2 de junho de 2018

Capítulo vinte e cinco

Evangeline

A PEDRA SILENCIOSA ME TRITURA. Minha pele coça com a pressão constante. Não é fácil ignorar, mesmo com os vários anos de treinamento. Luto contra o impulso ardente de rasgar meus braços com unhas, nem que seja para sentir um tipo diferente de dor em vez desse peso podre e decadente. Me pergunto onde está a Pedra. Embaixo da plataforma? Sob as cadeiras? Parece tão próxima que eu poderia engasgar com ela.
Os demais parecem não se incomodar com a sensação antinatural de ter nossas partes mais profundas reprimidas. Mesmo Mare, apesar da sua história. Ela mantém a cabeça erguida, o corpo ereto. Sem sinal de desconforto ou dor. O que significa que tenho que fingir tão bem quanto ela. Ugh.
Os lábios do Bracken se retorcem de desgosto, também sentindo a sensação da pedra. Talvez isso o deixe mais inclinado à nossa causa. Ele despreza Montfort e tem razões para isso. Mas acho que prefere vencer. E, se as ameaças de Cal funcionarem, certamente perderá a fé em Maven logo mais.
O garoto olha para Cal, como se de alguma forma pudesse estar à altura do irmão. Qualquer compaixão que pretendesse explorar parece ter desaparecido. Cal se mantém firme, imóvel na cadeira.
— Esses são meus termos, Maven — ele diz, soando mais como um rei do que seu pai jamais soou. — Renda-se e sobreviva.
Maven merece pouco mais do que uma bala na cabeça ou uma faca nas entranhas. Ele é um perigo que nenhum de nós pode se dar ao luxo de deixar viver.
Sua resposta é gutural, vinda de suas partes mais profundas.
— Saia da minha ilha.
Ninguém se surpreende. Ptolemus solta um suspiro baixo. Seus dedos se contorcem, se coçando para pegar as facas no seu peito. Os sentinelas não pensaram ou não se importaram em nos desarmar. Devem achar que magnetrons ficam indefesos sem suas habilidades. Mas estão errados. Meu irmão poderia enfiar aquela faca nas tripas de Maven se as circunstâncias permitissem.
Cal se inclina para a frente na cadeira, levantando devagar.
— Muito bem — ele diz, pesaroso. — Lembre-se desse dia quando você estiver abandonado, sem ninguém para culpar além de si mesmo.
Maven não dá nenhuma resposta além de um sorriso irônico e risadas soltas. Ele atua bem, se apoiando na imagem cuidadosamente construída do garoto convocado à grandeza. O segundo filho, que não era destinado a governar. Isso não tem utilidade aqui. Todos sabemos quem ele é.
Parada na sua cadeira, a rainha Cenra vira o rosto para ele, olhando além da filha.
— Nossas condições, majestade?
Ele não responde, distraído demais por Cal e Mare para se dar conta de que ela está falando. Iris o cutuca.
— Nada além da rendição — Maven diz rápido. — Sem perdão, sem piedade — ele acrescenta, seu olhos voando para o rosto de Mare. Ela recua diante da atenção. — A nenhum de vocês.
Na ponta da fila de cadeiras do lado de Cal, Anabel se levanta. Ela esfrega as mãos, como se estivesse se livrando da situação e do seu neto envenenado.
— Isso encerra a questão, suponho — ela suspira. — Estamos todos de acordo.
Estranhamente, seus olhos estão apontados para Iris. Não para Maven ou mesmo para Cenra ou Bracken. Para a jovem rainha com pouco a dizer e menos poder ainda neste círculo.
A jovem faz uma reverência com a cabeça, os olhos cinza brilhando com algum significado oculto.
— Sim, estamos — ela diz. Ao seu lado, a rainha Cenra faz o mesmo. Uma tradição de Lakeland, talvez. Tão tola e inútil quanto seus deuses.
As duas se levantam ao lado de Maven na plataforma, seguidas rapidamente por Bracken. Ele oferece uma reverência curta na minha direção e eu inclino a cabeça. Seus olhos escurecem quando desviam de mim e se fixam em Davidson. Nem toda a etiqueta do mundo pode distraí-lo do seu ódio contra aquele sanguenovo. Isso não incomoda o primeiro-ministro. Ele permanece impenetrável, parado com uma graça suave.
— Isso foi no mínimo interessante — murmura com um sorriso vazio.
— De fato — me escuto respondendo.
O resto de nós se apressa para sair das cadeiras com um redemoinho de cores brilhantes e armaduras reluzentes, até que só Maven permaneça, parado firme no seu assento. Encarando.
