2 de junho de 2018

Capítulo trinta e quatro

Cal

CAIO COMO UMA PEDRA.
A armadura inútil e arrogante que nunca fez nada além de me deixar mais lento não vai me proteger de uma queda de trinta metros nas águas furiosas. Ela não pode me salvar, e eu não posso salvar Mare. Minhas mãos tateiam inutilmente, procurando qualquer coisa em que me segurar, mas a névoa só silva pelos meus dedos. Não consigo nem gritar.
Escombros tombam conosco, e me preparo para o impacto com o concreto sólido. Talvez me esmague antes que eu me afogue. Seria uma pequena misericórdia.
Procuro por ela enquanto o rio sobe para me encontrar.
Alguém me segura pela barriga, braços me apertando com tanta força que o ar escapa dos meus pulmões. Minha visão escurece. Talvez eu esteja desmaiando.
Ou não.
Grito enquanto o rio e a névoa e a ponte em ruínas desaparecem, tragados pela escuridão. Meu corpo todo se contrai, tenso. Quando acerto algo sólido, acho que meus ossos vão virar pó.
Mas nada se quebra.
— Eu não sabia que reis gritavam desse jeito.
Meus olhos se abrem e encontro Kilorn Warren em cima de mim, com um sorriso simpático no rosto pálido. Ele me oferece a mão e a aceito, agradecido, deixando que me levante.
A teleportadora de Montfort fica olhando enquanto arfa levemente em seu uniforme verde. É quase tão baixa quanto Mare, e me cumprimenta com um aceno breve.
— Obrigado — engasgo, ainda tentando entender como sobrevivi.
Ela dá de ombros.
— Estava apenas seguindo ordens, senhor.
— Será que algum dia vamos nos acostumar com isso? — Mare diz a alguns metros de distância, ainda de joelhos. Ela cospe um pouco, o rosto esverdeado.
A oficial Arezzo, que teleportou Mare, olha para ela com um sorriso sarcástico.
— Preferia a alternativa?
Mare só revira os olhos. Então olha para mim e estende a mão, pedindo ajuda. Pego-a de um lado, Kilorn a pega do outro e a levantamos. Ela limpa a terra do uniforme, da cor vermelho-sangue da Guarda Escarlate, ao menos para se ocupar.
Está tão atordoada quanto eu, embora deteste demonstrar. Acho que ninguém se acostuma a ser tirado das garras da morte, por mais vezes que aconteça.
— Quantos caíram? — Mare pergunta, ainda sem erguer os olhos.
Mordo o lábio e olho ao redor, avistando alguns guardas Lerolan que se recuperam ao nosso lado. Havia centenas de soldados em cima da ponte, mais ainda embaixo dela, e os teleportadores têm seus limites. Meu estômago revira diante do significado disso. Rangendo os dentes, me oriento e percebo que estamos de volta à ponta da praça, junto às tropas de Farley, que agora fortificam o penhasco rapidamente. À frente delas, sobrou apenas o esqueleto da ponte de Archeon, desmoronada no centro, com o rio fervilhando embaixo. Um dos navios de Lakeland está preso, afundando sob o peso de um dos suportes da ponte, que caiu como uma árvore em uma tempestade, esmagando o casco de aço. Pesado demais, até para as rainhas de Lakeland.
Por causa da névoa, não consigo ver a margem oposta da ponte, e só me resta torcer que a maior parte das minhas forças tenha conseguido chegar ao outro lado. Não tínhamos um grande exército, mas qualquer vida perdida é mais um peso sobre meus ombros. Sinto como se o fardo já fosse esmagador, ainda que a batalha esteja longe de acabar.
Mare se coloca ao meu lado, olhando para a outra margem como eu. Seus dedos se entrelaçam aos meus por um segundo antes de ela os afastar, relutante.
— Preciso ir atrás dele — ela sussurra.
Por mais que queira ajudá-la nessa missão, não posso. Teria que deixar minha avó no comando, ou Julian. Nenhum dos dois está preparado para defender Archeon, muito menos para trabalhar em conjunto com Diane Farley.
