2 de junho de 2018

Capítulo trinta e seis

Maven

DEPOIS DE TANTOS DIAS EM CATIVEIRO, sufocado pela Pedra Silenciosa e separado dos meus braceletes, a rajada de fogo me sacia mais do que a água saciaria um homem sedento. Deixo que ela se erga dentro de mim, percorrendo meu corpo como um beijo, e exploda pela minha pele, poderosa e furiosa o bastante para derrubar aquele maldito eletricon. Ele cai de costas, e Mare também, no piso duro da Praça de César.
Saio correndo sem olhar para trás, disparando fogo atrás de mim, como uma barreira para proteger minha fuga. Mantenho outra rajada pronta, revirando-se sobre meu pulso, usando toda a minha energia para mantê-la acesa. Meus pés me conduzem através da praça, correndo como nunca. Não sou Cal, não sou particularmente rápido ou forte, mas o medo me mantém alerta e me dá coragem.
O caos em Archeon trabalha a meu favor. Sem mencionar meu conhecimento íntimo do palácio. Whitefire era meu lar, e não me esqueci dele.
A chegada repentina de centenas de soldados da Guarda Escarlate é mais do que suficiente para distrair as tropas de Cal, que ainda tentam se organizar contra o ataque de Lakeland. Mantenho a cabeça baixa, deixando o cabelo preto esconder meu rosto reconhecível demais.
Esses soldados eram meus. Ainda deveriam ser.
A voz na minha cabeça se transforma na dela.
Idiotas, todos eles, minha mãe zomba. Ainda consigo sentir suas mãos pairando sobre meus ombros, me mantendo ereto enquanto corro. Trocar você por aquele garoto frouxo. Ele vai ser o fim de uma dinastia. O fim de uma era.
Ela não está errada. Nunca esteve totalmente errada.
Se nosso pai pudesse ver você agora, Cal. Ver quem se tornou e o que fez com o reino dele.
De todos os meus muitos desejos e arrependimentos, esse é o mais profundo. Meu pai está morto, mas morreu amando Cal, confiando nele, acreditando em sua grandeza e perfeição. Me pergunto se deveria ter deixado as coisas seguirem seu curso. Se, de alguma forma, conseguiria tê-lo feito enxergar como seu filho perfeito era falho.
Mas minha mãe teve seus motivos. Ela sabia das coisas.
E esse é apenas mais um caminho não trilhado. Um futuro perdido, como Jon diria.
Outro míssil explode perto. De novo, uso isso a meu favor. Ele estoura à minha volta, inofensivo, me permitindo escapar através da nuvem de fumaça e fogo. Não posso voltar para os túneis da Casa do Tesouro, não com os ratos vermelhos à solta. Mas há outros caminhos para os trilhos, outras formas de sair de Archeon sem ser notado. As que conheço melhor ficam em Whitefire, e corro para o palácio o mais rápido que consigo.
Aquele maldito trem. Xingo quem quer que o tenha roubado, quem quer que seja a criatura covarde que está lá agora, sã e salva. Ao menos ainda posso caminhar pelos trilhos. Estou acostumado com a escuridão a essa altura. O que são mais alguns quilômetros?
Nada. Já senti a escuridão em todo o meu ser, insistente como uma mancha. Ela me segue por toda parte.
Mas aonde vou? Aonde posso ir?
Sou um rei caído, um assassino, um traidor. Um monstro para todos com olhos e um pouco de bom senso. Vão me matar em Lakeland, em Montfort, em meu próprio país. Eu mereço, penso enquanto corro. Deveria estar mil vezes morto, executado de centenas de maneiras diferentes, uma mais dolorosa que a outra.
Penso em Mare atrás de mim, caída no chão da praça. Levantando, pronta para me perseguir. Meu irmão também, liderando uma campanha corajosa para defender a cidade e seu trono usurpado. Rio com escárnio enquanto subo os degraus de Whitefire, correndo pelas pedras que conheço tão bem. A chama na minha mão quase se esvai, reduzindo-se a uma centelha antes que a faça voltar à vida, envolvendo minha mão.
