2 de junho de 2018

Capítulo trinta

Cal

A COROAÇÃO SEMPRE ESTEVE NO MEU FUTURO. A coroa cerimonial não é uma surpresa. Eu a viro nas mãos, sentindo o peso formidável de ferro, prata e ouro. Em menos de uma hora, minha avó vai colocar essa monstruosidade na minha cabeça.
Meu pai também a usou. Ele já era rei quando nasci, mas tinha uma rainha diferente daquela de que me recordo.
Queria ter lembranças dela. Queria que as memórias que tenho da minha mãe fossem minhas, e não das histórias de Julian. Não pinceladas de tinta a óleo no lugar de carne viva.
A cópia do diário ainda está trancafiada, agora escondida em uma gaveta no criado-mudo dos meus aposentos em Archeon. Terei de mudá-la de lugar em breve, assim que os aposentos do rei estiverem preparados, livres da presença de Maven. Estremeço só de pensar. Não sei por que hesito tanto em pôr as mãos em algo tão pequeno e terrível. É só um caderno. Apenas um emaranhado de letras rabiscadas. Já enfrentei esquadrões de execução e exércitos. Combati raios e tempestades. Desviei de balas. Caí do céu mais de uma vez.
Mas, não sei por quê, o diário da minha mãe me aterroriza mais do que tudo.
Mal consegui passar das primeiras páginas, e tive de lê-las sem meus braceletes. As palavras dela me deixaram tão nervoso que não quis correr o risco de transformar as páginas em cinzas. As últimas partes de Coriane Jacos, cuidadosamente preservadas pelo meu tio. O original se perdeu há muito tempo, mas esse pedaço dela ele conseguiu salvar.
Não sei como era sua voz. Eu poderia descobrir, se realmente quisesse. Há muitas gravações dela, e fotografias também. Mas, assim como meu pai, me mantive longe. De um fantasma que nunca conheci.
Parte de mim não quer levantar dessa mesa. Está tudo calmo e pacífico, como uma bolha prestes a estourar. Sinto como se estivesse num limbo. As janelas dão para a Praça de César, oferecendo uma vista completa do caos que está por vir.
Prateados nas cores de suas Casas vão e vêm, a maioria a caminho da Corte Real.
Mal consigo olhar para o edifício, um dos muitos que cercam a praça.
Meu pai foi coroado lá, sob o domo cintilante. Maven se casou lá há alguns meses.
Mare estava com ele na época.
Mas não vai estar aqui agora.
Sua perda ainda me dói, uma ferida profunda, mas não tão cortante quanto antes. Nós dois sabíamos o que estávamos fazendo, quais seriam nossas escolhas quando chegasse a hora. Eu só queria que tivéssemos aproveitado mais alguns dias, mais algumas horas.
Agora ela se foi. Com Maven de novo.
Eu deveria sentir raiva. É uma traição pura e simples. Ela me roubou um prisioneiro valioso. A execução dele teria sido uma maneira fácil de reunir meu reino sem derramamento de sangue. Mas não sei por que não consigo sentir nada além de mera irritação. Em parte porque não foi uma surpresa. E, principalmente, porque Maven está fora do meu alcance agora.
Ele é problema dela.
Pelo menos não serei eu a matá-lo.
É o pensamento de um covarde, algo que nunca tive direito de ser. Mas é o que penso, mesmo assim.
Espero que ele morra sem dor.
A batida na porta me faz levantar mais rápido do que quero, esticando as pernas. Abro antes que Julian ou minha avó entrem, na esperança de fazer uma última coisa sozinho. Não sou bobo. Sei o que são para mim, além do que resta da minha família. Conselheiros, mentores. Rivais entre si. Torço apenas para que não tenham vindo juntos, para envenenar minha paz com sua competição.
Para meu alívio, só Julian me espera.
Ele me abre um meio sorriso e estende os braços, exibindo a roupa nova, feita especialmente para a coroação. Suas cores dominam, o amarelo-dourado da Casa Jacos formando a base do paletó e da calça bem ajustados. Mas as lapelas são vermelho-sangue, minha cor. Revelando sua aliança não apenas à Casa Calore, mas a mim.
Isso me faz pensar no que meu tio fez por mim. Trocou a vida de um homem, talvez dois, pela de meu irmão. Não esqueci. Sua maquinação, em conjunto com a minha avó, não sai da minha cabeça. Me deixa com um pé atrás, até mesmo em relação a ele.
Ser rei é assim? Não confiar em ninguém?
Forço o riso para esconder meu mal-estar.
— Você ficou bem — elogio. É raro Julian estar tão bem vestido, quase bonito com seu corpo esguio.
Ele entra.
— Este trapo velho? — ele responde, com um sorriso fraco. — E você? Está pronto?
