2 de junho de 2018

Capítulo trinta e três


Mare

AINDA NÃO ESTOU ACOSTUMADA COM O CABELO ROXO.
Não é tão chamativo quanto o de Ella, pelo menos. Só deixo Gisa tingir as pontas grisalhas, mantendo as raízes intocadas. Enrolo um cacho no dedo, fitando a cor diferente enquanto caminho. Por mais esquisito que pareça, sinto uma pontada de orgulho. Sou uma eletricon e não estou sozinha.
Depois do primeiro ataque contra Archeon, Maven e seus leais conselheiros empreenderam uma campanha para derrubar ou inundar o imenso sistema de túneis sob a cidade. Eles se concentraram principalmente no extremo sul, onde os túneis eram mais numerosos, todos levando às ruínas de Naercey na foz do rio Capital. Davidson originalmente sugeriu um ataque a partir da cidade abandonada, mas eu e Farley sabíamos que era melhor não. Maven a destruiu também, erradicando a fortaleza da Guarda Escarlate e obliterando os poucos escombros.
Ele se inspirou na Guarda também, construindo seus próprios túneis bem como um trem de fuga. Não posso ter certeza, não nessa profundidade, muito menos depois de tanto tempo embaixo da terra, mas acho que vamos cruzar com a linha de trem em algum momento.
Minha bússola interior gira, procurando o verdadeiro norte em vão. Temos que confiar nas informações da Guarda, no que sabem a respeito dos túneis. E temos que confiar em Maven. Por mais ridículo que isso seja, ele é nossa melhor esperança para adentrar a cidade. A força combinada de Montfort e da Guarda Escarlate é grande demais para atacar simplesmente pelo ar, pelo rio ou por terra.
Temos de fazer os três.
É claro que só me resta tatear no escuro, andando por horas sob várias toneladas de rocha e solo.
Maven é apenas uma silhueta, iluminado por nossas lanternas atrás dele. Ainda está usando o uniforme simples que os soldados de Montfort lhe deram quando o aprisionaram. Calça e camisa de um cinza desbotado, o tecido muito fino e o corte largo demais para seu corpo. Fazem com que pareça mais jovem, magro e descarnado como nunca.
Fico atrás, usando Farley como um escudo entre nós. Os guardas dele também estão próximos, uma combinação igualitária de vermelhos e sanguenovos. Nenhum deles vacila, as mãos pousadas nas armas nos coldres. Tyton se mantém por perto, sem nunca tirar os olhos de Maven. Estão todos preparados para qualquer sinal de problemas.
Eu também. Meu sangue zumbe, não pela eletricidade, mas pelos nervos à flor da pele. Faz horas que me sinto assim, desde que Maven nos trouxe para cá, guiando-nos por uma escotilha alguns quilômetros ao norte dos limites da cidade.
Nosso exército caminha conosco. Milhares serpenteando pela escuridão, marchando num ritmo constante e regular que ecoa pelas paredes do túnel. É como o som de um coração batendo, rítmico e pulsante, vibrando no meu peito. À minha direita, Kilorn caminha devagar, seus passos um pouco contidos para acompanhar os meus. Ele me vê olhando e abre um sorriso tenso.
Tento retribuir. Kilorn quase morreu na Cidade Nova. Lembro da sensação de seu sangue espirrando em meu rosto. A memória me cobre de um medo cego.
Ele lê meus pensamentos, mesmo sob a luz fraca, e cutuca meu braço.
— Você tem que admitir: tenho talento para sobreviver.
— Vamos torcer para que continue assim — murmuro em resposta.
Estou igualmente preocupada com Farley, apesar de todas as suas habilidades e artimanhas. Não que eu vá expressar isso em voz alta.
Farley tem o comando de metade das forças terrestres — soldados da Guarda Escarlate e desertores vermelhos de Norta reunidos ao longo dos meses de rebelião. Davidson lidera a outra metade, embora não veja mal em caminhar com o resto de nós, deixando que ela assuma a dianteira.
Mais adiante, o túnel se divide. Um lado se estreita e se curva bruscamente para cima, num trajeto difícil sobre alguns degraus antigos pontuados por inclinações suaves de terra batida. O outro continua como este, largo e reto, com uma levíssima inclinação.
Maven desacelera na bifurcação, pousando as mãos na cintura. Ele parece achar graça nos guardas em volta, todos os seis se movendo em sintonia.
