as apresentações — Ada explica gentilmente, parando ao meu lado.
Farley observa tudo com um brilho nos olhos. Ela se inclina, sussurrando para mim:
— Não ligue para Cisne — acrescenta, cutucando a general. — Ela só está te enchendo.
Para minha surpresa, a mulher mais velha sorri de leve. Um ar de familiaridade paira, como se as duas fossem velhas amigas ou mesmo parentes. Mas elas não se parecem em nada. Cisne é baixa e esbelta, com a pele cor de areia salpicada de sardas escuras que lhe dão uma aparência quase infantil, apesar das rugas.
— General Cisne — murmuro, baixando a cabeça de novo numa tentativa de ser educada. Ela retribui, abrindo um sorriso dessa vez.
Aos sussurros, Ada cita os nomes dos generais sentados nos sofás restantes. Depois de seu tempo no quartel-general deles, ela os conhece bem. As outras mulheres são Horizonte e Vigia, e os homens, Batedor, Carmim e Sulista. Codinomes, obviamente. Ainda utilizados, mesmo aqui.
— A general Palácio ainda está em Norta, mantendo nossas operações em movimento — Ada diz. — Ela vai repassar tudo o que conseguirmos descobrir sobre o país e suas fronteiras.
— E quanto a Lakeland? — pergunto. — Iris vai invadir, e precisamos saber quando. — Em algumas semanas, Jon disse. Nem de longe específico o bastante.
Cisne limpa a garganta.
— Lakeland fechou as fronteiras. Eu mesma não sabia se conseguiria sair, que dirá minha equipe, e fomos o mais rápido possível. — Seus olhos escurecem. — Custou caro, se é que me entende.
Com o rosto grave, faço que sim, tentando não pensar nos muitos amigos mortos que ela deve ter deixado para trás.
Meus olhos perpassam os soldados e políticos reunidos, quase todos vermelhos. Alguns prateados de Montfort estão sentados com Davidson, mas em número muito menor. Reconheço Radis, o representante loiro da Galeria. Ele acena com a cabeça, em um leve cumprimento.
Davidson faz o mesmo, olhando nos meus olhos.
Coro e pigarreio alto, dando um passo à frente. Apenas os generais por perto viram para me olhar. Os soldados são mais difíceis de silenciar, e preciso tentar de novo, com mais força. Pouco a pouco, a fala baixa torna-se um murmúrio, até todos os olhos na biblioteca pousarem em mim. Engulo em seco a sensação familiar, mas ainda inquietante. Não vacile. Não core. Não hesite.
— Meu nome é Mare Barrow — digo ao grupo reunido. Alguém na plataforma bufa baixo. Imagino que eu não precise me apresentar a essa altura. — Obrigada por virem. — Continuo, buscando a maneira certa de dizer o que preciso. “Um homem que pode ver o futuro me passou algumas dicas” não parece certo. — Desculpem pelo atraso, mas eu estava… escalando. E encontrei um homem lá em cima.
— É uma metáfora? — o general Carmim murmura mal-humorado, mas em seguida é silenciado por Batedor, um homem incrivelmente redondo.
Olho para Ada, então para Farley.
— Jon — explico, e os olhos dela se arregalam. O espanto em seu rosto é explicação suficiente para o grupo. — É um vidente sanguenovo. Já tratamos com ele antes.
Davidson ergue a cabeça.
— Maven também. Se não me engano, esse homem foi crucial na sua captura.
— Sim — murmuro, quase envergonhada.
O primeiro-ministro aperta os lábios.
— E esse homem serviu a Maven por um tempo.
— Sim — repito. — Pelos motivos dele.
Embora alguns de seus compatriotas pareçam desdenhosos, Davidson se apoia nos cotovelos, fixando seu olhar intenso e misterioso em mim.
— O que ele disse, Mare?
— Que não podemos deixar a capital de Norta ser derrotada por Lakeland — respondo. — Ou então a estrada será “longa e sangrenta”. Pior do que nunca. Se eles conquistarem Archeon, Lakeland vai controlar Norta por cem anos.
Radis bufa, olhando suas unhas esmaltadas. Ele não é o único a revirar os olhos diante da declaração.
— Não preciso de um vidente para saber isso — ele murmura.
Alguns dos generais concordam com a cabeça. Cisne fala por eles:
— Sabemos que há uma invasão a caminho; é só uma questão de quando.
— Algumas semanas. — Já consigo sentir o tempo correndo contra nós. — Foi o que Jon me disse.
Cisne estreita os olhos, não com crueldade ou desconfiança, mas com compaixão.
— E você acredita nele? Depois de tudo o que te fez?
