2 de junho de 2018

Capítulo trinta e sete

Mare

O QUARTO É UM TÚMULO. Uma boca de pedra que vai me engolir inteira. Me sinto inerte já no batente, hesitando em sucumbir por completo a esse lugar e à pessoa que o construiu.
Meu coração bate tão alto que sei que Maven consegue ouvi-lo.
Seus olhos me perpassam de uma maneira que conheço bem demais, perto demais, apesar dos metros entre nós. Ele se concentra na minha garganta, na veia pulsando com todo o meu medo. Tenho a impressão de que vai lamber os beiços.
Minha mão se flexiona em vão, tentando invocar um raio. Tudo o que consigo produzir são faíscas fracas, roxo-escuras, se apagando rápido contra a força de tanta Pedra Silenciosa.
Algo cintila na mão dele, brilhando sob a luz fraca. Uma faca, acho, pequena e fina, mas afiada.
Levo a mão ao quadril, em busca da pistola que Tyton insistiu para eu trazer. Mas nem o coldre está ali, provavelmente perdido no desabamento da ponte.
Engulo em seco de novo. Não tenho armas.
E Maven sabe disso.
Ele sorri, os dentes brancos e perversos.
— Não vai tentar me impedir? — diz, inclinando a cabeça como um cachorrinho curioso.
Minha boca está seca e minha voz sai rouca.
— Não me obrigue a fazer isso, Maven.
Maven dá de ombros. Consegue fazer sua roupa cinza simples parecer seda e peles e aço. Não é mais um rei, mas parece que ninguém o avisou disso.
— Não estou obrigando você a nada — ele diz, imperioso. — Você não precisa sofrer assim. Pode ficar aí ou ir embora. Não faz diferença para mim.
Me forço a respirar, mais fundo do que antes. A velha lembrança da Pedra Silenciosa sobe rasgando pela minha espinha.
— Não me faça matar você assim — rosno, com a voz perigosa e letal.
— Assim como? Me encarando? — ele retruca, seco. — Estou apavorado.
É uma coragem falsa, uma indiferença fingida. Conheço Maven bem demais para enxergar a verdade em suas palavras, o medo real trespassando sua arrogância treinada. Seus olhos se movem mais rápido do que antes, não para meu rosto, mas para meus pés. Para que possa se mover quando eu me mover. Fugir quando eu atacar.
A adaga é sua única arma.
Não estremeço quando dou o primeiro passo lento, entrando na prisão de Pedra Silenciosa.
— E deveria estar.
Maven cambaleia para trás, surpreso, quase tropeçando nos próprios pés. Ele se recupera rápido, a adaga firme em sua mão conforme sigo em frente. O rei caído acompanha meus movimentos, andando para trás. A dança letal é dolorosamente lenta. Não paramos de olhar um para o outro. Nem piscamos. Sinto como se estivesse andando em uma corda bamba sobre uma cova de lobos. Um movimento errado e caio em suas presas.
Ou talvez eu seja o lobo.
Vejo a mim mesma em seus olhos. E sua mãe. E Cal. Tudo o que fizemos para chegar até aqui, em meio ao fim do mundo. Contei e ouvi mentiras. Traí e fui traída. Magoei e fui magoada. Me pergunto o que Maven vê em meus olhos.
— Não vai acabar aqui — ele murmura, sua voz baixa e suave. Me faz lembrar de Julian e sua habilidade melodiosa. — Você pode arrastar meu cadáver por todo o mundo, mas não vai acabar com nada disso.
— Digo o mesmo — respondo, mostrando os dentes. Os centímetros diminuem entre nós, apesar dos esforços dele. Sou mais ágil. — A aurora vermelha não vai parar comigo.
Ele abre um sorriso perverso.
— Então parece que nós dois somos dispensáveis. Não importamos mais.
Solto uma risada. Nunca cheguei a importar como ele ainda importa.
— Estou acostumada com isso.
— Gostei do cabelo — Maven murmura, deixando as palavras preencherem o espaço. Seus olhos perpassam o emaranhado de roxo e castanho que cai sobre meu ombro. Não respondo.
A última cartada é óbvia, mas dói ainda assim. Não porque eu queira o que ele oferece, mas porque lembro de uma menina que teria aceitado. Mas ela já aprendeu a lição.
— Ainda podemos fugir. — Sua voz fica mais grave, e a oferta paira no ar. — Juntos.
Eu deveria rir da cara dele. Cravar a faca. Fazê-lo sofrer o máximo possível nestes últimos momentos que temos. Mas sinto um pedaço do meu coração se partir por alguém tão irremediavelmente perdido. Sinto uma tristeza real pelo irmão mais velho no meio de tudo isso, que tentou recuperá-lo e fracassou. Que não merece o que vai acontecer agora.
