2 de junho de 2018

Capítulo vinte e dois


Iris

QUANDO MAVEN VOLTA para seu próprio navio, temo que me force a ir junto, me negando mais algumas horas com a minha mãe. Para minha surpresa, sua raiva mesquinha e sua astúcia política não chegam a tanto. Somos deixadas em paz no navio almirante da minha mãe. Com privacidade para conversar à vontade e tempo para planejar. Ou ele não nos vê como uma ameaça ou não se dá ao trabalho de nos temer. Apostaria na última opção. Tem inimigos mais imediatos e pouco tempo para pensar em sua própria esposa.
O Cisne é um navio de guerra, construído para a batalha e para a velocidade. Suas cabines são simples e rígidas, quase inapropriadas até para serviçais vermelhos. Ainda assim, minha mãe parece se sentir em casa, tão à vontade em uma cama estreita parafusada quanto em seu trono coberto de joias. Ela não é uma mulher vaidosa e não tem nem um pouco do orgulho materialista da maioria dos prateados, como meu pai. Ele se atinha a seus ornamentos, mesmo no campo de batalha. O pensamento dispara uma pontada afiada pelo meu corpo, e lembro da última vez que o vi vivo. Estava deslumbrante em sua armadura de aço azul cravejado com safiras, os cabelos grisalhos penteados para trás. Suponho que Salin Iral tenha encontrado algum ponto fraco e o explorado bem.
Ando para me acalmar, indo de um lado para o outro diante da minha mãe, parando ocasionalmente para olhar pela janela pequena. O mar está vermelho-sangue. Um mau presságio. Sinto uma coceira familiar e penso em rezar mais tarde no pequeno altar do Cisne. Talvez me traga um pouco de paz.
— Fique parada, guarde suas forças — minha mãe diz na língua melódica e fluida de Lakeland. Ela está sentada com as pernas dobradas sob o corpo e tirou o casaco, o que a faz parecer menor. Mas seu comportamento não se altera, e sinto o peso dos seus olhos enquanto ando.
Sou uma rainha também, e hesito ao receber um comando, nem que seja só para contrariar. Mas ela tem razão. Acabo cedendo e sento no banco na parede oposta, um assento desconfortável com estofado fino fixado por rebites no chão de metal. Meus dedos se curvam em volta da beirada, agarrando firme. Ele vibra junto com os motores da embarcação, um zunido grave e constante. Me fixo na sensação, recuperando um pouco da calma.
— Nas suas mensagens, você disse que havia algo que não podia me dizer — minha mãe fala. — Não até que estivéssemos cara a cara.
Me enrijeço e olho para ela.
— Sim.
— Bem. — Ela abre bem as mãos. — Aqui estamos.
Minha expressão não muda, mas sinto meu coração acelerar de nervoso. Tenho que levantar de novo e ir até a janela olhar para as águas rubras. Mesmo que o quarto da minha mãe seja o lugar mais seguro para mim, ainda parece perigoso repetir o que sei. Qualquer um pode estar ouvindo, pronto para contar tudo a Maven.
Viro as costas para ela e forço as palavras a sair.
— Estamos agindo de acordo com a premissa de que Maven vencerá.
Ela zomba.
— Vencerá esta guerra, você quer dizer. Mas não a próxima.