Imagens surgem na minha cabeça, memórias do meu cativeiro. A prisão em que Jon me colocou para que o destino que tivesse em mente se desenrolasse. Eu disse que não queria ser um peão em suas mãos, mas é exatamente como me sinto agora.
— De alguma forma, sim — respondo, lutando para manter a voz firme.
As palavras desencadeiam outra série de rumores e até alguns gritos. Dos generais, dos representantes, até dos soldados no alto.
Apenas três de nós permanecem em silêncio, trocando olhares.
Farley, Davidson e eu.
Enquanto passo dos olhos dourados de um aos azuis do outro, vejo a mesma decisão se formar nos dois e em mim.
Vamos lutar de novo. Só precisamos pensar em como.
Como sempre, Farley é a primeira a agir.
Ela levanta com as mãos estendidas, pedindo silêncio. Funciona em parte, calando os soldados e os generais. Alguns diplomatas de Montfort continuam sussurrando.
— Precisamos de um plano — ela brada. — Independente do que o vidente diz, todos sabemos que essa jornada leva a Archeon. Precisamos ser capazes de derrotar a capital de Norta se quisermos ter alguma chance de libertar o país. Não importa quem esteja no trono.
Cisne concorda.
— Eu estava posicionada em Lakeland antes de fugirmos para cá. De todos aqui, sou quem mais viu sua força. Se as rainhas Cygnet conquistarem a cidade antes de nós, vai ser quase impossível reconquistá-la. É do nosso interesse lutar contra o inimigo mais fraco.
Cal. Nunca pensei nele como a parte mais fraca, mas é verdade. Sua posição é precária, na melhor das hipóteses. Me esforço para não o imaginar sozinho no palácio, tentando equilibrar o mundo que seu pai e seu irmão destruíram.
— A Guarda Escarlate ainda está presente em Archeon, não? — Davidson pergunta, e sua voz é suficiente para silenciar o resto de seu povo.
— Palácio está posicionada logo na fronteira — Farley diz. — Com suas equipes ainda em posição na maior parte do país. Harbor Bay, Delphie e arredores de Archeon.
Batedor, o general imponente, intervém.
— Palácio tem ordens para entrar na cidade discretamente. O novo rei não é como o irmão, e seu regime ainda não é abertamente hostil à Guarda. Podemos correr esse risco.
— Assim vamos ter olhos na cidade, pelo menos — Davidson reflete. — Os seus e os nossos. Vamos cuidar para que estejam coordenados.
— A Guarda Escarlate já se infiltrou em Archeon antes. — Batedor infla seu peito imponente. — Podemos fazer isso de novo.
Os lábios do primeiro-ministro se apertam numa linha fina e grave.
— Mas não dessa forma — ele diz. — É perigoso demais pelo ar, agora que Cal tem toda a Frota Aérea com ele. Não podemos enfrentá-la por terra e não podemos depender do fator surpresa, como fizemos no casamento de Maven.
— Nem dos túneis — Farley murmura, pensando em um golpe que fracassou antes mesmo de começar. — O rei Maven fechou todos.
— Nem todos — falo rápido. Os outros me encaram, os olhos duros e ansiosos. — Vi o trem de Maven, seu plano de fuga. Passa bem embaixo da Casa do Tesouro, e há outras entradas sob o palácio. Ele o usava para sair da cidade sem ser visto. Posso apostar que deixou alguns túneis intactos, ao menos para uso próprio.
Com um impulso, Batedor se levanta. Ele é surpreendentemente ágil para seu tamanho e sua idade.
— Posso comunicar Palácio e pedir que comece a investigar. Ada, você tem as plantas da cidade na cabeça, não?
— Sim, senhor — ela responde rápido. Não consigo imaginar o que não tenha em sua mente perfeita.
Batedor abaixa o queixo.
— Entre em contato com Palácio pelo rádio e a ajude a guiar seus agentes.
Sem hesitar, Ada assente.
— Sim, senhor — diz, já saindo da biblioteca.
Farley cerra os dentes e a observa ir. Em seguida, me olha de soslaio.
— Temos tempo para isso?
— Provavelmente não — murmuro. Se ao menos Jon tivesse sido mais preciso em seu maldito alerta. Mas isso deixaria as coisas fáceis demais. Não é o seu estilo.
— Então o que podemos fazer? — Farley insiste.
Sinto uma dor súbita nas têmporas e aperto a ponte do nariz. De manhã, escalei uma montanha para me afastar de Maven.
Mas é claro que meus esforços apenas adiaram o inevitável. E o necessário.
— Bom, acho que podemos perguntar.