Mare evita o olhar dele com habilidade, passando por Farley para pegar o braço de Cal. A visão enfurece o falso rei, que bufa. Quase espero ver uma nuvem de fumaça saindo dele. Se não fosse pela Pedra Silenciosa, seria bem provável.
— Até nosso próximo encontro — Cal diz por cima do ombro.
Alguma coisa naquelas palavras enlouquece Maven, que golpeia os braços da cadeira antes de sair em disparada, dando as costas para todos nós. Seu manto, preto intenso, ondula atrás dele. Parece um garotinho dando pontapés para fazer birra. Um garotinho bem perigoso.
As rainhas de Lakeland e o príncipe de Piedmont o seguem quase relutantes.
Cal tem razão. Vão abandonar Maven se o jogo se virar contra ele, se ficar claro que não pode vencer a guerra. Mas virão para nosso lado? Não acredito. Vão ficar esperando para atacar. Me pego quase invejando a Guarda Escarlate e Montfort. A aliança deles, pelo menos, parece fundada em uma lealdade real e em um objetivo comum. Não como nós prateados. Podemos falar sobre paz, mas não fomos criados para isso. Sempre lutamos, seja nas salas dos tronos, nos campos de batalha ou até mesmo nas mesas dos jantares em família. É o que fomos amaldiçoados a fazer.
Estou ansiosa para sair do círculo e respirar ar fresco de novo. Com um puxão, trago Ptolemus para o meu lado, na direção do caminho sinuoso de volta para os jatos. Tenho o cuidado de mantê-lo por perto — a proximidade da general Farley assombra nossos passos. Um rato à espreita de um lobo, esperando pela oportunidade de ouro.
Quando nos livramos da Pedra Silenciosa, sinto o alívio refrescante das minhas habilidades voltando com rapidez. O metal nas minhas joias, no cabelo, nos dentes, em todo o meu corpo, formiga meus sentidos. Busco as medalhas de Maven, sentindo-as desaparecer. Ele está mesmo indo embora. Escapando da ilha, como nós.
A guerra está longe de ser vencida e, se meus palpites estão corretos, ambos os lados estão equilibrados no momento. Num equilíbrio perfeito. Isso pode se arrastar por anos. Me deixando solteira, apenas uma princesa, livre da coleira de rainha. Eu poderia voltar para casa por algumas semanas, partir quando meu pai chegasse. Deixá-lo lidando com o caos. Talvez fugir um tempo com Elane para algum lugar tranquilo.
O pensamento me traz uma onda de prazer.
Quase não percebo a água subindo de encontro aos meus pés, se infiltrando pelo solo oco.
No limiar da minha percepção, as medalhas de Maven param de se mexer.
— Tolly — sussurro, me esticando para agarrar seu braço.
Os olhos dele se arregalam quando vê o solo inundado.
O mesmo acontece com o restante do grupo, levantando os pés, espirrando água. Farley e seus oficiais logo pegam as armas que descartaram, algumas delas pingando de tão encharcadas. Reagem com agilidade, assumindo posições defensivas, passando os olhos pela faixa de árvores e pela plataforma ao longe.
Mare se move, se posicionando na frente de Cal. Ele olha em volta, aterrorizado, chocado por um momento com a água que sobe lentamente à nossa volta. Sua mão faísca.
— Cuidado — grito, saltando para trás, arrastando Tolly comigo para uma área mais seca. — Você vai fritar todos nós.
Ela me olha com frieza.
— Só se eu quiser.
— As ninfoides? — Farley rosna, com a arma apoiada na bochecha e um olho apertado na mira. — Vejo movimento na direção delas. Os vestidos azuis, os sentinelas…
Puxo uma faca da faixa de Tolly, deixando-a girar na mão.
— E?
— E não é nada com que a gente deva se preocupar — Anabel diz, sua voz leve e indiferente. — Venham, vamos voltar para os jatos.
Não sou a única que olha fixo para ela, com o queixo caído.
Farley fala primeiro, ainda de joelhos, em posição.
— Ou a ilha inteira está afundando ou estamos prestes a enfrentar um ataque…
— Tolice — Anabel bufa. — Não é nada disso.
— Então o que é? — Cal diz entre os dentes. — O que você fez?
Por algum motivo, Anabel cede a fala para Julian Jacos. Ele oferece um sorriso rígido e vazio.
— Encerramos a questão — ele diz simplesmente.
Mare encontra forças para falar.
— O q…
Algo que soa como uma onda quebrando ecoa além das árvores, na direção oposta da praia. Farley levanta, tentando enxergar o que acontece, enquanto seus oficiais recuam.
Me vejo subindo em uma duna, desesperada para ficar em um terreno mais alto, para ocupar um ponto de vantagem.