Aponto para minhas roupas. O terno vermelho-sangue já conhecido, com detalhes em preto, adornos prateados e medalhas suficientes para afundar um navio de Lakeland. Ainda não coloquei a capa. É pesada demais e faz com que me sinta um idiota.
— Não estou falando das roupas, Cal — Julian diz.
Minhas bochechas coram. Viro rápido, tentando esconder qualquer sinal de fraqueza ou medo.
— Imaginei que não.
— E então? — ele insiste, dando um passo à frente.
Faço como fui ensinado a fazer: me mantenho firme.
— Uma vez meu pai me disse que não existe isso de estar pronto. Se alguém acha que está, é porque não está.
— Então imagino que seja uma coisa boa que você pareça prestes a fugir pela janela.
— Reconfortante.
— Seu pai também ficou nervoso — Julian diz baixo. Hesitante, ele pousa a mão no meu ombro, seu toque leve.
Minha língua se move dentro da boca, incapaz de formar as palavras que quero dizer.
Mas Julian é inteligente o bastante para saber o que gostaria de perguntar.
— Sua mãe me contou — meu tio explica. — Ela disse que ele queria ter mais tempo.
Mais tempo.
Sinto como se Julian tivesse acabado de me acertar no peito com um martelo.
— Não é o que todos queremos?
Ele encolhe os ombros daquele seu jeito frustrante de sempre. Como se soubesse mais do que eu, o que desconfio que seja verdade.
— Por motivos diferentes, imagino — ele diz. — Estranho, não é? Por mais diferentes que sejamos, sempre acabamos querendo a mesma coisa. — Evito seus olhos quando ele encara os meus. São parecidos demais com os do retrato da minha mãe. — Mas, apesar de todos os desejos, todas as esperanças, todos os sonhos que a gente possa ter…
Tudo o que consigo fazer é acenar para interrompê-lo.
— Não tenho mais esse luxo.
— De sonhar? — Ele hesita, perplexo, mas também intrigado. Meu tio Julian adora quebra-cabeças, e olha para mim como se eu fosse um. — Você está prestes a se tornar rei, Cal. Pode sonhar com os olhos abertos e construir o que quiser.
Mais uma vez sinto o golpe do martelo. Meu peito dói com a força de suas palavras, e com o julgamento por trás delas. E, claro, porque já ouvi essa história vezes demais.
— Estou cansado de dizer às pessoas que isso não é verdade.
Julian estreita os olhos. Cruzo os braços por instinto, para me proteger.
— Tem certeza? — ele pergunta.
— Se está se referindo a Mare… Ela já atravessou metade do continente. Não vai…
Quase sorrindo, Julian ergue a mão, exibindo os dedos longos e finos. São mãos macias, mais adequadas às páginas de livros. Nunca usadas na guerra. Nunca necessárias na batalha. Eu as invejo.
— Cal, sou um romântico, mas sinto dizer que não estou me referindo a ela ou ao seu coração partido. Essa é… a menor das minhas preocupações. Você tem minha compaixão, mas existem muitas, muitas outras questões a ser consideradas neste momento.
Mais uma vez, o calor sobe pelas minhas bochechas, chegando à ponta das orelhas. Julian nota e, felizmente, desvia os olhos.
— Quando estiver pronto para ir, vou estar esperando na porta.
Mas o tempo já acabou. Não posso me esconder por muito tempo.
— Como meu pai dizia… — Com um ímpeto, penduro a capa nos ombros, prendendo-a no lugar. — Nunca estarei pronto.
Passo por ele e abro a porta. Sair da proteção dos meus aposentos particulares me dá a mesma sensação de correr um quilômetro. Suor escorre pelas minhas costas, descendo pela espinha. Com cada fibra do meu ser, resisto ao impulso de fugir, voltar, ficar parado.
Julian caminha ao meu lado, como uma muleta.
— Erga a cabeça — ele avisa. — Sua avó está logo ali.
Abro o melhor sorriso que consigo. Me parece fraco e falso. Como tantas outras coisas ultimamente.
O domo de cristal da Corte Real é uma obra-prima da arte prateada. Quando criança, eu achava que era feito de estrelas roubadas do céu, esculpidas com uma perfeição reluzente. Ele ainda brilha, mas não tanto quanto deveria. Restaram poucos criados vermelhos — muitos escolheram deixar seus cargos em vez de aceitar salários justos e tratamento melhor. Eles não estão aqui para fazer a capital brilhar e cintilar como deveria para uma coroação. Não consigo nem representar o papel, penso amargurado. Meu reino começa em cinzas.
Isso vale para toda a capital, para todo o meu novo reino. Com vermelhos procurando um novo lugar no mundo e prateados tentando entender o que isso significa para o resto de nós. As cidades de técnicos estão quase vazias, e grandes faltas de energia afligem várias cidades, inclusive Archeon. Nossa capacidade de produção será a próxima a falhar, com os estoques e as provisões já no limite. Mal consigo imaginar o efeito que terá sobre nossa campanha de guerra e nosso esforço militar. Eu estava esperando por isso, claro. Sabia que aconteceria.