Sem Julian para extrair uma confissão dele, nem algum murmurador, sanguenovo ou não, um interrogatório de Maven Calore se constitui em uma batalha mútua envolvendo força de vontade e maquinações. Embora Montfort tenha prateados de sobra, nenhum é capaz de arrancar a verdade de alguém usando suas habilidades.
A menos que o façam por meio da dor.
Antes de Maven ser trazido, Tyton entra na sala com o rosto duro, acompanhado por um oficial. Ele senta ao lado de Davidson e tamborila os dedos, seus movimentos rápidos e repetidos, como os raios que pode usar contra Maven. Sua habilidade é muito mais precisa do que a minha, capaz de levar um corpo aos limites sem destruir nada que não possa ser reparado.
A sala está num silêncio mortal, esvaziada dos soldados lá no alto, bem como da maioria dos representantes de Montfort. Davidson e os generais da Guarda são inteligentes o bastante para não dar um público a Maven. Ele sabe representar bem demais, mentir bem demais.
Eu me sento, espremida entre Farley e o braço do sofá. Ela é mais larga do que eu, mas fico grata pela proximidade. Pensar em Maven ainda gela meu sangue. Em Archeon, ao menos, havia Cal para dividir a atenção dele, sua obsessão e sua fúria.
Agora sou só eu.
Muitos guardas o acompanham, meia dúzia pelo menos. Soldados de Montfort e da Guarda Escarlate, armados até os dentes com pistolas e suas habilidades. O antigo rei adora a atenção e a necessidade dessas precauções, sorrindo de leve enquanto o guiam para a biblioteca.
Seus olhos frios percorrem o cômodo rapidamente, notando as janelas, os livros e as pessoas à espera. Não desvio o olhar.
— Devo admitir que não esperava vê-lo de novo, primeiro-ministro — ele diz, tirando os olhos de mim. Imperturbável, Davidson não reage, mantendo o rosto imóvel e neutro. — Tampouco imaginei que colocaria os pés na misteriosa região selvagem de Montfort. Mas não é tão selvagem assim, é? Não tanto quanto o senhor gostaria que acreditássemos.
É selvagem o suficiente, penso, lembrando nossa batalha com uma manada de bisões.
— Fui ensinado que seu país era uma terra de prateados assim como a minha, embora dividida por muitos reis e lordes. Como meus instrutores estavam enganados… — Maven continua, virando-se de leve enquanto fala. Talvez esteja contando quantos somos. Os sete generais do Comando, em número igual a Davidson e os representantes de seu governo e de seu Exército. Ele para quando avista Radis, visivelmente prateado, com sua pele de tom frio. — Que interessante — ele murmura. — Não acredito que tivemos o prazer de nos conhecer.
O prateado mais velho flexiona a mão, e a luz do sol que se põe reflete em suas unhas longas. Um sopro suave de vento atinge o cabelo de Maven. Um alerta.
— Poupe seu fôlego, principezinho. Temos assuntos a tratar.
Maven apenas sorri.
— Só não esperava ver prateados aqui, no meio de tanta… companhia vermelha.
Bufo, cansada de suas táticas evasivas.
— Você mesmo disse que não sabe nada sobre este lugar — digo. Maven se volta para mim, com ódio no rosto, mas eu o ignoro. — E não precisa saber.
Ele mostra os dentes.
— Porque vão me executar logo mais? Está tentando me ameaçar, Mare? — Cerro os dentes, preferindo não responder. — É uma ameaça vazia. Se fossem me matar, já teriam feito isso. Sou mais valioso vivo. Para você e para sua causa.
A sala fica em silêncio.
— Ah, não se façam de tímidos — Maven zomba. — Enquanto eu respirar, sou uma ameaça ao meu irmão. Assim como ele é para mim. Suponho que esteja reunindo lealdades agora, convocando as Grandes Casas de Norta. Tentando conquistar aquelas que juraram lealdade a mim. Algumas ficarão ao seu lado, mas as outras? — Devagar, ele acena negativamente com a cabeça, estalando a língua como uma mãe dando bronca. — Elas vão sentar e esperar. Ou lutar contra ele.
— Por você? — retruco. — Duvido.
Maven solta um ruído grave do fundo da garganta, num rosnado animalesco.
— Do que exatamente vocês precisam? — ele pergunta, desviando os olhos.
Maven se move com elegância, girando sobre os calcanhares para encarar o resto do aposento. O rei caído não tem uma cela, mas está obviamente encurralado. Por algum motivo, seus olhos param em Tyton, avaliando o eletricon com seu cabelo branco e sua disposição tranquila e sanguinária. — Quem é ele?
Para minha surpresa, ouço medo na voz de Maven Calore.
Farley dá o bote, sentindo cheiro de sangue.