— Para que lado? — Farley vocifera.
Maven olha para ela, com seu sorriso sarcástico de sempre. As sombras profundas nas bochechas destacam seus olhos azuis, vívidos em sua frieza gélida. Ele não responde.
Farley não hesita, acertando o queixo dele. Sangue prateado cobre o piso do túnel, cintilando sob a luz da lanterna.
Cerro o punho ao lado do corpo. Ela poderia enchê-lo de pancada em qualquer outra situação, mas agora precisamos de Maven.
— Farley — sussurro, me arrependendo no mesmo instante.
Ela franze a testa para mim, enquanto Maven ri, mostrando os dentes prateados.
— Para cima — ele diz apenas, apontando para o caminho mais íngreme.
Não sou a única a praguejar baixo.
O caminho não é difícil, mas reduz nossa velocidade. Maven parece adorar isso, olhando para trás com uma expressão de escárnio perturbadora a cada poucos minutos. Temos de andar em linhas de três, em vez de doze como antes, o que dificulta ainda mais a subida. O túnel vai ficando cada vez mais quente, com a presença de tantos corpos nervosos e agitados. Uma gota de suor escorre pelo meu pescoço. Preferiria atacar a capital com força máxima, mas isso vai ter que bastar.
Alguns dos degraus são irregulares e altos demais, me fazendo tropeçar. Kilorn me observa, quase rindo. Consigo criar uma tempestade elétrica, mas degraus altos parecem ser demais para mim.
A subida não leva mais do que meia hora, mas parece que dias se passaram na penumbra, subindo com dificuldade em relativo silêncio. Até Kilorn fica de boca fechada. As circunstâncias cobrem a longa fileira de soldados como uma nuvem, deixando todos sérios. O que vamos encontrar quando finalmente alcançarmos a superfície?
Tento não olhar para Maven, mas me pego focando nos contornos de seu corpo. É instintivo. Não confio nele. Fico à espera de que corra para uma fenda e desapareça. Mas ele mantém um ritmo constante, seus passos nunca vacilam.
O caminho volta a ficar plano, se unindo a um túnel mais largo com paredes arredondadas e suportes de pedra. O ar está mais gelado, fazendo um calafrio percorrer meu corpo febril.
— Acho que você sabe onde estamos. — A voz dele ecoa. Maven aponta para o centro do túnel.
Um par de trilhos novos cintila, refletindo nossas lanternas.
Chegamos ao trem de fuga.
Engulo em seco, sentindo um nó de medo subir pela garganta. Não falta muito agora. Todos sabem disso, a julgar pelo burburinho de atividade crescendo por nossas fileiras. Daqui, a metade de Farley de nossas forças pode subir facilmente para Whitefire, a Praça de César e os penhascos que compõem o oeste de Archeon. O resto, seguindo o primeiro-ministro Davidson e a general Cisne, vai passar por baixo do rio e encontrar a general Palácio, última integrante do Comando a operar na cidade. Se tudo correr segundo o plano, dominaremos tudo antes que qualquer um saiba de nossa presença. E os exércitos de Lakeland ficarão presos no meio.
Mas será que Cal lutará conosco?
Ele tem que lutar, digo a mim mesma. Não tem outra opção.
O objetivo oficial é manter a cidade longe das mãos de Lakeland. Ao menos isso vamos conseguir fazer. Vamos conseguir.
Kilorn toca meu braço, sentindo meu desconforto. O calor súbito faz outro calafrio me percorrer.
Algo muda no canto da minha percepção, zumbindo e murmurando, o queixume da eletricidade distante. Não acima de nós, mas à frente. E se aproximando.
— Tem alguma coisa vindo — grito.
Tyton reage da mesma maneira. Seu corpo fica tenso.
— Para trás! — ele berra, empurrando Maven contra a parede. O resto de nós faz o mesmo, se movendo rápido enquanto o som se aproxima.
Um motor grita à frente, cortando a distância e ganhando velocidade sobre os trilhos. As luzes traçam uma curva suave, ofuscantes em comparação a nossas lanternas. Tenho que virar a cabeça para proteger os olhos.
Acabo olhando para Maven, que não hesita. Nem mesmo pisca.
O trem passa acelerado numa tempestade de metal cinza, rápido demais para avistarmos quem está lá dentro. Maven vasculha as janelas enquanto elas passam em alta velocidade, seus olhos azuis grandes como pratos. Ele empalidece, ficando mais branco do que o cabelo de Tyton, então engole em seco furiosamente, seus lábios se pressionando numa linha até desaparecer. Tudo isso se passa em um instante. Ele controla as emoções rápido, mas é o suficiente para mim.