Nossa guerra, por nosso país.
— Sim — respondo. — Mas acho que estamos do lado perdedor. A coalizão do irmão dele, o Exército de Montfort…
A voz dela sai neutra, isenta de julgamento.
— Eles assustam você.
Viro, com o rosto fechado.
— É claro que me assustam. E a Guarda Escarlate também.
— Vermelhos? — minha mãe indaga com ironia. Então revira os olhos. Cerro os dentes para conter um suspiro de frustração. — Eles não têm importância.
— Esse tipo de pensamento será nossa ruína, mãe — digo o mais firme que posso. De uma rainha para outra. Me escute.
Ela me dispensa com um aceno. Como se eu fosse uma criança puxando sua saia.
— Duvido muito — ela diz. — Prateados guerreiam, vermelhos não. Não é possível que tenham esperança de nos vencer.
— E, ainda assim, continuam vencendo — respondo sem rodeios. Lutei em Harbor Bay contra os herdeiros Samos e seus batalhões. Repletos de prateados e sanguenovos, mas vermelhos também. Atiradores de elite habilidosos, combatentes treinados. Sem mencionar os soldados vermelhos de Norta que mudaram de lado. Uma das maiores forças de Maven está na lealdade do seu povo, mas e se ela diminuir? Seus prateados vão fugir e deixá-lo sem nada.
Minha mãe só estala a língua. Meus dentes rangem com o som.
— Os vermelhos continuam vencendo por causa da aliança prateada — ela diz. — Que vai se desmanchar rapidamente quando um dos Calore morrer. Ou ambos.
Com um sorriso involuntário, tento outra tática. Me coloco de joelhos diante dela, segurando suas mãos. A imagem de uma criança implorando deve influenciá-la.
— Conheço Mare Barrow — falo, torcendo para que ela me escute. — Os vermelhos são mais fortes do que a gente pensa. Nós os fizemos pensar que são inferiores, insignificantes, para mantê-los sob controle. Mas corremos o risco de cair na nossa própria armadilha se esquecermos de temê-los também.
Minhas palavras entram por uma orelha e saem pela outra. Ela puxa uma das mãos e a usa para tirar uma mecha do meu cabelo da frente do rosto.
— Mare Barrow não é vermelha, Iris.
O sangue dela certamente é, penso, mas guardo isso para mim.
Minha mãe continua passando os dedos pelo meu cabelo.
— Vai ficar tudo bem. Tudo será resolvido — ela murmura, como se acalmasse um bebê. — Vamos afogar nossos inimigos e retornar para nossa paz, seguras em casa. A glória de Lakeland lavará tudo em seu caminho. Chegará até esta costa. Cruzará Prairie até aquelas montanhas infernais. Alcançará as fronteiras de Ciron e Tiraxes e Piedmont também. Sua irmã controlará um império, com você ao lado dela.
Tento imaginar o que ela sonha. Um mapa coberto de azul, nossa dinastia segura no poder. Penso em Tiora, de pé diante de um novo alvorecer, com uma coroa de imperatriz na cabeça. Resplendorosa com safiras e diamantes, a pessoa mais poderosa de costa a costa, com o mundo ajoelhado aos seus pés. Quero esse futuro para ela. Tanto que meu coração até dói.
Mas chegará a acontecer?