Conforme me movo, tiros salpicam o ar, barulhentos. Abaixo de mim, Mare se encolhe. Cerro o punho, contando as balas conforme dançam no limiar dos meus sentidos. Seguem em direções opostas, uma saraivada em resposta a outra.
— Estão enfrentando… alguma coisa — informo.
No chão, Cal avança, espalhando e chutando a água enquanto seu fogo se acende.
— Maven — acho que ele ruge baixo. Mare fica na frente dele, tentando contê-lo sem lhe dar um choque ou ser queimada. Anabel não sai do lugar.
Enquanto subo, a água se movimenta como uma pequena maré, recuando e fluindo sob o controle de alguém. Do meu ponto de observação, posso ver as cores entre as árvores retorcidas. Armadura azul, chama vermelha, os uniformes flamejantes dos sentinelas. Alguém grita, o som ecoa como um uivo. O ar se transforma em névoa, como se alguém puxasse uma cortina cinza sobre o mundo.
Rapidamente, minhas joias se espalham, formando uma armadura sobre minhas mãos e punhos, subindo até os ombros.
— Me dá uma arma, Farley — ordeno.
Ela não olha para mim, só cospe no chão.
— Tenho uma mira melhor e um alcance maior — rosno.
Ela segura a arma mais forte.
— Se acha que vou te dar…
— Se acha que estou pedindo… — estouro com ela, estalando os dedos. A arma salta de suas mãos, vindo até as minhas.
— Senhoritas, não há razão para isso — Anabel diz, ainda estranhamente inabalada. — Vejam só, já acabou. — Ela se coloca entre nós, apontando o dedo enrugado para as árvores.
A água flui pelo campo de novo, se movendo com as figuras que se aproximam ao longe, quase sombras sob a névoa.
Os corpos vêm na frente, flutuando na água, os uniformes de sentinelas esparramados e encharcados. As máscaras se foram ou se quebraram, exibindo os rostos sob elas. Alguns eu conheço; outros não.
As figuras sombrias se solidificam. Uma ergue a mão, acenando para a névoa se dissipar. A umidade condensa e gotas passam por nós como uma chuva repentina, revelando Cenra e Iris, com seus próprios guardas atrás. Bracken as segue, seu peito reluzindo dourado enquanto a capa roxa é arrastada pela água. Eles se posicionam de forma estranha, ocultando os guardas de uniforme azul pelo máximo de tempo possível. Então param a alguns metros de distância, a água em volta dos pés.
Observamos perplexos, intrigados com a imagem à nossa frente. Até o primeiro-ministro franze a testa.
Só Anabel e Julian permanecem inabalados.
— Prepare a troca, por favor — Anabel murmura, virando para ele. Julian parece estranhamente pálido, como se estivesse doente, mas acena diante do pedido dela e vira, levando os dois guardas Lerolan consigo.
Troca, ela disse.
Olho para Mare. Ela sente meu olhar e vira, seus próprios olhos arregalados de medo e confusão.
Troca pelo quê?, quero perguntar. Ou por quem?
Alguém se remexe entre os guardas de Lakeland, aprisionado. Vejo-o pela fresta entre Cenra e Iris, lutando uma batalha perdida contra homens muito mais fortes.
O lábio de Maven sangra, sua coroa torta sobre as mechas pretas bagunçadas. Ele chuta inutilmente, forçando os guardas a arrastá-lo pelos braços. A água serpenteia ao redor do seu corpo, pronta para atacar. Ao seu lado, Iris assobia, girando os braceletes dele nas mãos. Os que produzem as faíscas, essenciais para o seu poder, percebo, arrebatada pelo choque. Maven está indefeso, à mercê daqueles a quem nunca demonstraria misericórdia.
A princesa de Lakeland abre um sorriso largo, uma visão aterrorizante em uma pessoa normalmente tão comedida. Ele cospe nela, errando feio.
— Vadia ninfoide — Maven grunhe, chutando mais uma vez. — Cometeu um erro hoje.
Os lábios de Cenra se curvam, irônicos, mas ela deixa a filha se virar sozinha.
— Cometi? — Iris responde, inalterada. Lentamente, tira a coroa da cabeça dele e a joga na água. — Ou você cometeu? Muitos, muitos erros, entre eles me deixar entrar no seu reino.
Não posso acreditar nos meus olhos. Maven, o traidor traído. O trapaceiro trapaceado.
A guerra…
Acabou.
Sinto que vou passar mal.
Perco o fôlego e desvio o olhar para longe de Maven, até seu irmão. Cal está mortalmente pálido. Fica claro que não sabia de nada disso, seja lá o que Anabel e Julian fizeram. Seja lá qual for a troca que estão prestes a realizar.
Quem vão entregar em troca?
Preciso correr. Agarrar Tolly, disparar em direção ao mar.