— Maven — suspiro, balançando a cabeça diante da sua cegueira. — A última pessoa que te amou não está nessa sala. Está lá fora. E você destruiu aquela relação.
Ele fica imóvel como um cadáver, o rosto branco. Nem seus olhos frios se movem. Quando dou mais um passo, chegando à distância de um braço, nem parece notar. Cerro o punho, me preparando.
Devagar, Maven pisca. E não vejo nada nele.
Maven Calore está vazio.
— Muito bem.
A adaga avança para minha garganta, cortando o ar com uma velocidade cruel e alucinante. Me inclino para trás, desviando do golpe automaticamente. Ele continua se aproximando, continua golpeando o ar, sem dizer nada. Meu corpo reage antes do meu cérebro, desviando de seus ataques por puro instinto. Sou mais ágil do que ele, e meus braços se movem em sintonia com seus movimentos, pegando seus punhos antes que consiga causar qualquer estrago com a peça minúscula e perversa de ferro afiado.
Não tenho nada além dos meus punhos e pés. Meu foco está em manter a adaga longe da pele, e mal consigo acertar um golpe. Giro, tentando derrubá-lo com um gancho de tornozelo, mas Maven escapa habilmente da minha tentativa. Meu primeiro erro, deixando minhas costas expostas. Me movo junto com ele, e uma punhalada na direção dos meus pulmões deixa um corte longo e superficial na minha barriga. Sangue vermelho e quente brota, enchendo o ar com um cheiro forte de cobre.
Quase acho que ele vai pedir desculpas. Maven nunca sentiu prazer de verdade na minha dor. Mas não demonstra piedade. Nem eu.
Ignorando a dor que se espalha, dou um soco forte na garganta dele. Maven arfa e tropeça, caindo sobre um joelho. Ataco de novo, chutando seu queixo. O impulso o faz cair de lado, os olhos arregalados e confusos enquanto cospe sangue prateado por toda parte. Se não fosse a adaga, eu usaria a oportunidade para colocar os braços em volta de seu pescoço e apertar até seu corpo ficar frio. Em vez disso, vou para cima dele, usando meu peso para mantê-lo imobilizado enquanto luto contra os dedos ainda agarrados ao cabo da adaga. Maven grunhe embaixo de mim, tentando me obrigar a soltar.
Tenho de usar os dentes.
O gosto de sangue prateado envenena minha boca quando mordo seus dedos, cortando a carne até o osso. Seus grunhidos viram gritos de dor. O som me trespassa, tornado pior pelo efeito da Pedra Silenciosa. Tudo dói mais do que deveria agora.
Sigo em frente e consigo soltar seus dedos, mordendo onde devo, até a adaga ser minha. Ela está molhada com seu sangue e o meu, prateado e vermelho, mais escura a cada segundo.
De repente, sua outra mão está na minha garganta, apertando desenfreadamente, tirando o ar da minha traqueia. Ele é mais pesado do que eu e usa essa vantagem para me jogar para trás. Um joelho aperta meu ombro, mantendo meu braço com a adaga imobilizado. O outro pressiona minha clavícula, logo abaixo da marca que ele me deu. Ela queima e dói com a pressão. Sinto o osso estalar com uma lentidão agonizante.
É minha vez de gritar.
— Eu tentei, Mare — ele sussurra, furioso, seu hálito frio banhando meu rosto.
Ainda sofrendo para respirar, engasgo. Minha visão escurece e se estreita, restando apenas seus olhos sobre mim. Azuis demais, congelados demais, inumanos em sua inexpressividade. Não são os olhos de um príncipe de fogo. Este não é Maven Calore. Aquele menino se foi, se perdeu. Quem quer que Maven fosse quando nasceu não será enterrado com ele.
Meu pescoço dói sob seus dedos, vasos sanguíneos estouram. Mal consigo pensar, minha mente focando na adaga ainda firme em meu punho. Tento erguer o braço, mas o peso de Maven torna isso impossível.
Lágrimas atingem meus olhos quando me dou conta de que é assim que termina. Sem raio, sem trovão. Vou morrer como uma menina vermelha, uma entre os milhares esmagados sob a coroa prateada.
A pegada de Maven na minha garganta nunca se afrouxa. Ele aperta mais, esmagando os músculos do meu pescoço até eu sentir que minha espinha pode se partir. O mundo se turva, as manchas na minha visão se espalham como putrefação negra.
Maven se inclina. De leve, muito de leve. Colocando mais pressão na minha clavícula quebrada. E menos no ombro.
O bastante para eu soltar meu braço.
Não penso. Apenas ataco por impulso, a lâmina pronta, enquanto seus olhos se apagam.
Eles parecem tristes e…
Satisfeitos.