O interior do palácio está tão vazio quanto a praça está cheia. Todos os nobres e cortesãos que não estão lá fora guerreando devem estar mais para dentro, barricados em seus aposentos, se não tiverem fugido. De todo modo, meus passos são o único som que ecoa enquanto atravesso o salão de entrada, percorrendo um caminho que conheço tão bem quanto as batidas do meu coração.
Mesmo sendo meio-dia, os corredores estão escuros e frios, com as janelas obscurecidas por névoa e fumaça. A eletricidade oscila em reação à batalha lá fora, as luzes acendendo e apagando em descargas ilógicas. Ótimo, penso. Com minhas roupas cinza, consigo me camuflar nas sombras de Whitefire. Eu fazia isso quando era pequeno, me escondendo nas alcovas ou atrás das cortinas. Espiando e escutando, não para minha mãe, mas por pura curiosidade.
Cal espiava comigo quando tinha tempo. Ou me dava cobertura, dizendo aos tutores que eu estava doente ou ocupado por algum outro motivo. É estranho que eu ainda lembre de tudo isso, mas que a emoção por trás, a relação que tínhamos, tenha desaparecido quase por completo. Rompida ou removida cirurgicamente pela minha mãe. E ninguém pode fazer com que volte a crescer.
Ainda que Cal tenha tentado. Ele procurou. Queria salvar você. O pensamento quase me faz vomitar, então o afasto.
As portas da sala do trono são mais pesadas do que eu imaginava. É engraçado pensar que nunca as abri. Sempre havia um guarda ou sentinela, normalmente um telec. Me sinto fraco ao empurrar uma com o ombro, abrindo-a apenas o suficiente para passar.
Meu trono não está mais aqui. A Pedra Silenciosa foi levada embora para só Cal sabe onde. O de nosso pai está de volta, as chamas esculpidas com cristais de diamante. Rio com desprezo da monstruosidade cintilante, um símbolo de nosso pai, de sua coroa e de tudo o que faltava a ele. Duas outras cadeiras cercam o trono, uma para Julian Jacos e outra para nossa avó. Pensar nos dois faz meus lábios se contorcerem. Sem eles, Cal nunca teria chegado tão longe. E aquela cobra da Iris nunca teria me entregado.
Espero que se afogue no rio, sufocada pela própria habilidade.
Não, melhor ainda: espero que queime. Não é essa a punição dos deuses dela, sofrer eternamente com o elemento oposto? Talvez Iris e Cal matem um ao outro.
Chegaram muito perto da última vez.
A esperança é a última que morre.
A pequena porta à esquerda do trono leva aos aposentos particulares do rei, que incluem um escritório, salas de reunião e a câmara do conselho. Quando entro no longo salão cercado por prateleiras, as luzes se apagam de novo, me mergulhando na penumbra. As janelas são altas e dão para um pátio cinza e vazio. Passo por elas rápido, contando: uma, duas, três…
Depois da quarta, paro e conto as prateleiras. Três para cima…
Felizmente, Cal não teve tempo de reorganizar os livros, ou teria descoberto o mecanismo inserido num volume de couro sobre as flutuações econômicas da última década. É só empurrá-lo de leve para que ative as engrenagens giratórias atrás da madeira envernizada. A estante toda se abre para a frente, revelando uma escada estreita construída dentro da parede exterior.
Usando minha chama ainda acesa para iluminar o caminho, desço, deixando que a estante volte ao seu lugar atrás de mim.
O ar está parado e úmido. Inspiro, descendo os degraus com cuidado. É uma antiga escada de criados, há muito fora de uso, que encontra outras passagens embaixo do palácio. Por ela, consigo chegar à Casa do Tesouro, ao Comando de Guerra, às cortes e a qualquer outro lugar importante na Praça de César. Meus ancestrais construíram essas passagens para serem usadas em caso de guerra e cerco.
Sou grato por terem sido prevenidos, assim como eu.