— Vai — digo a Mare. Coloco as mãos em suas costas e, com um forte suspiro, dou um leve empurrãozinho nela. Encontre meu irmão. E o mate. — Acabe com isso.
Era eu que deveria fazer isso. Deveria ter coragem para tanto.
Mas não consigo. Não aguento o peso de matá-lo. Não Mavey.
Ela parte, acompanhada por Kilorn. Fecho os olhos e inspiro longa e tremulamente.
Quantas vezes tenho que dizer adeus a ele?
Quantas vezes já o perdi?
— O rio! — alguém berra.
Abro os olhos de repente, deixando meus instintos assumirem. Treinei durante anos para ser um guerreiro e um general, para ver a batalha bem diante dos meus olhos e a quilômetros de distância. Imediatamente, tento imaginar a cidade na minha cabeça, dividida ao meio pelo rio Capital, agora estrangulado pela armada de Lakeland. Estamos do outro lado de Archeon, isolados, contando apenas com teleportadores para chegar ao outro lado. Quantos deles, não sei. Definitivamente não o bastante caso os soldados de Lakeland decidam voltar sua atenção para os penhascos e as pessoas aqui em cima.
Farley continua em seu ponto alto, com uma arma poderosa no ombro. Ela olha para baixo com os binóculos. Parece uma estátua, sua silhueta demarcada pela névoa e pela fumaça.
— Ainda está enchendo? — pergunto, me aproximando dela para olhar melhor.
Farley me passa os binóculos, mantendo o olhar fixo no mesmo ponto.
— E rápido. Olha lá embaixo — ela acrescenta, apontando para o sul com o polegar.
Não é difícil ver a que se refere. Espumas se aproximam, as ondas quebrando cortantes, enquanto Lakeland puxa mais e mais água do oceano. O rio cresce em um ritmo constante, solidificando-se numa barreira de água como uma única onda contínua de seis metros de altura. Eu poderia apostar que o rio subiu pelo menos dez metros até agora, e está prestes a subir muito mais.
Apesar das fortificações da Guarda Escarlate, os penhascos sofrem estragos, pedaços de rocha caindo conforme mais uma salva de mísseis os atinge em cheio. Desvio, erguendo o braço para bloquear os destroços. Farley apenas vira a cabeça.
— Julian e Sara Skonos estão dirigindo a enfermaria no quartel. É melhor avisar os mensageiros — instruo, observando soldados se afastarem dos penhascos, os rostos ensanguentados.
— E Anabel? — ela pergunta, se esforçando para manter a voz neutra.
— No Comando de Guerra.
— Com Samos?
Hesito, pensando no que Evangeline me contou antes da coroação. Que Julian e Anabel estavam conspirando para matá-lo. Para tirar Rift da equação. E talvez nos comprar um pouco de paz com o cadáver dele. Se esse for o preço, não vou impedir.
— Talvez — é tudo o que consigo dizer antes de mudar de assunto. — Qual é o seu plano? — Diana Farley nunca foi de atacar sem algum tipo de ideia, talvez até uma carta na manga. Muito menos tendo alguém como Davidson a apoiando, sem mencionar toda a Guarda Escarlate. — Vocês têm um, certo?
— Talvez — ela responde. — E você?
— Estamos tentando bloquear a armada, talvez encurralar Lakeland para forçar um cessar-fogo, mas as rainhas ninfoides são invencíveis na água.
— Será? — Farley estreita os olhos para mim. — Acho que Iris deu um belo susto em você em Harbor Bay.
Tento não pensar nisso. No peso esmagador da água me puxando mais rápido do que eu achava possível.
— Pode ser.
— Bom, nesse caso, vamos retribuir o favor.
— Certo. Vou levar alguns oblívios e teleportadores para ver se conseguimos…
Para minha surpresa, ela faz que não. Coro, espantado com a negativa.