Antes de abrir os olhos, sinto a língua pesada na boca. Uma coisa estranha em que focar, em meio a todo o resto. Tento engolir em seco, o que só piora a dor na garganta. Ela arde, furiosa, enquanto os músculos no meu pescoço gritam em protesto. Meu corpo fica tenso por causa da dor, meus braços e pernas se mexendo embaixo do cobertor da cama… de onde quer que eu esteja.
— Dê um segundo a Sara — ouço Kilorn dizer perto dos meus ouvidos. Ele cheira a suor e fumaça. — Tente não se mexer.
— Certo. — Minha voz sai rouca, e dizer essa palavra faz doer ainda mais do que antes.
Ele ri.
— E não fale. Ainda que seja difícil para você.
Normalmente eu bateria nele, ou diria que está fedendo. Sem ter como fazer isso, decido manter os olhos e os dentes cerrados para aguentar a dor. Sara dá a volta na cama, seu toque parando sobre o lado esquerdo do meu corpo. Ela põe suas mãos abençoadas no meu pescoço, e percebo que o corte na minha barriga deve ter sido curado, porque não o sinto mais.
A curandeira inclina minha cabeça de leve, me obrigando a erguer o queixo apesar da dor. Me contraio, silvando um pouco, e Kilorn segura meu punho para me firmar. A habilidade de cura de Sara logo mitiga meu incômodo, levando embora os hematomas e inchaços.
— Suas cordas vocais não estão tão ruins quanto eu imaginava. — Sara Skonos tem uma voz adorável, como um sino. Depois de tantos anos sem língua, há quem pense que compensaria pelo tempo perdido, mas ela quase não fala, e suas palavras são escolhidas com uma atenção cuidadosa. — Não vai ser difícil.
— Fique tranquila, Sara. Não precisa ter pressa — Kilorn murmura.
Olho feio para ele, que sorri.
As luzes no teto são fortes, mas não agressivas, bem diferentes da claridade fluorescente que se esperaria de uma enfermaria. Pisco, tentando me localizar. Surpresa, percebo que estou em um dos quartos do palácio. É por isso que a cama é tão macia e tudo parece silencioso.
Kilorn me deixa olhar em volta, me dando o espaço de que preciso. Me ajeito, virando o punho para segurar a mão dele.
— Então você ainda está vivo. — Minha garganta já dói menos, só sinto umas pontadas. Está longe de ser o bastante para me manter calada.
— Apesar de tudo — ele responde, me dando um aperto tranquilizador. Vejo que tentou lavar o rosto, deixando pontos de pele limpa cercados por terra e sangue. O resto dele está igualmente imundo, o que o faz destoar dos ornamentos refinados do quarto palaciano. — Na maior parte do tempo, só fiquei longe da encrenca.
— Finalmente — murmuro. Os dedos de Sara seguem seu caminho pelo meu pescoço, espalhando um calor relaxante. — Alguém enfiou um pouco de bom senso em você.
Ele ri.
— Já não era sem tempo.
O sorriso, sua tranquilidade e até a postura de seus ombros, sem peso ou tensão, só podem significar uma coisa.
— Então acho que vencemos — suspiro, surpresa demais até para compreender o que isso significa. Não faço ideia do que seria uma vitória de verdade.
— Não completamente. — Kilorn esfrega a mão na bochecha suja, espalhando lama nas partes limpas do rosto. Bobo, penso com carinho. — Os mersivos foram suficientes para afugentar a armada, mas Lakeland conseguiu voltar para o mar apesar de tudo. Acho que os figurões estão negociando um cessar-fogo agora.
Tento sentar, mas Sara me empurra de volta gentilmente.
— Mas não uma rendição? — pergunto, obrigada a observar Kilorn pelo canto do olho.
Ele dá de ombros.
— Pode ser. Ninguém me fala muita coisa — ele acrescenta, com uma piscadinha bem-humorada.