— Anabel Lerolan e Julian Jacos me passaram uma mensagem — sussurro, chegando ainda mais perto da minha mãe. Se alguém estiver escutando atrás da porta, não entenderá muita coisa.
— O quê? — ela sibila de volta, surpresa. Sua mão tranquilizadora desaba. A outra aperta mais a minha.
— Eles foram até mim em Archeon.
— Na capital? Como?
— Como eu disse — murmuro —, acho que Maven perderá essa guerra, e mais rápido do que podemos imaginar. Eles têm uma aliança formidável, mais forte que a nossa. Mesmo com Piedmont do nosso lado.
Os olhos dela se arregalam e, finalmente, vejo um brilho de medo neles. Por mais que me aterrorize, fico feliz por isso. É preciso ter medo para sobreviver.
— O que eles queriam? — ela pergunta.
— Oferecer um acordo.
A expressão dela azeda um pouco. Seus lábios se contorcem.
— Não temos tempo para suspense, Iris. Me diga o que aconteceu.
— Eles estavam esperando no meu veículo — conto. — Jacos é um cantor talentoso e enfeitiçou meus guardas. E a rainha Lerolan é ainda mais perigosa.
A voz dela sobe uma oitava, em pânico.
— Alguém sabe disso? Maven…
Coloco uma mão no rosto dela, para que fique quieta. As palavras morrem em seus lábios.
— Eu estaria morta se ele soubesse. — Sua pele está quente, macia e mais enrugada do que nunca. Esses dias a envelheceram. — Anabel e Julian fizeram um bom trabalho. Precisavam de mim viva e foram cuidadosos.
Minha mãe suspira aliviada, e sua respiração lava meu rosto.
— Salin Iral — cuspo, quase incapaz de dizer o nome do assassino do meu pai. Ele corta nós duas como uma adaga. Minha mãe se retrai, e o desgosto desfigura suas feições. — Eles vão entregá-lo. Vão deixar que a gente faça o que quiser com ele.
Seus olhos ficam vazios e sombrios. Depois de um momento, ela empurra gentilmente minha mão.
— Iral não é ninguém. Um lorde que caiu em desgraça, que perdeu seu poder. Sozinho e ignorado.
Uma raiva elétrica perpassa minha coluna. Sinto o sangue subindo, o calor queimando minhas bochechas.
— Ele matou o papai.
— Obrigada por esclarecer — minha mãe retruca com uma voz gelada. Ainda assim, há aquele vazio nela. Um escudo contra a agonia da perda dele. — Não estava ciente disso.
— Só quis dizer que…
— Ele matou seu pai para outro rei — ela diz lentamente. — Iral não é ninguém, Iris.
— Talvez. — Com as pernas tremendo, me forço a levantar. Me elevo sobre ela, obrigando-a a olhar para cima para ver meu rosto. Uma posição estranha, uma sensação estranha. Ter esse poder sobre minha mãe, mesmo tão pequeno. Puxo outro tanto de ar. — Anabel ofereceu Volo Samos também.
Abaixo de mim, ela pisca. As pálpebras se abrem e fecham, revelando um par de olhos bem diferentes. Eles brilham, iluminados.
— Agora sim algo interessante. E talvez impossível.
Lembro de Anabel quando se inclinou para a frente, os olhos cor de bronze brilhando à luz da tarde. Não havia mentira ali, apenas fome. Necessidade.
— Não acho que seja.
— O que querem em troca?
Tremendo, conto. Deixo que tome a decisão, porque não posso decidir por mim mesma.