Rapidamente, desço da duna para ficar ao lado do meu irmão. O falso rei deve distraí-los. Não facilite para as ninfoides. Vá para o jato. Vá para casa.
— Ah, se enxerga, Evangeline! — Maven grasna, se contorcendo para ajeitar o cabelo, que continua caindo sobre seus olhos. — Você não é tão valiosa quanto eu, não importa o quanto se ache.
Os outros se viram para me olhar conforme me afasto devagar, segurando Ptolemus firme. Procuro um rosto amigável e descubro que o de Mare Barrow é o mais próximo disso. Seus olhos saltam de mim para minha mão no braço do meu irmão. Algo parecido com piedade surge dentro dela, e quero arrancar com uma faca.
— Então quem? — Ergo o queixo, usando meu orgulho como armadura. — Vai se entregar de novo, Barrow?
Ela pisca, sua pena se dissolvendo em fúria. Prefiro assim.
— Não — Julian diz, retornando com guardas que, como os de Lakeland, arrastam um prisioneiro do jato.
Da última vez que vi Salin Iral, ele perdeu seus títulos e quase morreu sufocado nas mãos do meu pai por sua tolice e seu orgulho. Tinha matado o rei de Lakeland fora dos muros de Corvium, contrariando as ordens, por nada mais do que um tapinha nas costas. Fora limitado demais para perceber que aquilo só fortaleceria a aliança de Lakeland com Maven e aumentaria a obstinação de ambas as rainhas. Agora pagará por esse erro com a vida.
— O que é isso? Não autorizei nada… — As palavras de Cal, dirigidas à avó, se atropelam. Gentilmente, ela coloca a mão no peito dele, empurrando-o para trás.
— Mas vai autorizar, não é mesmo? — ela diz com doçura. Com o carinho que só uma mãe pode oferecer, Anabel se aproxima, segurando o rosto dele. — Podemos encerrar essa guerra hoje, agora mesmo. Esse é o preço. Uma vida, em vez de milhares.
Não é uma escolha difícil de fazer.
— Muito bem, Cal. Você vai fazer isso para salvar vidas, não é? — Maven diz, sua voz respingando sarcasmo. As palavras são as únicas armas que lhe restam. — Nobre até o último instante.
Lentamente, Cal ergue os olhos para encarar o irmão. Até mesmo Maven fica em silêncio, deixando o momento se alongar e queimar. Nenhum deles pisca. Nem hesita. O Calore mais jovem continua com o sorriso irônico, desafiando o outro a reagir. A expressão de Cal não muda. Ele não diz uma palavra. Mas deixa claro o que está pensando quando ergue os ombros e dá passagem para a avó.
Julian encosta o dedo no rosto de Salin, erguendo a cabeça dele para que seus olhos se encontrem.
— Vá até as rainhas — ele diz, e ouço a habilidade melódica de um cantor talentoso. Do tipo que poderia enfeitiçar todos nós se quisesse, cantando suas ordens até tomar o trono. Por sorte, Julian Jacos não tem interesse pelo poder.
Apesar de estar atordoado, Salin Iral é um silfo, e seus passos são graciosos. Ele cruza a distância curta entre nosso grupo e o de Maven. As rainhas de Lakeland parecem mulheres famintas observando a refeição chegando. Iris o agarra pelo pescoço, chuta suas pernas por trás e o força a ajoelhar na água, com as mãos submersas.
— Entregue ele — Cenra diz baixo, acenando na direção de Maven.
Tudo parece estranho, como se fosse filtrado por um vidro opaco, lento demais para ser de verdade. Mas é. Os guardas de Lakeland empurram Maven para a frente, fazendo-o tropeçar na direção do irmão. Ele ainda ri, cuspindo sangue, mas lágrimas reluzem em seus olhos. Está perdendo a cabeça, e o controle firme que mantém sobre si mesmo se afrouxa.
Ele sabe que é o fim. Maven Calore perdeu.
Os guardas continuam empurrando, sem deixá-lo recuperar o equilíbrio. É uma visão deprimente. Maven começa a sussurrar para si mesmo, as palavras agitadas entre os estrondos de uma risada afiada.
— Fiz como você disse — murmura sozinho. — Fiz como você disse.
Antes que possa cair aos pés do irmão, Anabel dá um passo à frente, se posicionando entre os dois. Protetora como uma tigresa.
— Nem mais um passo na direção do verdadeiro rei — ela grunhe. É esperta por não confiar nele, mesmo agora, quando nada mais lhe resta.
Maven afunda um joelho no chão e passa a mão pelo cabelo, ajeitando os cachos pretos molhados. Ele olha para o irmão com todo o fogo que não possui mais.
— Com medo de um garoto, Cal? Pensei que fosse um guerreiro.