Sei como é o medo em Maven Calore, e ele está apavorado agora. Por um bom motivo.
Qualquer plano que tivesse, qualquer esperança que houvesse de fuga, acabou de desaparecer com aquele trem.
Maven me pega olhando, observando a expressão desaparecer de seu rosto. Seu maxilar fica ligeiramente tenso e seus olhos passam por mim, devagar como uma carícia.
Você não pode fugir do que fez, quero dizer alto.
Ele entende a mensagem.
Quando o trem some de vista, os olhos dele se fecham.
Imagino que esteja dizendo adeus.
Assim como as luzes do trem, o branco dos cofres da Casa do Tesouro é ofuscante.
Tyton segura Maven pelo pescoço. Ele aproveita para aumentar nosso ritmo, obrigando Maven a marchar mais e mais rápido enquanto subimos. O ar se enche do som de armas e armaduras sendo checadas. Pistolas carregadas, lâminas sacadas, botões presos, cintos afivelados. A pistola em meu quadril ainda é um peso estranho, e me inclino um pouco para compensá-lo. Duvido que eu vá disparar alguma bala lá em cima. Ao contrário de Farley. Ela tira o casaco, jogando-o de lado para ser pisoteado pelas centenas atrás de nós. Sem seu sobretudo vermelho, consigo ver os muitos cintos e coldres cruzando suas costas e seu quadril, com meia dúzia de armas diferentes penduradas e as munições correspondentes, além de seu rádio. Ela também tem facas. Está pronta para a guerra.
Em algum lugar atrás de nós, ouço um dos gritos da Guarda Escarlate ecoando estranhamente. Não consigo decifrar qual, mas os outros repetem as palavras. A ovação reverbera pelas paredes, o som crescendo como um trovão. Finalmente entendo o que estão entoando.
— Vamos no levantar, vermelhos como a aurora.
Apesar do medo, sinto um sorriso feroz surgir em meus lábios.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.
A passagem se enche com nosso grito de guerra.
Estamos quase correndo. Maven tem dificuldade em acompanhar o ritmo de Tyton. Farley iguala a velocidade dele, suas passadas largas vencendo o mármore branco sob nossos pés.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.
A voz de Kilorn se junta ao estampido.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.
As luzes no teto reverberam no ritmo do meu coração.
Olho para trás, vasculhando as fileiras de vermelho e verde, com soldados da Guarda Escarlate e de Montfort. A variedade de rostos, peles de todos os tons, sangues de ambas as cores, todos gritando em um uníssono ensurdecedor. Alguns erguem os punhos, as armas ou ambos, mas ninguém fica em silêncio. As vozes são tão altas que mal escuto a minha.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.
Invoco os raios, invoco os trovões, invoco todas as forças que restam em meu corpo. Não sou general nem comandante. As únicas coisas com que tenho de me preocupar são minha sobrevivência, a de Kilorn e a de Farley, se ela permitir. É tudo de que sou capaz.
E a de Cal, onde quer que esteja. Liderando seu exército, lutando em vão contra uma força maior. Defendendo uma cidade da destruição quase inevitável.
Tyton é o primeiro a passar pelas grandes portas da Casa do Tesouro, saindo para a chuva forte com Maven a tiracolo. O antigo rei escorrega, seus sapatos deslizando pelo piso molhado da Praça de César, mas Tyton o segura firme. Vou atrás, quase esperando que o sanguenovo o mate ali mesmo, tremendo sob a chuva.
Nunca planejamos deixar que Maven sobrevivesse à batalha. E não precisamos mais dele agora.
Tudo pode acabar.
Me sinto dividida. Como se coubesse a mim tomar a decisão.
Tyton não o solta em momento algum. Ele não é tão temperamental quanto o resto de nós. Não demonstra raiva, nem mesmo agora, com Maven em suas mãos. Ele é um bom carcereiro para alguém que o resto de nós tanto detesta.
— Vai logo — ouço Maven dizer entre os dentes, com a cabeça ainda baixa. Ele estende as mãos brancas, e noto seus dedos tremendo sob a chuva. Assim como eu, sabe onde isso vai acabar.