Os degraus terminam num corredor mais largo cercado por pedra áspera, o piso se inclinando suavemente. Eu o sigo devagar, me atrevendo a respirar um pouco mais fundo e devagar. Tem uma batalha acontecendo em cima de mim, mas faz tempo que sumi. As únicas pessoas que sabem sobre esses túneis estão ocupadas agora.
É possível que eu sobreviva a tudo isso.
Então algo cintila adiante, um reflexo distorcido e ondulante da minha chama.
Desacelero o passo, arrastando os pés para abafar o som. Mais uma respiração funda e sinto o cheiro de água.
Maldito povo de Lakeland.
O caminho à minha frente termina na água preta, a superfície refletindo minha mão flamejante. Quero socar uma parede. Em vez disso, xingo entre os dentes. Dou alguns passos à frente, até a água bater nos meus tornozelos, me arrepiando. Fica cada vez mais fundo. Furioso, volto chutando o chão de terra. Alguns torrões se soltam, mergulhando na enchente insondável. Contenho outro palavrão e me viro, correndo de volta pelo mesmo caminho.
Meu corpo arde de frustração, e o calor se espalha pelo meu rosto. Outra escada, outro túnel, digo a mim mesmo, sabendo exatamente aonde vai levar. Outra passagem inundada. Outra rota de fuga inútil.
As paredes parecem mais próximas de repente, se fechando. Aperto o passo, a chama na minha mão diminuindo quando começo a cambalear. Meus dedos encostam na pedra ao meu alcance, tocando a superfície irregular quando volto à escada. Estou quase correndo quando chego ao topo e saio para o ar fresco da câmara contígua.
Se não posso ir pelos túneis, vou ter que dar um jeito de pular os muros. Subir e descer de alguma forma, então seguir para oeste, evitando as favelas rio acima, os vastos territórios que cercam o campo em volta da capital. Vou ter que me disfarçar de alguma forma. Perco o controle sobre minha mente, paralisado pelo medo.
Preciso focar no que devo fazer agora — sair da cidade —, mas tudo se embaralha. Preciso de comida, de um mapa, de provisões. Todo passo acima do solo é um passo em direção ao perigo. Vão me perseguir e me matar. Mare e meu irmão, se conseguirem sobreviver.
Vasculho o escritório primeiro, procurando em vão qualquer coisa que possa ser útil. Braceletes em particular. Criadores de chamas. Cal deve guardar reservas em algum lugar, mas não há nada nas muitas gavetas e compartimentos da escrivaninha elegante que um dia já foi minha. Contemplo um abridor de cartas particularmente afiado por um momento, erguendo o objeto de metal semelhante a uma adaga sob a luz fraca. Com um movimento rápido, corto um retrato de meu pai. Mesmo mutilado, seu rosto ainda zomba de mim, os olhos ardendo na tela rasgada. Seguro o objeto com mais força enquanto dou as costas para o quadro, sem conseguir encarar o olhar de meu pai por muito tempo.
Os aposentos reais vêm em seguida. Chego num piscar de olhos, quase arrancando as portas com um chute. Paro de repente, perplexo. Em vez da suíte luxuosa digna do rei de Norta, encontro quartos vazios sem móveis, tinta, cortinas ou tapetes. Nada além de produtos de limpeza espalhados.
Cal não está dormindo aqui. Não enquanto traços meus permanecem neste lugar. Covarde.
Dessa vez realmente soco a parede, deixando os dedos doloridos e em carne viva.
Não tenho como saber qual é o quarto dele. As alas residenciais abrigam dezenas de cômodos, e não há tempo para procurar em todos. Vou precisar me contentar em roubar o que puder fora da cidade. Pederneira e aço geram faíscas tão bem quanto qualquer bracelete. Isso eu consigo arranjar. Só não sei como ainda.
Minha visão periférica se turva, com a névoa estranha que pulsa no ritmo do meu coração cada vez mais acelerado. Balanço a cabeça, tentando em vão fazer a sensação se dissipar. Uma dor surge no meu crânio, se cravando até os ossos.