Ao lado de Cal, Mare coloca uma mão tensa no braço dele. Se é para segurá-lo ou para empurrá-lo, não sei. Sua garganta se move quando ele engole, decidindo o que fazer.
Com uma lentidão dolorosa, o último rei em pé põe a mão no cabo da espada.
— Você ia me matar se a situação fosse inversa.
O ar assobia ao passar por entre os dentes de Maven. Ele hesita brevemente, deixando espaço para uma mentira. Ou para a esperança de uma. Não há como prever o que a mente de Maven Calore pode fazer ou que face vai permitir que os outros vejam.
— Sim, mataria — ele murmura, então cospe sangue mais uma vez. — Está orgulhoso?
Cal não responde.
Os olhos azuis e gelados se movem, saltando para a garota ao lado do irmão.
Mare se enrijece, firme como aço. Tem todos os motivos para temê-lo, mas esconde isso.
— Está feliz? — Maven pergunta, quase num sussurro. Não estou certa de para quem foi a pergunta.
Nenhum dos dois responde.
O som de algo borbulhando chama minha atenção. Tiro os olhos de Maven para ver as rainhas rondando sua presa. Elas se movem em círculo. Não é uma dança, não é um ritual. Não há um padrão. Só um acúmulo gélido de raiva. Até Bracken parece se incomodar com elas. Ele dá alguns passos para trás, abrindo espaço para fazerem o que precisam. Ainda de joelhos, Salin pende entre elas, sua boca espumando com a água do mar.
Elas se revezam, despejando água no rosto dele com uma eficiência torturante. O suficiente para que continue respirando. Pouco a pouco, gota a gota, o rosto dele empalidece, e então escurece. O homem cai, se contorcendo, afogado em quinze centímetros de água, incapaz de sentar. Incapaz de se salvar. As duas se abaixam sobre o corpo dele, colocando as mãos em seus ombros. Para garantir que sejam a última coisa que vai ver.
Já vi torturas antes, praticadas por pessoas que se deleitam com isso. Sempre é perturbador. Mas essa brutalidade é muito calculada para minha compreensão. Ela me apavora.
Iris me pega olhando. Desvio o olhar, incapaz de suportar.
Ela estava certa. Maven cometeu um erro ao deixá-la entrar no seu reino e no seu palácio.
— Está feliz? — Maven pergunta de novo, mais desesperado e feroz, com seus dentes expostos como presas.
— Fique em silêncio, Maven — Julian canta, forçando-o a olhar para ele. Pela primeira vez na sua vida perversa, o garoto cala sua boca de serpente.
Olho para o lado e encontro Ptolemus tão pálido quanto me sinto. O mundo se moveu sob nossos pés. Alianças se quebraram e foram refeitas, deixando as fronteiras livres para serem redesenhadas e noivados prontos para seguirem em frente.
Com uma sensação que me tira o chão, percebo que há mais uma peça na barganha. Tem que haver.
Me inclino para meu irmão, sussurrando em seu ouvido.
— Isso não pode ser só por Salin.
Iral é um lorde que caiu em desgraça, sem títulos, terras ou qualquer tipo de poder, em Rift ou em Norta. Não serve para nada além de vingança. E mesmo as rainhas de Lakeland não trocariam Maven só para revidar o que ele fez. Elas são estranhas, não burras. Anabel disse que esse era o preço, mas não pode ser verdade.
Tem que haver mais. Mais alguém.
Mantenho o rosto neutro quando compreendo. Ninguém pode ver por trás da minha máscara de silêncio.
Não estava tão errada quando temi que eu e Tolly fôssemos a troca.
Mas Maven está certo. Um príncipe e uma princesa por um rei? Seria idiota. Não estamos à altura.
Meu pai, com certeza, está.
Volo Samos, rei de Rift. Salin enfiou uma faca no rei de Lakeland para agradá-lo e ganhar seus favores. É culpa dele mais do que de qualquer outra pessoa. Isso foi feito em seu nome.
E ele é um rival de Lakeland tanto quanto é um rival de Cal.
Seria fácil para Anabel barganhá-lo. É um movimento lógico oferecer a vida do meu pai como troca.
Aperto os dedos para esconder o tremor. Peso minhas opções o melhor que posso, com a expressão vazia e destituída de emoções.
Se meu pai morrer, Rift se dissolve. O reino não sobreviverá sem ele, não do jeito que as coisas estão. Não serei mais princesa. Não serei mais uma posse dele, um animal de estimação criado para servi-lo, um brinquedo que ele pode trocar, uma espada para ser usada quando quiser.
Não terei que casar com ninguém que não ame, ou viver uma mentira.
Mas, apesar de tudo, amo meu pai. Não posso evitar. Não posso tolerar isso.
Não sei o que fazer.