— Um cessar-fogo não é permanente. — Ranjo os dentes, pensando na possibilidade de Lakeland atacar daqui a um ano. — Não vão deixar que dure…
— Dá para ficar um pouquinho contente por estar viva, caramba? — Kilorn ri baixo, balançando a cabeça para mim. — Espero que pelo menos fique feliz em saber que tem uma campanha conjunta em curso para começar a reconstrução da cidade. Prateados e vermelhos. — Ele infla o peito, muito orgulhoso de sua notícia. — Cameron e o pai estão a caminho. Cal está discutindo a remuneração dos trabalhadores.
Remuneração dos trabalhadores. Pagamento justo. Um gesto simbólico, para dizer o mínimo. Mesmo que ele não seja mais rei, e que qualquer controle que tivesse sobre o país tenha ido embora. Duvido que Cal tenha muito poder de decisão no que acontece com o Tesouro, se é que tem algum. E, francamente, não estou ligando para isso agora.
Kilorn sabe. Ele evita entrar no assunto que me interessa, tenta me despistar.
Devagar, volto os olhos para Sara trabalhando. Seu cheiro é tão relaxante quanto seu toque, um aroma fresco de roupa de cama limpa. Seus olhos cinza como aço estão focados no meu pescoço, enquanto finaliza meu tratamento.
— Sara, temos uma contagem dos mortos e feridos? — pergunto baixo.
Kilorn se remexe incomodado na cadeira ao lado, tossindo de leve. Não deveria ficar surpreso com a pergunta.
Sara definitivamente não fica. Ela nem perde o ritmo.
— Não se preocupe com isso — diz.
— Está todo mundo vivo — Kilorn responde rápido. — Farley, Davidson. Cal.
Isso eu já imaginava. Ou ele não estaria sorrindo, e eu teria acordado em meio a um caos muito maior. Não, Kilorn sabe exatamente o que estou perguntando.
Sobre quem estou perguntando.
— Pronto — Sara diz, ignorando minha pergunta. Ela dá um sorriso com os lábios fechados enquanto se afasta da cabeceira. — É melhor descansar agora. Você precisa disso, Mare Barrow.
Faço que sim e a observo sair do quarto com um farfalhar de suas roupas prateadas. Ao contrário dos outros curandeiros de que me lembro, ela não usa uniforme. Provavelmente foi arruinado na batalha, enquanto cuidava de tantos mortos e moribundos. A porta se fecha suavemente atrás dela, deixando que Kilorn e eu enfrentemos sozinhos o silêncio pesado.
— Kilorn — murmuro finalmente, cutucando-o com os dedos hesitantes.
Ele olha para mim, com a expressão condoída enquanto sento apoiada nos travesseiros. Então volta os olhos para minhas costelas curadas, parecendo envergonhado. Ainda que o ferimento não esteja mais lá, sua expressão se agrava.
A voz dele também.
— Você estava se esvaindo em sangue quando te encontramos — Kilorn sussurra, como se aquilo fosse terrível demais para dizer em voz alta. — Não sabíamos se você… se Sara conseguiria… — Sua voz se perde, envolta por uma dor que conheço bem demais.
Também já vi Kilorn se esvair em sangue, quando ele quase perdeu a vida na Cidade Nova. Acho que retribuí o favor. Engolindo em seco, toco minhas costelas, incapaz de sentir qualquer coisa além da pele lisa sob as dobras da camisa nova. O corte devia ser pior do que eu imaginava. Mas isso não importa mais.
— E… Maven? — Mal consigo dizer o nome dele.
Kilorn me encara, sem mudar de expressão. Sem dar indícios de sua resposta por um momento agoniante. O suficiente para me fazer questionar qual é a resposta que procuro. Em que futuro desejo viver.
Quando ele baixa os olhos, focando nas minhas mãos, nos lençóis, em qualquer lugar que não meu rosto, entendo o que aconteceu. Um músculo se contorce em sua bochecha quando Kilorn cerra o maxilar.