Pelo menos a Guerra de Lakeland acabou. Ou, melhor dizendo, a Primeira Guerra de Lakeland. Outra sem dúvida está por vir. É apenas uma questão de tempo até Iris e sua mãe retornarem, trazendo seus exércitos junto.
Murmúrios me seguem pelo longo corredor, até eu chegar ao centro do piso sob o domo. O enorme salão ecoa, como se preenchido de fantasmas, todos zombando do meu fracasso, da minha traição, da minha fraqueza.
Tento não pensar nessas coisas enquanto ajoelho diante dos olhos de dezenas, com o pescoço à mostra e vulnerável. Atacamos Maven depois de uma cerimônia neste mesmo lugar. Quem pode dizer que outra pessoa não retribuirá o favor?
Tento não pensar nisso também.
Me concentro no chão sob meus joelhos, no mármore branco com espirais cinza-carvão. A ausência de cor no salão foi pensada para criar um contraste com a multidão das Grandes Casas multicoloridas. Branco e preto contra o arco-íris. A Corte abriga mil pessoas confortavelmente, mas menos de cem estão presentes hoje. Muitas Casas foram dizimadas pela guerra civil, perdidas nos dois lados da batalha entre os filhos da Casa Calore. A Casa da minha avó se destaca orgulhosa em suas cores flamejantes, assim como os sobreviventes da família de Evangeline, Samos e Viper. Aliados como as Casas Laris e Iral são fáceis de identificar. Há outros também, famílias que eram leais a Maven. Rhambos, Welle, Macanthos estão sentados com suas cores. Castanho-avermelhado, verde e dourado, azul prateado. Mas outras estão completamente ausentes. Não se veem os ninfoides Osanos em parte alguma. Tampouco Eagrie, Provos e, para minha tristeza, muitos curandeiros de pele Skonos e todos os silenciadores Arven. E não são os únicos.
Tenho certeza de que Julian e minha avó estão tomando nota de quem se recusou a vir, observando atentamente quem é aliado e quem ainda é inimigo.
Aliados insuficientes, inimigos em excesso.
Minha avó toma o cuidado de não parecer incomodada com as ausências óbvias na Corte. Seu rosto está calmo e altivo, seus olhos cor de bronze quase inflamados enquanto segura minha coroa.
— Longa vida ao verdadeiro rei, Tiberias VII! — ela diz com firmeza, e sua voz ecoa pela câmara.
Embora sinta o círculo de ferro frio na minha cabeça, não me retraio nem estremeço. Fui treinado para não piscar diante de tiros ou de chamas. Mas, quando os nobres prateados ao meu redor repetem as palavras, sinto um calafrio. Eles repetem, de novo e de novo. O verdadeiro rei. A frase ressoa como as batidas de um coração. É real. Está acontecendo.
Sou um rei. rei. Finalmente, estou onde nasci para estar.
Por um lado, me sinto igual a como me sentia de manhã. Ainda sou Cal.
Continuo atormentado por dores antigas e novas, hematomas visíveis e invisíveis. Ainda morro de medo do que está por vir, do que talvez tenha que fazer para proteger meu reino frágil. Do que esta coroa vai fazer comigo.
Será que a transformação já começou?
Talvez. Em pequenas partes de mim, em cantos esquecidos, posso estar mudando. Já me sinto distante, sozinho. Mesmo com Julian e minha avó, sangue do meu sangue, por perto. Mas há pessoas demais faltando.
Minha mãe.
Meu pai.
Mare.
E Maven. O irmão que eu pensava que tinha, a pessoa que mal existiu.
Que nunca existiu.
Crescemos achando que eu seria o rei e que ele estaria ao meu lado. Meu aliado mais forte, meu apoiador mais fervoroso. Meu melhor conselheiro, um escudo e uma muleta. Uma segunda opinião. Um porto seguro. Nunca questionei o plano e nunca achei que ele questionasse. Como eu estava enganado.
A perda dele me doeu antes, mas agora, com uma coroa na cabeça, sem ninguém para ocupar seu lugar…
Fica até difícil respirar.
Preciso olhar para minha avó, na esperança de encontrar algum consolo. Ela sorri para mim, apertando os meus ombros. Tento ver meu pai nela. Um rei falho, um pai falho. Sinto uma saudade terrível dele, ainda mais agora.
Abraçaria Anabel se ela permitisse, mas minha avó me mantém à distância, com os cotovelos travados. Me obrigando a me levantar ereto, à mostra. Em exposição.
Uma visão para os nobres, passando uma mensagem.
Tiberias Calore é rei e jamais vai se ajoelhar novamente.