— “Tiberias VII, rei legítimo de Norta, Chama do Norte, com seus aliados da República Livre de Montfort, a Guarda Escarlate e o reino independente de Rift, comunica a partir de sua capital provisória, Harbor Bay.” — O sentinela lê com a voz um pouco abafada por trás da máscara de joias. Os holofotes do convés do navio o iluminam com um vermelho e laranja intensos. Atrás dele só há escuridão. Sem estrelas, sem lua. O mundo inteiro poderia estar vazio.
— “Provisória”. Quanta presunção — minha mãe bufa, virando o rosto para o vento gelado que sopra do oceano negro. Trocamos olhares, incomodadas com a ostentação. Chama do Norte. Que bobagem.
— Esse é o Cal — Maven responde do seu lugar entre os guardas. Ele nos convocou ao seu navio para ouvirmos a mensagem. — É uma criatura ambiciosa.
Com um dedo em riste, Maven indica para o sentinela atarracado continuar. Reconheço a voz dele e os olhos espiando por trás da máscara. De um azul vibrante, que fica quase elétrico com as luzes fortes sobre sua cabeça. Haven, reconheço, me lembrando do guarda que me acompanhou na minha jornada para Montfort.
— “Controlo a cidade atrás de vocês” — ele lê. Penso no irmão mais velho, o guerreiro, coberto de chamas. — “Controlo as fronteiras do sul, de Delphie até nossos aliados em Rift. Controlo centenas de quilômetros de costa. Toda a região de Beacon, liderada pelo governador Rhambos e sua Casa, jurou lealdade ao rei legítimo. Tenho este reino na minha mão, Maven, e tenho você ao meu alcance.”
Sabíamos sobre Rhambos? Olho pelo convés, para meu marido perverso. A careta profunda dele é uma confirmação mais do que suficiente. Aquela traição é uma surpresa. Maven nem reage às palavras do sentinela, só solta o ar. “Traidor”, acho que o ouço murmurar.
O sentinela Haven prossegue.
— “Você tem aliados além das suas fronteiras, Maven, mas poucos. Nenhum que não vá abandoná-lo conforme minhas vitórias aumentarem. Os ventos estão soprando, a maré está mudando. Norta não pode mais existir como era sob o controle dos nossos ancestrais e não descansarei até reivindicar meu direito de nascença roubado por você às custas da vida do nosso pai.”
Os guardas sussurram alguma coisa, mas nenhum deles fala alto. Isso pode lhes parecer uma acusação louca de um traidor, que é o retrato que Maven pintou do irmão. Seduzido pela aberração vermelha, manipulado a praticar corrupção e assassinato. Mas é mais provável que encarem como uma confirmação do que todos sabemos ser verdade. Tiberias Calore não matou seu pai. Não por vontade própria. Não da forma como Maven conta.
Ao meu lado, minha mãe fixa os olhos no meu marido. Eles brilham, refletindo a luz incômoda.
Maven não reage, mantendo-se imóvel. Em seu uniforme preto, seu corpo parece se misturar à escuridão, invisível exceto pelo rosto branco e pelas mãos com dedos longos. Apesar dos ataques do irmão, ele não perde a compostura, relutando a se entregar ao temperamento inflamado.
— “Estamos preparados para oferecer termos de rendição a todos os membros da sua aliança.” — O sentinela Haven aperta o papel conforme lê. — “Para sua majestade a rainha Cenra de Lakeland e para sua alteza o príncipe Bracken de Piedmont. Para você, Maven, mesmo sendo um usurpador e assassino. Nem uma gota de sangue mais precisa ser derramada nessa guerra entre nós. Vamos preservar o que podemos do reino que nascemos para servir.”
Palavras encantadoras. Me pergunto se foram escritas por um comitê. Anabel certamente mantém sua mão controladora sobre as comunicações. Suas digitais estão por toda a declaração.
— “Podemos encontrá-lo na ilha que escolher.”
O sentinela Haven limpa a garganta, seus olhos primeiro em mim, depois no rei, uma pessoa com os dias contados em um trono roubado.
— “Ao amanhecer.”
Aguardamos em silêncio, observando Maven enquanto mede suas opções. Ele sabia que esse momento estava chegando, não pode dizer que é uma surpresa. Ainda assim, estoura, devagar a princípio, depois mais e mais rápido. O punho fechado, o bracelete girando no pulso fino. Ele cospe uma faísca, que cresce e vira uma bola de fogo quase branca de tão quente, com um tom azul gélido no centro.
Com um sorriso maníaco, Maven a arremessa na água. Seu rastro lembra um cometa, refletindo um brilho infernal sobre a água agitada, antes que o rei permita que ela se apague e desapareça entre as ondas.
— Ao amanhecer — ele repete.
Posso dizer pela postura dos ombros dele que não tem intenção de negociar. Só consigo arriscar sua real motivação, mas acho que tudo se resume a um príncipe prateado e uma garota elétrica vermelha.

7 comentários:

  1. Até o Maven ganhou um capitulo, espero q o Cal tbm ganhe, eu iria amar ler o ponto de vista dele <3
    ~Diane

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  2. Queria saber o que Cenra decidiu fazer em relação a proposta da Anabel .

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  3. Eu não aguento mais capítulos dessa garota...

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  4. Mano já tô vendo que vai dar merda ... Quero um capítulo do Cal tbm , se o Maven teve elê tbm merece

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  5. mano podia ter mais capitulos de maven e do cal e menos dessa iris irritante odeio ela

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Boa leitura, E SEM SPOILER!