— Você vai nos contar o que fez com os túneis de Archeon. Quais estão fechados e quais estão abertos. Quantos mais construiu depois que assumiu o trono.
Apesar de sua situação, Maven revira os olhos e dá risada.
— Vocês e seus túneis.
A jovem general não se detém.
— E então?
— O que eu ganho com isso? — Ele a encara. — Uma cela com vista melhor? Não que isso seja difícil. Nem janela eu tenho. — Com as mãos estranhamente trêmulas, ele conta nos dedos. — Comida melhor? Visitas, talvez? — Maven hesita. Seu corpo parece tremer. Qualquer controle que tivesse está começando a se esvair. — Uma morte indolor?
Contenho o impulso de pegá-lo pelo colarinho, ao menos para mantê-lo parado. Maven lembra um rato numa ratoeira, se debatendo para sobreviver.
— Você ganha a satisfação, Maven — me obrigo a dizer.
Eu deveria estar acostumada à sensação de seus olhos me perpassando, mas não estou. Sinto um arrepio, seu olhar como uma pluma sobre minha pele.
— De quê? — ele murmura.
Maven parece muito mais próximo do que de fato está, com metros nos separando.
As palavras têm um gosto amargo na minha boca.
— Você sabe.
Seu sorriso se alarga, uma faca branca para nos provocar.
— Se não posso ter o trono, ele também não pode — Maven diz simplesmente. — Bom, é alguma coisa. — Sua voz diminui, assim como seu sorriso. — Mas não o suficiente.
Atrás dele, Davidson olha para o lado, trocando um olhar duro com Tyton.
Depois de um longo momento, o eletricon sai da cadeira. Ele levanta devagar, deliberadamente, com as mãos relaxadas ao lado do corpo. Maven se vira com o barulho, seus movimentos abruptos. Seus olhos se arregalam.
— Quem é ele? — pergunta de novo. Tento ignorar o tremor em sua voz.
Ergo a cabeça.
— Alguém como eu.
Tyton tamborila uma mão na perna, fazendo uma única faísca branca e ofuscante correr de seu dedo.
— Só que mais forte.
Os cílios escuros do antigo rei vacilam sobre as bochechas pálidas, e ele engole em seco.
Suas próximas palavras são relutantes, trôpegas. Baixas, quase inaudíveis.
— Preciso de algo em troca — ele murmura.
Cerro os dentes, frustrada.
— Maven, eu já disse…
O rei caído me interrompe, voltando os olhos de Tyton para mim com toda a sua chama escura.
— Quando invadirem, o que sei que estão planejando fazer — ele zomba, mostrando os dentes —, posso guiar vocês aonde precisam ir. Pelos túneis certos, pelos caminhos certos. Posso levar todo o seu exército para a cidade pessoalmente, e soltá-los pra cima do meu maldito irmão.
Farley zomba em seu sofá.
— Para cair numa armadilha, sem dúvida. Nas garras de sua noiva Cygnet…
— Ah, ela vai estar lá — Maven responde, apontando para Farley. O rosto dela fica vermelho de raiva. — Aquela cobra e sua mãe planejam conquistar Norta desde o momento em que colocaram os pés no meu reino.
— Desde o momento em que você as deixou entrar — murmuro.
Maven mal vacila.
— Um risco calculado. Assim como este.
Ele é pouco convincente, mesmo para quem não o conhece. Os generais do Comando parecem mais enojados do que quando Maven foi trazido, o que é uma proeza e tanto, enquanto os sanguenovos de Montfort parecem mais inclinados a esfolá-lo vivo. O primeiro-ministro, normalmente tão equilibrado, retorce os lábios numa rara careta. Mais uma vez, ele acena para Tyton, e o eletricon dá um passo trêmulo à frente.
Isso dispara algo em Maven. Ele salta para fora de seu alcance, mantendo distância de todos nós. Os tremores voltam com força, mas seus olhos estão inflamados, em chamas. Sem medo.
— Acham que não consigo mentir sentindo dor? — ele rosna, sua voz ecoando pela sala. — Acham que já não fiz isso milhares de vezes?
Ninguém tem uma resposta para ele, muito menos eu. Tento não reagir, não lhe dar a satisfação de ver uma emoção minha. Falho terrivelmente, sem conseguir manter os olhos abertos. Por um breve momento vazio, não vejo nada além de escuridão e tento não pensar em Maven. Em suas palavras. No que sua vida foi e continua sendo.
E em como todos sofremos por causa dele.
Espero que os outros não tenham piedade. Que tirem dele o que precisamos, com tortura. Com eletricidade e dor. Será que vou ter forças para ver?
Até Farley vacila.
Ela encara Maven, tentando entendê-lo. Avaliando o risco e o preço. Ele olha nos olhos dela, sem vacilar.
Farley pragueja baixo.
Dessa vez, ele está falando a verdade.
Maven Calore é nossa única chance.