Inspiro fundo, me obrigando a me acalmar. Assim como no túnel, as paredes parecem próximas demais, se fechando a cada segundo. Sinto que as janelas estão prestes a se estilhaçar em cima de mim, cortando minha carne em pedaços.
Tropeço na escada no caminho de volta para a sala do trono. Você não tem opção, Maven, minha mãe murmura quando entro. É tudo o que ela me diz. Nunca foi de aconselhar retirada ou rendição. Elara Merandus nunca foi de se entregar em vida, e incutiu o mesmo instinto em mim. A dor de cabeça se expande, perfurando meu crânio de forma aguda.
As luzes voltam a se acender, tão fortes que as lâmpadas zunem. A onda de eletricidade é forte demais.
Uma a uma, elas estouram, o vidro partido caindo pelo chão polido. Consigo desviar quando a que está bem em cima de mim explode.
Os filamentos continuam a queimar, brancos.
E roxos.
Estoica, calma e letal, Mare Barrow está parada à minha frente, sua silhueta visível na abertura estreita. Sem pestanejar, ela entra e fecha a porta atrás de si. Nos trancando. Juntos.
— Acabou, Maven — ela sussurra.
Corro para o outro lado do trono e entro em mais um conjunto de cômodos, esses normalmente reservados à rainha. Fiz minhas próprias modificações neles. Desagradáveis a qualquer um.
Mare é mais rápida do que eu, mas opta por um ritmo lânguido. Me assombrando. Me provocando. Pode me alcançar a qualquer segundo. Me eletrocutar mirando bem.
Ótimo, penso. Continue vindo, Barrow.
Sinto a pontada reveladora adiante. A dor vazia que assola todos os prateados e sanguenovos. Mais uma porta para abrir. Uma última chance de sobreviver quando tantos outros morreriam.
Não vou fracassar, mãe.
Sorrindo, me viro, deixando que ela me observe enquanto recuo para o fundo da câmara escura. A única janela é pequena, e uma luz fraca enche o espaço. Iluminando as paredes escuras, decoradas como um xadrez cinza e preto. As partes cinza têm um brilho embaçado, exibindo riscos de prata líquida. Sangue Arven, sangue silenciador.
Ela hesita no batente, sentindo a pressão da Pedra Silenciosa. Observo isso acabar com ela.
A cor se esvai de seu rosto, e Mare quase parece prateada sob a luz fria e cinzenta. Continuo andando para trás, mais e mais. Até a porta seguinte. A passagem seguinte. Minha chance.
Mare não me impede.
Engole em seco o medo que se apodera dela. Fui eu quem abri essa ferida. Coloquei algemas nela, tirei sua habilidade, obriguei-a a viver como um fantasma atormentado. Se Mare der um passo à frente, não vai ter nenhuma arma. Nenhum escudo. Nenhuma garantia.
O abridor de cartas na minha mão de repente parece pesado.
Eu poderia deixá-lo cair. Abandonar a lâmina e fugir.
Poderia deixá-la viver.
Ou poderia matá-la.
A escolha é fácil. E tão difícil.
Me mantenho firme.
Aperto o ferro com força.

6 comentários:

  1. mds... eu ainda n entendi se ele se matou , ou matou a mare...todas as duas opçoes me parecem horriveis

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  2. Espero que se afogue no rio, sufocada pela própria habilidade.
    Não, melhor ainda: espero que queime. Não é essa a punição dos deuses dela, sofrer eternamente com o elemento oposto? Talvez Iris e Cal matem um ao outro.
    Chegaram muito perto da última vez.
    A esperança é a última que morre.

    Esse Maven é uma praga – como é que pode eu ainda ter uma relação de amor e ódio por esse personagem? MDS

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  3. ELE SE MATOUUUUUU?????????????

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  4. Oh tadinho! Ao mesmo tempo bem feito ☹️

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Boa leitura, E SEM SPOILER!