Atrás de nós, mais e mais das forças de Farley vão entrando na praça, ainda entoando as palavras da Guarda Escarlate. Elas enchem o espaço de cor, uniformes vermelhos e verdes se destacando mesmo na névoa úmida. Me concentro no rei caído, agora tremendo a cem metros de seu próprio palácio. Nem o estrondo rítmico de disparos e explosões penetra minha consciência.
— Eu disse para ir logo — Maven rosna de novo. Tentando provocar Tyton. Ou me provocar.
No alto, as nuvens de tempestade se agitam. Sinto o clarão do raio antes que corte o céu, roxo e branco, como um emblema de nossa presença. Que Cal saiba que estamos aqui.
— Não sou mais útil para vocês. — A água da chuva escorre pelo rosto de Maven, traçando-o. — Acabe logo com isso.
Devagar, ele ergue os olhos para mim. Espero ver tristeza ou derrota.
Não fúria gélida.
— Ty… — começo, incapaz de terminar antes que uma bomba acerte em cheio as paredes colunadas da Casa do Tesouro.
A força dela nos faz cair no chão já escorregadio. Minha cabeça bate no ladrilho, e vejo estrelas rodopiando por um segundo. Tento levantar e caio de novo, colidindo com Tyton, igualmente desorientado. Ele me segura no chão, me fazendo ficar deitada enquanto uma labareda passa sobre nós, queimando o ar logo acima de nossas cabeças.
— Maven! — grito, a voz se perdendo na efusão da batalha. Perto das pistolas, dos mísseis, das bombas, do vento e da chuva, é quase um sussurro.
Tyton fica tenso, se apoiando nos cotovelos. Sua cabeça gira de um lado para o outro, vasculhando a multidão em busca de um vulto cinza de cabelo preto.
Fico de joelhos, xingando, minhas tranças já se desfazendo. Kilorn para ao lado do meu ombro, seu rosto suado e vermelho de exaustão.
— Ele fugiu? — arfa, tentando me ajudar a levantar.
Conforme minha mente clareia, consigo colocar os pés no chão. Meus músculos ficam tensos, prontos para desviar de outro golpe flamejante. Não que eu precise. Não é o jeito dele. Maven não é um guerreiro.
— Ele fugiu — digo, e praguejo.
Posso escolher ir atrás dele. Ou posso garantir que vamos terminar o que começamos. Posso manter meus amigos vivos.
Com um impulso de determinação, me obrigo a virar, encarando os portões da praça, e a ponte depois dela.
— Temos um trabalho a fazer.
Embora tudo ainda esteja coberto de névoa, consigo identificar centenas de soldados sobre a ponte, com os cascos ameaçadores dos navios de Lakeland lá embaixo. No céu, os jatos disparam, com suas asas amarelas, roxas, vermelhas, azuis e verdes planando como aves de rapina mortais. Não consigo identificar nada além do rio. A outra metade da cidade está inteiramente obscurecida. Pelo menos Farley e os oficiais têm seus rádios. Devem conseguir se comunicar com Davidson do outro lado.
Estendendo a mão, pego Tyton pelo punho, erguendo-o para levantá-lo. Seu rosto se contrai em uma careta, revoltado consigo mesmo.
— Desculpa — eu o ouço sussurrar. — Deveria tê-lo matado quando tive a chance.
Viro em direção a Farley.
— Bem-vindo ao clube — murmuro, lançando outro raio furioso no céu. Em meio à névoa, lampejos de azul e verde cintilam em resposta.
— Eles chegaram ao outro lado — Kilorn conclui, apontando para as luzes distantes. — Rafe e Ella. O exército de Davidson.
Apesar da fuga de Maven, meus lábios se contorcem, querendo sorrir. Uma pequena rajada de triunfo surge em meu peito.
— Já é alguma coisa.
Mais do que alguma coisa.
A Praça de César contém o centro do governo de Norta — o palácio, as cortes, a Casa do Tesouro e o Comando de Guerra —, mas a maior parte da capital fica do outro lado do rio. Nosso lado pode ser mais valioso, mas o leste de Archeon é mais vasto e tem uma população maior. De vermelhos e prateados. Eles não terão que se defender sozinhos contra o ataque de Lakeland enquanto o exército de Cal se concentra nos navios.
Farley observa a garganta da ponte, com a postura alta e estoica, uma estátua perto dos soldados se movendo ao seu redor. Seus tenentes gritam ordens, organizando as tropas em uma formação predeterminada. Metade forma uma barreira de corpos voltada para Whitefire e o Comando de Guerra, onde alguns dos prateados de Cal ainda podem estar. Os outros se voltam para fora, olhando para os penhascos ou bloqueando este lado da ponte.