Nem mesmo para Volo Samos.
Nós nos aproximamos dele primeiro, minha avó ao meu braço, um rei diante de outro. Baixo a cabeça, e ele retribui o gesto.
Volo passa os olhos por mim devagar, a expressão pétrea e vaga.
— Parabéns, majestade — ele diz, com os olhos na minha coroa.
Aponto para o aço puro em sua cabeça.
— Obrigado, majestade.
Ao seu lado, a rainha Viper se empertiga, com a mão firme no braço do marido. Como se para contê-lo. Volo não faz nada, tampouco eu. Minha avó e eu conseguimos passar sem qualquer incidente, cumprimentando os nobres Samos um por vez.
Evangeline encontra meus olhos, parecendo pequena ao lado do irmão. Está mais contida do que o normal, seu vestido e suas joias simples em comparação ao resto da família. A seda prateada tão escura que parece preta, mais adequada a um funeral do que a uma coroação. Depois do que disse há uma semana, logo estará a caminho de um. Se suas suspeitas estiverem certas, seu pai tem os dias contados, e ela não vai erguer um dedo para impedir.
O momento se estende entre nós, pelo segredo compartilhado e pelo entendimento de que nenhum de nós quer o que virá a seguir.
Agora que sou oficialmente rei de Norta, não há nenhum obstáculo ao nosso casamento. Há muito que ele está para acontecer, mas ambos gostaríamos que demorasse mais.
Não temos mais ilusões quanto a essa coroação. O rosto de Evangeline se fecha, a apatia se transformando em repulsa. Ela desvia o olhar, usando o corpo do irmão para esconder o rosto.
As horas seguintes passam indistintas num redemoinho de cores e cortesias. Não sou novo às celebrações reais. É fácil entrar no ritmo, participar de um jogo de conversas. Falar muito e, ao mesmo tempo, nada. Minha avó e Julian ficam ao meu lado o tempo todo, e formam uma equipe formidável. Ou formariam, se suas intenções não fossem tão óbvias. Com Maven derrotado e a guerra terminada por enquanto, sua aliança é instável, para dizer o mínimo. Não há nada que os uma além de mim, e me sinto como um osso disputado entre dois cães. Minha avó é mais agressiva, mais audaciosa, uma rainha há muitos anos, que sabe agir tanto na corte como em um campo de batalha.
Mas Julian conhece meu coração melhor do que ela.
Faço o possível para aproveitar o jantar. É comestível, mas nada comparado aos banquetes que tínhamos. Me pego pensando no jantar oferecido pelo primeiro-ministro Davidson. Embora isto seja infinitamente menos constrangedor, o que Carmadon preparou era incomparável.
Não sou o único que nota a má qualidade. Evangeline não encosta em nenhum prato, e sua mãe não ousa dar sua carne nem para a pantera deitada a seus pés.
Assim como a eletricidade, como os criados, como as fábricas perdendo velocidade em toda a Norta, a boa comida parece estar ficando mais escassa. Nos campos, nas entregas, nas cozinhas. Eu poderia apostar que a maioria dos cozinheiros do palácio se foi.
Minha avó limpa o prato como se não houvesse nada de errado.
— Vamos perder esta guerra — não consigo deixar de murmurar, me inclinando para a esquerda para que só Julian possa ouvir.
Um músculo se contrai em sua bochecha, e ele vira a taça de vinho.
— Não aqui, Cal — Julian diz, levando a taça aos lábios. — O rei gostaria de se retirar?
— O rei gostaria.
— Muito bem — meu tio murmura, voltando a pôr a taça na mesa.
Por um segundo, não sei o que fazer. Percebo que estou esperando ser dispensado, mas ninguém aqui pode fazer isso. O trono é meu, e este é o meu palácio. Basta me levantar.
Faço isso rápido, limpando a garganta para pedir licença. Minha avó reconhece o sinal rapidamente. Preciso acabar logo com isso.
— Somos gratos pela presença de vocês hoje, e por sua lealdade — ela diz, com as mãos abertas para comandar melhor a atenção da câmara. Os nobres à nossa frente ficam em silêncio, seus murmúrios e conversas silenciando aos poucos. — Todos atravessamos a tempestade, por assim dizer, e em nome de toda a família real, ficamos felizes por tê-los conosco. E por Norta estar inteira novamente.
É uma mentira descarada, tão fajuta quanto a comida deixada em tantos pratos. Norta está longe de inteira. O salão de banquetes quase vazio é prova disso. E, embora eu não queira ser um rei como Maven, que construiu seu trono a partir de mentiras e desonestidade, não vejo outra opção agora. Preciso ser forte, ainda que não passe de uma ilusão.
Coloco a mão no ombro de Anabel, um gesto de cautela. Ela cede, dando um passo atrás para me deixar falar.