— Não é preciso — Farley diz, tirando os olhos de mim. Ela ergue o rádio e gira o botão para pegar outro canal. — Primeiro-ministro, como está a situação do seu lado?
Ouço ecos de disparos do outro lado da linha quando Davidson responde.
— Aguentando firme por enquanto. Alguns soldados de Piedmont tentaram escalar os penhascos, mas não esperavam nos encontrar. Nós os mandamos de volta.
Imagino os soldados de Piedmont, de roxo e dourado, caindo da margem. Despedaçados pelas tropas sanguenovas.
— E do seu lado, general? — Davidson devolve.
Farley sorri.
— Estou com o Calore mais racional aqui comigo, enquanto Barrow vai atrás do outro.
— Primeiro-ministro — digo no rádio —, tenho algumas centenas dos meus prateados ao longo das ruínas da ponte e ainda lutando lá embaixo nos navios. Pode dar cobertura a eles?
— Posso fazer melhor que isso. Vou mandar meus teleportadores para lá agora mesmo para tirá-los da água — ele responde.
— Os meus também — Farley continua. — Peguem o máximo que conseguirem antes que a situação realmente saia de controle.
Olho para ela, com a testa franzida.
— Mais uma onda de navios?
Seu sorriso se abre.
— Algo do tipo.
— Agora não é o momento para surpresas.
— Parece que você esqueceu do que somos capazes. — Ela ri baixo. É estranho, vê-la rindo com a guerra e a destruição como pano de fundo. — Tínhamos de esperar até a água estar alta o bastante. Para a nossa sorte, aquelas rainhas ninfoides tiveram o maior prazer em fazer a parte delas.
Olho para a água novamente, para a onda que agora quebra contra os navios, erguendo os cascos até estarem na altura dos penhascos mais baixos. Mais algumas ondas e vamos estar cara a cara com eles, com todos os mísseis e bombas apontados para nós. Não entendo como pode ser uma posição desejável.
Farley parece achar graça na minha confusão.
— Fico feliz que tenha decidido ver as coisas do nosso jeito, Cal.
— Do jeito certo — respondo. — Do jeito como deveria ser.
Seu sorriso se fecha, mas não de desagrado. Surpresa, talvez. Pela primeira vez, seu toque é gentil, movido por compaixão. Ela encosta em meu ombro.
— Chega de reis, Calore.
— Chega de reis — repito.
Em vez de Farley, dos mísseis, dos navios, da água, do grito dos soldados feridos, é a voz da minha mãe que ouço. A voz que penso que ela tinha.
Cal não será como os que vieram antes dele.
Ela queria determinado caminho para mim, assim como meu pai. Queria que eu fosse diferente, mas ainda queria que eu fosse rei.
Espero que minha escolha fosse deixá-la orgulhosa.
— Por falar em reis — Farley murmura, e sua atitude muda num instante. Ela se empertiga e aponta para um vulto cruzando a praça. — Aquele é…
A capa preta sacode na névoa, revelando os membros cobertos pela armadura espelhada e perfeita. Seus passos são seguros e rápidos enquanto atravessa a multidão, os soldados abrindo caminho para deixá-lo passar. Sem diminuir o ritmo, ele sobe na ponte em ruínas.
— Volo Samos — sussurro, entre os dentes. O que quer que esteja prestes a fazer não vai acabar bem para nós.
Ele não diminui o passo, mesmo quando a ponte sob seus pés se torna mais e mais precária. Os navios, subindo a maré criada à força, estão quase diretamente embaixo dele. E ainda assim Volo não para.
Nem mesmo na beirada.
Farley perde o ar quando ele se joga, seu corpo caindo lentamente, sua capa e sua armadura inconfundíveis na névoa.
Desvio os olhos, porque não posso vê-lo se quebrar no aço lá embaixo.
Do outro lado da praça, identifico minha avó, com a postura resoluta, o uniforme de batalha incandescendo em vermelho e laranja. Ela me encara entre a confusão de soldados.
Ao seu lado, Julian baixa a cabeça.
Acho que ele nunca tinha matado ninguém antes.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!