Basicamente encurralando Cal no meio da ponte, suspenso sobre a armada lá embaixo.
Não demoramos para alcançá-la, com os soldados da Guarda Escarlate e de Montfort abrindo caminho para nos deixar passar. Tyton ataca, lançando suas descargas brancas ofuscantes nos navios lá embaixo. Os leviatãs de aço parecem impenetráveis, até para os magnetrons. Azul ribomba nas nuvens, antes que um dos raios de tempestade de Ella atinja a proa de um navio de batalha com o grito agudo do metal se partindo. Espio por cima das muralhas à beira do penhasco, procurando o rio. Deveria ficar centenas de metros abaixo, mas parece mais próximo. Minha boca fica seca quando me dou conta de que Lakeland deve tê-lo enchido para possibilitar que seus navios chegassem tão longe.
— Ainda está subindo — Farley diz por cima do ombro, abrindo espaço para mim. — Não vamos conseguir escapar por onde viemos.
Mordo o lábio, pensando nos túneis sob nós.
— Vão inundar tudo?
Ela faz que sim.
— Mais que provável. — Seus olhos vacilam, voltando-se para as nuvens e as silhuetas sobre a ponte. A fumaça sobe em espiral com a névoa, preta contra o branco e o cinza. — Atravessamos bem a tempo.
Kilorn para ao nosso lado. Sua atenção está na ponte, não na água. Desta posição estratégica, consigo ver que as forças de Cal não estão defendendo a ponte, mas atacando a partir dela. Através da névoa, lépidos correm ao longo dos barcos lá embaixo, junto com forçadores, os oblívios de Anabel e outros prateados mais adaptados ao combate corpo a corpo. Os calafrios da Casa Gliacon parecem estar tendo o maior sucesso — um dos navios de guerra menores está completamente envolto em gelo, paralisado contra os suportes da ponte.
Suspiro aliviada quando não vejo fogo dançando entre os navios. Nada além das rajadas explosivas habituais. Cal não está lá embaixo combatendo a armada pessoalmente. Ainda.
— Acha que ele sabe que estamos aqui? — Kilorn pergunta, ainda olhando para a ponte.
Farley cerra os dentes. Ela apoia a mão na lateral do corpo, não na arma, mas no rádio afivelado ao quadril.
— Ele deve estar ocupado com outras coisas.
— Ele sabe — murmuro, com outro raio roxo cortando o céu. O ar é denso, como se as nuvens tivessem descido para obscurecer a batalha devastadora à nossa frente. Estremeço quando outra saraivada acerta a praça, os mísseis caindo sobre uma ala do palácio.
— Não estou vendo Maven — Farley diz, se aproximando de mim. Me pego encarando todo o peso de seu olhar azul-celeste, claro e brilhante mesmo na névoa. — Já foi feito?
Mordo o lábio, quase a ponto de tirar sangue. A dor aguda é melhor do que a vergonha. Ela entende minha hesitação, e seu rosto fica roxo mais rápido do que eu pensava ser possível.
— Mare Barrow…
O estalo do rádio a interrompe, me poupando de sua fúria. Ela o pega, rosnando no microfone.
— Aqui é a general Farley.
A voz do outro lado não pertence a um general do Comando nem a um oficial de Montfort. Tampouco é de Davidson.
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar, ainda que pontuada pelos disparos.
— Pensei que vocês não fossem voltar — Cal diz, a voz metálica e distante, distorcida pela estática. A eletricidade no ar não deve ser muito boa para as ondas de rádio.
Sem fôlego, volto os olhos de Farley para a ponte. Uma das sombras na névoa parece estar se solidificando. Ombros largos e uma passada conhecida e determinada se aproximam mais e mais. Continuo imóvel, os pés fixos em nossa posição acima da batalha.
Farley sorri para o rádio.
— Muito gentil da sua parte arranjar tempo para a gente.
— É uma questão de cortesia — ele responde.
Com um suspiro, Farley se inclina na direção da silhueta que se aproxima, agora a menos de cinquenta metros de distância. Cal está cercado por seus guardas. Ele para, detendo o grupo. Os prateados parecem tensos, com as armas a postos, à espera de uma ordem. Ele nos cumprimenta com a cabeça. Farley franze um pouco a testa, hesitante.