— Uma tempestade passou, sim. Mas eu seria tolo de fingir que não há outra se formando no horizonte — digo, o mais claramente possível. Muitos olhos se voltam para mim. Suas roupas e cores variam, mas não seu sangue. Todos sentados aqui são prateados, e estremeço com o significado disso. Nossos aliados vermelhos se foram de vez. Quando a guerra recomeçar, estaremos lutando sozinhos. — Lakeland não ficará satisfeita atrás de suas fronteiras. Não depois de ter chegado tão perto de dominar Maven através de sua princesa.
Alguns dos nobres murmuram e cochicham. Volo não se mexe, me encarando de sua cadeira do outro lado da mesa alta. Seu olhar fixo poderia me perfurar.
— Quando a tempestade cair, estarei pronto. Prometo isso a vocês.
Pronto para lutar. Para perder. E provavelmente morrer.
— Força e poder! — alguém grita, clamando o velho refrão do meu pai e do pai dele. Um emblema da Norta prateada. Outros ecoam o chamado. Devo fazer o mesmo.
Mas não consigo. Sei o que essas palavras significam. Sei sobre quem temos força e poder. Minha boca se mantém fechada.
Julian vem logo atrás de mim quando escapo do salão utilizando as passagens de serviço em vez dos corredores principais. Minha avó nos segue, seus soldados Lerolan formando a retaguarda. Ainda não tenho sentinelas, como um rei deve ter, como eu tinha quando era príncipe e as coisas ainda funcionavam de acordo.
Temos motivos para desconfiar dos guardas que protegiam Maven, ainda que muitos deles tenham jurado sua lealdade com suas Casas. Encontrar guardas só meus, pessoas em quem possa confiar, é apenas um item numa lista cada vez mais longa de coisas a fazer. Só de pensar, fico exausto.
Estou bocejando quando chego à porta dos meus aposentos temporários, embora a noite mal tenha caído. Ao menos tenho uma boa desculpa para estar cansado. Não é todo dia que se torna rei. A coroa é um lembrete constante.
Tanto Anabel como Julian me seguem até a sala de visitas, deixando os guardas no corredor. Detenho minha avó com um olhar.
— Gostaria de conversar com Julian. — Tento fazer soar como uma ordem. Eu não deveria ter que pedir permissão para conversar com um dos meus conselheiros mais próximos a sós. Ainda assim, me sinto hesitante, e minha voz sai de acordo.
Seu rosto se fecha. Ela se sente afrontada, magoada até. Ferida.
— Será breve — acrescento, tentando desfazer o mal. Ao lado dela, Julian entrelaça as mãos, seu rosto inexpressivo.
Ela se empertiga.
— Claro, majestade — Anabel murmura, baixando a cabeça. Seu cabelo cor de ferro reflete as luzes como um clarão de aço. — Vou deixá-los a sós.
Minha avó dá meia-volta em suas roupas flamejantes sem dizer outra palavra.
Cerro o punho para não estender o braço. É difícil equilibrar o amor da família e as necessidades de um reino.
A porta se fecha atrás dela, mais abrupta do que o necessário. Me crispo com o som.
Julian não perde tempo, abrindo a boca antes mesmo de sentar no enorme sofá. Me preparo para o sermão inevitável.
— Você não deveria falar assim em público, Cal.
Vamos perder esta guerra.
Ele não está errado. Fecho a cara mesmo assim, indo até as janelas arqueadas que dão para a ponte de Archeon, o rio e o horizonte salpicado de estrelas ao fundo. Também há menos navios do que deveria. Menos comércio, menos viagens.
Acabei de ser coroado e meu reino já está com os dias contados. Mal imagino o que pode acontecer com os cidadãos caso o resto venha abaixo.
Encosto a mão no vidro. Ele embaça com o vapor sob meu toque.
— Não temos homens para rechaçar uma invasão.
— Seu decreto reduz nossas forças em sessenta por cento, se os relatórios estiverem corretos. A maioria dos soldados vermelhos saiu do Exército. Principalmente os recrutas mais novos. Os que ficaram são experientes, pelo menos — ele diz.
— Mas escassos demais — murmuro. — Há hostilidade na fronteira de Lakeland, sem mencionar Piedmont ao sul. Estamos cercados e em menor número. E, com o outono chegando, que colheita podemos esperar sem agricultores? Como podemos disparar armas se ninguém está fabricando as balas?
Meu tio esfrega o queixo enquanto me observa.
— Você está arrependido dos decretos.
Ele é uma das duas únicas pessoas a quem eu admitiria isso.
— Sim.
— Foi a decisão certa.