Algo em mim relaxa, uma tensão finalmente liberada. Suspiro e me recosto, fechando os olhos enquanto uma tempestade de emoções passa por mim. Tudo o que consigo fazer é me segurar enquanto o mundo gira.
Maven está morto.
Vergonha e orgulho se engalfinham na mesma medida, assim como tristeza e alívio. Por um segundo, penso que vou vomitar. Mas a náusea passa e reabro os olhos para encontrar tudo no lugar.
Kilorn espera em silêncio. É estranho estar tão paciente. Ou teria sido, um ano atrás. Quando ele era apenas um pescador, mais um menino de Palafitas sem futuro além do que o amanhã guardava. Como eu.
— E o corpo?
— Não sei — Kilorn diz, e não vejo mentira nele. Não tem por que mentir sobre isso.
Assim como foi com Elara, preciso ver o cadáver. Confirmar que está tudo acabado. Mas o corpo de Maven me aterroriza mais do que o dela, por motivos óbvios. A morte é um espelho, e ao olhá-lo assim… tenho medo de me ver refletida nele. Ou, pior, de ver Maven como eu pensava que ele era.
— Cal sabe o que fiz? — Minha voz sai embargada, subitamente tomada de emoção. Levo uma mão à boca, tentando me acalmar. Me recuso a chorar por ele. Me recuso.
Kilorn apenas observa. Queria que ele me abraçasse, segurasse minha mão, ou até me trouxesse algo doce para colocar na boca. Em vez disso, ele se afasta e levanta. Me olha com tanta piedade que eu me retraio. Não espero que entenda, nem o quero.
Assim como Sara, ele vai até a porta, e me sinto subitamente abandonada.
— Kilorn… — chamo. Ele vira a maçaneta.
E outra pessoa entra no quarto.
Cal enche o cômodo de calor, como se alguém tivesse acabado de acender uma chama. Sua armadura vermelha reluzente se foi, substituída por roupas simples. As cores destoam, sem detalhes pretos ou escarlate. Porque essas não são mais suas cores. Kilorn sai, nos deixando a sós.
Antes que eu possa me perguntar se Cal ouviu minha pergunta, ele a responde.
— Você fez o que tinha de fazer. — Cal senta devagar na cadeira de Kilorn. Ele mantém certa distância, deixando os centímetros se estenderem entre nós como uma fenda enorme.
Não é difícil imaginar o motivo.
— Desculpa. — Meus olhos ficam úmidos antes que as lágrimas rolem. Matei o irmão dele. Tirei sua vida. Ele era um assassino, um torturador. Uma pessoa má, perversa, destruída. Teria me matado se eu não o tivesse impedido. Teria matado todo mundo que eu amo. Era um menino, transformado num monstro. Sem futuro nem esperança. — Cal, me desculpa.
Ele se inclina para a frente, pondo a mão sobre o lençol. Com o cuidado de continuar longe. A seda entre nossos dedos é macia e fria, uma longa estrada de bordado cinza-azulado. Cal encara o desenho no lençol, traçando o fio sem dizer nada. Resisto ao impulso de sentar e tocar a bochecha dele, fazê-lo olhar nos meus olhos e dizer o que quer.
Nós dois sabíamos que isso aconteceria. Sabíamos que Maven não tinha conserto. Mas isso não impede a dor. E a dele é muito mais profunda do que a minha.
— E agora? — Cal sussurra, como se para si mesmo.
Talvez estivéssemos errados. Talvez ele pudesse ter sido salvo de alguma forma. O pensamento me trespassa, e a primeira lágrima cai. Talvez eu não passe de uma assassina também.
Só uma coisa é certa: nunca vamos saber.
— E agora? — repito, virando o rosto.
Olho pela janela, para o céu marcado pela névoa e pela luz fraca das estrelas.
Os minutos se estendem e passam. Não falamos. Ninguém vem me ver, ninguém vem procurar Cal e levá-lo embora. Quase desejo que alguém o faça.
Até que seus dedos se movem, encostando nos meus. Tocando bem de leve.
Mas é o suficiente.