13 comentários:

  1. Gente,eu sei o q o Mavem fez...Mas esse capitulo me deu dó,meu Mavey esta ficando louco.Queria poder ajudar...(to chorando)

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  2. acho que o Maven conhece o tyton so nao se lembra

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    1. teoria louca SERIA TYTON O THOMAS QUE????
      gente acho que elara tá entrando na minha cabeça só pode

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    2. Cruzes!kkkk Tá muito paranóica você hein? Kkkk

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    3. Caracaaaaa!!!! boa ideia ,nem tinha pensado nisso . Os sangue novos sempre tinham um histórico de morte sem sentido ,só pra esconder o fato de que tinham poderes .
      Será?

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  3. Assim que ele olha pra Tyton e pergunta que é ele, eu pensei Tyton é Thomas e por causa da loca da mãe Elara Marven não o reconhece... OMG SERÁ QUE É???

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  4. Alguém pode me explicar esse capítulo?
    Não entendi por que todo mundo ficou triste pelo Maven, e por que ele afirmou que mentia até sofrendo?

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    1. Olha quem foi a mãe dele. Ele foi manipulado, moldado, a vida inteira. Elara fez de um tudo com ele, treinou-o para tudo. Se decidisse que ele deveria ser capaz de suportar a dor sem reclamar - agindo naturalmente, era isso o que faria. Com uma mãe como ela, sua infância toda foi uma tortura. Ele não acha que algo possa ser pior

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  5. Quase tenho dó do Maven.. Ele tem dessas de levar a gente do amor ao ódio..
    Mudando de assunto, e a Gisa hein minha gente, gostando de uma garota também.. Interessante..

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  6. Acho que o Jon deve ter dito que ele morreria pelas mãos de alguém de cabelo branco... Será?!

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  7. Aaaaaaaaaa duvido que maven vá ajudar como eles pensam,ele é inteligente,vai aprontar algo,n sei como,mas ele n é do tipo q se entrega fácil

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  8. O Maven te decide se tu quer q eu te ame ou te odeie fio

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Boa leitura, E SEM SPOILER!