— Por quanto tempo? — não consigo deixar de retorquir. Inflamado de calor, dou as costas para a janela, começando a desabotoar o paletó. O ar mais frio atinge minha pele febril. É refrescante e relaxante. — Quando Lakeland vencer, vai eliminar tudo o que tentei fazer.
— É assim que as coisas funcionam, Cal. — O tom calmo de Julian só me inflama mais. — Depois das grandes revoluções, das maiores mudanças na sociedade, foi preciso tempo para o retorno ao equilíbrio. Os vermelhos vão voltar a trabalhar, com salários justos e melhor tratamento. Eles também precisam se alimentar e proteger suas famílias.
— Não temos tempo, Julian — murmuro, exasperado. — Acho que alguém vai ter que retraçar seus mapas em breve. O reino de Norta vai cair.
Do sofá, ele me acompanha com os olhos enquanto ando de um lado para o outro.
— Creio que eu deveria ter perguntado isso há dias, mas tem algum motivo para estar tão afeiçoado à ideia deste reino? E dessa coroa?
Em vez de acelerar, minha mente fica mais lenta. Minha língua parece pesada na boca, uma pedra segurando tudo o que eu poderia tentar dizer. Diante do meu silêncio, Julian prossegue:
— Você acha que vamos perder, que você vai perder, por causa dos decretos e mudanças que decidiu fazer. Porque não tem aliados. — Ele se estende no sofá, então aponta para a janela como se estivesse se referindo a tudo lá fora. — Fez quase tudo o que a Guarda Escarlate e Montfort pediram. Entregou o que eles queriam. Com exceção disso. — Julian aponta para a coroa ainda na minha cabeça. — Por quê? Se sabia que não conseguiria ficar com ela?
Minha resposta parece boba, como se viesse de uma criança. Mas eu a digo mesmo assim.
— É a coroa do meu pai.
— Mas a coroa não é seu pai — ele diz rápido, levantando. Em dois passos, me pega pelo ombro, e sua voz se suaviza. — Tampouco sua mãe. E não vai trazer nenhum dos dois de volta.
Não consigo olhar para ele. Julian parece demais com ela, como a sombra da minha mãe que carrego na cabeça. Um desejo e um sonho, provavelmente, não um reflexo real. Uma impossibilidade. Maven foi torturado por sua mãe que vivia e respirava, mas eu também fui torturado pela minha. Pela mulher que tiraram de mim.
— Isso é quem eu sou, Julian. — Tento manter a respiração firme, falar como um rei. As palavras fazem sentido na minha cabeça, mas saem erradas. Trôpegas, hesitantes. — É tudo o que conheci na vida, o único caminho que quis ou que me fizeram querer.
Meu tio aperta as mãos em meus ombros.
— Seu irmão poderia dizer o mesmo. Aonde isso o levou?
Eu me empertigo, olhando furioso para ele.
— Não somos iguais.
— Não — ele responde rápido. Então sua atitude muda, e uma expressão estranha toma conta dele. Julian estreita os olhos, os lábios se fechando numa linha fina e triste. — Você não leu o diário, leu?
Baixo os olhos outra vez. Envergonhado do medo que sinto de um simples caderno.
— Não acho que consiga — sussurro, quase inaudível.
Julian não tem piedade de mim, não me oferece qualquer consolo. Ele recua, cruzando os braços. Não precisa de muitas palavras para me repreender.
— Bom, mas precisa ler — diz apenas, assumindo o ar professoral novamente. — Não apenas por você. Mas pelo resto de nós. Por todos.
— Não entendo como o diário de uma mulher morta pode ser útil agora.
— Então espero que encontre a coragem para descobrir.
A leitura é como empurrar uma pedra na lama. Lenta, difícil, insensata. As palavras me puxam com seus dedos de tinta, tentando me conter. Cada página é mais pesada que a anterior. Até não ser mais. Até a pedra estar rolando morro abaixo, e a voz que dei à minha mãe ecoar na minha cabeça, falando mais rápido que minha mente permite. Às vezes meus olhos se turvam. Não paro para secar as lágrimas das páginas, deixando que marquem o passar da noite. Às vezes me pego sorrindo. Minha mãe gostava de consertar coisas. Desmontar e construir. Assim como eu.
Às vezes até gargalho. A maneira como ela fala de Julian, da rivalidade afável entre eles, de como ele lhe dava livros que ela nunca leria. Quase consigo me convencer de que está viva. Sentada ao meu lado, em vez de confinada a um diário.
Mas o que mais sinto é uma dor profunda. Uma vontade forte. Tristeza. Pesar.
Minha mãe tinha seus próprios demônios, como todos nós. Suas próprias dores, que começaram muito antes de se tornar rainha. Antes de casar com meu pai e se tornar um alvo.
Os registros vão se tornando mais espaçados com o tempo. Com as mudanças na vida dela.
Há apenas algumas páginas dedicadas a mim.