13 comentários:

  1. Juro que eu fiquei com medo de que elas matassem Maven... Mas foi uma jogada de mestre meixmo... Num tô dizendo! Até Julian já deu suas viradas de mesa; agora só falta mesmo Cal fazer algo realmente inesperado em termos de manobra política...

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    1. Née! Julian se revelou nesse livro, não imaginei

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    2. tudo pra proteger o sobrinho.... cada um faz sua jogada por motivações diferentes .
      Mas julian se revelou agora !!

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  2. Anabel pode ser velha mas é rápida, enquanto todos achavam que a guerra duraria anos e q muito sangue seria derramado, ela resolveu tudo por baixo dos panos. Fio com pena da Eve mas é um preço pequeno a pagar nn só pelo fim da guerra mas pela liberdade dela, até pq se fosse o contrario, Volo Samos nn hesitaria em trocar a própria filha numa barganha assim.
    ~Diane

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    1. Concordo que Volo não hesitaria na troca, mas pai é pai né... mas a tentação da liberdade deve pesar bastante.

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  3. É errado eu me sentir com medo por Maven? Ai q dor se ele morrer. Parabéns ao Julian, não gosto de Anabel mas...ela lacra muito. CAL MEU FILHO, MOSTRE Q VC NN É SÓ ALGM Q SEGUE ORDENS E Q NÃO É CAPAZ DE SER FRIO

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  4. Mds Marven não, será que sou tão louca assim por desejar ele vivo 😒😂

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  5. Simplesmente amei e veio a minha resposta, e sim Iris e a mãe trairão o Maven ...eheheheh!E a Evangeline já se deu conta que sue pai vai ser o próximo a ser entregue, mas achei que iam entregar o Primeiro Ministro ao Rei Bracken para vingar os filhos! DM

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    1. Quem é Bracken na fila do pão? Hueahueahae ele só tá sendo usado pelos dois lados, coitado

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  6. Não acho que Cal e Mare têm coragem de matar Maven, apesar dele com certeza merecer... Esse capítulo foi demais, quantas reviravoltas.. tô amando..

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  7. Passadaaaa,Cal ta "ferrado" com essa avó,ela é esperta demais

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  8. "Ele sabe que é o fim, Maven Calore perdeu" GEENTE N SEI SE RIO OU SE CHORO

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Boa leitura, E SEM SPOILER!