— Imagino que saiba nossas condições, Cal — ela diz no rádio.
A resposta dele é quase rápida demais.
— Sei.
Farley morde o lábio.
— E?
Uma longa onda de estática zumbe antes que ele volte a falar.
— Mare?
O rádio está na minha mão antes que eu possa pensar em pedi-lo.
— Estou aqui — digo, olhando para ele do outro lado do penhasco.
— É tarde demais?
A pergunta tem inúmeras implicações.
Raios roxos, brancos, verdes e azuis cortam as nuvens, o suficiente para penetrar a névoa e cegar todos nós por um momento. Fechando os olhos, sorrio com a explosão de energia que me perpassa.
Quando o raio se foi, respondo a ele, e a tudo o que quer dizer.
— Não, não é — digo, antes de devolver o rádio a Farley.
Ela não me detém enquanto desço os degraus. Os guardas de Cal abrem espaço quando me aproximo, atravessando os portões quebrados da praça em ruínas. Cal espera no extremo da ponte de Archeon, imóvel, me deixando ir até ele.
Me deixando definir o ritmo, escolher a direção, tomar a decisão. Cal coloca tudo em minhas mãos.
Mantenho o passo firme, apesar dos estrondos lá embaixo. Algo se parte, entre gemidos e rugidos. Um dos navios, talvez, colidindo com outro. Mal noto.
O abraço é breve, breve demais, mas suficiente. Eu me apoio nele, segurando pelo tempo que me atrevo, sentindo as linhas quentes e duras de seu corpo pressionado contra o meu. Cal cheira a fumaça, sangue e suor. Seus braços cruzam minhas costas, me segurando junto de seu peito.
— Estou cansado de coroas — ele murmura, o rosto encostado no topo da minha cabeça.
— Finalmente — sussurro.
Nos afastamos simultaneamente, voltando à realidade. Não temos tempo para mais nada, e definitivamente não consigo pensar em muito mais.
Ele ergue o rádio de novo, a mão ainda pousada no meu ombro.
— General, acredito que Volo Samos e alguns dos seus soldados ainda estejam no Comando de Guerra — ele diz. Através da névoa, avisto o prédio enorme no canto da praça. — É bom ficar de olho atrás de vocês.
— Entendido — ela responde. — Mais alguma coisa?
Farley já está em movimento, gritando ordens para seus tenentes enquanto repassa o conselho. Kilorn e Tyton a cercam como guardas.
— Estamos tentando bloquear o rio. Se os navios não puderem dar meia-volta…
— Não vão ter como escapar — completo, olhando para a destruição dos dois lados da cidade. Mísseis voam no alto, deixando rastros de fumaça como tinta preta no papel enquanto traçam sua rota e explodem.
Apesar dos soldados de Cal e dos jatos no alto, a armada de Lakeland não parece sofrer muitos estragos. Enquanto observo, Ella dispara outro raio de tempestade, mas uma onda se ergue com uma velocidade ofuscante, contendo a força do golpe para salvar um navio de batalha. Ela se ilumina com o brilho fantasmagórico da eletricidade antes de se apagar e cair inofensiva no rio. Deve ser obra da rainha Cenra, talvez com ajuda da filha. Nunca vi tamanha demonstração de poder, nem pessoas que se deliciam tanto com esse tipo de coisa.
Cal observa também, o rosto imóvel e carregado.
— Precisamos começar a afundar os navios, mas, com o rio, eles têm todos os escudos de que precisam. Tudo o que podemos fazer é minimizar os danos à cidade. — Ele pragueja quando outra saraivada de tiros vem. — Eles vão ficar sem munição em algum momento, certo?
Encaro os navios inimigos, passando os olhos por seus cascos de aço.
— Chame alguns teleportadores. Vamos colocar os oblívios de Lerolan e Evangeline num navio, para encher as embarcações de buracos.
— Evangeline foi embora.
— Mas você disse que Volo…
Cal parece estranhamente orgulhoso.
— Ela teve uma oportunidade e a aproveitou.
Uma oportunidade de fugir e deixar tudo isso para trás. Não preciso de muita imaginação para adivinhar para onde fugiu. Ou para quem. Assim como Cal, sinto um estranho misto de orgulho e surpresa.
— O trem — digo, quase sorrindo. Muito bem, não consigo deixar de pensar.
Ele arqueia a sobrancelha.
— Como assim?