Ele não será um soldado. Pelo menos isso tenho que fazer por ele. Há muito tempo filhos e filhas da Casa Calore são combatentes. Há muito tempo este país tem apenas reis guerreiros. Há muito tempo estamos em guerra, nas fronteiras e também aqui dentro. Talvez seja um crime escrever coisas assim, mas sou rainha. Sou a rainha. Posso dizer e escrever o que penso.
Os Calore são filhos do fogo, tão fortes e destrutivos quanto suas chamas. Mas Cal não será como os que vieram antes dele. O fogo pode destruir, pode matar, mas também pode criar. A floresta queimada no verão estará verde na primavera, melhor e mais forte do que antes. As chamas de Cal vão construir, vão criar raízes sobre as cinzas da guerra. As armas silenciarão, a fumaça esvanecerá, e os soldados, tanto vermelhos como prateados, voltarão para casa. Cem anos de guerra, e meu filho trará a paz. Ele não morrerá lutando.
Não morrerá. NÃO MORRERÁ.

Passo os dedos pelas letras, sentindo a pressão de uma caneta distante. Essa caligrafia não é dela, mas de Julian. Os verdadeiros diários de minha mãe foram destruídos por Elara Merandus, mas meu tio conseguiu preservar algo antes de desaparecerem. Copiou cada letra meticulosamente. Quase criou um buraco na página ao escrever estas palavras.
E certamente criou um buraco em mim.
Coriane Jacos queria uma vida diferente para o filho, completamente distinta de como fui criado, disso em quem meu pai me transformou.
Me pergunto se há algum destino entre o que cada um dos meus pais queria para mim, um caminho que eu de fato possa escolher.
Ou será tarde demais?