24 comentários:

  1. Vai ter continuação???

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    1. Esse é o último livro, mas em 2019, teremos contos que passarão no mundo da Mare "Tolona" Barrow, como foi prometido pela Victoria Aveyard.

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    2. Vai sair um conto, estilo A Canção da Rainha, só que mostrando o futuro

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  2. O capítulo mais HeartBreaker do livro </3 Acho que nunca senti tanta pena da Mare, quando ela começou a se desculpar. Ela nunca tinha se desculpado, se permitido sentir a culpa de matar alguém tão diretamente. E o Cal, que perdeu o irmão, apesar de tudo que tinha feito.

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    1. Fiquei com dó dos dois - mas adimito que fiquei ccom mais dó da Mare, tadinha da minha bixinha ��

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    2. Fiquei com dó dos dois - mas adimito que fiquei ccom mais dó da Mare, tadinha da minha bixinha 💔

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  3. Lágrimas insistem em brotar dos meus olhos, efeito colateral estar me despedindo de A Rainha Vermelha.

    Vamos ao epílogo!

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    1. 😢😢😢😢😢😢😢
      Vou chorar...

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  4. Lágrimas insistem em brotar dos meus olhos, efeito colateral de despedir-me de A Rainha Vermelha.

    Vamos ao epílogo!

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  5. Meu coração tá partido com a morte de Maven, precisamos de continuação 💔💔

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  6. Mano , sabia que uma hora ou outra ele iria morrer , mas não estava preparada e chorei sim

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  7. Pra um personagem de grande magnitude foi uma morte absurdamente tola, sem emoção, sem graça

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  8. Não consigo acreditar que Maven está morto... Eu já esperava, mas ainda não consigo acreditar... Eu ainda tinha esperança, só um pouquinho, mas ainda tinha esperança de que isso não fosse acontecer. Esperança de estar errada.... O que acontecerá agora? A série está acabando de forma muito abrupta, sem explicação... Não sabemos mais o que espere do futuro. Se devemos esperar um futuro... Essa série acabou comigo. Vou levar pá sempre eles Jô meu coração...
    Espero que voltem... Espero mesmo....
    Sei que não haverá mais Meven, mas... Ainda quero os outro de volta. Saber o que será de Evangeline, Ptolomeus, Elane, Wren... Como as coisas se desenrolarão com Mare, Cal, Kilorn, Cameron, Bree, Tramy, Gisa, Farley, Clara... E, até mesmo, Davidson e Carmadon, Anabel, Julyan e Iris, Cenra e Tiora...
    Vou sentir muitas saudades...

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  9. Minha cabeça diz: "Ele mereceu, era um sem coração coraçã, um monstro criado pela mãe"
    Meu coração responde:"Era o Mavey, um bb que ñ escolheu ser como era, que perdeu tudo por causa da mãe dele, que seria perfeito se ñ fosse pela maldita Elara"
    Devo confessar que meu coração esta ganhando e não consigo parar de chorar...😰😰

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  10. Engulo em seco de novo. Não tenho armas.

    E Maven sabe disso.

    Ele sorri, os dentes brancos e perversos.

    — Não vai tentar me impedir? — diz, inclinando a cabeça como um cachorrinho curioso.

    Ô vontade de socar a cara de Maven! Que ódio!

    "A última cartada é óbvia, mas dói ainda assim. Não porque eu queira o que ele oferece, mas porque lembro de uma menina que teria aceitado. Mas ela já aprendeu a lição."

    Ainda bem que "essa menina" já aprendeu a lição, depois de tantas traições até eu aprendi. ;–;

    "— Ainda podemos fugir. — Sua voz fica mais grave, e a oferta paira no ar. — Juntos.

    Eu deveria rir da cara dele."

    Não só deveria como tinha que ter feito!

    "Maven Calore está vazio."

    Sempre esteve! Esse infeliz. "Ignorando a dor que se espalha, dou um soco forte na garganta dele."

    Queria tanto fazer isso... Poxa. ;(

    "O gosto de sangue prateado envenena minha boca quando mordo seus dedos, cortando a carne até o osso. Seus grunhidos viram gritos de dor"

    MDS Mare virou cannibal KKKKKKK

    " Não penso. Apenas ataco por impulso, a lâmina pronta, enquanto seus olhos se apagam.

    Eles parecem tristes e…

    Satisfeitos."

    MDS MAVEN MORREU? FINALMENTE HEIN?!

    " — Suas cordas vocais não estão tão ruins quanto eu imaginava. — Sara Skonos tem uma voz adorável, como um sino."

    Que bom que ela voltou a falar, coitada passou os livros todos com a língua rancada e só pôde falar no último cap do último livro kkkkk que sad

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  11. Tadinha da Mare, fiquei com tanta dó dela 💔💔

    Tô de coração partido pois esse é o último capítulo - só tem o epílogo - que triste, não queria que tivesse acabado 💔💔💔💔

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  12. Gente a Mare é uma personagem n existe coitada de nós isso sim que esta chorando que nem uma disvalida (mds Maven n meu bb n) 😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭

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Boa leitura, E SEM SPOILER!