— Nos túneis, vimos o trem de fuga de Maven passando. Devia ser ela. — Dói dizer o nome, e faço uma careta. Um gosto amargo enche minha boca. — Ele está aqui, aliás.
A temperatura ao nosso redor sobe alguns graus. Cal fica boquiaberto.
Maven?
Faço que sim. O calor sobe às minhas bochechas.
— Ele nos guiou até a cidade. Para irritar você.
Ainda balbuciando, Cal passa a mão no rosto.
— Bom, que pena que não posso agradecer — ele finalmente murmura, tentando sorrir. Não rio, sem conseguir fazer muito além de morder o lábio. — O que foi?
Não adianta mentir.
— Ele escapou.
Cal me encara. Outro míssil passa chispando.
— É um momento ruim para uma piada de muito mau gosto, Mare.
Hesito, baixando os olhos. Não é piada.
O bracelete em seu punho faísca, e ele produz uma bola de fogo. Furioso, surpreso, exasperado, Cal a lança por cima da beirada da ponte, deixando que queime a névoa até se apagar.
— Então ele está à solta na cidade — Cal vocifera. — Fantástico.
— Fique de olho em Kilorn e Farley. Vou encontrá-lo — digo rápido, colocando a mão em seu braço. As placas de aço que o cobrem parecem ter saído de um forno.
Cal me empurra gentilmente. Olha para trás, na direção da praça, rangendo os dentes.
— Não, eu vou.
Sempre fui mais rápida que ele. Me solto com facilidade, me colocando entre Cal e a praça. Apoio a palma da mão em seu peito e o seguro à distância de um braço.
— Você está ocupado agora — digo, apontando o queixo para a armada logo abaixo.
— Um pouco — ele admite.
— Posso terminar isso.
— Eu sei.
Sua armadura se aquece sob minha mão, e ele cobre meus dedos com os seus. Então a ponte se curva sob nós quando algo a acerta uma dezena de vezes, de todos os ângulos. De cima, de baixo. Mísseis, bombas. Uma onda quebra sobre os suportes, espirrando água até o andar em que estamos. Com o peso de sua armadura, Cal perde o equilíbrio, se estatelando no chão enquanto luto para ficar em pé.
Mas a própria ponte não está em pé.
Com seus três andares de pedra e aço, ela tomba em direção ao centro, se inclinando para baixo. Não é difícil adivinhar o motivo. Outra explosão vem, e uma rajada de escombros despenca, caindo junto com os suportes centrais da ponte.
Cal se arrasta com dificuldade, tentando levantar. Eu o seguro. Puxaria se pudesse, mas a armadura dele é pesada demais.
— Socorro! — grito, procurando os guardas.
Os soldados Lerolan não perdem tempo em puxar Cal e colocá-lo em pé. A ponte luta contra nós, caindo mais e mais rápido, bradando contra a própria morte.
Grito quando o pavimento cede sob meus pés, colidindo com o andar inferior, dez metros abaixo. Caio de lado com tudo e algo se quebra nas minhas costelas, espalhando teias de dor pelo meu corpo. Silvando, tento rolar no chão e me orientar. Saia da ponte, saia da ponte.
Cal já está de joelhos, com a mão estendida. Não para me segurar.
Para me deter.
— Não se mexa! — ele grita, com os dedos abertos.
Paro no meio do passo, apertando a caixa torácica.
Seus olhos se arregalam abruptamente, assustados, suas pupilas dilatadas e escuras.
Em vez da armada, nos bombardeando com suas armas, só consigo ouvir uma coisa. Como um sussurro, mas pior.
A ponte rachando. Desmoronando.
— Cal…
Tudo desaba sob nós.

3 comentários:

  1. Putz, o que vai acontecer em seguida? Ansiosa pelo próximo capitulo.

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  2. "— Estou cansado de coroas — ele murmura, o rosto encostado no topo da minha cabeça.
    — Finalmente — sussurro."

    Desculpa, pera *seca as lágrimas*
    O quanto isso resumiu a evolução de um personagem, que nasceu para liderar e então compreendeu a mudança que tudo estava tomando.
    Como eu amo esses dois <3

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  3. To muito orgulhosa do Cal e da Evangeline, tomaram as rédeas da própria vida (Finalmente) e foram atras da felicidade, saíram da prisão de suas coroas e correram pra liberdade <3
    ~Diane

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Boa leitura, E SEM SPOILER!