14 comentários:

  1. Nunca é tarde para seguir um caminho diferente Cal.

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  2. Sempre quis um capitulo narrado pelo Cal, com esse ja sao 2, me deleito com cada um, de certa forma é bom ver q Cal tem seus demonios assim como Maven tem os dele. Cal te amo mt mt mt mt
    ~Diane

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  3. Esse capítulo de Cal foi melhor que o anterior ,mostra mais a personalidade dele . Podemos ver que ele esta começando a ver a realidade e decidindo mudar o rumo da história ,pois vê o quanto seu reino esta desgastado e o quanto precisa dos aliados vermelhos pra salvar seu povo;afinal , Cal vai lutar por Norta custe o que custar, mesmo que tenha que entregar a coroa ,mas prefere vencer a guerra com sacrificios do que perder .

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  4. Não Cal ainda não é tarde pra você mudar as coisas pra melhor, pesa ajuda ao seus antigos aliados e junto deles reconstrua sem uma coroa na cabeça pois você não precisa dela pra faze-lo! Agora talvez o CAL entenda por que o tio queria tanto que ele lesse o diário da mãe ele pode encontrar as respostas que tanto procura e espero que agora tome o caminho certo!

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  5. Coitado do Cal, tanto peso nas costas.. Ele precisa tomar tantas decisões, fazer tantas mudanças.. Não vai ser fácil..

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  6. THANK YOU CORIANE JACOS!!! Parece que vc fez seu filho acorda!!! Diferente do cap anterior dele, neste ele pôs um pouco de sal e personalidade. LOVE YOU CAL!!!

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  7. Ele nunca conseguiu se desfazer da figura do pai,ele quis a coroa,não pelo poder e sim por ser ela algo próximo ao pai,que querendo ou n ele matou.
    As intenções dele são boas,desde que livrou a mare do recrutamento e lhe deu um emprego no Palácio.Espero q ele finalmente encontre o caminho certo para colocá-las em prática.

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  8. Gente eu AMUU a Mare real, mas eu acho que o Cal arrisca muita coisa por ela e ela nem tenta vê o lado dele sabe? ELE TEVE QUE MATAR O PRÓPRIO PAI CARA. Ele só tá tentando honrar o nome do pai dele e a Mare tipo caga pra tudo isso. Adoro ela mas acho que ela se faz muito de coitadinha as vezes sendo que tem gente que passou por coisa muito pior. Obs: Tô com uma dorzinha no coração sentindo que vai vim coisa ruim

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  9. Me dá uma dorzinha no coração quando é o Cal que narra ele é tão tristinho :(

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  10. Tipo eles querem destruir a monarquia né, mas já pensou q foda seria se a Mare ficasse grávida??? Daí o Cal teria um herdeiro e n poderia ser expulso do trono ou ele criaria juíso e terminasse cm a monarquia

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    1. O que ter um herdeiro tem a ver com ele deixar de ser rei?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!